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Francisco Belo: “Eu detestava desporto. Não podiam pôr-me a correr que quase chorava”

Aos 26 anos, o atleta do Benfica vai participar pela primeira vez num Mundial de atletismo, no ano em que termina o curso de medicina. Francisco prepara-se agora para uma nova etapa: escolher a especialidade médica. No desporto, essa opção está feita há muito: é lançador do peso e do disco. E garante que é possível conciliar ambas as paixões

Alexandra Simões de Abreu

Francisco começa amanhã a sua participação no Mundial de Londres

Foto Marcos Borga

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Está no top 10 europeu. O que isso significa para si?
É curioso que até há pouco tempo 20,85m dava para bem mais do que o top 10. Estamos a entrar numa fase muito difícil do lançamento do peso em termos mundiais. Aliás em todos os lançamentos. Isto normalmente acontece. Vem uma geração muito boa, depois vem uma não tão boa, é um sobe e desce. Estamos a passar por uma fase de uma geração mesmo muito boa, com resultados impressionantes. Não estranharia que daqui a pouco tempo alguém batesse o recorde do mundo de lançamento de peso.

Isso dificulta a sua vida para o Mundial.
Obviamente. Temos atletas de topo a lançar muito. Viu-se neste último Europeu em que o Tsanko ficou em 4º a lançar 21m. Para quem for ver os resultados anteriores, um Europeu de pista coberta ter um 4º lugar com 21m é uma coisa ridícula, porque até há pouco tempo com 21m se calhar ficava-se em 1º.

Mas precisamente por estarmos a passar por uma fase tão boa, estar no top 10 é um ótimo sinal.
Sim, claro, também me dá algum mérito desportivo. Mas obviamente quero mais, vou continuar a lutar.

O lançamento de disco, para já, está fora de questão?
No lançamento do disco as marcas de qualificação são 65m e em Portugal ainda não temos grandes resultados. Sou agora o recordista nacional com 62m, mas a verdade é que esse resultado não tem grande impacto. Mas também continuo a lutar para um dia conseguir participar nas duas provas.

Então quais são os seus objetivos para este Mundial?
Gostaria muito de passar à final, esse é um objetivo. Estamos a passar por uma fase tão difícil que esse é um dos primeiros objetivos. Ou seja, o primeiro objetivo é chegar lá na melhor forma, o segundo é fazer a marca de qualificação, o terceiro é fazer a minha marca pessoal, o quarto é passar à final e o quinto objetivo é continuar em frente. Não há um único objetivo, há uma sequência de resultados.

O que pode influenciar para que seja um dia bom ou não?
Tudo. Não somos diferentes das outras pessoas e temos as mesmas sensações. Obviamente que essas sensações para nós têm mais impacto e significado e vão-se traduzir em consequências mais ou menos desagradáveis. Dormir bem é essencial, comer bem é essencial, não termos nenhum problema de saúde, não estarmos nervosos a ponto de ter distúrbios gastrointestinais, não termos chatices pessoais, ou ir com problemas por resolver... tudo influencia.

Quando entra em prova, o primeiro lançamento é fundamental para decidir o resto da prova?
Sim, penso que sim. Mas é assim com todos. Não quer dizer que se um lançamento no início corra mal não possamos dar a volta, mas é essencial que vamos para a prova com o espírito de dar o nosso melhor. Todos os lançamentos contam. Cada um demora pouco mais de um segundo, por isso não podemos deixar para amanhã ou daqui a 10 minutos, tem de ser agora. Obviamente o primeiro lançamento conta muito para nos motivar.

Tem alguma espécie de ritual ou superstição?
Já tive muitos. Mas todos nós como atletas passamos por esses momentos em que achamos que tomar um banho de água fria é bom, tomar um banho de água quente é bom, comer aquilo é bom, usar umas meias novas é bom, sei lá. Já passei por isso quase tudo. A verdade é que começamos a ver que isso não é assim tão importante e que são apenas superstições que não nos trazem nada. Temos é que sentir-nos bem. Neste momento não tenho nada, obviamente que faço o meu aquecimento, preparo as ligaduras nos dedos, no pulso, o vestir e pôr o dorsal, acabamos por ter um ritual, mas é por ser uma coisa que fazemos muitas vezes. Vamos duas horas antes da prova, uma hora antes estamos a aquecer e a pôr dorsal, meia hora antes estamos a entrar na câmara de chamada para ir aquecer com o peso, aquecemos meia hora e...

Qual é o instante em que sente mais nervoso miudinho?
Acho que é no primeiro lançamento, quando vamos realmente competir.

