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Sally Fitzgibbons: a surfista que bateu no fundo, mudou a forma de surfar e chegou a Cascais como número um do mundo

Há um ano, em Cascais, a surfista australiana teve uma espécie de reality check. Sentiu-se sem saída, percebeu que tinha de mudar e mudou o seu estilo de surfar algo mecânico e robótico. Sally Fitzgibbons, 26 anos, é agora líder do circuito mundial, está mais feliz e, agora sim, sente que está perto de ser campeã

Diogo Pombo

AFP

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Sally Fitzgibbons está fechada no quarto do hotel, em Cascais, e sente o corpo, os olhos, a cabeça e o que ela leva dentro, pesados. Apetece-lhe deitar tudo cá para fora, chorar, deixar descambar tudo que está a sentir e que se acumulou num monte onde não cabe mais uma migalha. Sente que bateu contra uma parede e não há maneira de lhe dar a volta. Não vai evoluir, não conseguirá melhorar, não é capaz de surfar de outra maneira, nunca será mais do que a vice-campeã do mundo que foi em 2010, 2011 e 2012.

Sente que estagnou, pior ainda, regrediu.

Está a encolher para a pior versão dela própria. Aquele momento tem-na como a surfista australiana mais meticulosa, que mais se cuida, que mais a sério leva o treino. São competências e reputação reconhecidas por toda a gente no circuito mundial de surf no qual ela já se aproxima dos lugares de despromoção.

A etapa do ano passado do Cascais Women’s Pro devasta Sally Fitzgibbons, a realidade agarra-a, sacode-a e deixa-a, no fim, embrulhada num vício de dúvidas. “Senti-me presa. Quanto mais tentava, mais para trás ficava. Simplesmente não via uma saída. Apercebi-me que não estava preparada para ser a surfista que queria tanto ser”, admitiu, há semanas, no Players’ Voice, site australiano para desportistas escreverem e desabafarem.

Agora está aqui, de volta a Cascais, menina bonita e bronzeada, bem-disposta e de sorriso fácil na cara. Batida no fundo que foi um trampolim para estar assim. É a líder do ranking mundial feminino, lugar onde já estivera algumas vezes, nunca assim. Não com esta personalidade, que lhe é inata, mas com o surf que hoje tem: solto, fluido, um quê de descontralado pelo improviso, mais despreocupado e criativo. Custou-lhe deixar de ser mecânica a pensar no mar e a surfar nas ondas, como se houvesse uma fórmula exata para ser bem pontuada pelos juízes, confessa quando conversamos.

A adolescente prodígio que foi na Austrália, atleta de pista e meio fundo, a correr para ganhar provas de 800 e 1.500 metros, habituaram-na a pensar que tinha fazer isto e aquilo entre a partida e a meta para cumprir um objetivo. Esta lógica robótica alastrou-se para o surf de Sally Fitzgibbons, limitou-a e fê-la perceber em Cascais, no quarto de hotel, que tinha de mudar algo para render sempre nos grandes momentos e esse rendimento torná-la campeã do mundo.

Damien Poullenot

Li um texto em que escreveste que, em 2016, esta etapa de Cascais mudou muita coisa na tua vida.
O ano passado não foi o meu melhor em termos de resultados e isso deu-me a oportunidade de desconstruir muito o meu surf. Quais são as partes que quero mesmo manter? E quais são aquelas em que tenho de melhorar? Olhei para tudo como deve ser e vim para este evento, em Cascais, e não fui bem sucedida. Mas foi o que aconteceu depois, o tipo de treino que fiz, que me deixou fazer um reset e passar por uma fase emocional, como atleta, em que não sabes bem o que estás a sentir, mas sabes que não está certo.

Como lidaste com isso?
Deixei a água passar por debaixo da ponte e começar do zero.

Foi a coisa mais difícil que tiveste de fazer na tua carreira?
Yeah, quando reflito sobre isso, lembro-me das alturas complicadas pelas quais passei. É difícil explicá-lo, porque é mais um sentimento do que outra coisa. Queres estar num estado calmo, com confiança, mas começas a duvidar de ti própria. É muito complicado explicar um sentimento, foi uma fase muito emotiva para mim. Estava tipo: “Não sei o que hei-de fazer, será que tenho de começar do início? Ou talvez não, não sei”.

