Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Patrícia Mamona: "Já aconteceu entrar em paranoia por não ter bebido um café. Agora levo sempre um pacote de Portugal"

Os Mundiais de atletismo começam sexta-feira e a saltadora explica à Tribuna Expresso o que espera conseguir em Londres, cidade onde mora a família da atleta do Sporting

Alexandra Simões de Abreu

MARKO DJURICA/Reuters

Partilhar

Como correu a preparação para Londres?
Correu bem. Tenho estado acima dos 14m, o que já procurava há algum tempo. Não tenho tido lesões. Acho que vou estar num bom pico de forma.

Mudou muita coisa no treino desde os últimos Mundiais, em 2015, que não lhe correram bem porque se lesionou?
Passamos a investir muito na prevenção do problema que eu tive e que ainda não se descobriu exatamente o que é.

Mas que problema era esse?
Tenho um problema nas costas que os médicos não sabem explicar o que é. Fico com as costas bloqueadas e não consigo fazer praticamente nada, nem conduzir consigo. Não se descobriu a origem só que, agora, mal tenho os primeiros sintomas, faço logo muita fisioterapia para evitar ficar pior. A minha sensibilidade é maior e por isso a prevenção tem resultado.

Quais os objetivos para estes Mundiais?
Chegar à final. É algo que julgo ser possível depois de já ter estado nos Jogos Olímpicos. Neste momento em termos de ranking também estou entre as oito primeiras, por isso acho que é uma possibilidade muito verdadeira. Nunca fui a uma final de um Mundial, por isso esse é o grande objetivo. Na época, o objetivo é bater o recorde nacional.

Como é que o seu treinador, José Uva, tem procurado tirar-lhe a pressão de cima?
Ele não tira a pressão, porque nunca houve pressão. Traçamos o nosso caminho e esperamos que o trabalho que fazemos vai dar o seu resultado. Às vezes não sai, demora um bocadinho mais, mas o discurso é sempre o mesmo, é de apoio. Porque sabemos que trabalhamos bem, que demos tudo o que tínhamos para dar sempre e que não havia mais nada a melhorar naquele momento.

O facto dos Mundiais serem em Londres assusta-a por causa dos atentados terroristas?
Não. Eu vou muitas vezes a Londres porque a minha família vive lá. Além de que em eventos dessa dimensão a segurança é um bocadinho mais apertada. Não posso ir a pensar em atentados terroristas porque o meu trabalho é chegar e saltar muito. Tenho de estar focada nisso e esperar que a segurança faça o seu trabalho também.

Vai ser bom saltar com a família toda a ver?
Claro que sim. Eles também estiveram nos Jogos do Rio. Mas agora vai ser um momento de reconciliação porque não vejo os meus pais há mais de seis meses. As saudades já apertam muito.

Patrícia Mamona na cerimónia da entrega de medalhas do Campeonato Europeu de Atletismo de 2016, em Amesterdão, onde arrebatou o ouro

Patrícia Mamona na cerimónia da entrega de medalhas do Campeonato Europeu de Atletismo de 2016, em Amesterdão, onde arrebatou o ouro

KOEN VAN WEEL/ EPA

Aceitou participar no programa "Fama Show" com o objetivo de mostrar a vida dos desportistas. Porque sentiu essa necessidade?
O desporto português ainda é muito futebol e dá pouca importância aos outros desportos, cujos atletas trabalham tanto ou mais do que os futebolistas. Como desportistas que representam o país lá fora e que trabalham todos os dias também merecemos um bocadinho de tempo de antena e do apoio do público. No ano dos Jogos Olímpicos é tudo muito bonito, toda a gente quer medalhas mas ninguém fala do trabalho e do processo até chegar lá e quando as coisas correm mal somos os primeiros a levar. Foi uma forma de abrir um bocadinho a visão dos portugueses sobre os outros desportos e sobre o percurso até chegar aos Jogos. Em ano de Jogos toda a gente se preocupa connosco e quer entrevistas, mas depois quando acaba, parece que já não existimos e que só há futebol.

Sentiu-se secundarizada o ano passado quando foi campeã da Europa no mesmo dia em que Portugal ganhou o Europeu de futebol?
Nesse caso não, porque foi um dos melhores dias da minha vida, estava tão feliz. Foi um dia que começou muito bem logo pela manhã e que acabou muito bem com o título no futebol. Por acaso não senti nesse dia, mas acredito que se fosse noutro dia o impacto seria menor.

Então até beneficiou do futebol.
Penso que sim, porque as pessoas foram receber a seleção ao aeroporto e ficaram lá para nos receber também. Foi uma receção que nunca tinha tido na vida. Neste caso foi positivo.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio são o seu próximo grande objetivo?
Óbvio. Assim que acabei a prestação no Rio, pensei logo nos Jogos seguintes. Adorei a experiência no Rio e quero melhorar e fazer uma melhor performance em Tóquio.

Quem vão ser as grandes adversárias em Londres?
As mesmas do Rio. A colombiana Caterine Ibargüen Mena, a venezuelana Yulimar Rojas e a cazaque Olga Rypakova. Mas a competição este ano é muito aberta e quem tiver melhor naquele dia é que merece ganhar e é quem irá rir.

Ainda continua a usar as meias brancas?
Sim. Às vezes são azuis escuras, dependendo do equipamento que levo. Mas sim, as meias são a minha marca.

São uma espécie amuleto?
São mesmo uma proteção porque eu tenho um problema durante os apoios no triplo salto, eu raspo muitas vezes com os sapatos de bicos e as meias protegem-me bastante. Mas no último Europeu, mesmo com as meias, ainda consegui furar e ir ao tornozelo.

Tem algum tipo de superstição?
Não. Só preciso mesmo é de beber um bom café. Já aconteceu entrar em paranoia por não ter bebido um café, porque às vezes lá fora não têm ou só tem café americano. Mas agora levo sempre um pacote de Portugal.