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“Gosto de beber um copo de vinho na véspera da prova, antes de dormir. Depois é estar confiante, não é olhar e pensar: 'Ah, está ali o Bolt”

David Silva, atleta do Benfica, vai correr nos 100 e nos 200 metros, nos Mundiais de atletismo, em Londres, depois de ter melhorado as marcas ao deixar o trabalho como 'personal trainer' num ginásio: “Para sermos bons temos de levar isto a sério”

Alexandra Simões de Abreu

David Silva é atleta do Benfica, depois de ter passado pelo Sporting

D.R.

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Vai estar presente nos 100 e 200m em Londres. Era este o grande objetivo da época?
Sim, o meu grande objetivo era qualificar-me nos 200m. As minhas marcas nos 100m até foram um bocado surpresa. O que me dá ainda mais confiança.

Houve uma grande evolução nas suas marcas nos últimos meses. Deve-se a quê?
Este ano resolvi apostar no atletismo e quando chegou a março parei de trabalhar como 'personal trainer' e foquei-me 100% no atletismo. Ainda faço às vezes trabalho de 'personal trainer', mas já não estou seis horas, como estava, num ginásio.

O facto de ter deixado de trabalhar tem a ver com a sua passagem para o Benfica?
Também. Quando negociei a minha ida para o Benfica quis garantir condições para o caso de parar de trabalhar, poder viver e pagar a renda. O Benfica conseguiu reunir condições para fazer isso. No clube têm sido super profissionais em tudo o que fazem comigo. Para sermos bons temos de levar isto a sério, por isso deixei de trabalhar, apesar de ser uma coisa de que gostava muito. Mas sou tão bom como acho que sou e não posso estar na prova a pensar que tenho trabalho no dia seguinte e tive de fazer essa opção. Para sermos os melhores temos que trabalhar como - e com - os melhores.

Um dos seus treinadores é Linford Christie. Ele já o tinha aconselhado a deixar de trabalhar para se focar apenas no atletismo?
O Linford não é um treinador que se mete muito na tua vida pessoal. Quando lhe disse que ia deixar de trabalhar, ele estava ficou preocupado para saber como é que eu ia pagar a renda e coisas assim. Disse-lhe que já tinha feito essas contas e que o dinheiro do Benfica quase dava para o mês. É claro que nestes últimos quatro meses perdi dinheiro todos os meses, mas foi uma aposta calculada da minha parte.

Participa em mais provas de atletismo para ganhar dinheiro e compensar a falta do rendimento como 'personal trainer'?
Podia ter uma época com mais dinheiro, com mais provas, mas fiz o oposto, fiz menos provas, porque fiz as provas que sabia que iam ser rápidas. Eu e o meu empresário Kola Adedoyin traçámos um plano. Há certas provas a que fui, como os campeonatos de Portugal, que fui em sobrecarga, porque ainda estava a fazer treinos difíceis, duros, mas fui para cumprir calendário. Depois fiz outras provas fora, com um nível que Portugal não pode garantir. A prova na Suíça foi de altíssimo nível, já sabia que iam ser provas rápidas porque os atletas tinham melhores tempos do que eu. Não podemos ficar na nossa zona de conforto. Este ano podia ficar confortável, escolher as provas para ganhar mais dinheiro, mas em vez disso tive de aceitar que não vou ter tanto dinheiro, mas quero correr rápido. O dinheiro trata-se depois. Como atletas não podemos fazer as coisas por dinheiro, para isso vamos jogar futebol.

Os Mundiais de atletismo começam esta sexta-feira, em Londres

Os Mundiais de atletismo começam esta sexta-feira, em Londres

ADRIAN DENNIS/GETTY

Foi viver para Inglaterra com seis anos porquê?
O meu pai veio acabar o mestrado dele e depois de cá estar três meses sozinho decidiu que queria a família com ele - e viemos.