Entretanto terminou Medicina este ano.
Sim, falta só fazer tese de mestrado e apresentá-la, mas o curso em si já está feito. Os seis anos já estão. Agora falta o exame de acesso à especialidade que devo fazer no final do ano.

Já decidiu qual a especialidade que vai seguir?
Ainda não sei. Depende da nota que tirar no exame e daquilo que vir que é preciso, porque há especialidades que exigem mais tempo do que outras. Tenho de pensar muito. Tenho alguns conflitos porque há especialidades que gostava de seguir, mas que me vão exigir muito tempo e se calhar não vou ter tempo para viver. Gosto de levar uma coisa de cada vez, portanto, para já, não vou pensar nisso.

Tenciona fazer as duas coisas ao mesmo tempo, alta competição e a especialidade?
Sem dúvida. Sempre fiz. É possível. Quando fiz os 20,30m que foi uma das primeiras marcas este ano aqui no Jamor, nesse próprio dia fui competir também a Pombal, fiz duas competições num dia, e quando lá cheguei um treinador virou-se para mim e disse: "Tu tiraste um ano de estudo para te concentrares no desporto não foi?". E eu respondi: "Não, continuo na faculdade e este ano até foi ano de estágio exigiu mais tempo de permanência no hospital e não é uma coisa que se possa dar faltas e estudar em casa. Estou a fazer o 6º ano como qualquer pessoa faz". Ele ficou a olhar para mim com uma cara fascinada a pensar que com os meus resultados eu tinha tirado um ano só para o desporto. Não. Não temos de achar que é preciso parar os estudos para as coisas correrem bem. Já vi pessoas pararem de estudar só para treinar e às vezes as coisas até correm pior.

Gostou da experiência hospitalar?
Sim, muito. Onde estive mais tempo foi no Hospital de Santa Maria, foi lá que estudei, já lá estudo há oito anos, porque fiz o 2º e o 5º anos duas vezes. Já faço parte da mobília. Para o ano tenho o ano comum, e só no final do ano comum é que escolhemos a especialidade e só depois no outro ano, em 2019, é que estamos na especialidade que são mais quatro a seis anos. É um caminho.

Mas no futuro vê-se como médico ou como treinador?
Sem dúvida que vou ser médico.

Ser médico é um sonho de criança?
Passei por tantas coisas que quis ser. Lembro-me que houve uma altura em que dizia que ia ser arqueólogo, porque andava fascinado e queria desenterrar pirâmides [risos]. Quando acabei o 12º ano sabia que queria qualquer coisa ligada com pessoas, onde pudesse utilizar os meus pontos fortes que são as relações interpessoais, dar apoio, ajudar. Surgiu a oportunidade porque sempre fui um bom aluno, aliás, eu detestava desporto.

A sério?
Sim, não podiam pôr-me a correr que eu quase chorava. Detestava mesmo. Tirava 3 a educação física, no 7º ano, à rasca, quando podia baldar-me, baldava. O professor dizia que eu tinha de correr corta-mato para receber um valor a mais na nota e eu ia, mas chegava sempre em último e recebia aquela medalha de lata, de quem fica em último, e estava o pessoal a bater palmas e a gritar "eh, olha o gordinho". E eu só pensava, vais receber mais um valor [risos]. Detestava mesmo, só comecei a fazer desporto quando fui para o 10º ano, para aí com 14 anos.

Começou a fazer o quê e porquê?
Atletismo. Com 14 anos tinha 122kg e 1,92m. Era enorme.

Agora mede e pesa quanto?
Tenho 1,93m e peso 125kg. Cresci um centímetro, e um ano ou dois depois de começar a treinar perdi muito peso e fui até aos 98kg. Depois ganhei 20kg de massa muscular.

Mas conte lá como tudo começou.
Por causa desse meu físico na altura, a minha família chateava-me para fazer algum desporto, “tens de te mexer”, diziam. Sim, porque na altura não era massa muscular, era gordura mesmo. Era um gordo maciço. Entretanto, surgiu a hipótese de ir para o andebol porque tenho as mãos grandes. Todos me incentivaram. Uma semana ou duas antes de ir para o andebol um amigo dos meus pais, que era diretor técnico distrital, foi lá almoçar a casa. Os meus pais comentaram que eu ia começar a fazer andebol e ele diz, não senhor, ele vai mas é para o atletismo, para o lançamento de peso. Vai ficar com o David Santos que treina no Valongo. E acabei por ir ter com esse meu primeiro treinador, que foi cinco estrelas, sabia muito bem que não podia começar a fazer lançamentos sem preparar o meu corpo para isso. E pôs-me a perder peso.

