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Luciano Gonçalves, líder dos árbitros portugueses: “Já recebi dezenas de ameaças. Por sms e não só, a última esta semana”

Luciano Gonçalves, 37 anos, foi eleito líder da APAF em plena crise dos vouchers e nunca mais deixou de apagar fogos, o último o do apagão do vídeo-árbitro (VAR) no Aves-Benfica. O furor dos comentários e a especulação levou ao pré-aviso de greve aos jogos da Taça da Liga, desconvocada após um princípio de acordo com Pedro Proença. Natural da Batalha, foi defesa esquerdo na III Divisão e árbitro de 2º escalão até 2011, função que abandonou precocemente devido a uma meningite que lhe retirou forças para passar nos testes físicos, agora canalizadas a 100% para a defesa da classe mais odiada do futebol.

Isabel Paulo

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O que o levou a desconvocar a greve dos árbitros à Taça da Liga?
Tive uma reunião com Pedro Proença, que assumiu o compromisso de mostrar publicamente que está ao lado dos árbitros e de sensibilizar os clubes a uma maior contenção nas críticas que mancham a honorabilidade da classe. E ainda a acolher as nossas propostas baixar o tom e volume dos comentários.

As críticas pós-avaria do VAR foi o detonador da greve ou a renegociação salarial? O diferendo é Proença pretender um aumento gradual em quatro anos, para além do seu mandato, e a APAF quer em dois?
Não é bem assim, embora a proposta inicial da Liga fosse nesse sentido. O aumento salarial é uma questão interna, bem encaminhada mas não fechada. Posso garantir que o pré-aviso de greve nada teve a ver com isso, tão só com os desmandos e a especulação por parte de dirigentes e comentadores, em programas televisivos que são autênticos campos de fanatismo. Aliás, a ERC devia estar atenta e intervir. Há limites que devem ser observados, não pode valer tudo.

Qual é o valor do aumento pretendido?
Não vou revelar, até porque está ainda em negociação.

Já para esta época ou para a próxima?
É para esta época.

Dizer que a greve era uma oportunidade para os comentadores serem chamados a apitar não foi uma provocação?
Admito, mas a intenção era para que fizessem um esforço para se porem na pele dos árbitros, que erram, como nas outras profissionais. Não era motivo para se entreterem durante uma semana a criticar-me. Ou seja, um comentário do presidente da APF deu azo a 12 horas de programas, à espera de ver em qual deles os comentadores seriam capazes de provocar maior gozo ou de me fazerem o maior 'piropo'. O que não significa que não haja excelentes comentadores desportivos que também me criticam. Faz parte e convivo bem com com isso. O que é intolerável é aproveitar uma declaração minha para achincalhar a arbitragem.

Que propostas fez a Pedro Proença?
Não há propostas concretas que o presidente da Liga tenha aceite. Há um acordo de princípio de sanções mais pesadas, mais céleres e mais abrangentes em relação às estruturas dos clubes que atacam os árbitros com comentários especulativos e fanáticos.

Castigos severos para os diretores de comunicação dos clubes?
Responsabilizar essas estruturas, sim. Não condeno que as máquinas de comunicação defendam os interesses dos clubes e dos seus adeptos, não podem é semear o ódio utilizando a conspiração e a especulação. Uma coisa é criticar a arbitragem, outra é criar um clima de crispação permanente. Se têm suspeitas sobre um caso ou um árbitro, peçam que se investigue nos locais próprios, no Conselho de Disciplina ou Ministério Público, para que os culpados sejam condenados. Agora aproveitar alegados casos para acicatar e fomentar o fanatismo é inaceitável.

Fernando Gomes foi ao parlamento, revelou um aumento de incidentes no futebol, 92% dos quais de mau comportamento dos adeptos e o teor das ameaças feitas as árbitros. São mais frequentes as SMS de intimidação? Já recebeu alguma?
Dezenas desde que sou presidente da APAF. Não só por SMS mas de várias formas. São recorrentes no último ano e meia, a última foi esta semana.

Dizia o quê?
Não vou revelar. Em relação aos árbitros, não sei se são em maior número, mas como se percebeu pelo divulgação de algumas na Assembleia da República são muitíssimo agressivas.

António Salvador diz que a culpa é dos três grandes.
Não vou nomear culpados, mas são os que têm máquinas mais afinadas e maior impacto nas massas associativas.

Os emails divulgados pelo FC Porto, que comprometem o Benfica numa suposta corrupção de árbitros, tem contribuído para o clima de fanatismo?
Todas as situações anormais e de dúvida sobre a arbitragem, acentuam a crispação. E o caso dos emails não foge à regra. O importante é que o caso seja investigado rapidamente pelas instâncias desportivas e criminais, se condene os culpados ou arquive o processo, para travar campanhas de intimidação.

Nos emails trocados entre Paulo Gonçalves e Adão Mendes surgiu uma lista de sete árbitros supostamente protegidos pelo Benfica, como Jorge Ferreira, Nuno Almeida, Manuel Mota ou Bruno Esteves. Falou com eles?
Claro que falei com eles. E demos conhecimento dessa lista a quem cabe investigar, que a APAF não tem meios para isso. Procedemos como em todos os casos em que esteja em causa a honestidade dos árbitros.

