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Tsanko Arnaudov: “Nos Mundiais de 2015, entrei para dentro do círculo, vi-me nos écrãs gigantes e desmoronou tudo. Foi uma grande porcaria”

Outra entrevista da Tribuna Expresso sobre os Mundiais de Atletismo. Desta vez, Tsanko Arnaudov, lançador do peso nascido na Bulgária e que representa Portugal, porque é cá que se sente bem

Alexandra Simões de Abreu

Marcos Borga

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Veio para Portugal com os seus pais em 2004?
Não, o meu pai veio primeiro, em 1999, a minha mãe em 2002, eu em 2004, com 12 anos, e o meu irmão em 2005.

Esses dois anos afastado dos pais devem ter custado muito.
Fiquei com os meus avós. Era uma criança, não percebia, mas obviamente que uma mãe faz falta.

Custou muito a adaptação a Portugal?
Custou um bocadinho porque fui para a escola sem saber uma palavra de português. Nem “olá”. Essa parte custou muito. Aprender o português corretamente não é fácil. A minha mãe obrigava-me a estudar, mas eu nunca fui muito de estudos, e tinha uma certa dificuldade. Foi difícil mas agora vejo que recompensou. Onde aprendi mais o português correto foi quando comecei no atletismo.

Na Bulgária já fazia desporto?
Não, não fazia nada. Comecei na URCA (União Recreativa Cultural da Abrunheira). Comecei a correr com 14 anos. As pessoas de lá é que me ajudaram a aprender melhor o português.

Nessa altura só corria?
Sim, entrei em algumas provas de corta-mato e provas de 3000m.

Gostava?
Gostava. Mas a partir de determinado momento, o meu corpo desenvolveu de tal maneira que já não dava para as corridas. Era mais alto, mais pesado, eles falaram com treinadores de lançamentos e comecei a lançar, aos 17 anos. Fui para o Benfica e em 2014 mudei de treinador. Comecei tudo do zero, aos 22 anos.

Foi quando passou a ser treinado pelo Vladimir Zintchenko?
Sim. Foi uma decisão muito difícil.

Porquê?
Porque na altura não era ninguém e o Vladimir era o treinador do Marco Fortes e eu não sabia se ia ter a disponibilidade para treinar-me. Era um risco sair da ex-treinadora, mas valeu a pena porque tudo o que tenho hoje, e tudo o que consegui, deve-se a ele.

Teve uma evolução muito rápida.
Só para ter uma noção, comecei do zero em janeiro e fiquei apenas a 11 centímetros do europeu de pista coberta, cujos mínimos eram 19,30m. E cinco meses depois, no meeting de Faro, bati o recorde nacional de sub-23, com 18,80m, que pertencia ao Marco. Por isso ele tem todo o mérito, ele e eu, de conseguirmos o que sou hoje no atletismo.

O que é que o Vladimir tem de tão especial?
Experiência. Ele foi um dos melhores lançadores do mundo nos anos 80/90. Tem quase 69 metros no disco, o que ainda hoje é uma grande marca. Essa experiência aqui em Portugal ninguém tem. Não se aprende nos livros aquilo que ele sabe. Como ucraniano tem a conhece muitas técnicas de lançamento. Um bom treinador é aquele que conhece, evolui e sabe quando há mudanças do corpo, porque elas existem fisicamente e emocionalmente, mês a mês, ano a ano. E ele sabe sempre como trabalhar para podermos evoluir. Por isso é que ele apresenta grandes resultados.

Marcos Borga

Entretanto, como é que ficaram os estudos?
Sempre a estudar. No ano passado, como era o ano dos Jogos Olímpicos apostamos tudo nos JO e no Europeu de pista ao ar livre. Mas só treinar, diariamente, sem fazer mais nada, era aborrecido. Não puxa pela cabeça e as pessoas parece que ficam "burras". Não desenvolvem a cabeça, logo não têm resultados no atletismo. Este ano entrei para a Faculdade. Ele aconselhou-me, aceitei e não me arrependi nada.

Entrou para que curso?
Educação Fisica e Desporto Escolar. Basicamente serve para ser professor. Se eu soubesse tinha entrado mais cedo e não tinha deixado de estudar nesse ano dos JO.

Porquê?
Porque eu estudo de manhã, das 8h até às 14/15h, venho treinar e sinto-me muito bem. Não é por causa dos estudos que os resultados desaparecem, muito pelo contrário, tem sido o melhor ano da minha vida. Já fiz quatro provas acima dos 21m.

