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Maniche explica o que vai fazer na Madeira: “Gostava que a Camacha se tornasse num FC Porto do meu tempo”

Portugal, Alemanha, Espanha, Itália, Rússia, Inglaterra... O percurso de jogador de Nuno 'Maniche' Ribeiro levou-o a muitas paragens pelo mundo. Agora, aceitou embarcar numa nova aventura - na Madeira. O antigo internacional português vai assumir a presidência da futura SAD da AD Camacha e explicou à Tribuna Expresso o que pretende da equipa madeirense que atua no Campeonato de Portugal (o terceiro escalão do futebol português)

Patrícia Gouveia, na Madeira

Gregório Cunha

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A Tribuna Expresso entrevistou Maniche na freguesia da Camacha, precisamente junto ao monumento que marca o local onde se jogou futebol pela primeira vez em Portugal, antes do regresso do ex-jogador ao continente, onde irá a Amarante para ver o segundo jogo da AD Camacha. As intenções de Maniche são de elevar o clube camachense, apostando nos jovens e aproximando a Camacha da população local. A I Liga é um sonho bem lá ao longe, por isso, por agora, Maniche aposta baterias a uma subida ao segundo escalão do futebol português e, com o seu conhecimento, gostava de aproximar a AD Camacha a um FC Porto da sua altura.

Antes de mais, já provou bolo do caco?
(Risos) Já, já, muito antes de vir para cá. E gosto muito, sou fã. Conheço as tradições madeirenses, a minha decisão foi fácil de tomar porque gosto da ilha, gosto das pessoas da Camacha, são pessoas que se identificam comigo. Por isso foi fácil chegar a uma parceria e juntando esses ingredientes todos penso que só temos um caminho que é o sucesso.

Já é sabido que vem para a Madeira viver...
Sim, venho para cá viver.

E já anda à procura de casa?
Já, mandei alguém reservar-me umas casas, mas sei que não é fácil porque há muita procura. Mas a intenção é vir para cá rapidamente porque tenho de estar perto do projeto, perto dos jogadores.

Vai aproveitar para treinar com os jogadores estando aqui?
(Risos) Não, já deixei isso há algum tempo.

Nem uns 'toquezinhos' de bola?
Cada um na sua função neste momento. Temos que dar oportunidade aos jovens, acima de tudo. Eles agora têm que usufruir e nós temos de criar condições para eles terem todos sucesso também, porque o sucesso deles é o meu. Por isso estarei eu neste lado a fazer todos os possíveis para que não lhes falte nada e eles fazendo a parte deles, que é tentar jogar bem, mas, acima de tudo, dignificar a camisola da AD Camacha.

Já lhe pediram para fazer alguma promessa em relação a esse sucesso que se irá procurar?
Há promessas, mas acima de tudo, há sonhos que é elevar o nome da Camacha a outros patamares, chegar a uma II Liga o mais rápido possível e, quem sabe mais tarde, chegar a uma I Liga que era o desejo de todos os camachenses. Nós também não podemos andar a prometer coisas que, por vezes, demoram algum tempo. É um caminho que se vai fazendo. A ajuda de todos é muito importante para mim. Por isso digo que o clube não é meu, não é de ninguém. É de todos os adeptos e simpatizantes.

E qual é seu sonho?
É chegar à II Liga também. Era um sonho tornado realidade, ficando para a história da AD Camacha. Fazer elevar e crescer este sonho era muito bom.

Na conferência de imprensa de apresentação do projeto, falou do sonho do senhor Zé da rouparia...
Sim, o senhor Zé foi uma pessoa que me foi apresentada no dia antes da conferência e gostei muito dele, não só da pessoa como também da sua organização. Eu joguei em muitos clubes diferentes e por vezes os roupeiros não são assim tão organizados, mesmo em grandes clubes. Dei-lhe os parabéns porque é uma pessoa da casa e está cá há mais de 30 anos e conhece o que é a Camacha e nós temos de aprender e aproveitar beber da água que ele já bebeu e continua a beber. Então aquilo foi uma conversa bonita porque é um sonho dele ver a Camacha chegar à II Liga e viemos trabalhar para isso.

