Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Catarina Ribeiro: “A maratona é como o melão. Só no dia em que é aberto é que sabemos como está”

A maratonista Catarina Ribeiro diz à Tribuna Expresso que primeiro é preciso acabar uma prova - e só depois se pode pensar noutras coisas. Outra entrevista relativa aos Mundiais de atletismo

Alexandra Simões de Abreu

Lucilia Monteiro

Partilhar

Nestes mundiais de atletismo vai participar na maratona. Sempre foi um objetivo?
Sim e não. Tentei os 10 mil primeiro e não consegui. Depois foquei-me na maratona. Treinei bastante e felizmente foi uma grande estreia . A aventura foi sem dúvida bem sucedida.

O que foi mais complicado na estreia da maratona?
À partida não sabia bem ao que ia, tinha treinado bastante e tinha corrido tudo bem, fiz uma boa preparação, que decorreu dentro da normalidade, e foi só quando cheguei à partida que eu pensei “onde é que eu me fui meter”.

Mas o que é que a assustou nessa altura? Foi olhar para o lado e ver os outros atletas?
Sim, porque depois há aquela adrenalina...eu pedi a um atleta que tinha mais experiência do que eu, o Daniel Pinheiro, que viesse comigo e me acompanhasse, porque diziam que a prova era dura. Ele aceitou o desafio

Mas pediu-lhe isso no dia da prova?
Não, não foi tudo calculado e preparado previamente. O meu treinador teve uma conversa com ele por causa dos ritmos a que íamos correr, e ele cumpriu tudo direitinho, eu só tinha que ir na pegada dele, só tinha de o seguir. E ele ajudou me o percurso todo. Senti algumas dificuldades entre o km 15 e o km 20, porque nesse dia veio uma neblina bastante fresca na cidade do Porto e ao km 15 molhei-me. Naquela fase estava bastante frio e passei um bocadinho mal, porque fiquei congelada. Mas depois quando passou a meia maratona vi que ia para o tempo que tinha idealizado, que ia aos ritmos certos, senti-me mais motivada.

Já não custou?
A parte mais crítica foi a partir do km 37, em que eu senti cãibras numa perna e tivemos que alterar um pouco o ritmo. Tive que abrandar ligeiramente para tentar acabar a prova, porque tinha medo de não conseguir terminar e só faltavam 5 km. Abrandamos ligeiramente e quando o meu treinador e o Daniel se aperceberam que a Filó (Filomena Costa), que ia em segundo lugar estava com grandes dificuldades, tentaram apoiar-me e animar e eu consegui recuperar e passá-la na parte final da corrida. Foi assim que fui segunda na minha estreia.

Em Londres não vai ter o mesmo tipo de ajuda.
Não.

Isso assusta-a?
Um bocadinho. Como é o meu primeiro mundial e a primeira competição em seniores de verão que vou fazer... eu já consegui dois anos seguidos fazer mínimos para o campeonato da europa e não consegui estar presente. É a primeira vez que tento os mínimos para o campeonato do mundo, por isso já estou feliz por ter conseguido a marca e lá estar.

Os outros campeonatos da Europa em que se apurou não esteve presente porquê? Recorde.
Porque iam três atletas e eu era a quarta melhor marca.

Deve ser frustrante ficar à porta
É como “morrer na praia”. Mas é assim, em Portugal temos atletas de excelência e eu sabia à partida que elas também iam participar e não podia ser favorecida nem elas prejudicadas. As regras são para cumprir e os mínimos estão lá.

Que expectativas tem para Londres?
O objetivo principal é chegar ao fim. Acho que é o de todos os atletas e, claro, dar o meu melhor. Treinei bem, senti-me muito bem, mas pela experiência que tive e aquilo que os meus colegas vão dizendo, inclusivé o Daniel, a maratona é como o melão. Só no dia em que é aberto é que sabemos como ele está.

O que mais receia, o tempo, o percurso?
A hora da prova. É às duas da tarde. Este ano tem havido umas ondas de calor. E já houve em maio uma vaga de calor em Londres, que chegou a atingir os 34 graus.

Dá-se mal com o calor?
Não. Em Portugal treino com temperaturas muito mais altas do que lá certamente. E quando lá chegarmos as condições são iguais para todos.

Não é o calor que a assusta?
Não, é mesmo a hora porque não estamos habituados a correr às duas da tarde, por isso tenho um bocado de receio. Normalmente a maratona é às 9 da manhã, a minha estreia foi a essa hora. Mas estou a treinar para me adaptar a essa hora e para chegar lá e ter feito tudo o que estava ao meu alcance para correr bem. Depois, no dia, vai depender de outras coisas que eu já não vou controlar.

Lucilia Monteiro

Quem vão ser as principais adversárias?
As portuguesas e as africanas, que são das atletas mais fortes que lá estarão. E também a bielorussa Volha Mazuronak. Há grandes maratonistas na Europa portanto eu quero é centrar-me no que tenho que fazer e não me preocupar tanto com as adversárias.

O que seria um bom resultado?
Nunca tive uma experiência assim, não sei dizer ao certo o que é que seria bom porque eu podia dizer que ficar nas 20/25 primeiras seria bom e chegar lá bater o recorde pessoal e nem sequer entrar nesses lugares. Gostava, no mínimo, de bater o recorde pessoal.

Desistir está fora de questão.
Só se me lesionar porque senão vou terminar de certeza. Na minha perspectiva prefiro terminar, mesmo que não seja o resultado que estava à espera, nem a marca que eu desejaria. Porque a nossa vida de atleta não é só feita de coisas boas. Só nós e quem nos acompanha no dia a dia é que sabe o que sofremos para naquele dia estarmos ao melhor nível.

