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O luso-canadiano que foi campeão nos EUA com uma forma de treinar e jogar “100% portuguesa” (e com a ajuda de Vítor Frade e Jaime Pacheco)

Marc dos Santos sagrou-se campeão da 2ª divisão dos EUA (North American Soccer League), com os San Francisco Deltas, e está prestes a mudar-se para o principal escalão do país (MLS), onde quer continuar a ganhar, diz à Tribuna Expresso, garantindo que é “um treinador 100% português", depois de ter estagiado em Portugal no início da carreira: "Quando voltei para o Canadá, senti que ia ganhar, se colocasse em prática o conhecimento que tinha adquirido"

Mariana Cabral

Marc dos Santos tem 40 anos, é luso-canadiano e foi campeão da 2ª divisão norte-americana pelos San Francisco Deltas, que começou a treinar precisamente esta época. Marc começou a carreira em 2007, no Canadá, tendo partido para o Brasil em 2012 (esteve na formação do Palmeiras) e regressado novamente ao Canadá em 2013

DR

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Hi, Marc.
Olá, Mariana, tudo bem?

Falas bem português.
Entendo, entendo, se calhar tenho um sotaque um pouco diferente, mas é o meu português. É uma mistura de francês, inglês e português, tudo ao mesmo tempo.

És da parte do Canadá que fala francês ou inglês?
Nasci na parte francesa, em Montreal. Vivi lá mais ou menos nove anos, antes de partir para Portugal. Fomos para Aveiro e fiquei lá dos 9 aos 22 anos, depois disso fui a Moçambique por dois anos e só depois voltei para o Canadá e comecei a minha carreira como treinador. E aí também viajei bastante, nos EUA e no Brasil.

Mas no Canadá já jogavas futebol?
Sim, jogava lá e depois quando vim para Portugal também joguei, mas sempre em escalões inferiores, na Associação de Futebol de Aveiro. Percebi rapidamente que não ia fazer carreira como jogador, por isso comecei a estudar.

No Canadá deve ser mais normal jogar hóquei no gelo do que futebol.
Agora já é cada vez mais normal jogar futebol, mas o meu pai é português e treinava equipas amadoras de futebol no Canadá, por isso desde cedo estive implicado no futebol. Era um dos poucos casos no Canadá de crianças que jogavam futebol e não hóquei no gelo [risos]. Ainda joguei um pouco no inverno, mas nunca quis jogar numa equipa nem nada disso. O meu pai influenciou-me muito no que diz respeito ao futebol.

É adepto de que clube?
Do FC Porto. O meu pai nasceu em Vila Nova de Gaia e sempre foi portista.

Então quando vieste para Portugal ficaste adepto do FC Porto?
Fiquei adepto da cidade do Porto, onde ia muitas vezes. Eu diria que tinha dois clubes em Portugal, o Boavista e o FC Porto. Porque o meu primeiro estágio enquanto treinador foi no Boavista, em 2002, mas depois, quando comecei a treinar, perdi um pouco o clubismo.

E o Beira-Mar?
[risos] Estava em Aveiro mas nunca fui um grande adepto do Beira-Mar.

Marc dos Santos começou a carreira no Canadá, mas antes já tinha estado a estagiar em Portugal, com o Boavista

Marc dos Santos começou a carreira no Canadá, mas antes já tinha estado a estagiar em Portugal, com o Boavista

DR

Em que altura percebeste que querias ser treinador?
Já tinha interesse e paixão desde que estava no liceu, na Gafanha da Nazaré. Aos 16 anos, fui treinador da equipa do liceu numa competição entre escolas, portanto já aí, com 16 anos, comecei a apanhar o gosto por ser treinador. Depois continuei sempre a jogar em escalões inferiores da distrital de Aveiro, mas acho que foi quando saí de Moçambique e voltei para o Canadá que comecei mesmo a sério. Aí deram-me uma oportunidade para gerir um programa de uma região no que dizia respeito ao futebol de formação, e foi aí que comecei a acreditar verdadeiramente na possiblidade de fazer carreira enquanto treinador e a desenvolver a minha paixão em relação à metodologia de treino e também na parte da liderança, como liderar pessoas para atingir um objetivo. Foi aos 24 anos que ser treinador passou a tornar-se uma certeza no meu coração.

