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Ricardo Ribas: “Uma corrida é uma corrida, e só no dia é que se sabe. É como aquela música agora... ‘pasito a pasito’

Ribas é um atleta que assume nunca ter sido “um grande atleta” e que tudo o que conseguiu foi graças ao trabalho. O maratonista é outro entrevistado da Tribuna Expresso na semana em que decorrem os Mundiais de atletismo, em Londres

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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Quais as expectativas para Londres?
Passam sempre por bater o meu record pessoal 2:13,21 horas. A classificação final já não depende de mim, depende de uma conjugação de resultados dos meus adversários. Estou interessado e focado em bater o meu recorde pessoal.

O que será um bom resultado em termos de classificação?
Num campeonato do mundo seria ficar nos 18 primeiros. Já era um resultado excelente.

Vai com alguma pressão depois do que aconteceu nos Jogos, ou não?
Não, quando se tem 39 anos e 25 de atletismo já não se tem pressão. Tenho é muita vontade de treinar, de competir, de representar o meu país e os Jogos estão completamente ultrapassados. Foi um dia menos bom para mim. Foi o cumprir de um sonho e a maratona foi o meu maior pesadelo. Mas quando terminei, o pensamento nunca foi “o atletismo acabou”, muito pelo contrário, vim de lá muito mais forte. Isso viu-se na época que fiz. Fiz bons resultados e estou a sentir-me muito bem, acredito que vou estar no meu melhor e vou ter grandes resultados.

A seguir aos Jogos do Rio disse que a preparação tinha corrido bem e que faria tudo igual. O que aconteceu então para terminar em tão grandes dificuldades?
Não sei. Se calhar cometi um erro muito grande ao ir para o Brasil muito em cima da prova. Fui apenas três dias antes e não me ambientei muito bem ao clima. Se calhar ir 10/15 dias antes tinha sido melhor. Tive oportunidade de ir, mas por opção própria não o fiz. As condições no dia também não eram as ideais e se calhar há organismos que se ambientam, o meu não. Mas no desporto, como na vida, hoje somos bestas e amanhã bestiais e temos que saber lidar com isso. O que mais me importa é que as pessoas estão comigo, continuaram comigo, continuaram a apoiar-me e isso permite que hoje possa dizer que estou feliz e estou a treinar e a fazer aquilo que gosto. Isso para mim é o mais importante.

Tem alguma espécie de ritual?
Há muitos anos que na véspera da competição durmo com os calções com que vou correr. Se não dormir com os mesmos calções com que vou competir já a prova me corre mal, mas é óbvio que é superstição. De resto, durante os treinos sou muito metódico. Gosto de planear os tempos longos, os abastecimentos. 15 dias antes começo a treinar à hora da prova. Gosto de fazer as coisas com tempo, de acertar detalhes, obrigar o corpo a ir-se habituando.

Quem é que vão ser as fortalezas em Londres? Qual é o seu palpite?
Os atletas africanos são sempre os grandes favoritos. Os atletas americanos neste momento também estão muito bem e depois um ou outro europeu, acredito que também vai entrar na luta. Nestes campeonatos por vezes há surpresas.

O facto de Londres ser uma cidade onde tem havido algum turbulência não o assusta?
Há coisas que me assustam muito mais do que isso. Neste momento as doenças assustam-me mais. Hoje estamos bem e amanhã não sabemos como estamos. Os atentados são o dia a dia, infelizmente. Quando foi o caso de Boston, estava lá naquela maratona em que houve o atentado. Temos que agir com naturalidade, porque a nossa vida é esta, a minha vida é esta e é assim que eu quero continuar, no desporto.

Nunca fez a maratona de Londres.
Não, nunca calhou.

