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Cátia Azevedo: “Sou boa na velocidade, mas eu gosto é dos saltos. É mais giro, mais sensual. Eu dou uma volta e pronto”

Tem 23 anos e é o elemento mais jovem da comitiva portuguesa que está em Londres para disputar os Mundiais. A velocista de 400 metros é outra entrevista Tribuna Expresso subordinada ao tema Campeonato do Mundo

Alexandra Simões de Abreu

INÁCIO ROSA/LUSA

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Esta ida aos Mundiais era previsível ou não?
Sim, o trabalho tem sido feito com esse objetivo, depois do ano passado ter estado nos Jogos Olímpicos.

Com que expectativas é que está?
Quero estar ao meu maior nível e para isso quero correr de uma forma estável e sair bastante satisfeita como saí dos Jogos Olímpicos, porque o nível vai ser parecido. O nível dos 400m está extremamente elevado, existem quase 100 atletas no mundo com o mínimo para ir. Mas conta quem chega primeiro à meta e faz melhores tempos, portanto, vamos ver o que vai sair, estou expectante.

Qual é o seu ponto forte?
Não ser demasiado nervosa. Estou sempre um bocadinho feliz de mais. Em termos da corrida, a parte final. Embora este ano estejamos a fazer um tipo de corrida bem diferente.

O que é que isso quer dizer?
Estamos a tentar que eu lance a corrida mais rápido no início, nos primeiros 150 metros, estamos a tentar formatar isso. Eu ainda sou muito nova portanto ainda não sei correr espetacularmente os 400 metros. Mas o meu plano forte é a parte final.

Tem de treinar mais a saída?
Não é treinar mais a saída, porque isto está a sair bem, se não saísse bem aquilo que estou a treinar, eu não estaria neste momento a ir aos Mundiais. Acho que está tudo a correr bem, está tudo excelente. Se sair o normal vai haver surpresas.

O objetivo é chegar à meia final?
Segundo os orgãos de comunicação social, acho que as expectativas era quase nem ir, para vocês eu já nem devia ir. Elogios ’tá quieto. Mas pronto, acho que seria bom passar a uma semi-final, mas não estou preocupada com isso. Estou preocupada em dar o meu melhor, porque se ninguém acredita, só acredito eu e o meu treinador e os meus, portanto o que sair dali é nosso e só nosso.

É a atleta mais nova da nossa comitiva. Até que ponto é que a participação nestas grandes competições é importante para evoluir?
Também era a mais nova nos Jogos. Neste momento estou no primeiro ano de séniores, mas o ano passado era ainda sub-23, portanto é muito bom termos esta margem. Não tenho aquela idade de maturação, ainda tenho muito para aprender, o corpo ainda tem algumas manhas, ainda tenho que ganhar mais níveis de força, mais níveis de velocidade. O mais alto nível vem a partir dos 27/28 anos. Eu tenho 23. Mas é muito bom estar nestes palcos porque nos motiva. Queremos sempre mais e andamos à procura disto durante o ano inteiro. É frustrante quando as coisas não saem porque nós treinamos imenso para aquele momento e embora muita gente não perceba, aquele momento para nós é o momento chave. Mas há momentos em que aquilo não sai porque não tem que sair. Acho que é isso que se aprende lá e aprendi imenso nos Jogos porque nos Jogos fiquei muito perto.

Tem algum ritual antes das provas?
Sou muito religiosa. Gosto muito de rezar ao meu avô antes de competir. É o meu anjo da guarda. É a pessoa que sempre me protegeu e está a proteger-me sempre. Não peço nada de especial, só peço proteção e que esteja muito satisfeita quando acabo as coisas. Porque sentir que damos o nosso melhor é o máximo.

Quem é o seu idolo?
Olhe isso até me dá piada hoje. Porque está em Lisboa a treinar, a campeã olímpica do triplo e eu estava a comentar com o meu treinador, que tenho pena porque não tenho nenhum ídolo e não sinto a necessidade de ter um ídolo. Eu formato-me muito pela minha melhor amiga que também é atleta, a Vera Barbosa. Mas aquela pessoa que quando vemos queremos tirar uma foto e temos aquele delírio...não tenho.