O que levaste desse primeiro estágio no Bessa?
Queria aprender mais sobre a organização do treino, sobre o microciclo semanal, sobre a gestão de uma equipa com jogadores com o ego muito grande. Na altura em que estive lá, o treinador era o Jaime Pacheco e lembro-me que estava lá o João Vieira Pinto, por exemplo, o Boavista nessa altura era, se calhar, o quarto grande em Portugal, portanto também queria aprender sobre esse lado da gestão de um plantel. A partir daí comecei a ouvir falar do trabalho do professor Vítor Frade, da Universidade do Porto, e fui visitá-lo no ano seguinte, no FC Porto. Depois, com a curiosidade, interesse e estudo, fui acumulando conhecimento e fui crescendo.

O professor Vítor Frade é um poço de conhecimento, não é?
Adoro o homem. Sempre foi uma pessoa top comigo. Mesmo quando eu estava a treinar no Canadá ou nos EUA, vinha visitá-lo e ele sempre me recebeu bem e com muito interesse. É uma pessoa que teve muita influência na minha forma de pensar o jogo e o treino.

Nesse caso, no que diz respeito à forma de pensar o jogo e o treino, és um treinador português?
A 100%. Claro que tive influências estrangeiras, também porque vejo muitos jogos, mas foi assim que fui formando as minhas ideias e vendo como queria que a minha equipa jogasse. A nível de treino e de metodologia de trabalho não há dúvida que a minha influência é 100% portuguesa.

Recentemente entrevistei o Pedro Santos [leia AQUI], que está a jogar na MLS.
No Columbus Crew.

Exatamente. E ele dizia-me que o futebol nos EUA ainda é muito baseado no físico, com muita correria e pouca organização. Portanto pergunto-te se tens a mesma ideia e se te sentes bem nesse tipo de futebol.
É um futebol que taticamente ainda tem de crescer, porque o nível de formação dos jogadores... Numa equipa só podes ter sete ou oito estrangeiros, então isso quer dizer que o resto do plantel é americano ou canadiano e há uma grande, como é que posso dizer... há um grande problema em relação à formação dos jogadores, porque é uma formação que acho que é fraca. As academias e os centros de formação ainda não são o que devem ser, ainda há muito trabalho a fazer em relação a isso. Enquanto que em Portugal, nos escalões inferiores - sub-19, sub-17, sub-15 -, os treinadores têm muita qualidade, são treinadores que têm inteligência e um saber sobre o jogo, nos EUA isso ainda não acontece. Por isso, como o Pedro disse - e disse bem -, a nível de intensidade, nesse lado físico, no que diz respeito a transições rápidas e no que diz respeito a ética de treino e de trabalho, aqui é impressionante, mas depois tem de se organizar tudo isso dentro de uma forma de jogar. E acho que é aí que ainda há muitas lacunas. Diz-se lacunas, não se diz?

Sim, sim.
Então é isso, ainda há lacunas nesse aspeto. É aí que o futebol na América do Norte ainda precisa de crescer. Mas também digo o seguinte, que é uma realidade: tem crescido imenso nos últimos dez anos. Já não é aquilo que era há 20 anos. Se olho para o futuro daquilo que pode ser, então acho que ainda há coisas grandes para fazer.

É por aí - falta de organização e formação - que se explica a falta de EUA no Mundial-2018?
Mariana, não diria só isso, porque se eles tivessem empatado contra Trinidad [perderam 2-1], iam ao Mundial. Não sou uma pessoa que julga todo um trabalho de uma Federação baseando-me no resultado de ir ao Mundial ou não ir ao Mundial. O Mundial é uma competição que dura um mês, a cada quatro anos, e nem sempre espelha bem o trabalho de uma Federação. Às vezes podes ter um pouco de azar na fase de grupos e é só. Os EUA nunca tiveram um jogador da qualidade do Pulisic, que joga no Borussia de Dortmund. É um país que tem vindo a crescer muito. Mas é claro que um dos grandes problemas é o da formação, porque os diretores técnicos dos clubes e quem dá a visão a nível de formação nos clubes são pessoas muito fracas ainda.

