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João Vieira: “Sou o treinador da minha mulher e ela é a minha treinadora. É claro que há picardias”

O marchador João Vieira vai competir nos 50 quilómetros marcha nos Mundiais de atletismo que arrancam na sexta-feira. Esta é mais uma entrevista Tribuna Expresso das várias feitas a atletas portugueses que vão competir em Londres

Alexandra Simões de Abreu

JOSEP LAGO

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Porque é que optou por fazer os 50km em Londres, em vez dos 20km?
Devido à idade que tenho as hipóteses são maiores nos 50 kms neste momento.

Como correu a preparação?
Fiz um estágio de três meses em altitude, depois regressei a Portugal, fiz uma competição de 5000 metros no campeonato de clubes e, logo de seguida, retomei os treinos para os 50km marcha.

Quais as expectativas para Londres?
Em primeiro lugar, acabar a prova, porque nunca finalizei uma prova de 50 quilómetros num grande campeonato.

Nos Jogos do Rio’2106 as coisas não lhe correram bem...
Estava com um problema de saúde e não pude completar a prova. Tive um problema respiratório dois dias antes da competição.

Começou a praticar atletismo quando?
Com oito anos comecei a fazer corridas e aos 11 entrei para o clube de Natação de Rio Maior. A partir daí foi fazer atletismo até agora.

Logo na marcha?
Não, a marcha comecei a fazer com 13 anos de idade. Como no distrito de Santarém não havia marchadores no género masculino, eu e o meu irmão gémeo experimentámos e começámos a fazer.

Gostou desde início?
Sim. Era uma coisa diferente, onde eu podia atingir melhores resultados.

Qual foi o resultado que o deixou mais feliz, aquele que ainda hoje guarda na memória como especial?
Neste momento há vários resultados importantes, mas, se calhar, a primeira medalha que conquistei num Campeonato da Europa foi o ponto mais alto. Foi em 2006, em Gotemburgo.

Uma medalha de bronze que repete.
Repito em 2010, mas essa foi alterada anos depois. Passou a prata por um controle positivo a outro atleta.

Mas o sabor já não é o mesmo pois não, tendo em conta que veio à posteriori?
No meu caso o gosto foi igual. Ficava com mais amargura se fosse uma medalha de ouro porque ouvir o hino nacional no pódio é outra coisa.

Quando é que faz a primeira prova de 50 kms?
Em 2004.

E foi uma diferença muito grande para os 20km?
Foi, porque era uma prova para a qual não estava bem preparado, mas bati logo o recorde nacional. Nunca foi da minha eleição predilecta.

A sua mulher, Vera Santos, também é marchadora. Como é que se tornou treinador dela?
Tivemos o mesmo treinador, o Jorge Miguel, durante muitos anos. Mas, em 2004, como ela não ficou apurada para ir aos Jogos de Atenas e como teve divergências com o treinador, passei a ser treinador dela. Ela também é minha treinadora.

Tem corrido bem? Não se chateiam por serem marido e mulher ou isso até ajuda?
De vez enquanto também temos chatices porque, como treinador, tenho que ser exigente. Às vezes há picardias.

Qual vai ser o seu maior inimigo em Londres?
Eu próprio. Tenho pouca experiência nos 50 quilómetros numa grande competição e sou um pouco teimoso.

Ryan Pierse

Quem vão ser os principais candidatos às medalhas em Londres?
Na marcha é muito difícil designar quem vão ser os líderes da prova dos 50 kms. Na falta dos atletas russos é muito difícil prever quem é que vai estar à frente. Eu poderia dizer o campeão olímpico, mas ele foi suspenso por doping há um mês, por isso é difícil. Tem havido vários casos destes.

Porque é que a marcha tem tantos casos destes?
Não sei. Mas nas outras disciplinas também acontece, há é outros meios para abafar esses casos.

Outras influências?
Sim, outras influências. A gente não ganha o dinheiro suficiente para poder abafar casos.

Na marcha quanto é que se ganha por prova?
Depende, se for uma de circuito mundial ganha-se quatro mil euros, mas há apenas três ou quatro provas num circuito mundial em que se ganha isso.

Esta já é a sua 10ª participação em mundiais.
É verdade, mas sempre em 20km. Esta vai ser a estreia em 50km.

Tem alguma estratégia já pensada para Londres?
Não. Neste momento a estratégia é chegar lá e fazer a competição no dia 13 de agosto às 7:55 da manhã e sair de lá com a cabeça erguida.

Qual é o seu maior sonho?
O meu maior sonho neste momento é terminar a minha carreira desportiva de consciência tranquila de que fiz o melhor possível.

Quando é que pensa que isso vai acontecer?
Tenho um projeto pelo menos até Tóquio 2020, por isso espero que consiga chegar até lá.

Em Tóquio terá 44 anos, não é muita idade para um marchador?
É. Poucos atletas chegaram a uns Jogos ou a um Campeonato do Mundo com essa idade. Só conheço um que fez isso, o Jesus Bragado, de Espanha, tinha 46 anos nos Jogos do Rio.

Esse é o seu grande desafio?
Sim, esse é o grande objetivo que tenho.