Vai continuar a insistir nos 10 mil ou vai dedicar-se só à maratona?
Quero continuar a fazer 10 mil metros porque gostava muito de correr abaixo dos 32 minutos e acho que tenho capacidade para o fazer. Só não o consegui fazer este ano por um ou outro fator que não conseguimos controlar, mas não vou desistir de fazer os 10 mil metros. É uma distância que gosto de fazer.

Já fez várias distâncias, qual a que lhe dá mais prazer correr?
Quer que seja sincera (risos)? 1500 metros. Gostava muito de fazer os 1500 metros, mas na altura não tinha as características rápidas e quando tinha de mudar de ritmo não conseguia, as atletas passavam-me e eu não conseguia aumentar o ritmo. Por isso o meu treinador direcionou-me para as distâncias mais longas. Há três anos fui representar Portugal na Taça das Nações, nos 1500 metros, e é das distâncias que mais adrenalina me dá.

Por ser mais rápida?
É uma prova diferente, não sei explicar. Não sei se é por ser rápida. Se tivesse características mais rápidas, provavelmente apostava mais, porque gosto mesmo muito de fazer 1500 metros.

Tem algum tipo de superstição?
Normalmente não, só me benzo, mais nada. Mas já aconteceu não o fazer e não correu nada de diferente. É só aquela coisa do género, para não me lesionar e chegar ao fim, mas não tenho nenhum tipo de superstição.

Não está em nenhum clube. Foi opção própria?
Sim, foi opção minha. Queria ficar individual para poder dedicar-me 100% aos meus objetivos e fi-lo nesta altura, porque se inicia um ciclo olímpico novo, e é a altura ideal para dar um rumo diferente à minha carreira. Se quero estar nos Jogos Olímpicos de Tóquio tenho de decidir por mim e não ter nenhum clube, nem nada para me distrair, para não andar a dispersar muito.

O facto de estar sem clube implica menos apoios financeiros, ou não?
Sim e não, porque assim consigo fazer mais provas, ou melhor, provas que me dão dinheiro. Em vez de estar a fazer provas de clube estou concentrada noutras coisas para conseguir ganhar dinheiro e depois, com mais alguns apoios, consigo colmatar a falta de um vencimento mensal.

Esses apoios vêm de onde?
De apoios privados.

Nesta altura da preparação para o Mundial não tem nenhum apoio do Estado?
Não, não tenho nada. Supostamente existe. Eu estou no chamada nível 4 da Alta Competição, ou do Alto Rendimento, nem sei bem como é que se chama agora, e supostamente tinha uma bolsa de 250 euros por mês. Recebi dois meses quando fiz a maratona, em novembro e dezembro, mas até agora não recebi mais nada. Portanto não sei se tenho ou não tenho direito e neste momento como não estou na preparação olímpica, não recebo qualquer bolsa do Estado, nem da Federação.

Parece achar isso normal.
No atletismo é um bocado assim, ou tens tudo ou não tens nada. Por isso muitas vezes os atletas deixam de fazer outras coisas para conseguir dar o salto para a preparação olímpica que é realmente a mais vantajosa e que realmente dá mais apoio aos atletas. Mas até lá estamos por nossa conta.

Esse é o seu maior sonho, os Jogos Olímpicos?
Exatamente. Falhei em 2016, mas só se alguma coisa de ruim acontecer é que falho Tóquio 2020.

Na maratona?
Muito provavelmente na maratona.

Até agora, pessoalmente qual foi o momento mais alto na sua carreira?
Foi a minha única presença num campeonato de Verão em sub-23, em que ganhei a medalha de bronze nos 10 mil, na Austrália. Foi um ano muito especial.

Começou a praticar atletismo com que idade?
Com 11 anos, pela mão do senhor Santos, o pai do meu atual treinador, que era cliente do meu pai (tem uma oficina de raparação automóvel). Viu que eu era muito magrinha e achou que tinha fisionomia para ser atleta.

Gostou logo de atletismo?
Na altura era uma brincadeira. Aos fins de semana os meus amigos iam passear com os pais e eu já ia com a equipa para fora, conhecer sítios diferentes e quando chegava à 2ª feira, contava que tinha ido correr para Braga, para sítios diferentes e mais longe e claro comecei a achar mais piada. Na altura ninguém saia de casa e eu com 11, 12 anos já saía.

Como estão os estudos?
Entrei para a universidade, para o curso de fisioterapia, mas no ano em que entrei na Escola Superior de Saúde no Porto, alteraram o sistema de ensino e eu era obrigada a estar na escola quase sempre, e na altura tive que ir representar a selecção nacional. Tinha entrado para o curso com o estatuto de alta competição, falei com a diretora do curso para lhe dizer que tinha que como ia representar a selecção, ia numa sexta-feira e vinha na segunda o que implicava que tinha de faltar nesses dois dias. E a professora disse-me: “Tens de escolher, ou queres ser atleta ou queres ser fisioterapeuta.” Eu disse à senhora, que queria ser atleta, que me ia embora e não ia estudar mais.

E isso foi há quanto tempo?
Em 2008.

Está arrependida da escolha?
Obviamente que não.

Tenciona voltar ao curso?
À fisioterapia provavelmente não.

Tem alguma referência, algum ídolo?
A Fernanda Ribeiro. E por acaso foi num campeonato escolar, em que ela foi madrinha, que o bichinho de ser atleta despertou mais em mim.