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Manuela Machado: “Fiz cinco inseminações in vitro. Não consegui ser mãe”

Aos 54 anos, Manuela Machado continua a ser um poço de energia. Funcionária publica há 14 anos na Câmara Municipal de Viana do Castelo, dá aulas de atletismo aos jovens das escolas do concelho e continua a fazer a sua corridinha diariamente. Sempre de sorriso estampado no rosto, passa em revista uma vida ligada ao atletismo em que a única mácula foi não ter conseguido ganhar uma medalha olímpica

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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Nasceu no seio de uma família humilde e numerosa.
Sim, somos quatro filhos, pai e mãe. Sou a terceira de quatro. O meu pai era pedreiro e a minha mãe doméstica. Um família humilde, mas feliz; nunca faltou nada à mesa, nem em termos de brincadeiras e carinhos.

Era uma criança irrequieta?
Bastante, era uma maria-rapaz. Mais do que com bonecas, gostava dos cowboys, da bola. Gostava muito mais dessas brincadeiras. E gostava bastante de correr e dos desportos todos. Embora o atletismo tenha aparecido bastante mais tarde.

E na escola, era boa aluna?
Era. Gostava de matemática e português. Sempre com boas notas. De início estudei só até o 6º ano. Não quis mais. Mais tarde achei que era importante e fiz o 12º ano, mas tenho pena de não ter seguido porque é importante.

Na altura foi trabalhar?
Não. Primeiro fiquei por casa a ajudar a mãe nas coisas da casa. Só fui trabalhar com 14 ou 16 anos. Aquilo não era bem trabalhar. Eu ficava com os miúdos de uns vizinhos meus, que eram professores. Eles tinham um hotel e mais tarde uma empresa de agroturismo, a “Quinta Dom Sapo”, para onde fui trabalhar depois, durante 12 anos.

Fazia o quê?
Tudo. Eles não tinham restaurante, mas faziam muitos eventos, casamentos, muitas festas e eu ajudava nessa parte toda da organização.

Manuela Machado com o irmão José Machado, que a levou para o atletismo e a irmã

Manuela Machado com o irmão José Machado, que a levou para o atletismo e a irmã

Chega ao atletismo tarde, com 18 anos, pela mão do seu irmão mais velho.
Sim. Eu gostava muito de ver os Jogos Olímpicos, os Campeonatos do Mundo, a Rosa Mota, a Aurora Cunha. O meu irmão já corria. Num domingo de manhã, em maio, numa aldeia em frente à minha, havia umas festas, onde se realizavam pequenas corridas. Ganhava-se uma varinha mágica ou uma panela de pressão, um cobertor, esse tipo de coisas. O meu irmão desafiou-me para participar na corrida. Não tinha roupa adequada, mas peguei numas calças de ganga, cortei e fiz uns calções, pus uma t-shirt, e lá fui eu e o meu irmão. Nunca tinha feito um treino muito menos uma corrida e estavam lá muitas atletas, já com nome a nível nacional. Deram o tiro de partida, fui para a frente e nunca mais ninguém me apanhou. Era uma corrida de 8 kms e cheguei à meta com um avanço enorme.

O que levou para casa?
Uma taça enorme. Andei todo o domingo pela aldeia a mostrar a taça. Ainda a tenho.

O que disseram os seus pais?
Os meus pais, apesar de serem pessoas que não tinham muita cultura desportiva, deram-me logo um apoio incondicional. Sou do tempo em que não havia raparigas aqui a correr; cheguei a ser insultada muitas vezes na rua. “Melhor se estivesses em casa”, “melhor se estivesses a trabalhar, andas para aí pareces um rapaz”, “olha o que foi acontecer agora a esta rapariga a andar a correr pela estrada”. Quantas vezes ouvi isto. Eu chegava a casa triste mas os meus pais: “Tu não ligues, não ligues. Nós é que somos os teus pais”.

Com a mãe e o pai

Com a mãe e o pai

Depois dessa corrida começou logo a treinar?
Logo.

Onde?
Sozinha. Ia eu, o meu irmão, um rapaz da minha aldeia e uma outra rapariga da minha idade, que também era outra maria- rapaz e andava comigo na escola. Dois meses depois, começámos a procurar um clube de atletismo e viemos ter a um clube de atletismo aqui da Meadela, o “Montinho e Meadela”. Foi aí que começámos, com o senhor José Alves, que já faleceu, e com o professor José Luís - pessoas fantásticas.

Como eram os treinos?
Os treinos eram “partir a matar, chegar a morrer” (risos). Todos os dias o mesmo percurso. Não tínhamos treinador, não sabíamos o que era correr, nem sabíamos o que eram séries, ou treino controlado, não sabíamos nada.Todos os dias fazíamos o percurso e todos os dias tínhamos que melhorar, nem que fosse dois segundos, ou três.

Quantos quilómetros tinha o percurso?
Entre seis e sete quilómetros.

Treinou assim quanto tempo?
Dois anos.

Dois anos sem treinador?
Sim. Por conta própria, com esse clube que me apoiou imenso.

E fez mais provas nessa altura?
Muitas. O senhor levava-nos a Lisboa. Ele é que pagava tudo do bolso dele. Levava-nos a Lisboa, a Braga, a todo o lado. Muitas vezes era por aqui, para Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Monção, Melgaço. Ele tinha uma carrinha de carga de caixa aberta, era construtor; então, ele punha um toldo em cima e nós íamos ali metidos. Era uma alegria, íamos todos na brincadeira. Era fantástico. Até que, numa passagem de ano, levou-nos a Braga, para a São Silvestre, e eu ganhei às atletas do Sporting Clube de Braga. No dia seguinte tinha a Sameiro Araújo, o Tinoco e o senhor José a bater-me à porta. Vinham convidar-me para ir para o Sporting de Braga.