A adaptação correu bem?
Foi fácil. No início andei despercebido na escola, depois fui aumentando a confiança, mudámos de casa, fui para outra escola, em Birmingham, foi uma integração muito natural, nada foi forçado.

Já terminou a faculdade?
Fiz Ciências de Saúde, Exercício e Desporto. Terminei em 2014.

Nessa altura já fazia atletismo.
Sim, já, mas essa foi a altura em que decidi sair de Birmingham e vir treinar com o Linford para Londres. Resolvi sair da minha zona de conforto, de viver com os meus pais e irmão para vir sozinho para Londres. Se queremos ser a melhor versão do que podemos ser temos que estar algum tempo na vida fora da nossa zona de conforto, porque é nesses momentos que somos testados e aprendemos muito. Para ser honesto, vir para Londres é que foi a grande adaptação.

Porquê?
Para dar um exemplo, um chocolate que em Birmingham custa 50 pences, em Londres é 70. O preço de vida é muito caro e acho que aprendi mais da vida do que aprendi do atletismo. E só foi agora no último ano que consegui entrar numa rotina em que já não tenho de pensar muito como vou pagar a minha renda. As coisas ficaram mais estáveis e por isso tomei a opção que tomei. Porque o ano passado eu estava em muito boa forma, mas fiz provas erradas, competi demais, comecei a ficar desesperado e a não ter muita confiança em mim e este ano quis fazer o oposto.

Foi um processo que fez sozinho ou teve aconselhamento do Linford ou de outro treinador?
Acaba por ser mais com o contacto com outros atletas que vais aprendendo. Porque eles já passaram por isso. Tenho atletas no meu grupo de treino que não são de Londres, houve um tempo em que vivi com os meus amigos, todos eles atletas, e através das conversas aprendi quais são as melhores áreas para viver, onde é mais barato, mais calmo. Temos que trabalhar as nossas circunstâncias e as pessoas que mais sabem o que é melhor são aquelas que estão a viver essas circunstâncias contigo.

Quais são objetivos para estes Mundiais?
Confirmar que estou em forma. Fiz 10,05 segundos nos 100m e 20,30s nos 200, e consistência é uma coisa que esquecemos muito no atletismo e na vida. Queremos ser melhores, queremos fortes, então temos que mostrar a nossa forma. Quero mostrar a minha forma, quero chegar e mostrar que o 10,05 s não foi só uma vez.

Mas esses tempos podem levá-lo até onde neste Mundial?
Não pensei muito nisso. Como pessoa gosto de levar as coisas dia a dia, passo a passo, por isso quando chegar lá, se passar à meia final, depois começo a pensar na meia final. E não vou pensar na final, até chegar à final.

A preparação foi diferente?
Um pouco. Não é uma coisa que tenha feito por isso confiei no processo. Há treinos que fiz nos últimos 10 dias que foram difíceis, outros que foram fáceis. Tenho que confiar no processo e, mais importante, o meu corpo tem que estar bem.

Tem algum ritual ou superstição?
Gosto beber um copo de vinho na noite antes da prova. Normalmente os atletas têm dificuldade em dormir na véspera, mas eu não. Tenho tudo organizado. Gosto de comer uma comida boa e beber um bom vinho tinto, depois chego à cama e durmo. É tudo automático. Acordo e já tenho tudo organizado. E na minha mente a prova já começou. Depois é estar confiante, estás lá para fazer a tua prova, não é para olhar para os outros e pensar: “ah, ali está o Bolt” ou “o Gay está ali”, não vale a pena. És David Lima e ninguém pode ser melhor do que o David Lima senão ele próprio.

