Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Luisão: “Tenho, digamos, uma fascinação pela arte de defender, mais do que por fazer o golo, que é o que toda a garotada quer fazer”

Luís Filipe Vieira diz que ele é “o único sobrevivente no caos do Benfica”. Luisão aterrou há 14 anos na Luz e daí para cá chegou ao top 3 de futebolistas com mais jogos pelas águias e tornou-se no jogador com mais títulos com a camisola do clube. Em entrevista à Tribuna Expresso, o central de 36 anos não esconde que Jorge Jesus lhe ensinou muito e do futuro só sabe que passa por Portugal

Lídia Paralta Gomes (texto) e Tiago Miranda (fotos)

Luisão chegou ao Benfica em 2003/04, com 23 anos, proveniente do Cruzeiro (Brasil)

TIAGO MIRANDA

Partilhar

Há 14 anos, quando chegou ao Benfica, o clube jogava em casa emprestada e não ganhava um título há anos. Daqui para cá, um estádio novo, um centro de estágio e 20 títulos. Há um a.L (antes de Luisão) e um d.L (depois de Luisão) no Benfica?
É, era tudo diferente. Eu vinha do Cruzeiro que tinha uma estrutura exemplar no Brasil e quando cheguei aqui assustei-me um pouco! Mas depois, em conversa, o presidente falou-me daquilo que era a ideia, onde queria que o Benfica chegasse e pediu-me para manter a tranquilidade e para trabalhar, porque as coisas estavam a mudar. E, logo no ano que cheguei conseguimos conquistar a Taça de Portugal, que foi importante, contra um FC Porto que tinha sido campeão da Champions. Aí retomámos a confiança e no ano seguinte ganhámos o título.

Luís Filipe Vieira disse em tempos o Luisão era “o único sobrevivente do caos do Benfica”.
É, é [risos]. Eu fico feliz depois de todos estes anos anos estar a ouvir isso. Mostra que apostei na pessoa certa, que confiei nas palavras de uma pessoa de uma índole ímpar e que apostou no meu futuro nessa época e hoje eu vejo que tudo valeu a pena.

O início não foi fácil e chegou-se mesmo a falar de um regresso ao Brasil. O que foi mais complicado na adaptação?
Eu saí do Brasil já internacional brasileiro, com um título de campeão pelo Cruzeiro e com títulos na seleção. A ideia era chegar cá com a confiança toda e afirmar-me. Mas infelizmente eu era muito novo, cheguei sozinho e as lesões que eu tive também atrapalharam. Muitas vezes eu estava a recuperar e o [Jose Antonio] Camacho dizia que eu tinha de voltar, nem que fosse um pouquinho antes porque ele queria contar comigo dentro de campo, mesmo com limitações. E isso não chega até ao torcedor, não é? Os adeptos e a imprensa cobravam de uma maneira… mas eu não estava a 100%. Isso colocou-me para baixo, porque havia muita gente a duvidar daquilo que eu podia render. Passou pela minha cabeça voltar, mas dentro do Benfica também temos o psicólogo e vamos conversando com uma pessoa ou outra. Mostraram-me que era aqui que eu tinha de vencer. Então mudei de ideias e comecei a trabalhar mais ainda. E tudo mudou.

Começa a ser mais normal, mas antes não era muito comum ver um atleta admitir sem problemas que o apoio psicológico é importante.
Foi importante sim. Foi um papo até informal: eu estava a sair do estádio e foi a caminho do carro. Mas com uma pequena conversa o psicólogo conseguiu mudar a minha maneira de pensar, aquela tristeza e a falta de confiança que eu tinha.

E pode-se saber o que é que o psicólogo lhe disse na altura?
Não, não, porque é uma coisa que fica ali entre nós. No futuro quem sabe, talvez escreva um livro e conte. Para o pessoal comprar, não é [risos]?

Luisão é capitão do Benfica, onde está há 15 anos

Luisão é capitão do Benfica, onde está há 15 anos

Tiago Miranda

O seu pai também foi futebolista. Pensava nele nessa altura mais complicada?
Sim. O meu pai foi jogador, chegou até, como nós dizemos no Brasil, à Intermediária, que é a 2.ª divisão. Jogou na minha cidade, Amparo e tinha passado pelo Ponte Preta nas categorias de base. Foi o meu primeiro incentivador, o meu primeiro treinador. Lembro-me vagamente, tinha eu 5 anos, dele começar a dar treinos numa escolinha de futebol e no primeiro dia era só eu e ele! Não apareceu ninguém e o meu pai conta-me que eu lhe disse “vamos embora” e eu meu pai respondeu “não, vamos treinar”. Pegou numa bolinha de borracha e ele tocava para mim, eu para ele. Depois vieram mais jogadores. Até na questão de posicionamento: eu jogava de - como se diz aqui - trinco, que lá no Brasil é o volante, e quando comecei a crescer e o meu pai disse-me “acho melhor você jogar de central, que vai ter um futuro melhor”. Isso tudo eu devo ao meu pai. Desde o começo que lá em casa já tinha cobrança, tinha as coordenadas do que precisava para ser jogador. Ao longo de toda a minha carreira tentei fazer com que o meu pai sentisse orgulho de mim e ainda hoje trabalho para que ele venha aqui a Lisboa e oiça elogios.