O que é que ela lhe disse em concreto, lembra-se?
Disse que me viu correr e que gostou imenso. Viu que eu tinha muitas qualidades e que o Braga estava a precisar de uma atleta para ir à Taça dos Clubes dos Campeões Europeus, a Itália, e eu era a atleta que ela tinha visto com qualidades para ir.

Logo assim?
Logo assim. Eu, que nunca tinha saído de Portugal, nem andado de avião, disse logo que sim.

Não lhe ofereceu dinheiro? Foi só assim, precisamos de uma atleta?
Foi​​. Eu não a conhecia, sabia que era treinadora de atletas como a Conceição Ferreira ou Albertina Machado. Eu sabia que era fraca à beira delas, mas disse logo que sim, para ir andar de avião (risos). Ora, uma miúda de uma aldeia de Viana do Castelo, onde não havia quase ninguém a correr, habituada a ganhar panelas de pressão, varinhas mágicas, a ser convidada pelo Braga, claro que disse logo que sim.

Gostou da experiência de viajar para fora do país?
Adorei. Aquelas coisas de se comer no avião, alguma vez eu sabia que se podia comer no avião? Em 1984/85 acho que quase ninguém na minha aldeia tinha andado de avião.

Manuela Machado durante a entrevista, em Viana do Castelo

Manuela Machado durante a entrevista, em Viana do Castelo

Rui Duarte Silva

Lembra-se como foi o primeiro treino com a Sameiro?
Perguntou-me que tipo de treinos eu fazia e eu respondi exatamente: “partir a matar, chegar a correr”. Com ela comecei a treinar por tempo e não por quilómetros. Dizia-me: “Amanhã vais correr 50 minutos”, e eu ficava a pensar “50 minutos quantos kms dará?”. Depois ensinou-me o que eram séries, treinos controlados, com intervalos. Foi assim. Tudo diferente e novo, mas habituei-me bem.

Quais as distâncias que corria?
Todas. 800m, 1.500m, 5.000m. Só mais tarde as meias maratonas. A Sameiro, muito mais tarde, disse-me que viu logo nas minhas qualidades que eu ia ser uma atleta de meio fundo, fundo.

Nessa tal Taça dos Clubes, em Itália, em que lugar ficou?
Fui a 4ª atleta do Braga. Durante 10 anos fui sempre um segundo plano. Era sempre eu que fechava a equipa.

Quando é que faz a primeira maratona?
Só sete ou oito anos depois.

Nas provas em que ia participando, ganhava sempre?
Não. Nos primeiros anos no Braga, comecei a correr com atletas de outro nível, como a Rita Borralho, Lucília Soares e muitos outros nomes do atletismo nacional; já não fazia estas corridinhas daqui de Viana e de Ponte da Barca, já eram corridas de outro nível e não vencia, mas nunca me preocupei porque eu gostava tanto de correr que para o mim o vencer não era o mais importante. Sentia-me muito acarinhada no Braga e a Sameiro também me ensinou muito. “Calma que vais ser uma grande atleta. Temos que treinar com calma e não querer tudo de uma vez, porque tu vais ser uma grande atleta.” Ela sempre disse isto e sempre confiei nela.

Quando é que deixa de trabalhar no agroturismo?
Em 1992. Fui aos Jogos Olímpicos e a um Campeonato do Mundo a trabalhar 8 horas por dia. Estive no Sporting de Braga 10 anos sem ganhar provas. Uma vez fui a uma corrida a França, com a Conceição Ferreira e a Albertina Machado. Fui fazer 15 kms em Saint-Denis e nunca tinha ganho a nenhuma delas. Nessa corrida mantive-me sempre no grupo delas e pensava: “Meus Deus, eu vou aqui com a Conceição Ferreira e com a Albertina Machado na frente!”. E quando faltavam uns 4 kms, fui-me embora. Eu já sentia há um ano que lhes poderia ganhar, mas tinha respeito por elas, eu era um segundo plano, elas eram os grandes nomes... a Conceição Ferreira venceu muitas taças do Campeonato Europeu de Estrada.

Ou seja, nunca esticou...
Não, porque tinha respeito por elas. Mas nessa prova fui embora. Depois, no primeiro campeonato do mundo a que fui, em Tóquio, em 1991, fui 7ª. Fui a melhor portuguesa.

Mas antes disso estreia-se na maratona.
Sim, em Paris, em 1989. A Sameiro conseguiu preparar-me para ir a uma maratona, mesmo trabalhando ainda 8 horas/dia. Treinava muito pouco. Quando ela me disse que estava na altura certa de fazer a maratona, eu disse-lhe: “Ó Sameiro tu não estás boa, fazer uma maratona 42 kms?”. Mas ela garantiu-me que eu conseguia e acrescentou: “Quero que faças duas horas e 45, não quero que faças menos”. Eu só treinava uma hora por dia, não treinava mais, e ela queria que eu fizesse duas horas e 45!

E fez?
Ela escreveu-me no braço: aos 5 quilómetros passar a x tempo, aos 10 a x, aos 15 x. Escrevia os quilómetros e o tempo que eu tinha que passar. Não havia GPS’s, nem tinha aquelas coisas que hoje toda a gente tem e que conta quilómetro a quilómetro. Nunca corri com cronómetros. Lembro-me, que aos 10 quilómetros, ela mandou-me passar com 40 minutos e eu passei com 38. Parei dois minutos à espera dos 40 minutos.

Parou?
Parei. Então, se ela me mandou passar com aquele tempo! Quando cheguei à meta, se forem ver, fiz 2h45m, exactamente como ela me disse (risos).

