Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Tiago Apolónia, o ténis de mesa e os chineses: “Eles não deixam os europeus irem lá treinar com os melhores”

Foi o primeiro português a derrotar um antigo campeão olímpico de ténis de mesa, nascido no país onde esse tipo de raquete, bolas e campo são quase tudo. Tiago Apolónia ganhou a Zhang Jike, ouro em 2012 e prata em 2016, que é uma espécie de "personalidade número um na China", e explicou à Tribuna Expresso como os chineses "são quase imbatíveis" pela forma como são criados no ténis de mesa

Diogo Pombo

JIM WATSON

Partilhar

Noutra altura, sob outras circunstâncias, ele teria pensado no azar, na obra de um sorteio que o prejudicou por o emparelhar com o tipo que, no ténis de mesa, já foi o melhor de várias coisas, várias vezes. Zhang Jike ganhou o ouro olímpico em Londres, ficou com a prata no Rio de Janeiro, foi cinco vezes campeão deste Mundo e Tiago Apolónia apanhou-o no Open da Alemanha, na sexta-feira.

Que azar, poderia ter pensado.

Não pensou, porque este torneio, ao contrário dos Campeonatos do Mundo, deixou que países como a China, de onde vem Zhang Jike, inscrevessem uns 20 jogadores cada um, ou seja, apanhar este campeão ou outro chinês, também campeão em maior ou menor grau, ia dar ao mesmo - seria sempre um jogo difícil, hercúleo, muito exigente.

Mas Zhang Jike é o mesa-tenista mais famoso e popular na China, um fenómeno dentro do país dos foras de série que, por cultura, tradição e amor a este desporto, os produz em série. E Tiago Apolónia, de 31 anos, joga no FC Saarbrücken TT, da Alemanha, e ganhou-lhe em cinco sets (4-1), na sexta-feira. Foi a vitória "mais emblemática" da carreira, explicou à Tribuna Expresso, contando-nos também como isso foi possível e, ao mesmo tempo, como é impossível estar a par do que a China faz no ténis de mesa.

O que significou, realmente, esta vitória contra um ex-campeão olímpico?
Bem, acaba por ser a vitória mais emblemática da minha carreira até ao momento. Talvez não a mais importante, porque tenho resultados mais importantes, como a vitória contra o [Dimitrij] Ovtcharov no Europeu, mas, a nível singular, foi a melhor vitória da minha carreira. Também já tinha vencido uma vez o tricampeão mundial, o Wang Liqin, uma vez [em 2007], mas esta vitória, sendo ele um campeão olímpico e multicampeão mundial também… Foi uma alegria imensa.

Tiveste noção do mediatismo que esta vitória teria, mal acabou o jogo?
Sinceramente, sim. Já antes do jogo, quando sai o sorteio e vejo Apolónia-Zhang Jike, penso logo em muitas coisas. Vem muita coisa à cabeça. Com o decorrer da partida, claro, tentei esquecer contra quem estava a jogar. Depois, claro, no fim do jogo, a sensação é muito boa.

Chegaste a pensar “eh pá, o Zhang Jike não, grande azar”?
Havia um contexto neste sorteio. Pode considerar-se que foi o torneio mais forte de todos os tempos, este Open da Alemanha foi fortíssimo. Os melhores jogadores estavam lá e acabou por ser mais forte do que um Campeonato do Mundo, porque, aí, cada país não pode inscrever mais do que cinco, seis jogadores. Mas, neste torneio, as grande potências, como a China, a Coreia do Sul e o Japão, tinham 15 ou 20 jogadores. Portanto, quando saísse o sorteio, todos os adversários seriam de grande nome. Mas claro que o Zhang Jike seria o mais especial pela história, pelo currículo e pela pessoa que é.

Como assim?
Ele é a personalidade número um na China. Não é apenas no desporto, é a todos os níveis. Ele é famosíssimo e alguém muito popular no país, mesmo.

Depois do jogo disseste que tiveste sorte nos dois primeiros sets, porquê?
Hum, talvez tenha utilizado essa palavra, mas não foi sorte de ter bolas de sorte, mas sorte por ter conseguido ganhar esses sets. Não foi no sentido literal da palavra, por ter tido muita sorte no jogo ou bolas de sorte. Foi por ter tido a fortuna de conquistar esses sets, que me deram mais confiança e aquela sensação de que estava ali mesmo para ganhar.

Já o tinhas defrontado?
Sim, há cinco ou seis meses, no Open do Qatar, tinha perdido por 4-1.

