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Marta Pen: “Há milhões de pessoas no mundo a fazer atletismo e só 0,04% dessas pessoas ganham uma medalha”

Marta Pen vai competir nos 1500 metros, nos Mundiais de atletismo que arrancam esta sexta-feira, e é uma das atletas portuguesas mais novas presentes na prova. Esta é mais uma entrevista Tribuna Expresso das várias feitas aos portugueses que vão competir em Londres

Alexandra Simões de Abreu

Marcos Borga

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Vamos começar pelo teu nome. Pen vem de onde?
Pen é o meu terceiro nome em cinco. Toda a gente achou muita piada por ser um nome diferente. Nem sequer é o último. Era o nome da minha avó que era chinesa e daí o nome “Pen” que significa “Paz” em cantonês.

E a Marta é “Paz”?
Mais ou menos. Acho que estou em paz comigo mesma, mas sou muito energética. Não paro, ando sempre de um lado para o outro. “Paz” significa calma e eu acho que não sou muito calma. Mas também significa equilíbrio e felicidade. Penso que significo “Paz” dentro desses termos.

O apuramento nos 1500m para este Mundial era o grande objetivo da época ou há outras ambições?
Bem, acho que o caminho se faz caminhando. No ano passado fui aos Jogos Olímpicos, portanto fazer os mínimos para o Mundial, era uma etapa necessária para poder pensar noutras coisas.

Mas qual é o objetivo da época?
Melhorar a minha marca. Já melhorei um segundo, mas acho que ainda sou capaz de tirar alguns segundos e aproximar-me dos 4:0:3. É o meu grande objetivo esta época. Vamos ver se as provas proporcionam esse tipo de andamento porque infelizmente ou felizmente, no meio fundo são provas muito táticas e depende muito do tipo de andamento que é imposto em cada prova. É sempre um bocadinho agridoce, porque não depende só unicamente de nós.

Em concreto para o Mundial qual o objetivo que definiu?
Acho que todos os atletas têm uma coisa na cabeça. Se algum atleta vai ao Mundial e não pensa em ganhar uma medalha, então não vai lá fazer nada. Obviamente que é uma coisa muito estranha, o que estou aqui a dizer, porque nem sequer estou no top 10 do ranking mundial, ou seja, nem sequer poderia entrar numa final. Mas é um campeonato e nos campeonatos nunca se sabe. É por isso que as provas se fazem e o meu objetivo é avançar o máximo de eliminatórias possível, pelo menos mais do que avancei nos Jogos Olímpicos, que infelizmente fiquei apenas por uma eliminatória.

Nos Jogos Olímpicos ficou em 36º lugar e disse que não ficou nada desiludida por ter consciência de que deu o seu melhor. De que forma a experiência no Rio pode ajudar agora?
É muito engraçado falar nisso, no Rio. Porque antes de uma pessoa entrar no avião, toda a gente fala que os Jogos Olímpicos são uma coisa muito gira que muda a nossa vida, que é uma experiência muito importante. No fundo do meu coração eu pensava “claro que sim mas ou estou em forma, ou não é a experiência que me vai fazer avançar nas eliminatórias”. Estava enganada, fui completamente desarmada. Tenho uma equipa técnica fantástica e estava com uma forma fantástica mas, infelizmente, não tinha as provas e a experiência suficientes e que taticamente são fundamentais. Passei do campeonato universitário dos Estados Unidos para o maior palco desportivo do mundo. Foi um passo muito grande. Quando cheguei aos Jogos Olímpicos tive uma experiência que se calhar deveria ter tido antes. Tenho que pegar na experiência dos Jogos Olímpicos e conseguir transformar numa coisa positiva. Ajustar a minha época a provas mais competitivas, em que me obriga a ter alguma gestão tática. Vamos aprendendo.

Sente que amadureceu com a experiência olímpica?
Sim, consigo perceber que a experiência é uma coisa super importante. Que os 1.500 metros, ao contrário do que fiz no Europeu, de correr à frente, temos é que saber correr no pelotão, coisa em que me sentia super desconfortável. Sinto que ainda tenho muito que aprender. Não vou dizer, agora sim, agora está tudo sob controle e eu sei tudo. Estou com uma mentalidade e uma forma muito superior à do ano passado. Mas também tenho consciência de uma coisa que não tinha no ano passado. É que infelizmente nós não controlamos tudo.

Prefere provas mais rápidas?
Tenho uma boa ponta final mas como a minha estatura não é a maior, sou muito prejudicada.

Porquê?
Porque se me derem um toque vou ao chão. E isso é uma coisa que influencia bastante a minha performance infelizmente. Tenho tentado adaptar-me e aprender com isso e tirar vantagem, mas é tudo um processo que às vezes não é tão rápido como nós queremos.