Deitada na pista do Estádio Municipal Manuela Machado

Deitada na pista do Estádio Municipal Manuela Machado

Rui Duarte Silva

Fez mais maratonas enquanto trabalhava.
Fiz. Em 1990 fui fazer uma maratona aos EUA. Eu e a Conceição Ferreira, que ganhou com 2h30 e eu fui 4ª com 2h36. Ligamos à Sameiro todas contentes porque eram mínimos para o Campeonato do Mundo. E a Sameiro pergunta-me: “Foste de bicicleta?”. Porque eu não treinava quase nada, às vezes trabalhava 9h/dia ou mais. Era o meu trabalho, que eu gostava muito de fazer e era o que me dava dinheiro no final do mês. O atletismo era divertimento, já gostava, mas nunca pensei que seria o meu trabalho mais tarde.

Não ganhou dinheiro nessa prova?
Ganhei 10 mil dólares. Era muito dinheiro, nunca tinha ganho dinheiro no atletismo.

O que fez com esse dinheiro?
Meti no banco. Nunca tinha visto tanto dinheiro.

Já era casada?
Casei precisamente em 1990. Tinha 27 anos.

Como é que conhece o seu marido?
Eu corria e ele era ciclista. Costumo dizer que conheci-o na estrada e ganhei a vida na estrada. (risos). Gosto muito de atletismo, mas acho que hoje ele gosta muito mais de atletismo do que eu.

Viviam juntos nessa altura?
Alguma vez! Ele estava na casa dos pais e eu estava na minha. Alguma vez naquela altura... se os nossos pais soubessem que dávamos uns beijinhos (risos). Os nossos pais não falavam dessas coisas, havia vergonha. Fui aprendendo. O atletismo ensinou-me muito, fez-me crescer. O que aprendi em todas as áreas da vida foi com o atletismo, com a convivência com outras pessoas. Cresci muito e ensinou-me muito.

O que fazia o seu marido profissionalmente?
O meu marido era mecânico, trabalhou numa oficina, mas acho que aí já era funcionário da Câmara, também na área da mecânica.

Durante a maratona de Gotemburgo, em 1995

Durante a maratona de Gotemburgo, em 1995

Nos Campeonatos do Mundo de Tóquio correu pela primeira vez ao lado da Aurora Cunha e da Rosa Mota. O que é que sentiu?
Uma emoção enorme e um imenso respeito.

Já as conhecia?
Não, só de ver na televisão.

Foram simpáticas?
Sim. Fomos um grupo grande. A Lucrécia Jardim, Carla Sacramento, Elsa Amaral, Marta Moleira, Natália Moura, António Abrantes, Pedro Rodrigues... Portugal levou uma equipa de quatro nos 400m, 4x100. Tínhamos também atletas nos 100 metros. Imensa gente e eu fui a melhor portuguesa. Fui 7ª. Parti com muita calma, não sabia o que era correr num campeonato do mundo. A Sameiro deu-me as indicações todas, eu parti com muita calma cá de trás. À meia maratona apanhei a Aurora Cunha e fiquei arrepiada. Mas fui e ela desistiu. Aos 30 quilómetros apanhei a Rosa Mota. A Rosa olha e pergunta: “Aqui?!”. Eu pensei: “Realmente eu aqui no grupo da frente, o que é que eu estou aqui a fazer?”. Mas estava bem e um quilómetro depois a Rosa desiste e eu acabei por ser 7ª. A melhor portuguesa da comitiva. E pronto.

O que é que se sente nesses momentos?
Olhe, eu nem sei o que senti. Estava feliz, a Sameiro estava feliz, a Federação estava feliz. Eu nem acreditava.

Tinha acabado de ser melhor do que dois “monstros” do atletismo português...
Nem corri mais com a Rosa, que se afastou naquela altura. A Aurora ainda foi comigo aos Jogos Olímpicos de Barcelona.

JO de Barcelona onde também ficou em 7º.
Sim. Nessa altura ou ganhava ou era 7ª.

Nessa altura quem eram os seus ídolos?
Por incrível que pareça não eram portugueses. Eu gostava da Joan Benoit e da Ingrid Kristiansen. A Ingrid corria os 10 mil, sempre com luvas brancas, e a Joan Benoit a maratona. Mal davam a partida elas iam logo embora e eu gostava daquilo. Claro que gostava de ver as portuguesas correr, mas aquelas duas eram as que me chamavam mais a atenção.

Quando foi aos JO Barcelona ainda trabalhava?
Sim. E fiquei em 7º, fui a 2ª melhor portuguesa de todas as modalidades. O melhor português foi o José Garcia na canoagem que foi 6º.

Depois seguem-se os Mundias de Estugarda.
Depois, a Sameiro teve uma conversa comigo, veio a minha casa pedir-me para deixar de trabalhar. Eu tinha medo de deixar de trabalhar porque eu não ganhava nada com o atletismo, e tinha o meu ordenado ao final do mês.

O Sporting de Braga não lhe ofereceu remuneração?
Só a partir daí é que comecei a ganhar 10 contos, 50 euros. O clube pagava-me também as viagens para eu ir treinar a Braga. Mas 10 contos era menos do que recebia no agroturismo.

Hesitou em deixar de trabalhar?
Hesitei. Não disse logo que sim. Só que a Sameiro insistiu e os meus pais também incentivaram e disseram: “Deixa de trabalhar, nós estamos cá para ajudar, nunca deixámos faltar nada e não vai ser agora”.

Mas sentia que era cada vez mais difícil fazer as duas coisas ao mesmo tempo, ou não?
Eu levantava-me às 6 da manhã para apanhar o autocarro para Viana do Castelo, para depois apanhar o comboio para Braga. Chegava a Braga às 9 da manhã, treinava, vinha de autocarro outra vez, chegava a casa às duas e ia trabalhar. Às vezes chegava a casa às dez da noite. Às vezes ia trabalhar de manhã, quando treinava à tarde. Só deixei de trabalhar no final de 1992.

