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A vida de um jogador português a lutar pelo título nos EUA: “Os jogos são ataque, contra-ataque, ataque, contra-ataque. É sempre a correr”

Desde que Pedro Santos chegou ao Columbus Crew, em agosto, a equipa da MLS nunca mais perdeu e qualificou-se para os 'play-off' do campeonato - defronta esta madrugada o Atlanta United (0h, Eurosport). O ex-jogador do Sporting de Braga explica à Tribuna Expresso quais as diferenças entre o soccer e o futebol português, e admite que já está habituado ao estilo de vida americano: "Já fiz as minha abóboras e já enfeitei a casa para o Halloween"

Mariana Cabral

Pedro Santos foi apresentado no Columbus Crew no início de agosto

DR

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Já estás aí há quase três meses. Como tem corrido?
Está a correr bem, tanto a nível pessoal como coletivo. Desde que cheguei tem sido bom, porque ainda não perdemos.

Ou seja, a tua chegada teve efeito positivo.
[risos] No primeiro jogo nem joguei, mas já estava cá.

Já conta.
A partir daí, já são nove jogos, salvo erro, sem perder, o que é bom. A nível pessoal os jogos também me têm corrido bem, apesar de ainda não ter marcado. Já fiz assistências e tenho criado oportunidades de golo, por isso tem corrido bem.

Estás sozinho aí?
Não, agora já não, já tenho cá a minha família. A minha mulher e o meu filho vieram.

Imagino que facilite a mudança para outro continente.
Sim, sim, sim. É uma ajuda muito grande mesmo. Vir para casa e estar aqui sozinho, sem falar com ninguém, era bem mais difícil.

Foi o que aconteceu no início?
Foi. No primeiro mês. Primeiro porque não tinha casa e depois também porque não tinha visto, porque cheguei com visto de turista e só depois tratei dessas coisas todas. Como isso demora sempre algum tempo, tive de esperar sozinho, mas já está resolvido, é o que interessa.

E já tens casa e tudo?
Sim, casa e carro, já está tudo estável agora.

Uma daquelas casas com uma cerca branca à frente?
[risos] Não é bem dessas, porque moro num prédio - quer dizer, nem sei se isto se pode chamar um prédio, só tem três andares, é uma coisa pequena.

How's your english [como está o teu inglês]?
[risos] Bem... Está um bocado melhor desde que aqui cheguei. Já entendia algumas coisas mas não me sabia expressar muito bem. Consigo perceber mais do que aquilo que consigo dizer. No dia-a-dia, nos treinos, já percebo e consigo dizer quase tudo, também porque a linguagem é sempre mais ou menos a mesma. Fora disso, vou-me desenrascando e mal ou bem as pessoas lá me vão compreendendo.

Tens algum tradutor?
Há várias pessoas na estrutura do clube que ajudam, porque falam espanhol. Aqui como estamos perto da América do Sul temos muita gente que sabe falar espanhol, até alguns dos jogadores. E na equipa técnica há um elemento que é espanhol, portanto também facilita o processo. Vou falando bastante espanhol com eles.

Não tens encontrado portugueses?
Há muitos portugueses nos EUA, mas aqui, em Columbus, Ohio... [risos] É um bocado difícil. Mas já conheci um casal português que é adepto do clube, que tem lugar anual e tudo, e já fomos sair juntos. Sair, como quem diz, passear. Fomos a uma coisa que eles chamam 'pumpkin patch', que é uma quinta de abóboras. Eles também têm filhos e fomos lá por causa do Halloween, aquilo é giro porque tem as abóboras e também tem animais. Para já foram os únicos portugueses de Columbus que conheci. Também houve um rapaz português que veio ver um jogo, mas mora longe daqui.

Esta altura do Halloween aí deve ser gira.
É, eles aqui vivem o Halloween mesmo à séria, as casas todas enfeitadas, com abóboras, com fantasmas, com tudo e mais alguma coisa. É um bom espírito.

Também já te puseste a fazer isso?
Já, também já fiz as minha abóboras e já enfeitei a casa para o Halloween.

Isso quer dizer que também já comes donuts?
Consigo resistir. Sabia da fama que tinham mas curiosamente a mim não me agradam muito. O que descobri aqui e gosto muito são 'cinnamon', são uns rolos de canela. Aquecidos são uma coisa...

Já tens o ritmo de vida americano? Acordar cedo e deitar cedo?
Eles acordam cedo e jantam cedo, por volta das 18h, 18h30, já estão a jantar. Mas eu faço a minha vida como se estivesse em Portugal, porque os treinos são parecidos, tenho de estar no treino às 9h, como em Portugal. Depois, como a minha mulher cozinha, comemos em casa por volta das 20h, faço a vida normalmente, como se estivesse em Portugal.

O plano alimentar aí é mais ou menos o mesmo?
Temos de tomar o pequeno-almoço e almoçar no centro de treinos, porque eles têm uma dieta que é diferente daquilo que estava habituado, é uma dieta que eles dizem que é à base de gorduras saudáveis, ou seja, no primeiro dia da semana praticamente não comem carboidratos, é só carne com legumes e essas coisas assim. Só mais perto do jogo é que metem um dia ou outro massa ou arroz, mas é raro ter essa alimentação. Para mim é mais difícil porque não estou habituado a comer assim.