O internacional norte-americano Christian Pulisic tem 19 anos e joga no Borussia de Dortmund

O internacional norte-americano Christian Pulisic tem 19 anos e joga no Borussia de Dortmund

Ashley Allen

Então tu, como tiveste as tuas aprendizagens iniciais em Portugal, quando foste para o Canadá sentiste muito a diferença?
Senti que ia ganhar.

[risos] Sentiste que era mais fácil para ti, pelo conhecimento que tinhas?
Sim, senti que se colocasse em prática o conhecimento que tinha adquirido... Mas, Mariana, não é só chegar e dizer: "Ah, eu aprendi em Portugal e agora vou chegar e vai sair tudo certo". Não, porque tens de gerir pessoas e tens de ter um lado teu na liderança para que as pessoas te aceitem. Mas sabia que se fosse um bom líder e colocasse em prática aquilo que aprendi, faria a diferença. E consegui começar a ganhar muito cedo aqui. Consegui resultados rapidamente e acho que tem a ver com essa leadership e com a forma de trabalhar clara, que ajuda o jogador a desenvolver-se e a crescer.

Nesse caso, o teu treino é algo que tem sempre a ver com a tua forma de jogar ou integras o lado mais americano, virado para o desenvolvimento dos aspetos físicos?
Não, não misturo nada. O meu treino tem sempre a ver com o meu modelo e com a forma de jogar, com o ADN que quero que os meus jogadores tenham. O meu treino é sempre relacionado com aquilo que quero que sejamos no jogo.

Os americanos não sentem falta do físico treinado fora de contexto de jogo?
É uma questão, Mariana, de fazer os teus jogadores acreditar naquilo que estamos a fazer. No início de cada temporada, eu faço uma apresentação aos jogadores a explicar a nossa forma de treinar e a explicar por que razão vamos treinar assim. Depois, pode haver o uso do ginásio, fora do treino, quando o meu auxiliar quer fazer um trabalho preventivo por causa de um jogador que tem histórico de lesões ou com alguém que volta de lesão. Isso pode acontecer em casos isolados, mas os jogadores sabem que, comigo, por norma, não vai haver treinos em que vamos para o ginásio treinar. Já sou conhecido aqui no mercado por isso, portanto as pessoas que me contratam já sabem que isto faz parte da minha forma de ver o treino.

Os jogadores adaptam-se facilmente?
Comigo, adaptaram-se bem. Acho que os jogadores de todo o mundo, se são jogadores de futebol, aquilo de que mais gostam é do jogo, portanto se estão sempre em treino relacionado com o jogo, então vão estar felizes, independentemente de serem americanos, italianos ou portugueses.

E tu estás feliz em San Francisco?
Oh, é uma cidade top, única. Fui abençoado por viver em muitas cidades diferentes e San Francisco é provavelmente... não sei como dizer em português, mas no landscape...

Na paisagem.
Sempre que estás a passear na cidade e olhas para um lugar, parece que estás a ver uma carta postal. Em todo o lado, é impressionante como San Francisco é bonito. Mas é uma cidade diferente, porque é uma cidade muito cara, está provavelmente no top três das cidades mais caras do mundo, porque tem muita tecnologia - o Facebook está aqui, o Twitter, Google, Uber... Há muito dinheiro e é uma cidade cara para viver, especialmente no lado imobiliário, aí é uma loucura. Um apartamento pode custar quatro mil dólares por mês, é incrível.

Pagas isso?
Estou num apartamento e a minha renda é 3600 dólares.

É muito.
É, comparando com Montreal, onde cresci... Em Montreal, com 3600 dólares por mês vives num castelo [risos]. Não dá para explicar, é San Francisco.

Então, como treinador, ganhas bem mais do que isso.
É um salário muito bom. Acho que não seria adequado dizer quanto. Mas amigos meus de Portugal dizem que o tipo de salário que ganho e que oferecem alguns clubes da MLS aproxima-se do que um treinador do Braga ganha em Portugal, talvez até um pouco mais do que isso.