Como é que começou a praticar atletismo?
Comecei na minha terra que é a vila de Cucujães. Comecei a ganhar os corta matos lá da escola e durante uns dois anos insistiram para eu ir para os corta matos, só que eu fazia ginástica acrobática e tinha alguma aptidão para aquilo, por isso os meus pais não me deixavam. Depois, e com muita insistência junto dos meus pais da parte do meu primeiro treinador, o José Pinho, do Nucleo de atletismo de Cucujães, comecei a ir algumas vezes, até que deixei a ginástica.

E porquê velocidade?
É onde sou boa.

Mas gostou desde o início de fazer velocidade?
Não, é mesmo onde eu sou boa. O que eu adorava mesmo era fazer saltos. Isso é que eu gostava.

Altura, comprimento, triplo, com vara?
Qualquer coisa, porque aquilo é muito mais giro, muito mais sensual. Uma pessoa ali tem muito mais tempo de antena (risos). Eu dou uma volta à pista e pronto. Ainda por cima escolhi a prova que nem dá para festejar como deve ser, nem dá para sorrir porque nós acabamos com o ácido láctico... é horrível. Veja só como é que nos Jogos Olímpicos a campeã olímpica acabou a prova. Ficou uma meia hora deitada em vez de ir fazer aquela volta extra à pista. Ficou deitada a festejar. É uma prova muito dura.

A nível académico o que faz?
Estou a tirar Enfermagem. Este ano ainda tenho dois exames em Setembro, passarei em princípio para o 3º ano, mas agora é um bocadinho mais difícil tomar uma decisão porque vamos começar os estágios e a minha faculdade não é, como é que posso dizer, totalmente amável em compreender a minha indisponibilidade para algumas situações. E com estágios ainda vai piorar, portanto tenho que ponderar.

Não tem o estatuto de atleta de alta competição?
Nós vivemos em Portugal, isso não interessa para nada.

Vai dedicar-se ao atletismo mesmo que isso implique deixar o curso em stand by?
Não, isso nunca irei fazer. O meu curso não pode ficar em stand by. Também ainda tenho duas cadeiras em atraso e irei ter que fazer alguma coisa, ou faço voluntariado ou faço alguma coisa que não me deixe o curso a meio. Eu não concordo só façam vida disto porque, podemos fazer menos disciplinas por ano, mas temos que ter um plano B na nossa vida.

E a enfermagem sempre foi um sonho?
A enfermagem é o meu grande sonho de vida. Embora muita gente me diga que o curso não “azeda” e ser enfermeira também não “azeda”, que eu tenho muito tempo, mas eu tenho um bichinho muito grande cá dentro que me diz que tenho de ajudar as pessoas, que eu tenho que estar lá, ao lado delas. Por isso é que é o meu grande sonho. Espero um dia não me vir a arrepender. Mas sim é o meu grande sonho.

E no atletismo está disposta a ir até a onde?
A nossa carreira é sempre um bocadinho imprevisível. Ainda outro dia estava a dizer isso aos meus colegas de treino, sou muito nova, já alcancei muitas coisas, e, graças a Deus, desde sempre todos os objetivos a que me propus consegui alcançar. Já fui aos Jogos Olímpicos com 22 apenas anos. Eu e o meu treinador todo os anos nos juntamos para deliner objetivos fáceis, médios e difíceis. E todos os anos eles mudam. Não posso ir para os próximos Jogos Olímpicos a pensar em ser somente 31ª. Eu quero ser mais porque já fui 31ª. Não posso ir ao Europeu para o ano, sem ambicionar mais do que o meu 12º lugar. Este ano tenho uma nova missão no Mundial, nunca fui a um Mundial, nunca vivi aquilo, já vamos com outro tipo de postura. Tudo o que vem é bom, mas temos que fazer o nosso melhor e não podemos estar à espera que as coisas caiam do céu.

Quais são os objetivos fáceis, médios e difíceis desta época?
Os fáceis era fazer os mínimos para as Universíadas, estar lá presente, ser campeã nacional, fazer uma época regular. Os médios era conseguir ser mais consistente nos 52s e está a ser perfeito, aliás eu só corri duas vezes a 53s e foi cá em Portugal. O mais difícil eram os mínimos para os Mundiais e queríamos fazer marca nos 51s, que já conseguimos, portanto se a época parasse já, estava perfeita.