Com o longo percurso que tem, vem também trazer alguns conhecimentos que faltavam à AD Camacha.
Sim, tenho a certeza que vamos organizar melhor o clube. Não é uma crítica ao passado, é a realidade. Tornar o clube mais profissional, mais sério, mais responsável e obviamente tenho o know-how para o fazer e a experiência, modéstia à parte, para catapultar a Camacha a outros voos.

De todos os clubes onde jogou, qual aquele que gostava a que a Camacha se assemelhasse?
Gostava que a Camacha se tornasse num FC Porto do meu tempo. (risos).

Maniche na Camacha

Maniche na Camacha

DR

Falou em criar oportunidades para os jovens. Que tipo de oportunidades?
Nos clubes onde joguei aprendi a cultivar os princípios que os meus pais me deram e venho aqui com a intenção absoluta de, não só pensando no meu projeto pessoal, também de incorporar na sociedade, nos bairros, o projeto Camacha. Há famílias, hoje em dia, que não têm condições para dar aquilo que os filhos gostariam de ter, então, essa é uma parte importantíssima do meu projeto. Vou estar muito atento e talvez me vá ocupar demasiado - não direi demasiado porque é uma palavra exagerada, porque vou fazer por gosto -, mas a parte social vai ser uma parte importantíssima do meu projeto.

Em que consiste o projeto fora dos relvados?
Vamos associar a Camacha às escolas, aos hospitais, até mesmo às prisões, onde se pode fazer algumas visitas para também mostrar que o clube é um clube solidário, um clube que quer ajudar, que sempre foi, ao fim e ao cabo - e eu não estou a dizer nada mais do que aquilo que a Camacha é -, um clube trabalhador e humilde. Por vezes falamos muito em dinheiro, mas os valores que estão aqui patentes na Região, no concelho, no próprio clube cativaram mais para que eu aceitasse em tão pouco tempo um projeto com esta dimensão.

Tem pressa em vender jogadores ou fazer negócio com eles?
Não, é isso que falta nas grandes equipas. Querem ganhar, querem vencer e não querem formar e aqui temos uma prioridade que é formar primeiro o homem, educar, dizer ao miúdo, neste caso, à criança ou ao jovem, que primeiro é preciso estudar. Fiz o 9.º ano, foi aquilo que me permitiram fazer, porque já estava na seleção portuguesa com 15 anos e não podia conciliar a escola com o futebol.

Já teve oportunidade de se encontrar com os jogadores. O que lhes disse?
Que eu também estive sentado onde eles estão. Eles vão exigir muito de mim, e eu estou preparado para isso, mas vou exigir talvez o dobro daquilo que eles exigem a mim, porque sei aquilo que sou, sei aquilo que posso fazer e sei aquilo que posso dar e vou exigir. Acredito que vamos ter sucesso e os jogadores perceberam isso no balneário com a mensagem que transmiti, que é uma mensagem de exigência, porque só assim é que se tem sucesso.

É preciso suar a camisola.
As vitórias são relativas, podes chegar bem e podes perder, mas comigo sim, tens que suar a camisola, comigo tem que ser aquilo que eu aprendi, que a exigência e o trabalho dão resultado e foi isso que eu lhes pedi e de certeza absoluta que eles ouviram, escutaram bem, são jogadores inteligentes e têm qualidade, acima de tudo, senão também não estava aqui.

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Gregório Cunha

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Maniche, o novo líder do Camacha
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Maniche, o novo líder do Camacha

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Gregório Cunha

Agora referem-se a si como investidor ou dono do clube. Convive bem com essas novas expressões?
É engraçado, porque perguntaram-me: “Quer que o trate por senhor presidente, doutor, dono do clube?” Eu disse: "Por amor de Deus". Não sou doutor, não tenho um doutoramento. Essas são palavras que têm de ser usadas por causa do cargo, mas não gosto muito. Estou aqui como mais um, conquistei tudo na minha vida também em conjunto, em união e é isso que faz a diferença. É muito difícil, senão, vamos todos para o ténis e, aí sim, as pessoas fica com o mérito sozinhas. Neste caso é futebol, é diferente, e é preciso um trabalho de equipa.

