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Cech: "Aqui come-se muito bem, rojões, bacalhau com natas. E eu sou sócio de um restaurante, faço compras e sirvo à mesa. Só não cozinho"

"Ser treinador é o pior emprego do futebol. Se ganha, é a equipa. Se perde, é ele o culpado. É pior do que ser político", diz o antigo defesa esquerdo que aos 22 anos trocou o Sparta de Praga pelo FC Porto, onde era o menino querido do disciplinador Co Adriaanse, avesso a vedetas. Marek, nado e criado na recém-independente Eslováquia, tricampeão no Dragão e 52 vezes internacional, sempre foi antítese do jogador-estrela. Depois de Inglaterra, Turquia e Itália, de jogar meia época no Boavista e de uma passagem fugaz pelo Como, voltou à sua casa no Mindelo, Vila do Conde. Aos 34 anos, é sócio do restaurante de um amigo de longa data, serve à mesa e vai às compras. Só não cozinha

Isabel Paulo

MIGUEL RIOPA

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Nasceu em Trebisov, ainda na antiga Checoslováquia. Onde começou a jogar?
No clube da terra. Trebisov é uma cidade muito pequena a 500 quilómetros de Bratislava. Quando era pequenino, o meu pai, que era jogador profissional do Slava Trebisov, levava-me sempre para os treinos com ele. Sempre olhei para ele como jogador de futebol. Ele chegou a jogar no Sparta de Praga, meio ano, por empréstimo. Era extremo esquerdo e toda a gente dizia que era muito rápido. Tinha os ombros largos, braços grandes, jogava com os cotovelos afastados e não deixava ninguém passar. Na grande área caía com frequência e ganhava muitos penáltis. O pai era o homem do jogo. O MVP (risos).

Era o seu herói.
Sim. Eu gostava de jogar, mas ele influenciou-me muito. Quando deixou de jogar, tornou-se massagista profissional. Para mim era fixe. Acabava o treino e tinha uma recuperação cinco estrelas. Tinha sempre massagem em casa. Se calhar por isso nunca tive grandes lesões, mesmo jogando por três equipas: a do meu escalão e dois acima. Numa semana fazia três jogos.

E a mãe? O que fazia?
Tinha problemas de saúde e ficou muito cedo em casa de baixa médica. Antes, trabalhava num supermercado perto do hospital. Foi quem me acompanhou sempre a todos os jogos fora com a seleção. Enquanto fui menor não podia viajar sozinho.

Tem irmãos?
Um irmão mais velho que agora é empresário de futebol. O Ricardo também jogou, mas parou muito jovem porque teve uma lesão grave. Naquele tempo, e na nossa cidade, não havia grandes meios clínicos de recuperação. Quando tentava voltar a jogar, queixava-se de muitas dores. Optou por estudar economia.

Também estudou?
Eu? Sim, até ao equivalente aqui ao 12º ano. Era bom aluno Aos 15 anos fui para a capital, para o Inter de Bratislava, e aí já era mais complicado conciliar as duas coisas e faltava às vezes, mas na escola eram tolerantes. Assistia a aulas noutros horários, etc. Podia ter ido para a universidade, mas como já era profissional no Sparta de Praga ficou difícil.Gostava de matemática e história.

Vivia onde?
Num prédio onde o clube alugava quartos para jogadores e onde viviam outros trabalhadores deslocados. Um dia, um deles, que estava bêbedo, enganou-se e entrou no meu quarto. A vida dos jogadores não é tão bonita como toda a gente pensa. Comecei a viver sozinho aos 15 anos.

E era atinado?
Se não tivesse juízo não tinha vindo para Portugal. Há muitas possibilidades para fugir do bom caminho, mas nunca gostei de discotecas, sair à noite, beber. Até aos 30 anos não tocava em álcool. Nunca fiquei com os copos, não faz sentido.

Que memórias tem da Revolução de Veludo na Checoslováquia, em 1989?
Tinha seis anos, não me lembro bem.

E tinha nove quando a Eslováquia se tornou um país independente.
Recordo-me que, no geral, a gente da Eslováquia não queria a separação da Checoslováquia. Foi mais uma decisão política.

Eram o parente pobre.
Tudo o que era bom ficou na República Checa. E a Eslováquia começou do zero, da bandeira ao hino. Tudo ficou concentrado em Praga. Agora, a nível económico não sei se continua melhor do que a Eslováquia. Quando foi a mudança para o Euro, já cá estava em Portugal, mas a família conta que foi muito difícil, o custo de vida subiu muito.

Os eslovacos são católicos. É praticante?
Chegar a Portugal e a religião ser a mesma foi muito bom. Vou à missa com a minha esposa, Tatiana, e com os meninos, o Luca e o Bruno, de seis anos e dois anos. O mais velho treina no Rio Ave.

