Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

“Espero não ser traída pela sorte”. Sara Moreira falha o Mundial e isto foi o que ela nos disse antes da lesão

O azar voltou a bater à porta da atleta de 31 anos, campeã da Europa na meia-maratona, em 2016, que nos Jogos Olímpicos do Rio foi obrigada a desistir da maratona devido a uma fratura de stress

Alexandra Simões de Abreu

Dean Mouhtaropoulos

Partilhar

Uma entorse na tibiotársica direita com rotura do ligamento talofibular anterior. É esta a lesão que acabou com o sonho de Sara Moreira em disputar os 10.000m nos Mundiais de Atletismo, que começam sexta-feira e prolongam-se até 13 de agosto.
Após exames feitos na segunda-feira, o departamento médico da Federação Portuguesa de Atletismo determinou que a lesão não é recuperável até sábado, dia da prova dos 10.000 metros. Carla Salomé Rocha será assim a única representante portuguesa na prova dos 10.000 metros.

Numa entrevista concedida à Tribuna Expresso, antes desta lesão e que devia ser publicada na véspera da sua prova, em Londres, Sara Moreira confessou que sentia uma dívida para com os 10.000m, mas que não estava na sua melhor forma de sempre, devido às lesões que sofreu no Rio e em novembro passado.

A entrevista na íntegra:

Veio de uma paragem muito longa, depois da fratura de stress nos Jogos do Rio. De que forma é que isso afetou a sua preparação para o Mundial?
Eu tive a fractura de stress no Rio em agosto, estive parada até novembro, voltei a treinar nessa altura e lesionei-me novamente em dezembro com outra fractura de stress, noutro sítio e estive novamente parada, até fevereiro, altura em que retomei o treino e felizmente desde aí não tive, à excepção de uma rotura muscular em junho na Taça da Europa, mais nenhuma situação que me tivesse limitado tanto tempo o treino. Mas faltou muito trabalho de inverno, que é um trabalho muito importante, e que eu não fiz por estar lesionada. Por isso acabei por não conseguir recuperar na totalidade.

Foi essa fractura que a fez optar pelos 10.000 metros em vez da maratona?
Foi a única opção que tive. Para apostar na maratona num Campeonato do Mundo teria que ter feito mínimos até maio. Não tive tempo suficiente para preparar uma maratona e também seria um risco muito grande, mesmo que conseguisse fazer mínimos, fazer duas maratonas seguidas, ou seja, em abril/maio e depois novamente em agosto… Vinda de uma paragem tão longa, era um risco muito elevado por isso pusemos automaticamente a maratona de parte e concentrei-me nos 10.000m.

Ainda ponderou fazer os 5000m?
Os 5000m só equacionaria fazer na eventualidade de não conseguir os mínimos para os 10.000m, uma vez que há poucas provas de 10.000m e há mais de 5000m. Felizmente não foi preciso.

Pessoalmente qual é a distância que prefere?
Ainda é muito difícil para mim avaliar porque gosto de correr 10.000m há muitos anos. Tenho uma dívida com os 10.000m porque acho que ainda não consegui correr os 10.000m naquilo que realmente valho; na maratona não tenho essa dívida. Ou seja, todas as maratonas que fiz (com excepção da dos Jogos, por lesão), correram muito bem e em todas elas me senti bem. Mas é completamente diferente e não consigo comparar os 10.000m com a maratona, porque a maratona é uma prova muito específica. Tu sabes que estás a preparar aquela distância e tens que começar a prepará-la com muito tempo de antecedência. O treino leva muitos meses de preparação. Os 10 mil são diferentes, o facto de ser na pista, a preparação é mais curta e fazes mais corridas. Tenho saudades de correr maratonas.

Tem hipótese em Londres de pagar essa dívida ou ainda não se sente a 100%?
Londres vai ser muito especial para mim. Este ano quando comecei a treinar, quando retomei o treino, o meu primeiro pensamento foi: eu quero estar em Londres. Nunca pensei em grandes resultados porque durante muito tempo eu achava que não iria conseguir estar em Londres. Tive médicos que me disseram que tinha que ter muita calma e equacionar bem a corrida porque as lesões foram graves. Por isso o melhor de estar em Londres é... estar lá. Obviamente tenho responsabilidades pelos meus resultados passados e por tudo aquilo que já dei a Portugal. Tenho responsabilidades e preparei-me o melhor possível para chegar na melhor forma possível, atendendo ao tempo de paragem que tive e que pode não parecer nada, mas para nós significa muito.