Usain Bolt é o mais rápido do mundo

Usain Bolt é o mais rápido do mundo

YANN COATSALIOU/GETTY

Quem são os seus ídolos?
Não sou uma pessoa muito de ídolos, mas tenho muita sorte, sou um sortudo por ser treinado pelo Linford Christie e tenho muita sorte por ter estado no Sporting e partilhado uma equipa com o Francis Obikwelu. Os dois melhores velocistas europeus de sempre. Tive e tenho o prazer de chamar estas duas pessoas de meus amigos. Temos de dar ao Francis, os portugueses têm de dar ao Francis, todo o valor que ele merece, tal como dou ao Linford todo o valor que merece. São as duas pessoas na vida desportiva com quem nunca vou parar de aprender.

O Francis teve pena de o ver sair do Sporting para o Benfica?
O Francis percebe como o desporto é. Quando fiz as minhas opções tive de parar de pensar nas amizades e foi negócio. Procurei as melhor condições para mim mesmo. Foi o Benfica quem me deu essas condições. E nem é por dinheiro, são as condições mesmo, por exemplo ao nível clínico. Treino com o Ricardo Santos, falei com ele, vi como o Benfica o tratou quando ele esteve lesionado. Se quero ser profissional tenho de pensar como um profissional. A rivalidade de clubes a mim não diz nada e no fim do dia de um campeonato do mundo, como agora, toda a gente vai esquecer quem é do Benfica e quem é do Sporting, somos todos portugueses. Sou um atleta que quer progredir como atleta em qualquer clube em que estiver.

Vai continuar em Londres?
Enquanto correr bem [risos].

Não pensa vir para Portugal?
Gosto muito de Portugal. O Arnaldo Abrantes sempre que está comigo diz que sou mais português do que os portugueses. Quando estou em Portugal só quero comer francesinhas, bacalhau à brás, bitoque. Essas coisas que não consigo comer cá. Há coisas que os portugueses esquecem que têm de tão boas que são. Os legumes, por exemplo. Quando estou em Portugal sofro a pensar que quando voltar já não vou ter aquilo [risos]. Mas ninguém sabe as voltas que a vida dá. Até posso voltar para a Guiné, ninguém sabe. Guiné, Portugal, Cabo Verde, América... acho que posso estar bem em qualquer sítio porque como pessoa adapto-me muito bem.

Qual é o seu maior sonho na vida?
Na vida, deixar um legado. Criar uma história que possa inspirar pessoas. Quero ser uma pessoa que dá alegria aos outros. Às vezes estamos tão obcecados com coisas materiais que esquecemos um bom sorriso, num dia, ou dar uma boa gargalhada, aquilo que faz quem nós somos.

O seu maior sonho ao nível do atletismo?
Gostaria de ter um recorde nacional. Mas como o meu treinador diz, os recordes são feitos para ser batidos, as medalhas ficam para ti, para sempre. Trabalho para ter uma medalha. Entrei neste desporto e não tinha nenhum objetivo e entretanto já aconteceram muitas coisas. Quero continuar com essas mentalidade, se acontecer, aconteceu. Não é uma obsessão. Quero tentar ser tudo o que posso ser.

Como é que começou no atletismo, foi na escola?
Sim. Com 16 anos já tinha feito futebol, basquetebol, enfim, quase tudo, e houve uma oportunidade para ir treinar atletismo e fui para experimentar um desporto que não fosse em equipa. Gostei, mas só comecei a levar a sério com 17/18 anos, quando me apercebi que era bom.

Porquê os 200m?
Foi o mais natural. Entrei numa prova regional de 200m e ganhei a medalha de ouro. Em Inglaterra és logo convidado para fazer os nacionais, fui e fiquei em 4º lugar. E nessa altura foi do género: "Ah, gostava de ter uma medalha, vou treinar mais". É aí que começo a dedicar-me.

Como foi parar ao Linford Christie?
O meu treinador anterior Roger Walters, que esteve comigo desde 2010 a 2013, elevou-me a um outro patamar, mas infelizmente morreu de cancro. Estive um ano sozinho. Depois muitos treinadores aproximaram-se e propuseram trabalhar comigo, mas de repente surge a proposta do Linford, através de um amigo. Nem pensei duas vezes.