Sendo ele quem é, estudá-lo e verificar as fraquezas, se é que tem alguma, ajuda?
Sim, isso faço sempre, seja qual for o adversário. Mas, com um adversário desta qualidade, preparei-me de outra maneira. Como já tinha jogado contra ele, sabia como eu tinha entrado no encontro e os sentimentos que tive. Tentei preparar-me nesse sentido, de tentar abstrair-me ao máximo de contra quem estou a jogar. Porque, durante o jogo, pensar “estou a jogar contra o Zhang Jike” não me ajuda em nada. Consegui preparar-me muito melhor a nível psicológico.

Estiveram depois juntos no balneário, já tinhas privado com ele?
Nós somos praticamente da mesma geração, já o conheço há muitos anos. Quando éramos juniores já tínhamos jogado e treinado juntos, o conhecimento vem de há alguns anos. É normal.

Fala inglês?
Um pouco, não fala perfeito, mas fala um pouco. Os jogadores chineses desta geração já são mais evoluídos a esse nível do que gerações anteriores. Têm uma mentalidade mais aberta.

Antes eram bichos do mato?
Sim, sim. Sei de relatos, de gerações anteriores, que diziam que eles não falavam e eram muito mais frios. Pronto, é a evolução, não só no desporto como também a nível cultura, em que a China está a progredir muito. E eles acabam por ser um espelho dessa evolução.

Francois Nel

Já foste à China?
Joguei lá muitas vezes em Campeonatos do Mundo e Pro Tours.

E como se explica que os chineses sejam tão bons no ténis de mesa?
[Suspira] O ténis de mesa, para eles, é a modalidade número um. Além do Zhang Jike, os outros melhores jogadores da China são extremamente populares, são ídolos para todo o povo chinês. Depois, o ténis de mesa já é algo cultural no país, já vem de há muitos anos. Existe uma estrutura muito grande, há milhares e milhares de pessoas que jogam ténis de mesa logo desde muito novas. Cada região tem a sua seleção e, depois, só os melhores é que conseguem chegar a uma seleção nacional, em que treinam, todos juntos, num centro de treino. Para chegarem à seleção têm de percorrer um longo caminho e ter mesmo um grande valor. O nível é mesmo muito elevado, a concorrência é muito grande e isso ajuda-os a, logo em pequenos, terem de se excederem. Isso depois reflete-se quando são mais velhos e estão a chegar ao pico. E, quando lá chegam, são quase imbatíveis.

A nível técnico são assim tão melhores que os europeus?
Claro que são melhores, sim, mas a grande diferença para eles, nos últimos 15 ou 20 anos, terem dominado o ténis de mesa mundial, é mesmo o facto de ser a modalidade número um no país. Os miúdos começam a jogar muito cedo e há um sistema montado que os possibilite treinar muitas horas por dia, e treinarem muito bem, com condições boas e treinadores bons. Essa é a grande diferença.

E o talento?
Penso que os jogadores europeus até são um pouco mais talentosos. Conseguimos bater-nos contra eles e até ganhar. É mais a nível de estrutura e de condições que lhes são oferecidas desde muito pequenos.

Mas os chineses não vinham muito jogar para clubes na Europa?
Isso já não se verifica. Há 15 ou 20 anos, os melhores vinham jogar para cá, mas há cerca de uma década que isso não acontece. Os que vêm para a Europa já não são jogadores de primeiro plano na China. Os 30 melhores jogadores chineses ficam lá, a treinar entre eles, já têm uma liga em que já conseguem receber ordenados que, na Europa, não são pagos. Não têm necessidade de vir para cá. A evolução na China fez com que eles já não necessitem de sair de lá para terem grandes contratos. Eles ficam na China, treinam por lá e preparam-se para os Jogos Olímpicos e os Campeonatos do Mundo.

Há jogadores europeus a irem jogar para a China?
Não porque, primeiro, o nível é muito alto, só os melhores mesmo é que poderiam ter hipóteses de se baterem com os chineses na primeira liga da China, por exemplo. Segundo, porque a eles não lhes interessa que os melhores europeus tenham o ritmo de treino, e de jogo, que os chineses têm. Eles não são assim tão abertos como nós a esse nível, são apenas q.b.. Ainda se protegem muito. Se abrissem as portas aos melhores jogadores europeus, certamente que teriam mais dificuldades quando chegassem aos Jogos Olímpicos.

Gostavas de ir lá experimentar?
É possível irmos à China, mas não na seleção nacional. Conseguimos treinar numa seleção regional, ou num bom clube, mas ir ao centro de alto rendimento, onde estão mesmo os melhores chineses, é impossível. Eles não deixam, sabem que isso só seria benéfico para os europeus.