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Francisco Neto: “Sempre demos boa resposta nos momentos de exigência”

Selecionador nacional feminino desde 2014, o técnico natural de Mortágua esteve perto (a um golo, mais propriamente) de levar Portugal aos quartos de final do Europeu

Lídia Paralta Gomes

FOTO MIGUEL A. LOPES/LUSA

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Apanhámos Francisco Neto já praticamente de férias e ainda um pouco frustrado por ter ficado apenas a um pequeno passo do maior feito de sempre do futebol feminino português. Ainda assim, o Europeu da Holanda já é histórico: foi a primeira participação de uma seleção nacional numa grande competição e o técnico de 36 anos diz-se orgulhoso por as diferenças de ranking não se terem notado em campo.

Agora que já se passaram uns dias desde a eliminação do Euro, o que cresceu mais: o orgulho ou a frustração por termos estado tão perto?
Acho que ainda continuam paralelos. Continuo a sentir um orgulho imenso, até pela forma como fomos recebidos. Mas ao mesmo tempo, depois de ficarmos tão próximos de mais um feito histórico, que era a passagem aos quartos de final, como é lógico fica uma frustraçãozinha, ainda que com o sentimento de que tudo tentámos.

Se aqui há um mês lhe tivesse perguntado se acreditava que ao intervalo do último jogo da fase de grupos — e logo frente à Inglaterra —, seria possível Portugal estar virtualmente qualificado para os quartos de final, 
o que teria respondido?
Sabíamos que o jogo com a Espanha era muito complicado, pela forma como jogavam. Mas sabíamos também que, ganhando à Escócia, era possível chegar ao último jogo com possibilidades — o que acabou por acontecer. Quem recordar o apuramento sabe que Portugal sempre deu boa resposta nos momentos de grande exigência. Fomos à Finlândia, não podíamos perder pontos e empatámos. Depois em casa estávamos a perder 2-0 e virámos para 3-2. Na Irlanda, chegámos empatados aos 80' e, a precisar de ganhar, conseguimos marcar. E com a Roménia, no playoff, empatámos cá 0-0, falhámos um penálti e, mesmo quando todos pensavam que lá seria muito difícil, conseguimos o apuramento. Ou seja, esta equipa deu-nos sempre essa esperança e por isso acreditava que podíamos fazer algo diferente.

Ao intervalo informaram as jogadoras do resultado do Escócia-Espanha?
Não. Acima de tudo tínhamos de continuar focados naquilo que tínhamos feito de bom e não faria grande sentido criar ansiedade nas jogadoras. Assim, optámos por não transmitir logo. Mas a meio da 2ª parte, quando já estávamos a perder 2-1, aí sim, sentimos que as jogadoras precisavam dessa motivação extra.

Ali no final acha que podia ter arriscado um bocadinho mais?
Durante o jogo alterámos a nossa dinâmica: subimos as linhas, pressionámos mais alto, criámos dinâmicas internas com os posicionamentos das nossas médias e das nossas laterais, de forma a sermos mais ofensivos. E a verdade é que acabámos por criar mais uma ou duas situações que nos poderiam ter dado o empate. Arriscámos aquilo que sentimos que a equipa conseguia e conseguimos criar dificuldades à Inglaterra na parte final.

Sofreu mais na parte final do jogo contra Inglaterra ou nos últimos minutos contra a Roménia?
Ui, boa pergunta! Acho que com a Roménia. Foram 120 minutos e a oportunidade única de estar no Euro. Estávamos muito cansados, em casa do adversário e conseguimos fazer um golo num jogo muito difícil e nem sempre bem jogado da nossa parte. Com a Inglaterra, pela qualidade que apresentámos, consegui desfrutar. Sentia a equipa confiante, a fazer o que tínhamos trabalhado, a criar dificuldades. Estava a dar-me muito prazer a forma como estávamos a jogar.

Ainda durante o jogo podia ler-se nas redes sociais que a passagem aos quartos de final do Euro seria o feito mais improvável do desporto português desde século. É mesmo isso ou parece-lhe exagero?
Se olharmos para o número de praticantes, as condições dos últimos anos, o facto de ser a primeira vez que estávamos presentes e o diferencial para equipas como a Inglaterra ou Espanha, se calhar seria um feito muito improvável. Agora, para nós que estávamos lá dentro... nós acreditávamos! Mas temos ainda muito poucas jogadoras e as condições em que a maioria desenvolveu a sua formação são completamente distintas de uma Inglaterra ou de uma Espanha. Só há relativamente pouco tempo é que temos um plano para a formação e clubes com estruturas profissionais. O meu orgulho é que essa diferença não se notou dentro de campo.

Se há algo que podemos tirar deste Europeu é que a jogadora portuguesa tem talento. Mas começámos muito tarde. Como e quanto tempo será necessário para recuperar o tempo perdido?
O tempo não consigo precisar. Isto não depende só da FPF. A Federação tem um papel fundamental, tal como as associações e clubes - felizmente, o que sentimos é que toda a gente está a remar para o mesmo lado. Isso vai acelerar o processo. Aquilo que precisamos é de um bom trabalho de base, aumento dos praticantes, de campeonatos de base altamente competitivos e condições nos clubes para que as jogadoras possam evoluir. E estamos a crescer: temos cada vez mais clubes, mais campeonatos e mais treinadores com mais competências. Isso vai fazer com que as seleções se tornem melhores. Acima de tudo fico feliz porque está traçado o caminho, sabemos qual é o percurso e iremos com certeza no futuro ter sucesso.

A qualificação para o Mundial-2019 está aí à porta. Agora que os portugueses ganharam o gosto acha que lhe vão exigir a qualificação?
É normal que o façam, porque somos um país de futebol. Mas temos de perceber que as condições do feminino não são as mesmas das do masculino. Mesmo neste apuramento para o Mundial, continuamos a ser uma equipa de Pote 4, porque a subida no ranking é lenta e jogar o Euro não nos permitiu saltar para o Pote 3. Estamos no único grupo que tem três equipas do Europeu e ainda a Roménia, que foi a última a ficar de fora. Não consigo, como é lógico, dizer que estaremos no Mundial, mas vamos trabalhar para até à última jornada estarmos na luta.

Imagine que vai na rua e uma rapariga diz-lhe que vai jogar futebol inspirada por aquilo que viu no Euro. O seu trabalho está feito?
Sei que o trabalho não é só meu, é de uma equipa muito grande, mas fico realizado quando vejo raparigas que querem ser como a Ana Borges, como a Cláudia Neto, a Carole, a Dolores, como a Patrícia, a Sílvia, a Diana. É sinal que passámos a ser referência. Acho que as jovens sempre quiseram jogar à bola mas se calhar havia pais que não permitiam. Hoje em dia não, os pais têm orgulho. Isso para nós é uma conquista brutal e queremos que seja uma bola de neve que continue a rolar e a crescer.