Qual é o modus operandi?
Tal como nos casos em que recebem ameaças, as situações são reportadas diretamente à FPF e/ou Ministério Público. Fernando Gomes tem sido incansável na proteção aos árbitros, ao envolver as autoridades na segurança deles, das famílias e residências em alturas críticas.

Concorda com a criação de uma entidade autónoma ao futebol, conforme sugestão de Fernando Gomes, para gerir os processos de violência associada ao futebol e que passa pela intervenção do Governo?
Concordo plenamente com o presidente da FPF sobre a necessidade de uma estrutura que não envolva só responsáveis desportivos, mas também autoridades de segurança e judiciais - e representantes da ERC. Quando há competições em curso e que não podem parar, o grande problema é que tudo demora demasiado tempo e os árbitros precisam da maior tranquilidade para exercerem bem as suas funções.

Ex-árbitros, como Jorge Coroado, bastante corrosivo nos comentários, deviam ter mais tento na língua?
Deviam ter, no mínimo, respeito pelos colegas. Aliás, se são comentadores, é pela carreira que tiveram. Não têm de fazer defesas cegas, não devem é falar por desconhecimento.

Esperava mais de Pedro Proença na defesa da classe?
Separo as coisas. O presidente da Liga foi uma grande referência da arbitragem, mas agora é um gestor. Olha para os interesses da Liga e dos clubes. E isso está a fazer bem.

A Liga perdeu protagonismo, nomeadamente na arbitragem. Há a tentação da FPF de esvaziar poder à Liga?
É uma relação que ultrapassa a APAF e que não me preocupa. Nem deve preocupar os árbitros. São questões de política desportiva, que vejo como organismos complementares.

O curso para dirigentes ajudará a desanuviar a sanha em torno dos árbitros?
Poderá ajudar os dirigentes de clubes, associações e de classe a acompanhar os novos tempos, marcado por redes sociais virais na polémica.

O VAR tem acautelado a verdade desportiva?
Ainda está a gatinhar, nota-se uma melhoria nas decisões e os próprio sistema está a ser escrutinado para que funcione cada vez melhor. É sobretudo útil ao nível da confiança. Os árbitros sentem-se mais seguros ao sentirem que têm ajuda adicional.

Já está decido que o vídeo-árbitro ainda em fase de teste em cinco campeonatos é para manter em Portugal. A FPF e a Liga Portugal fizeram bem ao proporem-se para cobaias da nova tecnologia?
Fez bem em estar na linha da frente e não tenho dúvidas que é um meio tecnológico que veio para ficar. Atrevo-me a dizer que daqui a quatro ou cinco anos será impensável um jogo sem vídeo-árbitro, pelo menos nas ligas profissionais.

Nuno Almeida agiu bem ao não registar a avaria do VAR no relatório de jogo do Aves-Benfica?
Agiu. É uma competência dos assistentes do videoárbitro, conforme ficou decidido no início da época. Estamos num processo evolutivo, não digo que está tudo certo ainda. Se o Conselho de Arbitragem entender que fará mais sentido que este tipo de ocorrência seja também mencionada no relatório de jogo das equipas de arbitragem, tudo bem. Os árbitros cumprirão.

Desde 2014 que não há um árbitro português na fase final de uma grande competição. Vamos ter alguém no Mundial da Rússia?
Temos o Jorge Sousa na elite da arbitragem. Poderá ser ele ou, tendo em conta a idade, Artur Soares Dias é muito provável que seja o escolhido. Tem tudo para aceder à elite.

Foi jogador de futebol, árbitro do 2º escalão categoria e dirigente num clube amador de Leiria. O que lhe deu mais prazer fazer ou em que pele se sente melhor?
São funções diferentes. Gostei de ser árbitro, mas sinto-me útil e 100% empenhado em defender a arbitragem.

Não chegou ao topo da arbitragem. Falta de jeito?
Se calhar, mas também abandonei a arbitragem cedo, em 2011, aos 31 anos, por causa de uma meningite. Não recuperei ao ponto de voltar a passar nos testes físicos.

Foi o pior momento da sua curta carreira?
Foi marcante pela negativa, a par do momento em que fui impotente para acudir ao meu colega Domingos Lavinha - e meu grande exemplo enquanto árbitro -, agredido num jogo de futsal, que estava a dirigir com ele. Aconteceu, no Pavilhão Paulo VI, a terra onde vivo, no meu primeiro ano de árbitro. Mexeu muito comigo, ao ponto de ter pensado abandonar a arbitragem.

Que marca gostaria de deixar enquanto dirigente da APAF?
O que quero deixar é uma garantia: enquanto cá estiver a APAF será comandada de dentro para fora e não de fora para dentro. Não ando a toque de caixa de ninguém.

Quer dizer que recebe chamadas de dirigentes a pressioná-lo? Estou só a dizer que as decisões da APAF serão nossas, pensadas por nós. Temos uma linha, vamos segui-la pois sabemos para onde queremos ir.