Este projeto é uma espécie de prova às suas capacidades neste outro lado do futebol?
Se eu acredito e tenho vontade, vamos à luta. Neste momento, nós queremos as pessoas que dignificaram e vão dignificar a Camacha para sempre do nosso lado, porque têm uma paixão enorme por este clube. A Camacha não tem anticorpos, a Camacha é um clube que se dá bem com toda a gente, que se dá bem com os principais clubes da Madeira e é isso que venho fazer: incentivar a que isso aconteça mais vezes, interagir também.

É inevitável, neste tipo de conversas, falarmos em investimentos e quantificarmos esses investimentos. Até onde é que pode ir numa primeira época e depois nas épocas seguintes, se tudo correr como perspetiva?
É normal, compreendo a pergunta. Fizeram-me duas ou três vezes essa pergunta na conferência de imprensa. Não é uma questão de fugir à pergunta porque eu não fujo a nada. Se acompanharam o meu trajeto enquanto jogador - e vão ver agora - sou uma pessoa muito direta, muito frontal, não fujo a nada, porque não tenho nada a esconder. Sou uma pessoa liberta de todos esses sintomas de negatividade, que não tenho, porque não falto ao respeito a ninguém, tento sempre ser coerente e respeitar. O mais importante, neste momento, é acreditar no projeto. O clube saiu valorizado, favorecido e eu também, no futuro, de certeza absoluta que o vou ser. Juntou-se o útil ao agradável, falámos de futebol, falámos daquilo que a Camacha precisava no momento e daquilo que vai precisar para o futuro. Chegámos a um entendimento, acertámos as condições e o mais importante é que se chegou a um final feliz.

Como espectador privilegiado e conhecedor do futebol português, quais são as perspetivas que tem vendo o Benfica, o Porto e o Sporting a arrancarem com toda a pedalada na Liga portuguesa?
As expetativas são sempre as mesmas, são os três primeiros, cada um à sua maneira. O Benfica com a sua estrutura praticamente igual, entrando dois ou três jogadores, mas manteve praticamente os seus jogadores. Tem a sua organização, a sua filosofia, com um conceito definido. É o favorito, porque não mexe na sua estrutura.

E o FC Porto?
O Porto tem um treinador novo, capaz de elevar o clube a outra dimensão do que aquela em que esteve durante estes quatro anos que se passaram. É um conhecedor da casa, um homem com uma personalidade muito forte, muito trabalhador, que quer que o Porto seja forte e que vai exigir o máximo para que isso aconteça. Já vimos o Porto a jogar, está forte, está capaz. Era importantíssimo para estas três equipas estarem num princípio de época em que estivessem a ganhar para dar confiança aos jogadores, para elevar cada vez mais os níveis de confiança a outros patamares, mesmo nas competições europeias.

O Sporting também tem respirado confiança...
O Sporting está a apostar forte, investiu em jogadores com qualidade, agora é preciso saber se esses jogadores também se vão adaptar à realidade do clube. Conseguiu, neste momento, uma situação fantástica, que era importantíssima para o clube a nível financeiro, que foi a passagem para a Champions League. Ganhou também mais confiança quando foi a Guimarães ganhar por 5-0, isso dá um ênfase e um ânimo acrescido à equipa e nota-se que respira confiança. Por isso vamos ter um campeonato competitivo.

E os outros clubes?

Temos aí um Braga e um Guimarães, como sempre a tentarem aproximar-se dos grandes. O Marítimo também está na luta, está com um estádio fantástico. Parabéns ao Marítimo, é um clube também da Liga Europa, que está habituado a provas importantes. É bom quando a Madeira está bem, quando os clubes da Madeira estão bem e nós também queremos fazer parte dessa estrutura, fazer parte do futebol português ao mais alto nível. Vamos trabalhar para que isso aconteça e esperamos que a curto período, pode não ser em três ou quatro anos, mas que seja o mais breve possível. O futebol é imprevisível e vamos lutar contra muitas situações adversas que teremos pela frente, mas vamos tentar estar preparados para isso.