Manuela Machado no momento em que chegou à meta, em Gotemburgo

Manuela Machado no momento em que chegou à meta, em Gotemburgo

Mike Hewitt

A preparação para os campeonatos do Mundo de Estugarda já foi diferente.
Sim, deixei de trabalhar e comecei a treinar duas vezes por dia, de manhã e à tarde. Foram quatro meses de preparação. Entretanto a Sameiro disse para fazermos um teste de 30 quilómetros, muito perto já da maratona, para ver como eu estava. O meu irmão e o meu amigo Luís Araújo vieram ajudar. Marcámos a estrada de Viana a Âncora, nos 5, 10 e 15 quilómetros. Aos 15 quilómetros, voltávamos novamente para Viana. Fui deixando ficar os homens (risos). Partiram comigo, mas um fazia 5 quilómetros, outro entrava aos 5 quilómetros, e fazia até aos 10 quilómetros, o outro descansava porque depois fazia a seguir, para conseguirem aguentar. E fui vice campeã do Mundo. A japonesa passou-me a dois quilómetros da meta. Não fui campeã do Mundo porque os ares condicionados dos aeroportos faziam-me muito mal e estava meio adoentada.

Foi a primeira vez que subiu a um pódio numa competição mais importante. O que sentiu?
Não me importei de ser 2ª, nem que fosse 3ª. Eu nem acreditava que ia ali no 1º lugar.

Mas o que é que aconteceu para ela a passar?
Estava cansada, bastante cansada. Eu já ia esgotada, vê-se nas fotografias. Mas nem que fosse terceira, para mim já me chegava. Conseguir no segundo campeonato do mundo, depois de deixar de trabalhar, e ganhar uma medalha...

Foi aí que deu o salto.
Até aí não tinha apoio de nenhuma marca desportiva, não tinha nada. Foi a partir daí que começou a minha carreira de alta competição. A partir de 1993, o atletismo foi o meu trabalho. Apareceu mais dinheiro. Tive propostas de outros clubes, do Maratona, Futebol Clube do Porto, Sporting, clubes grandes. O Sporting de Braga sempre me pagou menos, mas era lá que me sentia bem. O apoio das colegas, de todas elas, desde as iniciadas até às séniores. Para mim aquele carinho de balneário era muito importante, mais importante do que o dinheiro.

Nessa prova em Estugarda foi também a primeira vez que contrariou as ordens de Sameiro Araújo.
Foi a primeira vez de várias vezes a seguir que as contrariei (risos). Porque a Sameiro dizia-me: “Vais no grupo até “x” kms, só depois quando eu te mandar sair é que tu vais”. Só que eu parecia que ia a pastar, as pernas tinham que andar mais, e pensei: “Eu é que estou aqui, a Sameiro não tem noção do que é correr a maratona”. E avancei.

Não foi isso que levou a ser ultrapassada pela japonesa?
Não, não.

Enquanto não foi ultrapassada deve ter pensado na vitória.
Claro. Pensava: “Fogo, vou ser campeã do mundo, isto é estranho, isto é muito estranho para mim”. Mas com o 2º lugar fiquei muito satisfeita.

Essa é uma imagem de marca. O seu sorriso rasgado. Sempre foi assim, nunca sentiu medo antes de uma prova?
Quem me conhece sabe que a corrida não me fazia stress. Para mim era uma alegria. Uma coisa natural. Eu brincava, ria, divertia-me, no dia da corrida e antes. Na véspera não ia para a cama à hora. Uma vez, fugi da Sameiro, em Gotemburgo. A Sameiro dizia-me: “Tens que te deitar cedo”. Mas, para mim, deitar cedo era uma seca.

Com a bandeira portuguesa na volta à pista, depois de se tornar campeã do mundo, em Gotemburgo

Com a bandeira portuguesa na volta à pista, depois de se tornar campeã do mundo, em Gotemburgo

Clive Brunskill

Isso foi em 95, quando conquistou o título mundial na maratona.
Sim. Mas na corrida era bastante concentrada, controlava as atletas, as adversárias. Não pensava em nada. Concentrava-me muito, porque também não as conhecia bem. Eu conhecia as atletas pelos tempos. Mas se o meu tempo era para aí o 20º, isso nunca me preocupou. Lá por ter o 20º tempo não quer dizer que eu ia ser a 20ª; eu tenho é que ir com elas na frente. Em Helsínquia, em 1994, contrariei a Sameiro e fui campeã da Europa. Aos 15 quilómetros, íamos um grupo de 25, a Sameiro disse-me: “Puxa um bocadinho para ver se ficam algumas”. E eu puxei e ficaram todas. À meia maratona a Sameiro disse: “És maluca, eu não te disse para fazer isso, disse puxa um bocadinho mas não era para puxares dessa forma”. Corri depois meia maratona sozinha. E ela aflitíssima (risos).

Ajuda sentir o “bafo” do adversário em cima?
Ajuda. Ajuda a controlar melhor. Mas se eu queria ser campeã… Em Budapeste, em 98, fiz tudo o que a Sameiro mandou, mas ia tão cansada de ir ali, tão cansada de ir ali (risos). Mas eu tinha-lhe dito: “Sameirinho, desta vez eu vou cumprir as tuas orden, eu juro que vou cumprir”. E ela: “Só sais quando eu mandar, porque o grupo é muito forte, estão atletas com grandes marcas”. Eram atletas com marcas na casa das 2h21, eu tinha 2h25. Mas nós sabíamos que eu estava muito bem porque já nos treinos ela estava sempre a dizer “mais devagar”. Mas eu não conseguia ir mais devagar porque as pernas iam sozinhas. Mas daquela vez cumpri. Ao completar os 20 kms já eu queria ter ido embora há tanto tempo, mas esperei até aos 30. Aos 30 ela estava junto ao rio em Budapeste e disse: “É agora”.