Rui Duarte Silva

É o atleta masculino português com mais presenças em campeonatos internacionais de corta de mato, 35. Há algum objetivo maior que ainda persiga?
Gostava de ser campeão nacional de corta mato. É um objetivo de há muitos anos. Já fui 2º, fui 4º muitas vezes, mas ser campeão nacional de corta mato ainda não consegui. Costumo dizer que há dois tipos de atletas e as pessoas têm que compreender isso. Há aqueles atletas que têm talento e basta trabalhá-lo e são atletas que ganham medalhas, são verdadeiros campeões e depois há outro tipo de atleta, que é onde eu me encaixo e onde muitos dos atletas se encaixa. Que são aqueles atletas de persistência, muito treino, muito trabalho, muitas desilusões, muitas quedas, mas vão sempre à procura do seu sonho. Para mim o mais importante é que aqueles jovens que sonham um dia representar a selecção nacional olhem para mim como uma referência. Isso deixa-me muito feliz, porque um atleta não vive só de medalhas, um atleta vive do trabalho, da dedicação. Para mim é um orgulho muito grande fazer a carreira que fiz durante 25 anos, porque nunca fui uma grande atleta, nunca tive muito talento, mas sempre trabalhei muito. Só assim é que consegui fazer os resultados que fiz. Gostava de ainda estar presente nos Jogos Olímpicos de 2020, para terminar a minha carreira.

Tem alguma explicação para haver tão poucos atletas masculinos no fundo?
Neste momento sou atleta mas já estou numa versão de treinador, a minha opinião é a de que o atleta precisa de ter estabilidade, tanto emocional, como financeira. Neste momento isso é muito difícil de conseguir só com o atletismo. Tenho conseguido porque estou ao lado de uma atleta (Dulce Félix) que, quando há quatro anos lhe disse que já não iria correr muito mais, ela não me deixou abandonar. Decidimos que eu a trabalhar ganhava muito menos do que estar a fazer atletismo e a ajudá-la nos treinos, a preparar maratonas. Começamos a preparar o nosso atletismo em conjunto. Isso é que me permitiu ter estabilidade emocional para conseguir fazer os resultados que tenho feito nos últimos 4/5 anos. Fala-se muito de atletas de alta competição, mas em Portugal atletas de alta competição contam-se pelos dedos das mãos. Andar todos os fins de semana a fazer provas, aos sábados e aos domingos, para ganhar algum dinheiro para o dia-a-dia... é muito difícil preparar uma maratona e fazer grandes resultados para estar presente num campeonato do mundo ou da europa.

Ou seja sem a estrutura de um clube...
Talento há, talento há. Dizem que não há talento, que não há atletas em Portugal, discordo, isso é mentira. Talento há e muito, atletas há e muitos, não temos é condições de estabilidade para fazer grandes resultados. Enquanto um atleta há 15 anos fazia três provas de estrada porque o clube pagava para ele só se dedicar a fazer as provas do clube, para se preparar para as competições de grande nível, neste momento um atleta de alta competição faz três provas às vezes por fim de semana.

Por exigência do clube?
Não, por necessidade do próprio atleta.

Os clubes já não pagam como pagavam antes, é isso?
Claro.

Ou consegue uma bolsa olímpica ou não recebe nada do Estado?
As bolsas do Estado estão lá. Mas para se conseguir essas bolsas, tem que se conseguir essa tal estabilidade para se atingir um grande resultado, para então se entrar nas bolsas do Estado. Não quer dizer que não haja apoios. Os apoios estão lá, os apoios são bons. O grande problema é chegar a eles. É ter estabilidade para chegar a esses apoios.

Treina a Doroteia Peixoto que tinha marca de qualificação para o campeonato do mundo, mas a federação decidiu levar só duas atletas para maratona e deu a entender a Doroteia não estava preparada e disponível. O que aconteceu?
O que aconteceu é que os critérios da federação não estavam bem definidos e por falta de diálogo a Doroteia não vai estar presente em Londres, onde poderia estar porque houve mais uma vaga. Mas não quero falar nisso.

Além da Doroteia, treina outros atletas…
Sim, o Manuel Mendes que foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que é um atleta parolímpico. Tenho uma atleta do Benfica, a Silvana Dias e um grupo de atletas de pelotão.

O seu futuro passará sempre pelo atletismo?
Sim. Neste momento também estou a estudar, estou na universidade em Chaves, estou no 2º ano do curso de Educação Física e Desporto, e é óbvio que estou a trabalhar para o meu futuro.

A Dulce Félix fez-lhe alguma recomendação especial para este mundial?
Tenho um caráter muito forte e gosto de fazer as coisas à minha maneira. Ela apoia-me diariamente. Uma corrida é uma corrida, e só no dia, em cada quilómetro... é como aquela música agora... “pasito a pasito”, de quilómetro em quilómetro é que temos de estudar, ouvir muito bem o nosso corpo, porque a qualquer momento aquilo pode mudar e temos de estar preparados para outro tipo de corrida.