Vai com que ambição?
Em condições normais seria lutar por um lugar nas oito primeiras. Lutar, não quer dizer que fosse conseguir mas pelo menos lutar e estar na frente da corrida. Neste momento não sei o que me espera porque depende muito da corrida em si, dos ritmos que forem impostos. Gostava muito de chegar num lugar das 10 primeiras, andar por ali num top 10 mundial era excelente na condição em que vou. Vou apontar para as 12/10 primeiras mas, como digo, é muito difícil para mim falar de Londres principalmente pela minha condição. Não é que eu não esteja em forma. Estou em forma para aquilo que consegui treinar. Mas não estou na minha melhor forma de sempre e portanto é difícil avaliar.

Não está receosa de ter outro azar?
Não. Estou optimista, estou confiante. Confiante no sentido de que sei que fiz o melhor que podia para lá estar, e estou muito contente e feliz por poder estar em mais um Campeonato do Mundo. Por isso, acima de tudo entrarei na pista feliz e quando estamos felizes as coisas correm bem.

O seu maior sonho continua a ser ganhar uma medalha olímpica?
Sim, é esse o sonho que vou continuar a perseguir. Não quer dizer que seja apontar as baterias todas para Tóquio, mas estou muito focada em Tóquio. Tenho uma certeza, há coisas que nós não controlamos. Tive a prova disso nos últimos Jogos. Eu estava na minha melhor forma de sempre, não tenho dúvidas nenhumas, a prova disso foi o título europeu a um mês dos Jogos, e depois disso eu ainda subi de forma. Com a lesão lá, a partir desse dia, percebi que há coisas que não controlamos, portanto vou continuar a fazer o meu trabalho e esperar não ser “traída” pela sorte.

É importante ter outra atleta portuguesa - Salomé Rocha - a correr os 10.000m?
É porque não nos sentimos tão sozinhas, sentimo-nos sempre mais “protegidas”, porque não somos as únicas do nosso país. Temos aqueles minutos com quem conversar e descontrair um bocadinho. É sempre bom estarmos acompanhados.

Tem algum tipo de superstição?
Há algumas coisas que gosto de fazer sempre igual, no entanto não considero que seja superstição. Por exemplo, corro sempre com o mesmo estilo de meia, em pista ou estrada. Tenho umas meias específicas para as competições e são aquelas. Os elásticos do cabelo também tenho algum cuidado e são sempre os mesmos, se não forem exatamente os mesmos, são da mesma cor. Mas se por alguma razão não tiver essas coisas não fico bloqueada, nem acho que vai correr mal por causa disso.

O seu filho já está a caminho dos quatro anos. Não está obviamente arrependida de ter feito uma paragem no atletismo para ser mãe.
Aliás, se há coisa que voltava a fazer, era ter um filho porque de facto foi a melhor medalha que eu recebi em toda a minha vida. E quero ter mais.

E a vida académica como está?
Entrei em Fisioterapia, concluí o 1º ano, passei para o 2º e, nesse ano, fiz mínimos para os Jogos Olímpicos de 2008 e desde essa altura que abdiquei da faculdade. Entretanto já tentei regressar, mas neste momento com o Tratado de Bolonha, o meu curso é um curso demasiado exigente em termos de carga horária e não consigo treinar ao nível que treino e estar na faculdade. E com um filho ainda complicou mais. É algo que quero muito fazer, concluir o curso de Fisioterapia porque é também uma paixão minha. Mas não sei quando e não é para já, pelo menos até aos Jogos e depois vamos pensar.

Quem são as principais candidatas ao pódio em Londres?
Naturalmente são sempre as africanas. Têm um nível elevadíssimo. Tenho estado a acompanhar os resultados e têm vindo a correr muito bem nas últimas competições, portanto creio que serão elas as candidatas, embora haja sempre que contar com algumas surpresas. Ou mesmo sem ser grandes surpresas, como é o caso das americanas. Ao longo dos últimos anos tem havido atletas americanas medalhadas no meio fundo e fundo. No último Campeonato do Mundo, em Pequim, foi precisamente uma americana que ficou em 3º. Por isso há que contar com elas.