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O tenista que teve um derrame e deixou de andar: “Sangrei da boca, do nariz e dos ouvidos. Acordei seis meses depois e não sentia as pernas”

Há dois anos, Darko Grncarov treinava seis ou sete horas por dia, preparado para se estrear no circuito ATP, quando um derrame cerebral o deixou em coma durante seis meses. Esta é a história que o macedónio, de 20 anos, contou à Tribuna Expresso, depois de ficar com as pernas paralisadas e de os médicos lhe dizerem que demoraria, pelo menos, sete anos até voltar a andar. Mas agora está prestes a fazer o primeiro jogo como profissional

Diogo Pombo

Darko Grncarov tem 20 anos e está de volta ao ténis depois de ter estado seis meses em coma

D.R.

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Abre os olhos, olha à volta, não faz ideia de onde está.

Darko Grncarov acabou de acordar e apercebe-se que está preso a uma cama, ligado a agulhas e tubos. Tem pessoas a rodeá-lo, adornadas por batas brancas. São médicos, é um hospital. O primeiro pensamento é que isto é um sonho, o segundo dá-lhe conta de que não é capaz de manter a cabeça para cima e as pernas estão imóveis. Não as consegue mexer, nem sequer as sente. Aconteceu-lhe alguma coisa grave, não sabe o quê, um desconhecimento que o deixa em choque: “Só me lembro de ficar assim durante duas horas”.

Depois, recorda-se de despertar, outra vez - seis meses mais tarde.

Darko está deitado na mesma cama do mesmo hospital, as agulhas, os tubos e os médicos, como se uma sesta o tivesse hibernado apenas por momentos. A cabeça só lhe dá confusão, não ouve bem o que lhe dizem. “Demorou muito tempo para que me explicassem que data era ou o que tinha acontecido”. Aos poucos, a família e os médicos contam-lhe sobre o acidente vascular cerebral. Assustam-no com as consequências do ataque que o próprio corpo lhe lançou.

Ele continua na horizontal, preso e imóvel, enquanto sabe da veia que lhe rebentou no cérebro e o deixou "a sangrar da boca, do nariz e dos ouvidos". Que o derrame fora causado pelo esforço intenso, brutal e demasiado a que submetera o corpo com horas exercício físico. Que não é impossível que as pernas, que não sente, voltem a pô-lo de pé e a andar, mas que isso iria demorar entre sete a 14 anos. Que ouve mal tudo o que faz por escutar porque o AVC lhe levou a audição de um dos ouvidos.

A vida ainda só lhe deu uma amostra de 18 anos e a última memória que tem, antes de estar neste hospital, é que faltam três dias para fazer o primeiro jogo como um tenista profissional.

Por isso desata a chorar, pelo quão perto estava de o fazer e não pelo ataque, pelas veias ou pelo cérebro. “Nesse dia, os médicos tiveram que me acalmar com injeções para não ter um segundo AVC”, lembra Darko, nascido na Macedónia, sobre “o pensamento de nunca mais poder jogar ténis” que lhe deixou “o coração em pedaços”, há quase dois anos.

Ele está hoje em Nova Iorque, nos EUA, sentado à frente de um computador e com as mãos no teclado, a contar à Tribuna Expresso como recuperou do derrame cerebral, de meio ano em coma e de ter ambas as pernas paralisadas para voltar a jogar ténis. Como, corra tudo bem, se vai estrear no circuito ATP daqui a mais ou menos um mês, no Open de Rennes, em França.

De como tudo (re)começou na cama, no hospital, com os médicos a rodeá-lo, com as lágrimas.

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Até lá estar deitado, o caminho de Darko Grncarov foi algo previsível, o esperado de quem tem um jeito anormal para praticar alguma coisa e nasce de um contexto assim: filho de um pai futebolista e irmão de dois nascidos antes dele que escolheram viver com uma bola nos pés.

O desporto chegou-lhe através de raquetes de praia, com as quais brincava, até um primo do pai, um dia, retornar de uma viagem à Suíça com “duas maravilhosas raquetes da marca Wilson”. Ofereceu-as ao rapaz, então com quatro ou cinco anos, que as achou grandes e disformes, esquisitas demais para lhes achar piada. Ficou “pouco impressionado com esta coisa a que chamavam ténis”.

Mas tinha os primos, filhos desse tio, como melhores amigos, que jogavam ténis quase todos os dias. E ele foi como qualquer miúdo desta idade, receoso em ficar de fora e não brincar - “Ok, vou jogar esta porcaria de jogo só para estar com eles”. O bicho pegou-lhe rápido e Darko, pouco tempo volvido, estava a ser inscrito, pelos pais, numa academia de ténis em Skopje. A família endinheirada e viajada, com os anos, foi puxando pelo jeito que ele tinha e fazendo o resto.