Normalmente, um jogador com mais de 1,90m ou é central ou é ponta de lança. Desde sempre foi jogador de tendência defensiva?
Sempre fui defensivo. Eu tenho, digamos, uma fascinação pela arte de defender, mais do que propriamente por fazer o golo, que é o que toda a garotada quer fazer. Até hoje eu fico muito feliz com um bom posicionamento de uma defesa, por um corte sem encostar num adversário… para mim isso é fascinante.

E o seu pai foi decisivo.
É, ele teve a inteligência de perceber que eu ali no meio não estava a acompanhar o ritmo. E ainda por cima eu tinha bronquite quando era criança. Graças a Deus que a bronquite passou e que baixei uma etapa no campo!

Ao Expresso, o Ruben Amorim disse que o Luisão era um dos jogadores mais inteligentes com quem tinha jogado, exatamente porque, não sendo um jogador rápido, ganha no posicionamento.
Vindo do Ruben fico feliz, porque era um jogador que cumpria bem a sua tarefa dentro de campo. E isso é sinal de que ele era muito inteligente também. A questão de ser rápido ou não… o rápido está na maneira de você pensar e de reagir. Quem é rápido? É aquele que já está bem posicionado ou aquele que está mal posicionado e que depois tem que fazer um sprint de não sei quantos metros para recuperar uma jogada? Na minha opinião, é aquele que taticamente está bem posicionado. E isso é o que eu procurei fazer ao longo da minha carreira: procurei entender o futebol de uma maneira mais tática, para que o meu rendimento crescesse.

Com tantos fundamentos defensivos, já é o Luisão que treina a defesa do Benfica?
Dou o meu pequeno contributo [risos]! Temos jogadores muito inteligentes no plantel em termos defensivos e aquilo que eu aprendi tento passar para os outros.

E que treinadores foram mais importantes nessa aprendizagem?
Costumo destacar o Quique [Flores], que quando chegou trouxe algumas ideias mais evoluídas para o posicionamento da defesa. E depois o treinador com quem estive mais tempo, o Jorge Jesus, que foi o treinador que chegou no momento certo para a minha carreira, para crescer como jogador. E isso eu não escondo de ninguém, porque foi um treinador que me ajudou muito nessa questão do posicionamento, aprendi muito com ele. Naquela altura nós jogávamos até de uma forma até arriscada, em que você tem de ser muito inteligente para conseguir acompanhar.

Jorge Jesus foi treinador de Luisão no Benfica entre 2009/10 e 2014/15

Jorge Jesus foi treinador de Luisão no Benfica entre 2009/10 e 2014/15

Gonzalo Arroyo Moreno/Getty

Rui Vitória trouxe alguma coisa de novo nesse aspecto?
Trouxe muita coisa nova e por isso é que temos ganho títulos. Trabalhamos muito no dia a dia a visão do Rui. Ele sabe gerir bem o dia a dia.

Essa é a grande qualidade de Rui Vitória?
Entre muitas. Hoje em dia toda a gente estuda a tática, o jogo em si, mas também temos de entender que passamos muitos dias juntos e por isso é preciso ser um bom gestor.

E o Luisão, vê-se como treinador um dia?
A nossa vida no futebol é tão dinâmica, a cobrança e o desgaste são tão grandes que nem dá tempo para programar e pensar naquilo que eu quero fazer. Não parei ainda, não dá tempo!

O Luisão está com 36 anos, continua a ser titular, num ritmo intenso. Que cuidados tem agora com o físico que se calhar não tinha aos 25?
Eu devo agradecer porque tenho 36 anos e, salvo erro, sou o jogador mais utilizado da época no Benfica. O torcedor muitas vezes olha só para os 90 minutos, para o produto final. Mas nós jogadores, para a carreira ser longa, temos todo um trabalho que passa por chegar às 7h30 ao clube, de fazer prevenção, treinar, fazer uma boa recuperação, ir para casa, descansar, ter uma boa alimentação. Para um jogador manter um alto nível durante muitos anos é importante tudo o que está para lá dos 90 minutos. Nos 90 minutos é onde a gente desfruta, fora disso é onde a gente realmente trabalha. Há um ou dos anos tive uma conversa com a minha esposa em que definimos isso: para eu estar sempre num bom nível, ia haver dias em que não podíamos jantar ou almoçar porque eu tinha de ter uma alimentação e uma recuperação melhores.

Às vezes não tem daqueles acessos de raiva do género “eu sei que tenho de me cuidar, mas apetecia-me mesmo era comer um hambúrguer”?
Tenho, tenho [risos]! Mas tenho que deixar para as férias. O jogador é um ser humano também, gosta das coisas que toda a gente gosta. Tem é de escolher o momento certo para desfrutar.