O desenvolvimento académico é muito importante para uma melhor performance?
Influencia muito. É uma base muito grande para se ser um bom atleta. Não há atletas burros, porque para aquilo que temos de aprender é preciso ser inteligente. E não é por acaso que um dos melhores atletas do peso, Ryan Crouser, tem uma grande formação nos EUA, acabou gestão.

Representou Portugal pela primeira vez em 2011, no campeonato da Europa. O que sente por representar Portugal?
Quando visto a camisola de Portugal é sempre para dar o meu melhor. Não é por acaso que os meus últimos recordes são com a camisola de Portugal. Por ser um país a responsabilidade é ainda maior. Mas qualquer camisola que eu vista, do Benfica ou da seleção, é sempre para dar o melhor e é com orgulho que visto as duas.

Já se sente mais português do que búlgaro?
Sim. Passei a maior parte da minha vida aqui. Os 12 anos que passei na Bulgária foram de infância. Arrisco-me a dizer que me sinto 100% português, porque tenho a minha vida construída aqui e quero continuar a construí-la aqui. É aqui que me sinto bem.

Ainda por cima consegue o feito de alcançar a primeira medalha portuguesa de lançamento. É histórico.
Aí está, é fruto de muito conhecimento do treinador e de dedicação minha. É preciso abdicar de muita coisa na vida pessoal, de sair com amigos, etc.

Qual é o seu maior sonho?
Quando concretizar, eu digo. Fica só para mim.

Passa pelo peso?
Passa.

Quais são os objetivos para estes mundiais?
O primeiro objetivo é chegar, sentir-me bem na prova e passar à final.

O que é fundamental para que a prova corra bem?
Ter o meu treinador comigo.

Tem algum tipo de superstição?
Gosto de ouvir música, as vezes gosto de brincar, outras vezes estou mais na minha, em silêncio.

Não é daqueles que tem de vestir sempre a mesma camisola, por exemplo, senão o dia já não lhe corre bem?
Os melhores atletas não podem pensar assim, porque essas são coisas pequeninas. O trabalho está feito, é só chegar ao setor e realizar. Agora, às vezes pode correr mal porque o factor psicológico é super importante. E só por aí, pode correr mal. Tento não pensar nisso.

Quando é que sente mais o nervoso miudinho?
No último ano deixei de sentir. Estive no Mundial de 2015, onde assim que entrei para o círculo e olhei para os ecrãs gigantes de Pequim e vi-me, vi que era eu que ia lançar, desmoronou tudo e foi uma grande porcaria de prova. Acho que era o meu maior problema em grandes competições, ver-me ali ao lado dos grandes, mas tenho trabalhado com o psicólogo e comigo mesmo para ultrapassar isso e deixei de sentir. Agora a única coisa que tenho de pensar é: “eu sou igual a eles, somos todos estrelas”.

É importante a ajuda de um psicólogo?
Sem dúvida. Porque há coisas que só podemos partilhar com eles. Eles sabem como nos ajudar da melhor maneira. O João Lameiras tem-me ajudado a ultrapassar essas coisas e tem dado resultado. O Norberto Fonseca que é o meu massagista também me ajuda, porque conversamos muito durante as massagens. Tudo é importante, os fisioterapeutas também.

Quem vai ser o seu maior adversário?
Eu.

Mas quem são os principais candidatos ao pódio?
Somos todos. Houve um europeu, há dois anos, que foi ganho com 20,60m. O último foi ganho com quase 22m, por isso tudo é possível.

Esta evolução tão rápida deve-se a quê?
Geração de 90. Há picos. Agora anda tudo maluco. É a pior altura para se ser lançador. Seja peso, disco, martelo ou dardo. Os quatro lançamentos estão num nível que nunca vi.

Qual é a sua mais valia, a técnica, a força?
A cabeça. Psicologicamente.

O primeiro lançamento é fundamental?
É, sempre. É importante que esse corra bem. O primeiro é para marcar, o resto é para marca, é para arriscar.

O que aprendeu com o Francisco Belo e ele consigo?
Aprendemos muita coisa um com o outro. Gostava de ter a agressividade que ele tem de lançar. Às vezes sinto falta disso e da força que ele tem para estudar porque ele está a acabar medicina e eu não me vejo a estudar seis anos seguidos a mesma coisa. O que ele aprendeu comigo? A lançar mais devagar. Ele é muito agressivo, eu sou pouco, mas sou mais técnico. Se fossemos os dois num, a minha técnica e a agressividade dele, se calhar era um super-atleta.