E gostou?
Gostei, porque, no fundo, sempre fui uma pessoa muito ativa. Não fazia desporto mas estava metido em tudo o que era clubes. Estive no clube de geografia, no clube da rádio, no clube de jornalismo, tudo o que havia para fazer na escola eu fazia. Mas por outro lado sempre fui introvertido, talvez por causa da minha evolução enquanto criança. Tenho um irmão mais velho três anos mas é mais pequeno do que eu. Nunca tive muitos amigos, sempre me dei com pouca gente, era muito calado, gostava de falar com pessoas mais velhas porque achava que tinham mais maturidade do que as pessoas da minha idade, o que de facto continua a ser verdade nos dias de hoje. Por isso, ao início custou-me.

O que fazia?
Pôs-me a correr imenso, meia hora, e custou. Mas era gratificante porque estava a ver mudanças no meu corpo e naquela idade era importante ganhar um bocadinho mais de auto-estima. Depois comecei a conhecer algumas pessoas a ir a algumas provas e isso tudo ajudou. Os resultados foram aparecendo. Quando fui selecionado para ir a um estágio da seleção nacional e quando fui selecionado para ir aos mundiais de juniores, uma das minhas primeiras grandes competições, fui-me motivando.

Foi esse treinador, o David Santos, que lhe disse para levar o peso para casa e tratá-lo por tu?
E eu levei e dormi com ele [gargalhada]. Foi logo no 1º ou 2º anos. E houve outra coisa caricata. Esse meu treinador um dia diz-me “vais dar duas voltas à pista, na relva, com o peso”. O que ele queria dizer era para eu lançar o peso, ir a correr até ao peso, lançar. Mas o bom do Francisco Belo... disseram-lhe para dar uma volta à pista com o peso e foi o que fez. Cheguei com os braços todos doridos de estar a carregar o peso [gargalhada].

Começou logo a lançar disco e peso? Qual prefere?
Sempre fiz os dois e gosto de ambos. Têm muitas semelhanças, muitos pontos positivos que se ajudam mutuamente. O peso pesa mais, são 7,260kg, um disco pesa 2kg, mas por outro lado, o peso é mais bruto digamos assim, mas também tem-se uma sensação de gratificação mais rápida porque é uma coisa que cai mais perto. Enquanto o disco tem mais nuances, é preciso mais sensibilidade, é preciso analisar o vento, pôr o disco no sítio certo. No peso não, atira para a frente e quanto mais longe melhor.

É mais difícil o disco?
Não sei se é mais difícil. Eles ajudam-se mutuamente, porque como os dois são em rotação conseguimos treinar ambos com alguma facilidade, inclusive quando estamos um bocadinho desgastados psicologicamente com o lançamento do peso - porque cansa, chegar ao treino e estar meia hora ou uma hora a lançar peso desgasta muito emocionalmente, não é só fisicamente -, podemos mudar para o disco e podemos treinar as mesmas coisas ou muito semelhantes. E vice-versa. Por isso complementam-se muito bem.

Saiu de Castelo Branco e veio para Lisboa estudar.
Sim. Estive quatro ou cinco anos com o Herédio Costa do Sporting até mudar para o Vladimir Zinchenko.

O que o leva a mudar de treinador?
Foi uma decisão feita para melhor corresponder às minhas necessidades, não foi por situação nenhuma em especial. Mudei no meio do ano e nessa altura foi-me dada a hipótese de treinar com o Vladimir e continuar no Sporting. No ano a seguir houve aquelas chatices todas no Sporting, deixou de apoiar o atletismo, despediu imensas pessoas. A mim não me despediram mas ofereceram-me uma coisa tão ridícula, que se oferece aos miúdos, ainda por cima foi numa altura importante porque precisava de alguém que acreditasse e apostasse em mim. O Benfica também não precisava de mim, também não me quis apoiar e durante um ano fui para o Clube Desportivo de Castelo Branco. Apoiaram-me o máximo que podiam e só posso agradecer porque foi o suficiente para eu não desistir do atletismo. Nessa altura houve uma grande hipótese de o fazer.

Porquê?
Porque começava a pensar, “vais acabar de estudar e vais ser médico porque no desporto não estás a fazer nada, ninguém quer apostar em ti”. O Vladimir teve uma grande responsabilidade para eu não desistir. Disse-me para ter calma e paciência que as coisas acabariam por acontecer. E a verdade é que deixei essa má fase passar com a perspetiva de que ia correr tudo bem. Estava a fazer a transição de técnicas de lançamento, porque lançava retilíneo e passei a lançar em rotação. Obviamente isso também foi um choque muito grande. Foi dar um passo atrás para andar dois para a frente.