Numa perspetiva financeira nunca te mudavas para Portugal, só numa perspetiva desportiva.
Numa perspetiva desportiva não tenho dúvidas de que gostava de treinar em Portugal, um dia. Mas não quero ir para um projeto em Portugal - e não só em Portugal, também acontece na Grécia, em Itália, em Espanha... Não tenho necessidade hoje, enquanto homem - e, para mim, a vida é mais importante do que o futebol -, de ir para um clube em que tenha problemas de salários, em que os jogadores estão aflitos com isso. Não me interessa, até porque estaria a deixar um mercado que está a crescer muito atualmente. É claro que gostaria e acho que poderia levar alguma coisa nova para Portugal, alguma mentalidade nova, mas, ao mesmo tempo, não quero ir só por ir, só para dizer que estou na Europa e depois não ser feliz.

Qual é o teu objetivo atual?
O meu objetivo é chegar ao mais alto nível possível no mercado onde estou, que é a América do Norte, e a partir daí não tenho... You know, the sky is the limit. Quero chegar o mais longe possível. Mas acho que quando nos focamos muito no amanhã e no que queremos ser depois, perdemos as coisas que podemos receber hoje.

No meio de tudo isto, como foste parar ao Brasil, em 2012?
Através do César Sampaio, diretor desportivo do Palmeiras. Ele tinha um amigo advogado em Montreal e eu treinei o Montreal Impact, durante três anos, e quando o meu contrato acabou o César entrou em contato comigo. Sempre fui uma pessoa de challenges, de tentar coisas novas, não tenho medo de falhar. Não estou no futebol pelo ego ou pela vaidade, estou no futebol para ter experiências e ajudar os jogadores a desenvolverem-se. Portanto, quando isso surgiu, um futebol novo, a trabalhar com jogadores juvenis de uma qualidade técnica fora do comum, porque o brasileiro tem isso, decidi experimentar. Ganhámos o campeonato juvenil brasileiro e para mim foi algo único.

Juntando a qualidade técnica do jogador brasileiro com a mentalidade do jogador americano, teríamos um jogador quase perfeito?
Acho que sim. Sei que durante muitos anos falou-se que o jogador brasileiro é preguiçoso e quando vem para a Europa só quer festa, mas tenho de ser honesto: nos últimos três anos tive sempre dois ou três jogadores brasileiros nos meus plantéis e nunca vi uma falta de ética ou de vontade de trabalho neles.

Um deles já esteve aqui em Portugal, o Reiner Ferreira, que era da Académica.
O Reiner foi muito bom para mim, foi um jogador que teve muita influência na nossa linha defensiva, fez praticamente todos os jogos e acabou no melhor onze do ano, teve uma época fantástica. É uma pessoa e um homem muito bom, com bom coração e boa ética de trabalho, gostei muito de treiná-lo.

Nos EUA dão muita importância a esse lado da mentalidade de trabalho.
Para ser justo, não posso comparar com outros sítios onde não trabalhei. Mas o americano é assim, ele tem muita vaidade e só pensa em ser o melhor, só fala em ser number one. É um povo que sempre conseguiu coisas e... Quero dizer isto de uma forma politicamente correta, não sei bem como dizê-lo: é um povo de guerra, é um povo em que a cultura é de batalha e de trabalho. Têm uma mentalidade de "you have to work hard, you have to be agressive", esse tipo de mentalidade existe em tudo, nos vários desportos. Também com as viagens que há na MLS e na NASL, tens de saber sofrer, porque há muitas viagens de avião, às vezes estás no limite físico e essa mentalidade faz parte da cultura.

Na Europa, generalizando um bocado, claro, há a imagem do americano bélico e do canadiano tranquilo.
O vosso lado de ver isso está correto [risos], porque é exatamente isso. Disseste exatamente o que penso e o que muitos pensam aqui. Apesar de EUA e Canadá serem dois países colados, separados por uma fronteira, as mentalidades são muito diferentes.

Agora estás de férias?
Estou, e vou visitar a minha família que está em Montreal, mas antes ainda estou a analisar algumas propostas que tenho para entrar na MLS. Ainda não posso dizer onde.

E vens a Portugal?
Em princípio devo ir, sim. Mas vou tentar ter a cabeça fora do futebol, por algumas semanas. É preciso para recarregar.