Marcos Borga

O grande sonho de qualquer atleta é a medalha olímpica. É por isso que corre?
Sou muito ambiciosa. O que senti nos Jogos Olímpicos foi “quero voltar aqui daqui a quatro anos, mereço estar aqui, estou aqui por mérito próprio e quero ser um pouco mais especial ainda e lutar por uma coisa diferente”. Mas não consigo falar de medalhas. Acredito que tenho algum potencial, trabalho bem o meu potencial e tenho pessoas a trabalhar comigo em quem confio muito. O meu objetivo todos os dias, é ter uma melhor marca do que ontem. E o ano passado através dos Jogos consegui perceber que tinha que modificar algumas coisas na minha estrutura, no meu planeamento, ir a algumas provas mais competitivas, ter algumas provas tácticas para evoluir as minhas skills. Obviamente não sinto que estou perfeita mas sinto que tenho melhorado bastante e tenho trabalhado na direção certa. E é isso que me dá satisfação. Há milhões de pessoas no mundo a fazer atletismo e apenas 10% ou 5% dessas pessoas vão aos Jogos Olímpicos e só 0,04% dessas pessoas ganham uma medalha. Não posso dizer que a minha carreira vai ser acabada se nunca ganhar uma medalha. Mas se eu bater os meus recordes pessoais e se continuar a sentir que consigo superar-me é bom porque também temos um público e se ao longo da minha carreira conseguir, para além de correr rápido na pista, ter também alguma influência fora da pista, acho que é super importante, acho que me vou sentir realizada.

Foi estudar para os EUA quando e porquê?
Fui para os EUA em 2015. Tinha já acabado as minhas cadeiras todas de fisioterapia em Portugal, sempre fui muito orientada a nível académico, o atletismo pertencia à minha vida, era importante mas não era a chave. Mas em 2014 aconteceram imensas coisas na minha vida que definiram melhor as minhas prioridades. E o atletismo passou a ser uma coisa importante. Fui para os EUA para continuar a estudar porque também achei que era muito imaturo da minha parte dizer “agora não quero estudar mais porque quero ser atleta”. Tinha marcas boas, era a melhor portuguesa mas não acho que as marcas fossem suficientes para dizer que iria dedicar-me exclusivamente ao atletismo, e acabei por ir estudar gestão de empresas para os EUA. Vou terminar este ano.

Em 2014, o seu pai faleceu na pista, enquanto a via correr.
Esse assunto já foi muito falado.

O que aconteceu deu-lhe ainda mais força para continuar no atletismo?
Claro que sim. Ele foi importante na minha vida, no atletismo e fora do atletismo.

Pensa manter-se na distância ou vai subir para os 3.000, 5.000m?
Não. Vou manter-me na distância. Até mesmo nos 800 metros ainda tenho muito por explorar. .

Em Londres quem vão ser as grandes candidatas ao pódio?
Acho que a Dibaba inquestionavelmente, para além de ser a recordista do mundo, também por todo os historial que tem e por ser a Dibaba. Depois também acho que a Laura Muir por estar em casa, é super nova e também tem uma marca muito boa, acho que os Jogos Olímpicos não lhe correram muito bem, apesar de ser a líder do ranking do ano passado. A nível pessoal, gosto imenso da Jenny Simpson, que é uma atleta que dá sempre cartas neste tipo de campeonatos e é uma pessoa fantástica. Pessoalmente gostava que ela ganhasse o ouro em Londres.

Quem é a sua atleta de referência?
Não tenho nenhuma. Gosto muito da Jenny Simpson porque já tive contacto com ela em várias provas e gosto muito dela como pessoa, é uma atleta muito humana e isso é uma coisa que acho importante.

Não a assusta o facto de Londres ter sido palco recentemente de vários atentados?
Claro que me assusta, mas prefiro não pensar nisso. Acho que temos que ter algum cuidado e obviamente nestas grandes provas, sendo em Londres ou sendo em outro lado qualquer é sempre um risco. Mas também acho que se há altura em que Londres que vai estar bastante segura é agora nos campeonatos do mundo.

No futuro vê-se a fazer o quê?
Não sei, depende das minhas oportunidades. Tenho bastantes skills e ao longo dos anos tenho vindo a estudar e sou uma pessoa bastante interessada. Gosto muito da área da gestão, também tenho uma forte ligação com a área da saúde. Acho que tenho bons skills sociais, portanto provavelmente devo acabar com alguma coisa relacionada à gestão e saúde; e se puder misturar o desporto, ainda melhor. O meu próximo grande projeto é acabar o meu curso. Provavelmente depois tirar uma pós graduação, mas vou tentar dedicar-me a full time ao atletismo pelo menos até final do ciclo olímpico.