E que diferenças notaste no jogo, quando chegaste?
É um bocado diferente. Em Portugal os jogos são muito mais táticos, as equipas ficam fechadas para não dar espaços... Aqui não. Muitas vezes os jogos são ataque, contra-ataque, ataque, contra-ataque - é sempre assim.

Sempre em transições.
É, é a correr o jogo todo. Estar a ganhar 1-0 aos 90 minutos ou não, é igual. O estilo de jogo não muda, é sempre a correr, sempre a atacar, sempre a querer ir marcar mais. Por isso é que os jogos aqui também têm muitos golos .

Eles estão mais preocupados em trabalhar o lado físico, com muito ginásio?
Sim, sim. Os treinos em si até não são muito físicos, mas são longos, têm 1h30 todos os dias e mesmo no dia antes do jogo o treino não é assim muito curto - e fazemos tudo. E ginásio é sempre. Eles aqui fazem antes e depois do treino. Eu normalmente só costumo fazer depois do treino mas insistem sempre comigo para ir fazer mais ginásio.

Notas maior fadiga em ti?
No início sim, foi um bocado mais cansativo para mim. Agora já estou mais dentro do ritmo de treinos e jogos de cá e não é tão mau. Se bem que eles também tiveram cuidado comigo, foi tudo feito de forma progressiva para não chegar aqui e ser logo um choque total.

Quando chegaste e começaste a treinar, pensaste: 'Eh pá, há aqui gajos que não percebem nada de futebol'? Ou seja, o entendimento tático é menor?
Sim... Em termos ofensivos, diria que as equipas normalmente são boas, porque têm muitos jogadores bons e os treinadores querem um estilo ofensivo. Em termos defensivos, noto muita diferença, porque - pelo menos falo pela nossa equipa - não há muitos treinos defensivos. As linhas não são como em Portugal, em que os treinadores gostam que a linha seja sempre uma linha direita, com toda a gente alinhada na perfeição. Aqui não trabalhamos nada disso. A defesa sabe que tem de subir mas não há coordenação, não há trabalho nesse aspeto. Aqui defende-se mais no combate físico e na correria.

Achas que já podias ser treinador aí?
[risos] Não. Por acaso o meu treinador [Gregg Berhalter], como jogou na Alemanha, gosta de um futebol praticado desde trás, não é futebol sem noção. Por isso é que toda a gente com quem jogamos diz que somos a equipa que joga melhor aqui, porque a nossa equipa gosta de jogar e tem bons jogadores.

Pedro Santos tem 29 anos e completou 114 jogos pelo Sporting de Braga, antes de partir para os EUA

Pedro Santos tem 29 anos e completou 114 jogos pelo Sporting de Braga, antes de partir para os EUA

FRANCISCO LEONG/GETTY

Sendo os jogos aí já habitualmente 'abertos', imagino que o desfecho do 'play-off' seja ainda mais incerto.
É. Quando cheguei aqui, o que me disseram foi que estando qualificada para o 'play-off', qualquer equipa pode ganhar a MLS. Porque, para eles, o 'play-off' é como se fosse uma verdadeira final, ou seja, a fase regular, a época toda, não tem aquela importância. Ganhar ou perder não faz mal, desde que se consiga a qualificação para o 'play-off'. Quando começa o 'play-off', parece que muda o chip neles e que agora é que é a sério. Agora basta perder um jogo e estamos fora, por isso qualquer jogo menos bom, seja de uma equipa mais forte ou não, compromete logo, por isso agora vai ser mais difícil.

Este fim de semana jogaram contra o NY City e o David Villa marcou dois golos. Nota-se muita diferença na qualidade técnica entre ele e os americanos?
Sim, nota-se perfeitamente. Ele é um jogador que basta ter uma ou duas oportunidades e faz golos, enquanto que há aqui outros jogadores que às vezes têm uma, duas, três oportunidades e não fazem. Ele tem esse qualidade, assim como outros com experiência também, como o Montero.

Tecnicamente deves ser dos melhores.
Não, porque na minha equipa até nem temos razão de queixa, os jogadores que jogam têm todos qualidade. Temos uma boa defesa, um bom meio-campo e um bom ataque, com jogadores internacionais pelos seus países, portanto não se nota tanto a diferença. O problema é que aqui são mais individualistas no pensar, não pensam tanto em equipa, pensam mais neles, em querer marcar golos. Essa é a maior diferença que sinto. Por exemplo, aí, se estiverem dois jogadores para fazer golo e se um estiver melhor, ele passa a bola. Aqui não, aqui eles tentam sempre fazer o golo deles.

Mas achas que é mesmo por egoísmo ou por não entenderem bem o jogo?
Acho que tem a ver com a mentalidade deles aqui, que é atacar, rematar, fazer golos. Não interessa como. Cada ataque que se faz tem que se rematar, tem que se tentar fazer golo, não interessa se está alguém melhor ou não, desde que se remate está tudo bem, não há problema nenhum.