E arrancou em grande velocidade.
Se forem pesquisar, dos 30 quilómetros aos 35, foram os 5 kms mais rápidos da maratona toda. É quando eu saio. Corri depois 12 quilómetros sozinha. Veio uma russa atrás de mim, que acabou por ser 2ª. Havia imensos atletas portugueses de bicicleta ao meu lado, a acompanhar e dar força, “vai Manela, vai Manela”. Sei que o Fernando, o lançador do martelo, até meteu a roda da bicicleta no carril do metro, e deu um tombo. Depois deixaram as bicicletas em qualquer lado para entrarem no estádio e as bicicletas foram roubadas. Nem se importaram nada, eles queriam era estar no estádio para me abraçar. Era uma amizade...Não é como agora. Na altura, tu tinhas os atletas da velocidade, dos lançamentos, da marcha, todos na rua a apoiar-te.

Como é que explica essa mudança?
Não sei. Quando deixei a competição ia falando com várias atletas que ficaram e aos poucos começaram a dizer que já não é o que era no nosso tempo. Havia mais amizade, não havia tanta rivalidade e dinheiro. Nós começámos a ganhar dinheiro tarde. Começou a aparecer muito dinheiro e o dinheiro às vezes estraga. Não se corre por prazer, não se corre por gosto. Para mim, era muito mais importante vestir a camisola da selecção do que vestir a camisola de um patrocínio na maratona de Londres, ou na maratona de Nova Iorque ou de Tóquio. E fui ao pódio de todas essas grandes maratonas, mas a minha preparação e a minha concentração com a camisola da seleção era muito mais importante. Se calhar para os atletas de hoje não é assim. Para mim era muito mais importante ganhar uma maratona de um campeonato, do que ganhar uma maratona comercial.

Manuela Machado ainda tem o Mercedes que ganhou em Gotemburgo e que na altura ofereceu ao marido

Manuela Machado ainda tem o Mercedes que ganhou em Gotemburgo e que na altura ofereceu ao marido

Qual foi o caché mais alto que ganhou numa maratona?
100 mil dólares. Imenso dinheiro. Eu fui vice campeã do Mundo em 93, campeã da Europa em 94, campeã do Mundo em 95. Só os Jogos Olímpicos, o meu sonho, e que devia ser o ponto mais alto da minha carreira... eu tinha que ter ganho nesses jogos. Obrigatoriamente, tinha que ter ganho.

Porque é que não aconteceu?
Eu tinha que ter ganho uma medalha porque trabalhei imenso. Nunca fiz estágios fora de casa porque achava que não era importante, e por causa dos JO saí da família, saí da minha casa e fui fazer estágio para Barcelona, durante 15 dias. Fui para Atlanta 15 dias antes. Acho que foi isso que me matou.

O quê?
Excesso de trabalho, cansaço. Só pode.

Mesmo desiludindo nos JO foi a estrela na maratona de Tóquio em Novembro.
Sim. Antes dos Jogos fiz um contrato fabuloso porque era suposto eu chegar aos JO e arrasar. Ainda por cima em Tóquio não tinha que se deixar os 10% que temos de deixar em todas as maratonas. Além dos 10% para o manager.

Quem era o seu manager?
Luís Filipe Posso. Ainda hoje está ligado ao futebol.

Como é que surgiu esse manager?
No Campeonato da Europa em Helsínquia, ele apresentou-se à Sameiro e disse-lhe que gostava de ser o meu empresário e assim foi.

E qual era o papel dele? Arranjar a participação nas maratonas?
Tudo. Maratonas, eventos, marca desportiva, foi ele que me arranjou na altura a Nike. Ganhava 10% de tudo o que me arranjava. Eu não fiz só maratonas, corri o mundo inteiro a fazer provas de 10 kms, meias maratonas. Fui um mês para os EUA onde fiz várias provas. Em Espanha fiz muitos corta-matos. Ganhei imenso dinheiro em corta matos. Eles gostavam muito da minha presença.

Onde é que investiu esse dinheiro?
Fiz a minha casa, para mim e para os meus pais que sempre viveram comigo. Era incapaz de os abandonar. Duas pessoas importantíssimas da minha vida, foram eles que me ajudaram sempre. A minha mãe era o meu pilar. Eu durante muitos anos passava semanas sem estar em casa, em estágios, em saídas para corridas, e a minha mãe é que ficava em casa a tratar de tudo.

O seu marido alguma vez deixou de trabalhar para a acompanhar?
Não.

Alguma vez vieram pedir-lhe dinheiro? Ajudou alguém?
Muitas vezes. Família e sem ser de família. Mas as pessoas que vieram ter comigo a pedir nunca tiveram muita sorte. Tive imensa gente a pedir, às vezes sem vergonha nenhuma. Eu gosto mais de dar sem dizer nada a ninguém. Prefiro.

Manuela Machado no Campeonato do Mundo de Atenas, em 1997, depois de conquistar a medalha de prata

Manuela Machado no Campeonato do Mundo de Atenas, em 1997, depois de conquistar a medalha de prata

Vamos voltar um bocadinho atrás. Disse que andou a fugir à Sameiro, em Gotemburgo, porque não gostava de deitar-se cedo. Conte lá essa história.
Eu gostava de ficar a falar até às tantas, de ver os outros campeões. Gostava de ver o Ben Johnson, o Carl Lewis, tantos outros... Para os encontrar seria nas salas de convívio. E eu gostava de ir para aí, mas a Sameiro disse-me: “Manela estás com a garganta um bocadinho inflamada, é melhor ires para a cama, eu vou lá levar-te um chazinho”. Eu dormia sempre no mesmo quarto da Sameiro. Assim foi, ela levou o chá, mas saiu e foi juntar-se aos outros treinadores para divertir-se também um bocadinho. Não fiz mais nada: pus almofadas debaixo dos lençóis com o edredon por cima e, aí vou eu. Pisguei-me.

Foi apanhada?
Não. E ela só soube a seguir porque eu contei-lhe. A Sameiro foi minha treinadora, minha amiga, em alguns momentos, até mãe. Foi tudo para mim. Das pessoas mais importantes da minha carreira desportiva. E ainda hoje nos damos bem e gosto dela. Eu era assim, mas ela pode dizer que fui a atleta mais cumpridora. Às vezes apetecia-me ir a corridas, onde se ganhava muito dinheiro, bons cachês, mas se ela dizia: “Não vás, estás a preparar um campeonato”. Enquanto outras diziam que não iam e iam, eu não ia. Tínhamos muita confiança uma na outra.

