Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Rui Sousa, o ciclista/presidente da Junta/vendedor de aves exóticas: “O meu sonho era ter um parque zoológico aberto ao público”

O ciclista de 41 anos da Rádio Popular/Boavista foi o protagonista da 6ª etapa da Volta a Portugal, ao cortar a meta em 1º (está agora em 12º da geral) e sair a chorar, naquela que deverá ser a sua despedida da modalidade, para se dedicar a tempo inteiro à União de Freguesias de Barroselas e Carvoeiro e à sua empresa de aves e de animais exóticos

Filipa Silva

Rui Sousa, 41 anos, ciclista da RP - Boavista

NUNO VEIGA/LUSA

Partilhar

Li que é vendedor de aves exóticas. É mesmo assim?
Sim. Sempre fui criador e agora tenho uma empresa que se chama Bird & Animal Center, onde fazemos comercialização de aves e de animais exóticos. Tem cerca de dois anos. Tinha as instalações do tempo em que era criador - embora ainda o seja. É mais um gozo do que um negócio, para lhe ser muito sincero.

Quando é que esta paixão começou?
Ui! Há muitos e muitos anos. Para aí desde os 12 anos. Sempre gostei de aves, é uma paixão, sempre fui um estudioso… Já percorri muitos países por causa dos animais.

Qual foi a maior aventura?
Já fiz 5 mil quilómetros de carro para ir comprar um casal de aves e vir embora. Por aí já vê que é uma paixão muito grande. Foi fazer a viagem, olhar, ver, gostar, tratar da documentação, pagar e vir embora.

De que aves é que estamos a falar?
Tenho um bocadinho de tudo. Desde papagaios, araras, águias, abutres… uma série de espécies. Naturalmente, gostaria de frisar, tudo devidamente legalizado e com a devida documentação.

Qual é a ave mais preciosa que tem na loja?
Não tenho uma loja. Tenho um espaço físico fechado, no meu quintal, onde recebemos as pessoas, quando previamente marcado. Também temos uma página no Facebook, que pode ver. Neste momento, acho que a ave mais valiosa, mais rara, pelo menos, é o abutre-rei. O meu sonho era ter um parque zoológico aberto ao público. Posso dizer-lhe que vou ter uma reunião com uma pessoa dona de um parque zoológico em Portugal para ver a possibilidade de abrir um pequeno parque a norte, onde vivo [Barroselas].

É curioso que o Alberto Contador também é um grande apaixonado por animais…
Também, também. Já tive conversas com ele em competição sobre o assunto. A diferença é que ele é um grande campeão.

Ciclista profissional, presidente de Junta, comerciante de aves… Há tempo para tudo?
Não é fácil, muito honestamente. Há quatro anos fui candidato a uma freguesia com alguma dimensão geográfica e populacional, que é a União de Freguesias de Barroselas e Carvoeiro. Foi uma situação nova na minha vida. A população acreditou em mim e venci com maioria absoluta. Não me considero um político, mas tive de me enquadrar naquilo que são as necessidades das populações, naquilo que é o desenvolvimento. E não é fácil. A conjuntura também não tem sido favorável, embora tenha melhorado. Mas pouco a pouco acho que o trabalho que desenvolvi, eu e a minha equipa, acho que foi um trabalho notório. Fizemos bastante. Estamos na reta final. Sou recandidato, porque entendo que em quatro anos não se consegue fazer tudo o que gostaríamos.

Rui Sousa venceu a 6ª etapa da Volta a Portugal 2017

Rui Sousa venceu a 6ª etapa da Volta a Portugal 2017

NUNO VEIGA/LUSA

Se esta experiência na política fosse uma etapa, que tipo de etapa era?
É uma etapa dura. Porque temos muitas dificuldades nos meios humanos - já para não falar dos financeiros. Temos levado a água ao moinho. É uma etapa que é bonita, mas é difícil. Julgo que temos uma casa arrumada, o que é uma mais valia nos tempos de hoje. Fazemos obra consoante aquilo que é a nossa capacidade. É com este conceito que todos devemos estar na política.

Terminada a Volta, vai concentrar-se na campanha eleitoral?
Naturalmente que sim. Vou-me concentrar na campanha. Vai ser outra Volta [risos].

Que balanço faz da participação na Volta até agora?
Não posso esconder que gostaria de estar melhor colocado. Não estou melhor colocado porque naturalmente os meus adversários foram mais fortes; porque, olhe, tenho 41 anos. É a minha 19ª Volta a Portugal. Tenho um psicológico forte, gostaria de fazer melhor, mas o físico não respondeu da melhor forma, é o que tenho a dizer. Mas o balanço é sempre muito positivo. Felizmente tenho tido o carinho do público, muitas pessoas que me apoiam, e isso tem sido uma mais-valia para mim. Acho que é o reflexo de 20 anos de profissionalismo. De muitas Voltas a Portugal, de muitas lutas na Volta a Portugal, dos cinco pódios que tenho, das etapas na Torre que venci, na Senhora da Graça também... Há uma série de situações que levaram a que as pessoas me tenham um certo carinho e me apoiem independentemente daquilo que é o meu lugar. Isso é, para mim, uma das grandes vitórias.

É a última?
Amanhã [hoje], no dia de descanso, será feita uma conferência de imprensa, organizada pela organização da Volta e por mim, na qual será comunicado o meu futuro. Estarão pessoas que foram importantes para mim. Gostaria de falar nesse local, dizer o que me vai na alma e conversar sobre o assunto.

Então, só para fechar, qual foi a ave mais exótica que já conheceu no pelotão?
[Risos] Isso agora… Quer um nome? Pode ser o meu colega de equipa. O Filipe Cardoso. Lembra-me quando ele passou a profissional que foi precisamente para a minha equipa. Este ano voltou para a minha equipa, foi uma das pessoas que quis que viesse para aqui. A equipa também me deu essa liberdade de apontar alguns ciclistas que podiam ser benéficos. É uma felicidade manter-me com ele. Temos uma amizade de longa data. Ele gosta de pôr o cabelo para um lado, depois para o outro, uns óculos mais bonitos… é a ave mais exótica do pelotão.