O pai punha-o “a treinar em muitas academias” e levava-o “a ver torneios, como Roland Garros”. O extrovertido Darko desinibia-se para, em qualquer lado, perguntar aos profissionais se queriam bater bolas com ele. Tenistas como Gilles Simon, Viktor Troicki, David Ferrer ou Robin Hasse iam dizendo-lhe que sim e incentivando-o a arriscar, mais ainda, no ténis. Quando os encontrava nas academias, diziam-lhe coisas como “o circuito adorava ter-te” e “tens de começar a jogar”, cócegas no ego que o alimentava e na vontade de chegar a tenista profissional.

Coisas que um desportista tem, e usa, como Darko o usou ao sacrificar, correr, treinar, suar e trabalhar como todas as estórias de quem faz por subir na vida.

Ou se esforça em demasia para o conseguir.

Ele decidira ser tenista profissional, já tinha o patrocínio de algumas marcas e vivia a vida a treinar para começar por jogar em Challengers e Futures, os torneios na base da cadeia alimentar do ténis. Apontou para se estrear como profissional em dezembro de 2015, na Turquia. A três meses do torneio treinava, em média, seis a sete horas por dia, entre o court, o ginásio e “treino duro” até ao momento em que sentiu uma muito forte dor de cabeça.

- “O meu cérebro e corpo já não aguentaram o ritmo e o sangue parou de circular. Uma veia rebentou na minha cabeça, sangrei da boca, do nariz e dos ouvidos e quase morri.”

Acorda no hospital a três dias de fazer o primeiro jogo da carreira. O coma prendeu-o durante seis meses, ouviu os médicos e os piores augúrios, chorou as lágrimas de desespero, os “entre sete e 14 anos” até recuperar totalmente as pernas. Mas Darko Grncarov esperou apenas um mês.

Ainda no hospital, falou com fisioterapeutas e perguntou-lhes que exercícios poderia fazer para ativar os músculos. Reavivar as pernas, porque “só conseguia pensar em voltar a jogar ténis e nada mais importava”. Os especialistas indicaram-lhe “dois ou três” exercícios que deveria executar, no máximo, durante 10 minutos por dia - Darko demorava três ou quatro horas a exercitar-se com esses e outros métodos que pesquisava. “Estava focado 24 horas por dia, sete dias por semana, em levantar-me. Tinha a sensação que ia consegui-lo muito rápido”, diz, garantindo que nunca sentiu medo de forçar tanto, e outra vez, o corpo.

Três meses passaram e pôs-se de pé.

Os médicos, assim que souberam, chamara-lhe louco. Não lhe pararam de dizer “o quão sortudo era por ainda estar vivo” após “colocar tanta pressão no corpo”, de novo. Darko arriscou muito, ou muitíssimo, um risco que ergue como um troféu, porque “foi ele que me fez voltar a andar quase sete anos mais cedo”.

- “Toda a gente ficou chocada. Recuperei as pernas e provei a todos que estavam errados.”

O macedónio refere mais do que uma vez a provação. O quanto lhe significava recuperar-se e ir até aos limites. O que teve de ouvir dos pais e de os ver sofrer, assustados com o filho que forçou até se levantar e mais quis forçar para voltar a jogar ténis. “Estavam tão assustados que me diziam que os ia perder. Depois do AVC, não queriam que eu continuasse. Tinham medo que voltasse a acontecer”, resume, ciente dos avisos, pedidos e palavras com que o lembravam o quão sortudo era por tanto infortúnio apenas lhe ter levado a audição num ouvido.

D.R.

Ele foi melhorando aos muitos, não aos poucos. Hoje não ocupa um quarto do dia com o ténis, o ginásio ou o exercício físico - “Treino, no máximo, três horas, não por causa do AVC, mas por ser o suficiente para qualquer tenista” - e está a contar fazer a estreia que, há dois anos, o corpo lhe roubou, em janeiro (Open de Rennes, França) ou fevereiro (Open de Sófia, Bulgária).

Poderia escrever sobre o inusitado de Darko Grncarov, sendo destro, ser capaz de servir com o braço esquerdo. Ou de muitas vezes bater a direita a duas mãos, por mais estranho que possa ser imaginá-lo. Detalhes técnicos, neste caso, irrelevantes para quem está a jogar ténis depois de um derrame cerebral, um AVC e um coma de seis meses.

Ele nem guarda fotografias ou vídeos de antes sofrer o que sofreu. “Não quero nada nas minhas memórias do período antes do acidente vascular cerebral”, explica, simples e direto, o macedónio que, a meio da conversa, assegurou ter “uma mentalidade e personalidade fortes” que lhe permitiram “sair sozinho de uma situação má, sem ajudas de psicólogos ou terapeutas”.

Contada a estória, parece mesmo que sim.