Além de professora de educação física a Sameiro Araújo também se formou em Psicologia, não foi?
Sim, na Universidade do Minho. Uma vez, estávamos numa prova e tínhamos que acordar muito cedo para tomar o pequeno-almoço e seguir para o estádio, e a Sameiro acordava sempre muito nervosa. Começámos a ouvir os helicópteros da imprensa a andar ali por cima. Ela levanta-se e diz-me: “Lá andam eles, Manela”.

“- Eles quem?
- Os helicópteros.
- Já estás nervosa?”
- Um bocadinho.
- Ó Sameiro eu é que devia estar nervosa. A tua psicologia vale pouco. Então eu é que tenho que ser a psicóloga? Sameiro é assim, tu achas que fizeste um bom trabalho comigo?
- Fiz. Tenho a certeza Manuela de que fiz um bom trabalho contigo.
- Então se tu achas e eu também acho que fizeste um bom trabalho comigo, eu estou bem, vou cumprir o trabalho que fizeste. Não te preocupes. Quando me vires fazer isto (vira a cabeça para a direita e depois para a esquerda), eu vou-te dizer o que estou a fazer, estou a ver quem é a segunda (risos).”

No pódio, com a medalha de prata, conquistada nos Mundiais de Atenas

No pódio, com a medalha de prata, conquistada nos Mundiais de Atenas

MIGUEL NUNES\012

É verdade que gostava de ir ao McDonalds quando estava nas grandes competições?
Não vou dizer que gosto. Mas, naquela altura, sabia sempre bem. Eu fui habituada a comer de tudo, nunca comi aquelas comidas dos bidões como hoje se come, aquelas proteínas. Nunca comi isso, nunca. Eu estava habituada a comer legumes, fruta, rojões, cozido à portuguesa, acho que ia buscar as vitaminas todas aí. E quando vamos para os campeonatos temos que nos habituar aquelas comidas dos atletas, muita massa, e já estava tão cheia daquilo que estava mortinha para ir a um McDonalds. Eu corri de manhã, a Fernanda Ribeiro correu à tarde, a Carla Sacramento também, e então fomos a três a correr para o McDonalds, depois das provas. Que bem nos soube.

Gotemburgo, onde foi campeã do Mundo, ficou marcado pelo insólito da volta a menos na maratona. Chegou a recear ficar sem medalha?
Não porque eles obrigaram-me a parar. Há imagens em que se vê eu a perguntar se é para parar ou se tenho que dar mais uma volta. O que aconteceu foi que nós devíamos ter dado quatro voltas no início, antes de sair do estádio para a estrada, e só demos três. Mas só soubemos disso no final. Eles tiveram a maratona toda para retificar, só que não se lembraram. E eu ia bater o record.

E bateu o seu record.
Sim, mas iria obter a melhor marca de sempre nos campeonatos do mundo. Porque eu cheguei muito fresca, cheguei muito bem. Batia a marca de certeza.

Ficou sem marca, mas ganhou um Mercedes.
Sim, e ainda temos esse carro. Nunca será para vender. Andamos muito pouco com ele, eu gosto mais de carros pequenos.

Há pouco disse que com o dinheiro que ganhou fez a sua casa. E investiu mais em quê?
Tenho alguns terrenos. E tenho uma horta. Adoro lá andar. Este ano tive cebolo, tomates, alfaces, pepinos, tudo. Tenho galinhas, patos, faisões. Era o meu pai que tratava de tudo e depois dele falecer passou a ser a minha mãe.

Quando é que ele faleceu?
Há quatro anos. Tinha 82 anos. Foi terrível. Adoro a minha mãe, mas tinha uma ligação muito forte ao meu pai. Era igual a mim. Igualzinho. Não tomava nenhuma medicação. Levantou-se um dia de manhã, foi à janela dizer à minha mãe que já ia descer. Mas como nunca mais vinha, passados 15 minutos a minha mãe foi lá acima e ele estava caído no chão. Foi um choque. Tenho algumas coisas dele. Tenho um boné e de vez em quando vou lá para sentir o cheirinho da cabeça dele.

Manuela Machado sagrou-se campeã da Europa, em Budapeste, em 1998

Manuela Machado sagrou-se campeã da Europa, em Budapeste, em 1998

ANDRE ALVES\012

Ainda se martiriza por não ter conseguido uma medalha olímpica?
Os Jogos sempre foram para mim o ponto alto do desporto. É um sonho. Quem faz desporto, qualquer desporto, o sonho máximo é os Jogos. O ir lá é o teu sonho. Depois, quando tens já uma carreira, o objetivo passa a ser diferente. E o meu sonho era uma medalha. Foi uma mágoa na altura. Agora estou tranquila, estou feliz, estou em paz. Penso que o meu nome irá ficar sempre marcado.

Disse há pouco que se calhar houve excesso de treino e chegou lá cansada.
Acho que arrisquei demasiado, tenho a certeza que arrisquei demasiado. Havia muita gente que me queria ver no pódio... mas havia também tanta gente que não me queria lá. Tanta.

Quem?
Não vou dizer nomes, mas ouvi coisas…

Que coisas?
Quando acabei a corrida em Atlanta [7.ª classificada], fiquei arrasada, foi a maior desilusão pessoal que tive. Fiquei sem coragem de enfrentar as pessoas. A Federação e o Comité Olímpico tinham uma confiança enorme em mim, e eu fiquei com vergonha de os enfrentar. Mal acabou a corrida, quando entrámos no túnel, assim que vi uma porta aberta entrei e fiquei num canto de uma sala a chorar, sozinha. Às tantas passam alguns portugueses e eu ouvi uma conversa: “Uma [Manuela Machado] já foi, a outra é logo à tarde. Essa também vai”. Horrível. Uma inveja, uns ciúmes de ganharmos. Como é que é possível? Só que a outra à noite ganhou.