Fez parte de muitas duplas de centrais nestes 14 anos de Benfica. Com que jogador se entendeu melhor?
Todos os jogadores com quem fiz dupla são de nível mundial. Mas a posição de central depende muito da cumplicidade e se tiver se escolher um é o Garay. A certa altura entendiamo-nos só pela maneira de olhar.

Ezequiel Garay, atualmente no Valência, foi colega de Luisão no Benfica entre 2011/12 e 2013/14

Ezequiel Garay, atualmente no Valência, foi colega de Luisão no Benfica entre 2011/12 e 2013/14

FRANCISCO LEONG/GETTY

Neste momento joga ao lado de um jovem. Qual é o potencial do Ruben Dias?
Acho que o Ruben reflete muito bem aquilo que é a formação do Benfica, que passa por colocar jogadores com grande maturidade no plantel principal. Hoje em dia, um jogador que vem da formação já tem um perfil de liderança, de qualidade e de conhecimento o clube, a tão falada mística.

E nestes 14 anos qual foi o jogador que mais o impressionou?
O Saviola. Não é à toa que ele jogou no Real e no Barça. É um jogador que estava sempre livre na hora de receber a bola, um pouco como o Jonas hoje. Para nós defesas é muito difícil marcar um jogador assim inteligente.

Sendo o Luisão o jogador com mais anos de Benfica no plantel, há algum ritual ou praxe para receber os novos jogadores?
Cada um tem que falar depois do jantar e cantar. Mas a parte de cantar estamos a tentar cortar porque cantam todos muito mal! Isto fora as brincadeiras que fazemos no dia a dia para enturmar. Porque o ambiente no balneário tem de ser descontraído, de amizade.

Casos como os dos e-mail ou os bate-bocas entre os presidentes dos três grandes, esse tipo de episódios afetam um jogador?
Nós ficamos a saber desses episódios pelo que sai nos jornais. Quando entramos no centro de estágio o nosso foco é só o futebol, mas Portugal é um país pequeno e se vais na rua ouves comentários. Eu procuro não dar muita atenção, no casos dos e-mails por exemplo: eu confio muito no nosso presidente assim que não valorizo muito.

Como capitão tem tentado serenar a equipa face a esse tipo de episódios?
O nosso ambiente é muito tranquilo e por isso não tenho de fazer isso. Se fosse um ambiente conturbado teria que fazer essa função, mas de facto não posso dizer que o estou a fazer porque aqui dentro o foco é muito grande.

Luisão tem 36 anos e, quando acabar a carreira, vai continuar a viver em Portugal

Luisão tem 36 anos e, quando acabar a carreira, vai continuar a viver em Portugal

Tiago Miranda

E o vídeoárbitro, como é que em campo um jogador gere aquela incerteza?
Tivemos a primeira experiência na final da Taça de Portugal e na altura tivemos aqui no Benfica uma conversa, em que nos explicaram como funcionava a tecnologia. Mas dentro de campo o foco continua a ser só o futebol porque o campeonato português tem árbitros muito inteligentes. Agora têm mais este auxílio, mas é uma novidade para eles e.acho que temos de ter um pouquinho de paciência porque estamos ainda em testes, é o primeiro ano.

Concorda que estas tecnologias cheguem ao futebol?
Estamos em 2017, não tem como não concordar com as tecnologias que chegam. Senão vamos ficar para trás.

Há alguma coisa que tenha deixado de fazer por causa do futebol e que vai querer fazer quando deixar os relvados?
Ah, muitas coisas! E eu pego mesmo na questão da família. Há muitas coisas que eu quero fazer com as minhas filhas que agora não faço: acompanhar o crescimento, curtir o fim de semana com elas, por exemplo. Acho que são esses momentos mais puros. E estar com o meu pai e a minha mãe, porque já vivo longe deles há muitos anos. Talvez agora em janeiro eles venham morar para Portugal. Para desfrutarem, agora que já estão na idade disso.

Vai ficar cá a morar depois de acabar a carreira?
Sim, isso já está definido. Porque há uma ligação muito grande com Portugal, que me acolheu muito bem, e com o Benfica. Então tenho que ficar próximo. As minhas filhas adoram estar cá, a nossa família está muito bem cá. Na rua recebemos um carinho muito grande e de todos, de benfiquistas, de não benfiquistas.

A ideia é ficar ligado ao Benfica?
Ainda não sei, mas um adepto a mais o Benfica vai ganhar, de certeza!

E depois de 14 anos cá, o sotaque não lhe foge já para o português de Portugal?
O meu é difícil! Nem sei porquê, não apanhei o sotaque. Mas as minhas filhas sim, o sotaque é português. Há palavras que até tenho de lhes perguntar o que significa. E elas também, nós dizemos algo em português do Brasil e elas muitas vezes perguntam o que quer dizer.

Versão integral da entrevista publicada na edição de 18 de novembro de 2017 do Expresso