Essa mudança é normal ou estava a fazer as coisas mal?
Essa mudança às vezes acontece, podia ter mudado mais cedo, até tentei, mas como os resultados não são imediatos causou um problema. Até que ponto é que uma pessoa consegue aguentar maus resultados durante algum tempo? De facto temos um apoio desportivo muito mal organizado.

Sentiu falta de apoio psicológico nessa altura, é isso?
Psicológico e financeiro. De repente as pessoas deixam de acreditar. O desporto é assim. Estamos bem e as pessoas dizem que és o maior, estamos mal e as pessoa dizem que és uma merda. Até parece mal dizer com este palavrões mas é assim que acontece. Mas como estava a dizer, dei um passo a trás para depois dar dois à frente. Se formos ver os meus resultados em termos estatísticos, nesses dois anos eu desci completamente. A técnica de translação tem muitas limitações. Mas lutei para ser melhor. E consegui.

A família apoiou-o sempre ou houve alguma altura em que achou que devia dedicar-se aos estudos de vez?
Sim, houve uma altura em que mais valia concentrar-me nos estudos porque realmente era aquilo que é o meu futuro e o desporto é tão difícil, tão difícil, que não é qualquer pessoa que consegue singrar. Mesmo os que conseguem singrar no desporto não o fazem para sempre. Mais tarde ou mais cedo acaba. Por isso digo a toda a gente "tens de estudar" ou mesmo que não seja estudar temos de ter na cabeça qual o nosso futuro.

Uma espécie de plano B?
Nem é o plano B, é o plano A. O problema é esse. Qual é o teu plano? Vais ser atleta até aos 35/40 anos, o que em algumas disciplinas é muito difícil de acontecer?

Pensa ser atleta até quando?
Não sei. Sempre tentei equilibrar a minha vida. Enquanto vir que existe mais porque lutar e em que me sinta gratificado com o que faço e com ambição, vou continuar.

Enquanto atleta qual é o seu ponto forte?
Paciência [risos]. E enquanto pessoa também. Ter um equilíbrio. Quando as coisas correm mal, pensar que vão acabar por correr bem e quando correm bem, saber que também podem ou vão correr mal. Obviamente em termos de corpo também tenho coisas positivas. Sou muito explosivo, se calhar mais do que outros atletas, mas talvez tenha menos sensibilidade muscular que outros atletas.

Quem vão ser os maiores adversários em Londres?
Eu. Eu comigo. Costumo dizer que nós queremos ser melhores do que nós no futuro. E quando dizemos isso já estamos a tomar em consideração que o nosso futuro é sempre melhor do que somos agora. É um ciclo vicioso. Gosto dessa maneira de pensar, de termos de ser melhores do que nós próprios no futuro. Isso leva-nos a querer ser melhores todos os dias. O nosso adversário somos nós mesmos, quando nos derrotamos, quando nos deixamos ir abaixo.

Mas a nível desportivo quais são os atletas mais capacitados para lutar por medalhas?
Temos atletas a lançar mais de 22m, menos a lançar 22, mas a lançar 21 muitos. Existem tantos que é complicado. A verdade é que a técnica de rotação tem uma coisa muito boa e uma coisa muito má.

Explique.
A coisa má é que é menos constante do que a translação. Não é tão certa. Lançamos mas pode sair muito bem como muito mal. Mas quando sai muito bem, caramba, aquilo anda. Já vi atletas com 21m a fazer recorde pessoal de 22m. E subir de 21 para 22 é uma coisa impressionante. Mas é possível. E na rotação é possível. Lá está, não sei o que vai acontecer. Qualquer um com 21 muitos lá pode chegar num dia bom, com boa motivação, com o estádio todo a puxar.

A sua amizade com o Tsanko nasceu no grupo de treino. O que aprendeu com ele e ele consigo?
É curioso, porque temos corpos diferentes e maneiras de lançar completamente diferentes. Em termos de sensibilidade e de técnica ele tem muita capacidade para entender certos pormenores. Ele é capaz de dizer, "eu senti que é ali aquele pé que tem de estar mais dobrado", etc. E eu às vezes tenho pouca sensibilidade muscular, tenho mais explosividade, que ele não tem tanta. Para ele é bom eu treinar com ele porque se o fizesse sozinho certamente não ia explorar tanto o lançamento, nem exigir tanto dele. Quando estou a treinar se ele está perder, obviamente que ele tem de querer mais e procura mais e esforça-se mais, explode mais e reage mais rápido. As coisas acabam por funcionar bem para os dois. Esperemos que seja para continuar.