A outra era a Fernanda Ribeiro.
Era. Depois de ouvir aquilo fui ter com ela e disse-lhe: “Mostra-lhes como é”. É verdade. E depois vim-me embora, lembro-me que pedi para vir por Vigo, não quis ir para o Porto. Aí vi quem eram os meus amigos. Fiquei por Viana um mês e cheguei a estar num multibanco e a ouvir: “Está ali a desilusão portuguesa”. Foi terrível. Eu não era nada de ir abaixo, nada, mas durante aquele mês foi terrível. Valeu-me o apoio dos pais, da minha família, da minha treinadora e segui em frente. E a seguir fui a Tóquio e ganhei a todas as seis que me tinham ganho nos Jogos Olímpicos, com 7 minutos de avanço. A todas elas.

Alguma vez se sentiu subvalorizada?
Na altura, a imprensa não valorizou muito o meu sétimo lugar. Hoje valorizam imenso um atleta ficar em sétimo lugar. Aquela nossa geração, eu, a Fernanda Ribeiro, Carla Sacramento, os gémeos Castro, José Regalo, António Pinto, Conceição Ferreira, Lucrécia Jardim, Pedro Rodrigues, em quase todas as disciplinas tinhamos sempre alguém numa final, não eram medalhados, mas estavam na final. Hoje poucos temos.

Depois temos medalha de prata, em 1997, no Campeonato do Mundo de Atenas.
Sim, e é uma das medalhas que valorizo muito.

Porquê?
Porque um mês antes tive um acidente de carro onde fraturei o esterno. Culpa minha: bato nas traseira de um carro, o airbag sai, ía com o cinto de segurança e fraturei o esterno. Tive dores horríveis. Fiz uma anemia forte, os médicos disseram-me que eu não podia correr porque estava com a hemoglobina bastante baixa, os ortopedistas diziam que tinha de fazer uma transfusão de sangue. E eu: “Você é maluco! Acha que eu vou fazer uma coisas dessas? Isso é doping!”. O médico da federação dizia que eu não podia correr, que em Atenas estava muito calor, muita humidade, o percurso não era nada fácil. E eu disse que ia por minha conta e risco. Fui 2ª.

Foi a que mais “lhe saiu do pêlo”?
Foi, mas também é especial porque Atenas é um símbolo da maratona, a maratona começou ali e por isso eu queria muito correr. E era dia do meu aniversário.

Foi uma grande prenda de anos.
Foi. Depois liguei para casa e a minha mãe diz-me que cortei a meta à hora em que nasci: “Oh mãe podias ter-me tido mais cedo, que eu assim teria ganho”. (risos). Depois soube que o padre lá na terra parou a missa quando a corrida estava mesmo no fim para saberem de mim.

A festejar o título europeu, com uma bandeira portuguesa, em 1998

A festejar o título europeu, com uma bandeira portuguesa, em 1998

Quando termina a carreira?
Em 2001, na Maratona de Tóquio. O meu empresário disse-me que Tóquio gostaria imenso que eu estivesse presente, porque fui muitas vezes ao pódio lá. Disse que não me sentia muito bem, mas que não era pessoa de desistir. Nunca desisti na vida. Fui a Tóquio, mas com a condição de fazer apenas 10 kms. Eles pagavam-me na mesma. A única coisa que queriam era que eu estivesse lá.

Tinha que idade?
34/35 anos e queria ter filhos, pensar na minha família. Achava que era a altura ideal. Tinha feito muito e queria sair.

Então foi uma decisão fácil.
Não. Foi muito difícil. Em 2001 já não fui ao Campeonato do Mundo e foi terrível para mim, porque nem sequer consegui ver na televisão. Foram muitos anos. Ao início custava ver as provas, sobretudo as grandes maratonas e os grandes campeonatos, custava-me imenso.

Quando parou o que fez a seguir?
Durante três anos, nada. Tentei ser mãe.

Não conseguiu porquê? Passa pelo facto de ter sido atleta de alta competição durante muitos anos?
Não. Há grandes maratonistas que são mães e que treinavam muito mais do que eu. Estive um ano sem procurar ajuda médica. Depois achei que devia procurar. Procurei a ajuda do Dr. Alberto Barros, um médico do Porto conceituado a nível mundial em fertilização. Fiz cinco inseminações “in vitro” e não aconteceu. Fiz todos os exames que havia para fazer. Vi imensos casais que nunca foram atletas e tinham o mesmo problema do que eu. Não havia problema algum, mas não aconteceu.

Nunca pensou em adoptar?
Nunca. Foi uma frustração para mim. Eu gostava, mas não aconteceu. Nem digo que será aquela medalha que me falta, não. Nunca senti falta de crianças, porque sempre tive os meus sobrinhos. A minha irmã foi viver para França e os dois filhos dela ficaram a viver comigo. Cresceram comigo. Hoje, um tem 33 e o outro 32. A seguir vieram os do meu irmão. Já tenho sobrinhos netos. A casa sempre teve crianças.

A cuidar da sua horta, em Viana do Castelo

A cuidar da sua horta, em Viana do Castelo

Depois daqueles três anos parada, o que fez?
Achei que devia procurar trabalho. Não é que precisasse de dinheiro mas precisava de manter-me ativa e útil. Um dia estava com um jornal nas mãos e vi o anúncio de um concurso na câmara municipal de Viana para a área de desporto. Eu não tinha muitos estudos, só tinha o 9º. Agora já tenho o 12º, através das Novas Oportunidades.

