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“Enquanto vigorou o nacional benfiquismo, a questão da escalada verbal não se punha” – entrevista exclusiva a Francisco J. Marques

Há uma nova figura no futebol português a ocupar o espaço central da discussão. Não joga, treina, preside ou apita, apenas decide o que se fala e, sobretudo, como se fala. Chama-se diretor de comunicação. Cada clube tem o seu, mas é entre os responsáveis de FC Porto, Benfica e Sporting que a atenção mediática se divide. Há quem diga que o protagonismo é excessivo. Há quem os culpe pela agressividade. Eles dizem que não é bem assim e explicam porque é que não se calam na defesa dos interesses dos seus clubes. Falámos com os três e estas são as suas respostas. Esta terça-feira publicamos as de Francisco J. Marques

Pedro Candeias

JOS\303\211 COELHO

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1. Um diretor de comunicação deve dar entrevistas a jornais? 
Se sim, porquê?
Por sistema não o deve fazer, mas, como em tudo na vida, pode haver lugar para a exceção. No meu caso, isso aconteceu para repor a verdade dos factos, que tinha sido tão adulterada que podia dar origem a uma realidade alternativa falsa como Judas.

2. Dado o seu passado profissional, o diretor de comunicação representa um papel, ou melhor, é forçado a representar um papel público quando assume funções para chegar aos seus adeptos?
Se não mentirmos sobre os factos, não ficaremos reféns de argumentos torcidos ou mesmo retorcidos [Francisco J. Marques foi jornalista da Lusa e do “Jornal de Notícias”]. E desempenhamos naturalmente a função. Não represento nenhum papel, desempenho as minhas funções com convicção.

3. Ainda consegue 
retirar prazer ao ver 
um jogo de futebol?
Claro, em especial os do FC do Porto; mas consigo retirar prazer de qualquer jogo bem jogado ou pelo menos jogado com alma. E depois há aqueles jogos inesquecíveis, como os das nossas vitórias internacionais — vi-os todos, uns pela TV (a cores) outros ao vivo —, ou os que pela emoção e incerteza se tornam património de todos os adeptos, como aconteceu na semana passada na Taça de Portugal, com uma recuperação épica. No futebol gosto de finais felizes.

4. Assume alguma responsabilidade nesta escalada verbal que se assiste em alguns programas de TV?
Essa pergunta pertence ao Novo Testamento, porque enquanto vigorou o Velho Testamento, ou seja, quando o ‘Nacional Benfiquismo fazia o que muito bem queria e ninguém lhe descobria a careca, essa questão da escalada verbal nem se punha.

5. Qual o envolvimento 
dos presidentes na elaboração destas estratégias de comunicação?
A primeira grande decisão foi naturalmente do presidente, na escolha das pessoas para esta área. Obviamente que sempre que sinto necessidade falo com o senhor presidente.

6. Os treinadores estão 
a par e/ou são chamados a envolverem-se?
Não.

7. Porquê a existência 
de programas de televisão como “Chama Imensa” 
e “Universo Porto da Bancada”?
O “Universo Porto da Bancada”, às terças-feiras [Porto Canal], nasceu da necessidade que o FC do Porto sentiu de informar os seus sócios e adeptos dos seus pontos de vista.

8. Programas como estes fazem parte de uma estratégia comunicacional? 
Com que objetivo? E que dividendos se retiram daqui?
O “Universo Porto da Bancada” acabou por evoluir para um formato de denúncia pública daquilo que hoje designamos de ‘Polvo Encarnado’, apenas porque nos colocaram nas mãos informação reveladora das múltiplas influências que condicionavam a competição desportiva e a partir daí ou nos acobardávamos ou dávamos a cara e encarávamos isso como uma missão de interesse público. É o que temos feito.

9. Tem noção que a agressividade deste tipo de comunicação está a prejudicar o futebol português?
Nada pode prejudicar mais o futebol português do que os tentáculos com os quais o Polvo procurava asfixiar quem decidia na justiça desportiva e na arbitragem para tentar tirar disso vantagens competitivas.

10. Qual o papel que os diretores de comunicação devem tomar para contribuir para a pacificação do atual estado?
A pacificação do futebol português não é uma questão de comunicação, é uma questão institucional complexa mas que poderemos resumir numa frase: deixem os árbitros ser livres e deixem que a justiça desportiva seja cega às cores das camisolas.

11. Já foi retirado algum patrocínio ao clube face ao tipo de comunicação que está a ser praticada? Por outro lado, algum patrocinador já se manifestou incomodado com este tipo de estratégia?
Nada pode ser mais incómodo do que a adulteração da verdade desportiva. E isto é válido também para os patrocinadores. Para a indústria do futebol obviamente que não é positivo.

12. Os presidentes 
da Liga e da Federação Portuguesa de Futebol 
já falaram consigo 
ou recomendaram algum tipo de atitude?
Comigo ninguém falou.

13. As intervenções nas redes sociais por parte dos diretores de comunicação contribuem também para alimentar o clima de crispação do futebol português?
Lá está, voltamos à questão do Velho Testamento, quando o ‘Polvo’ andava à solta, abocanhando as suas presas e ainda por cima fazendo-se passar por caviar.

14. Se nos anos 80 e 90 os clubes tivessem as suas próprias televisões 
e as redes sociais já existissem, 
o que hoje se passa, 
passar-se-ia nessa altura?
Pouca coisa resiste a uma década, quanto mais várias, mas a obrigação que cada um de nós tem de denunciar traficâncias e abusos de poder com factos verdadeiros sempre existiu como nobreza de carácter e as redes sociais apenas devem tornar essa faceta da cidadania mais expedita e mais disponível para todos. Que alguns façam das redes sociais albergues espanhóis isso é outra coisa.

15. Os diretores de comunicação dos clubes falam com os comentadores desportivos para os preparar antes dos debates?
No meu caso, em sintonia com o ADN do FCP não tenho ‘encartilhados’; acho que, se o fizesse, estaria a atentar com os valores liberais que são a matriz da nossa cidade.