No meio de tudo isso, teve que existir uma altura em que aceitaste e reconheceste que terias de mudar.
Sim, sim. Acho que tens de evoluir quando o desporto está a mudar tão rapidamente. Vês o nível em que o surf está e o nível aumenta todos os anos, gradualmente. O ano passado senti que não tinha ferramentas para os grandes momentos para render. Este ano sinto que tenho, mas ainda não aproveitei bem as oportunidades, em termos de ondas, durantes os meus heats. Sinto que podia fazer algumas coisas para facilitar a vida a mim própria. Mal posso esperar para vestir a licra aqui e aprender em tempo real.

Tantos anos depois, como foi ter de mudar o teu estilo de surf?
Um pouco de loucos, porque, com os anos, vais ficando com rotinas que se tornam automáticas. Tive de começar a dizer a mim própria “não, não quero fazer isto assim, não quero estar com esta posição do corpo, nesta manobra”.

Um pouco como lutar contra o instinto?
Sim. Por tradição, sempre fui uma surfista de baixa postura e quis começar a ter uma postura mais direita, vertical, dar mais comprimento às minhas linhas na onda. Quis mesmo dar algo novo ao meu surf. Isso levou tempo e energia e ainda é um trabalho em progresso. Mas sinto que, este ano, estou um passo mais próxima de conseguir o meu objetivo.

Pareces estar feliz e bastante confiante.
Sim, e estou! Acho que despertou em mim uma sensação de divertimento, sabendo que mergulhei num processo de pensamento sobre o que queria fazer, no qual ainda estou, mas já há uma luz sobre o que consigo fazer. E estou a desfrutar disso.

Já foste vice-campeã mundial por três vezes e chegas aqui como líder do ranking mundial.
Sinto-me muito bem. E, sobretudo, calma, já que, se tenho o objetivo de ser campeã do mundo, então teria de agarrar esta licra [a surfista que lidera o circuito compete sempre com uma licra amarela] e aguentá-la. Mas há quatro pessoas na corrida e estou a encará-la da forma como está o ranking, que está super renhido [Sally tem uma vantagem de 300 pontos sobre Courtney Conlogue, à entrada para o Cascais Women’s Pro]. Não diria que estou numa posição em que posso encostar-me e navegar até ao fim.

Mas isso não te põe nervosa?
Não, porque já estive nesta posição algumas vezes, na corrida ao título, e aprendi muitas lições. Partindo dessas experiências, agora fico bastante entusiasmada em vez de ficar tensa ou nervosa. Quero muito dar um passo em frente nos grandes momentos. Vês a porta entreaberta e só queres abri-la e entrar! Sinto que tenho as capacidades para estar nessa posição.

Gostar de competir aqui em Portugal?
Sim, gosto de vir cá e sentir-me parte da cultura do surf em Portugal. Acho que é uma comunidade com muita energia, vejo cada vez mais pessoas a surfarem e a manterem-se saudáveis e em forma. Quando vens cá e vais surfar, sentes uma paixão autêntica pelo surf quando estás na praia. Já são mais de 10 anos a vir cá e a ver as mesmas pessoas e tenho sempre vontade de voltar.

Mencionaste essa parte de as pessoas serem saudáveis e fazerem por estar em forma. Tens um projeto na Austrália dedicado a isso, certo?
Claro. O ano passado, quando os meus resultados não estavam a ser muito bons, foquei-me em alguns projetos e um deles foi criar uma app de fitness e treino. E assim pude criar uma espécie de comunidades em vários países e dar o poder às pessoas para criarem a melhor versão delas próprias. De se manterem em forma através de vários exercícios e rotinas. Tem sido cool ver como as pessoas, em todo o mundo, se vão tornando mais conscientes da importância de se manterem em forma.

Isso não te distraiu um pouco do surf?
Acho que não. Porque o ano passado deu-me muita energia. Deu-me um sentido de propósito, até quando senti que o meu surf não estava como queria, foi um período de reflexão muito positivo. Foquei-me nas coisas que adoro da minha rotina do dia a dia. Treinar e sentir-me saudável e em forma, enquanto estou no mar, faz-me sentir poderosa e forte. Este ano não surfei mais do que surfei nos últimos anos, mas sinto que o meu surf está a contar uma história diferente.