E conseguiu o trabalho na Câmara de Viana do Castelo?
Sim, nas piscinas. Já sou funcionária pública há 14 anos. Estive dois anos a contrato e depois passei a efetiva. Estive 10 anos numa piscina, na recepção a fazer contratos, pagamentos, atendimento ao público. A piscina tinha 10 mil utentes.

E entretanto?
Pedi muitas vezes ao ex-presidente de câmara para sair de lá e ir para o estádio, porque gostava de estar ligada ao atletismo, a minha área. Até que, quando o engenheiro José Costa assumiu a presidência criou um projecto de atletismo importantíssimo, tirou-me da piscina e hoje todas as escolas do 1º ciclo têm atletismo, no horário curricular. Temos 1400 miúdos a praticar atletismo nas escolas. O projeto já vai no 5º ano. Sou eu e mais quatro técnicos e vamos rodando por todas as escolas.

Também criou um clube de atletismo.
O Cyclones Atlético Clube. Patrocinado pela empresa de um senhor belga que tem outra maneira de ver o desporto e o atletismo.

E tem um estádio em sua honra. Estádio Municipal Manuela Machado.
Já há muitos anos, desde 1995, depois de ser campeã do mundo em Gotemburgo. Era um campo de futebol que já existia e que a câmara tomou posse.

Como é que hoje olha para os atletas e o atletismo português?
Sinto que tive todo o apoio. Eu estava a fazer aquilo que eu queria, que gostava, sem obrigação. Portanto todo o apoio que tinha era bem vindo, muito ou pouco, era bem vindo. Agora sinto que os nossos jovens, que têm imensas qualidades, vão para a faculdade, e não têm apoio. Tenho um clube de atletismo que tem imensos jovens, e a minha preocupação primeira é fazer a formação da pessoa. Por isso digo-lhes sempre que o importante é estudar. Terem um canudo, serem alguém. No desporto nem toda a gente pode ser a Manuela Machado, nem o Cristiano Ronaldo.

Mas os grandes campeões acabam sempre por deixar os estudos para trás. Honestamente acha possível ser-se um grande campeão estudando ao mesmo tempo?
Não. Tem que se dedicar de corpo e alma. Agora, se houvesse um sistema como nos EUA ou Filândia e outros países europeus que pegam nos atletas e os ajudam. Eu tenho duas gémeas que são boas atletas, boas pessoas e boas alunas. Uma entrou para Engenharia e Gestão Industrial e a outra para Bioengenharia. Mas têm imensas aulas e não podem treinar tanto quanto deviam, porque a partir dos 18/20 anos já têm que se dedicar um bocadinho mais ao atletismo. Tinha que haver aqui uma ligação maior entre Federações e Universidades em que de manhã pudessem treinar e à tarde pudessem estudar.

Mesmo assim era possível ter campeões do seu calibre?
Se calhar. Se formos a ver nos EUA a maior parte dos atletas tem formação académica. Mesmo que tenham de interromper durante algum tempo os estudos, depois voltam.

Manuela Machado na pista do estádio municipal que tem o seu nome

Manuela Machado na pista do estádio municipal que tem o seu nome

Rui Duarte Silva

O atletismo português ainda mexe consigo?
Já não mexe tanto comigo e acho que não é só comigo, é com os portugueses todos. Os atletas estão lá por mérito, porque fizeram mínimos, porque foram escolhidos e vão fazer o seu melhor. Mas se calhar já não têm aquele espírito de sacrifício como nós tinhamos.

É nas dificuldades que se constrói um campeão?
É. É nas dificuldades e nas derrotas que aprendemos.

Falta só espírito de sacrifício?
Sobretudo. Fala-se muito de que não há pistas. Eu acho que nós temos pistas a mais. No meu tempo não havia. Eu treinava em pista de cinza, quando chovia havia lama até meio da canela. Treinávamos e gostávamos. Não tinha pista em Viana do Castelo e fazia kms para ir a Braga treinar na pista que mais tarde já era de tartan.

Porque é que já não há esse espírito de sacrifício?
As coisas mudaram. Eles não têm culpa de terem um melhor fato de treino do que nós tinhamos, nem melhores sapatilhas, têm GPS’s. Tudo mudou, tudo evoluiu. Mas se calhar estas pequenas coisas que toda a gente tem, se calhar não é bom terem tantas coisas com tanta facilidade porque depois não dão tanta importância. Não estou a dizer que isto aconteça com todos. Temos atletas como o Nelson Évora, a Jéssica Augusto, a Patrícia Mamona, e outros, vê-se que têm garra e querem, mas já não são como nós.

Qual foi a maior amizade que ficou do atletismo?
Todos os que estavam ligados ao Sporting Clube de Braga.

Chegou a ser atleta do Sporting Clube de Portugal.
Eu sou sportinguista. Costumo dizer que o meu sangue é verde, vermelho só por acidente. Eu fui para o Sporting em 97. O Sporting Clube de Braga estava a atravessar uma crise imensa. Estavamos há dois anos sem receber ordenado e não havia meio de regularizarem as coisas. O presidente do Braga era muito agressivo connosco e eu fartei-me.

Esteve quanto tempo em Lisboa?
Um ano. Senti muita falta do que era importante para mim. Carinho. Não senti carinho no Sporting. Ganhava muito mais que no Braga. Fui para lá porque na altura o Santana Lopes era presidente, gostava imenso de mim, sabia que eu era sportinguista e pediu ao Moniz Pereira para me por lá.

O que achou do professor Moniz Pereira?
O Moniz Pereira foi um símbolo e continuará a ser. Era um senhor que fez muito pelo atletismo. Como diretor do Sporting não gostei muito. Eu sentia muita falta do carinho e do balneário do Braga.

Está com 54 anos, que ambições ainda tem?
Eu acho que tenho tudo. Sou feliz, já era, mas sou ainda mais feliz. Tenho uma boa família, tenho estabilidade, tenho um clube de atletismo, tenho um projeto de atletismo, tenho tanto que fazer, não estou parada. Não me falta nada.