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Ana Cabecinha, marchadora: “Caí de uma ponte aos nove anos, estive em coma. O atletismo recuperou-me”

A atleta portuguesa participa nos 20 km Marcha, prova que começa às 12h20.

Alexandra Simões de Abreu

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O Expresso entrevistou muitos dos atletas portugueses que vão disputar marcas, presenças em finais, e, eventualmente, medalhas nos Mundiais de Atletismo, em Londres (leia todas as entrevistas AQUI). Esta é a conversa com Ana Cabecinha, a marchadora de 33 anos cuja história é uma lição de perseverança, de luta e de vida. Participa nos 20 km de Marcha e o tiro de partida é às 12h20

A preparação correu bem?
Estive um mês fora a treinar em altitude. Não há problemas físicos, que é o mais importante, e a motivação é grande.

Porque é que é tão importante treinar em altitude?
Para um marchador, ou para quem faz distâncias mais longas, a altitude é fundamental, porque temos que subir todos os nossos níveis, quer anímicos, quer de oxigénio, e ao nível do mar não conseguimos. Em altitude vamos conseguir treinar com menos oxigénio, logo quando chegarmos cá abaixo, ao nível do mar, conseguimos andar com mais facilidade e mais rápido.

Quais são as expectativas para estes Mundiais?
São as maiores, porque este ano fui segunda na Taça da Europa, apesar de a época não ter começado da forma como esperava. Por isso, espero estar ainda melhor no Campeonato do Mundo. Claro que igualar o 4º lugar de há dois anos em Pequim seria maravilhoso. Mas ambiciono algo mais.

As adversárias são mais difíceis do que há quatro anos?
A marcha evoluiu muito em países que há uns anos não estavam na linha da frente. A América Latina está cada vez mais forte, com uma técnica mais consistente. Atletas do México, do Peru, da Colômbia têm evoluído bastante. Antes éramos só nós, Europa e China, agora temos Brasil, México, Colômbia ou Peru.

A prova é às 12h30. Isso é bom?
Dou-me melhor com o calor, talvez por morar no Algarve e ser alentejana. O calor está perfeitamente em mim.

Prefere o sistema de juízes ou gostava que houvesse já meios eletrónicos para controlar os apoios dos pés?
Acho que deveria continuar como está. Os juízes têm um trabalho duro, agem corretamente e conseguem ver quando os atletas estão a cometer faltas. Acho que com o aparelho vai ser mais difícil, porque há momentos em que nós não temos os dois pés no chão, porque a técnica é mesmo assim. Para manter sempre um dos pés em contacto com o solo, só se andarmos em ritmos muito baixos. Para esse aparelho existir as marcas não vão ser tão boas como são.

Mas não é suposto haver sempre um pé em contacto com o chão?
Sim, tem que haver sempre um pé em contacto com o chão e o joelho esticado. Essas são as duas regras da marcha, mas, às vezes, isso não acontece porque os ritmos são muito elevados.

Os juízes estão visíveis?
Nós sabemos onde estão os juízes, apesar de irem trocando de ‘x’ em ‘x’ minutos. Há muitos juízes e há a televisão que não deixam as atletas fazer “a sua corrida” no meio.

Quem é que a influenciou a ir para a marcha?
O meu treinador. Disse-me que tinha jeito e que poderia evoluir muito. Já há 20 anos que faço marcha. Comecei a ir a provas de marcha também porque eram longe e nós gostávamos de viajar, éramos crianças e queríamos sair do Algarve. Foi por isso que fiquei na marcha, para passear. Mas na minha terceira ou quarta prova venci, em Olhão, a minha cidade, e a partir dessa vitória o bichinho ficou e apostei mais na marcha.

Começou a praticar atletismo com quantos anos?
Tinha 10 anos, estava quase a fazer 11.

Foi na escola que começou?
Não, vim para o desporto e para o atletismo porque tive um acidente grave, caí de uma ponte com nove anos.

Como?
Estava a brincar, tinha que sair da bicicleta e era suposto esconder-me debaixo da ponte, mas como a ponte não tinha proteção, só tinha um muro baixo e eu não consegui encostar bem a bicicleta, o pé escorregou e o corpo foi todo atrás. Lá em baixo era só pedras. Fiquei muito maltratada, estive em coma, parti a perna, costelas... Os ossos ainda estavam em formação e tive mais de um mês hospitalizada. O atletismo surgiu porque o meu cunhado era um dos treinadores do clube de Pechão e nessa altura fui para lá fazer exercício à perna. Tinha partido a perna em dois sítios. Foi recomendado pelo médico que fizesse desporto para ajudar na recuperação. Eu até nem gostava de fazer corridas, porque era gordinha. Fui ficando, fui ficando e foi ficando o bichinho.

E como foi o percurso académico?
Tirando esse ano em que tive o acidente, e perdi o ano porque não podia ir à escola, fiz sempre a escola de seguida, nunca chumbei, só no 11º ano é que preferi ficar a fazer disciplinas. Terminei o 12º já à noite. A partir daí já não quis fazer faculdade, quis apostar na minha carreira.

Tinha algum sonho de criança de ser isto ou de querer ser aquilo?
Sim. Era para ter iniciado o ano passado uma formação em Nutrição. Mas espero que este ano, entre outubro e janeiro, que é quando tenho menos treinos, possa tirar essa formação de nutrição e suplementação desportiva. É uma área que me apaixona e até já ajudo algumas mulheres no Pechão, faço planeamento de treino e ajudo na área da alimentação.

E no futuro vê-se a fazer o quê?
Tenho o curso de treinadora, mas enquanto for atleta quero só apostar na minha carreira.

Qual é o seu grande sonho?
Como atleta eu sempre quis ganhar uma medalha individual. Ganhei este ano na Taça Europa. Mas ‘a’ medalha tem que ser ou nos Jogos Olímpicos ou num Campeonato do Mundo ou num Campeonato da Europa. Esse é o meu sonho.

Só voa para Londres quatro ou três dias antes da prova porquê?
Porque Londres é já aqui e como não temos alterações de fusos horário nem de fazer habituação a temperaturas e horários, acho que não há necessidade de irmos mais cedo. A ansiedade aumenta ao ver os outros a competir e saber que a nossa prova é a última.
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