Pelo que disseste, imagino que prefiras jogar de forma apoiada, em vez de ficar a ver o central a bater para o ponta de lança.
Prefiro uma equipa que goste de jogar, não é? Para quem gosta de ter bola é muito melhor e a minha condição física também não é de andar a disputar bolas no ar com os grandalhões [risos], gosto mais de ter a bola. Mas não tenho muita razão de queixa nas equipas nas quais joguei, mesmo nas mais pequenas, nunca foram equipas de 'chutão', sempre tiveram bons jogadores que gostavam de jogar.

Isso advém da tua formação, por teres começado num clube grande, no caso o Sporting?
Não, nessa altura ainda era muito novo. Acho que sempre fui um jogador que gosta de ter a bola e jogar apoiado, jogar com os colegas, fazer combinações... sempre foi o estilo de jogo que mais gosto, é o que me dá mais prazer.

Tiveste algum treinador especialmente preocupado com isso?
Sim. O maior de todos foi o Paulo Fonseca, no Braga.

Pedro Santos num jogo do Sporting de Braga contra o Shakhtar Donetsk, sob o olhar atento de Paulo Fonseca, em 2016

Pedro Santos num jogo do Sporting de Braga contra o Shakhtar Donetsk, sob o olhar atento de Paulo Fonseca, em 2016

SERGEI SUPINSKY

Que agora está a ter uma excelente passagem pelo Shakthar Donetsk.
Sim, sim, tenho seguido. O Shakhtar joga à imagem daquilo que ele quer. É o exemplo perfeito daquilo que ele quer. Nós aí no Braga, e também quando ele estava no Paços de Ferreira... O Paços mesmo jogando contra os 'grandes' tinha sempre a sua personalidade, sabíamos sempre que aquela equipa era a equipa do Paulo Fonseca. No Braga também sempre trabalhou assim e uma coisa que me impressionou foi ele desde a pré-época começar a trabalhar logo isso, desde início, como queria que a equipa jogasse. E pronto, acho que ele tem melhorado e tem-se aperfeiçoado, à medida que vai subindo na carreira, e também vai tendo jogadores com outra qualidade e claro que o estilo de jogo vai sobressaindo cada vez mais com isso.

No balneário há essas conversas de início de época: "Eh pá, este gajo não percebe nada disto"?
Cada treinador tem a sua ideia, não é, mas se nós estivermos habituados a um estilo, andámos dois ou três anos a jogar num estilo, e depois chega um com uma ideia completamente diferente, a dizer que a ideia dele contraria aquilo... Então obviamente ficamos com desconfiança, porque jogávamos assim e as coisas saíam. Mas com o passar do tempo e principalmente com os resultados, que é o que transmite confiança, os jogadores vão assimilando as coisas.

Tens seguido aí a Liga portuguesa?
Tento sempre seguir, mas às vezes é um bocado difícil para mim, porque ou estou em viagem ou os jogos daí começam aqui ao meio-dia ou às duas da tarde e eu ainda não estou em casa. Mas quando não vejo na televisão, em direto, vou acompanhando as notícias na internet e vendo os resultados para estar a par.

A torcer pelo Braga, imagino.
Sim, o Braga ficou no meu coração e agora sou mais um adepto do clube, claro.

Dá para comparar a vida em Braga a Columbus?
A cidade é grande, em distância, mas não é grande no sentido da grandeza de Nova Iorque, por exemplo. É uma cidade mais calma, mais familiar, como eles costumam dizer, em que não se passa assim grande coisa. É tudo tranquilo, não há confusões de trânsito... Não há é muito para fazer.

Basebol, futebol americano?
Pois, há isso. Aqui há futebol americano mas é universitário. Quer dizer, é universitário mas nem parece para quem vê aquilo, porque o estádio leva 120 mil pessoas e em todos os jogos em casa aquilo está cheio, é uma coisa impressionante, porque nem sequer é profissional. Mas ainda não tive oportunidade de ir lá ver. Só vi um jogo de basebol, mas foi quando fui ao Canadá tratar do visto, porque estive lá três ou quatro dias à espera. Estou é a ver se consigo ir ver um jogo da NBA, que começou agora, porque Cleveland é aqui perto. Quer dizer, ainda são duas horas de carro, mas é o mais perto que há daqui.

Não sei se viste alguns jogadores de futebol americano a ajoelharem-se durante o hino como forma de protesto. Falam sobre isso aí?
Não se tem falado sobre isso, pelo menos no nosso balneário ninguém falou. Ouvi falar nisso porque vejo as notícias daqui e vi que aconteceu no futebol americano, mas no nosso futebol, quer dizer, no soccer [risos], não houve nada até agora, passou um bocado ao lado.

Quando acabarem os 'play-offs' estás de férias?
Sim, se perdermos... É mais uma semana para treinar, mas depois entramos de férias. E já podemos ir para casa.