Como veio parar a Portugal?
Jogava nas seleções jovens e joguei contra Portugal no play-off de apuramento para um Europeu, contra o Hugo Viana, Quaresma, Raul Meireles. Lá empatámos 1-1 e cá ganhámos 1-0. Fomos medalha de bronze e ficámos apurados para o Mundial dos Emiratos Árabes Unidos. Na abertura, a Eslováquia jogou com eles: ganhámos por 3-1 e marquei um golo de 30 metros, golo que me valeu o convite vir jogar em 2005 para o FC Porto.

Tinha empresário?
Sim. Juraj Venglos, filho do antido treinador do Sporting. O FC Porto estava à procura de um lateral esquerdo para o lugar do Nuno Valente, transferido para o Everton. Tinham o César Peixoto mas ele era mais extremo. Falaram com o meu empresário, mas não foi ele quem intermediou diretamente a transferência. Os dirigentes do FC Porto apresentaram uma proposta de uma equipa de Portugal e pagaram 800 mil euros. Disseram-me para não dizer para onde ia, que o FC Porto era um clube incrível, que tinha vencido a Champions. Quando souberam que era o FC Porto queriam € 2 milhões, valor que naquela altura não se pagava por um jovem. Foi bem feito pela parte do Porto e muito bom para mim. Tive uma estreia muito boa contra o Inter de Milão. Ganhámos 2-0 e depois do jogo os jornais elogiaram-me por ter anulado o Figo. Sorte.

O que sabia de Portugal?
Foi tudo novo, mas a adaptação foi fácil. Clima bom, comida boa, a gente do norte tem muito coração. Por isso, estou aqui...

Para onde foi residir?
Tinha 22 anos, era solteiro mas a minha namorada, depois minha mulher, veio comigo. Uma relação à distância não resulta. Ficámos a viver na Avenida Boavista, num apartamento do Antero Henrique. Depois comprei casa aqui ,no Mindelo, ao lado do Postiga e perto do Joaquim Azevedo, o ciclista. Quem veio mostrar a cada foi o meu amigo Hélder, agora sócio no restaurante Tia Mila. Hesitei, depois voltei a ver a casa através de uma imobiliária e comprei.

Falava inglês?
Sim, mas pouca gente falava aqui inglês. Comecei depressa a entender o português. Nunca tive vergonha de perguntar coisas aos colegas no Centro de Treinos do Olival. O treinador era o Co Adriaanse, o que para mim foi ótimo porque falava quase tudo em inglês - o Rui Barros traduzia para a equipa. Ou seja, tinha tudo em primeira mão e não em segunda como a maioria dos colegas. Foi uma grande vantagem.

Ficou três épocas e foi três vezes campeão...
Num ano, ganhámos a Liga, Taça de Portugal e Supertaça. Era uma equipa fortíssima: Vítor Baía, Bruno Alves, Pepe, Quaresma, Benny McCarthy, Lucho, Lisandro Lopez, Bosingwa, Paulo Assunção, Pedro Emanuel, Raul Meireles, Anderson. Quando cheguei, o Co Adriaanse disse-meque ia ficar dois ou três meses no banco e que o meu tempo ia chegar. “Mas não te preocupes”. Levou-me sempre para os estágios para me adaptar mais rápido. Deixou-me jogar, calhou bem para mim e para ele.

Os adeptos nunca gostaram muito dele. Sabe porquê?
Não percebi. Tirando a equipa que venceu a Champions, foi com ele que a equipa jogava o futebol mais atrativo, com três defesas, muito atacante. Eram resultados por 5-0, 3-0. E acabámos com muitos pontos de diferença do Sporting e Benfica.

No ano seguinte rescindiu contrato no defeso, o que não é nada comum...
Não sei as razões. Era daqueles treinadores que não deixava ninguém dizer quem ia ou não jogar. Ele é que mandava. E não gostava de estrelas, mas de jogadores que trabalhavam bem.

Incompatibilizou-se com os jogadores mais influentes. Era conhecido por general.
O Vítor Baía começou a titular mas trocou-o pelo Helton; encostou o Jorge Costa e também o Benny McCarthy. O Benny era grande jogador mas não era disciplinado e o Adriaanse era muito disciplinador. Se alguém chegava tarde aos treinos, pagava multa. Como para alguns jogadores o valor da multa era nada, pagavam mas tinham de correr antes do treino e depois treinar. E no dia seguinte tinham de chegar mais cedo e correr mais ainda. Deixaram de chegar tarde. Fomos para estágio na Holanda e saiu. Só ele sabe o que se passou e a administração. No fim pagou mais de €1 milhão. Não digo todos, mas boa parte do plantel ficou feliz. Eu chorei. “O meu pai vai embora”, pensei. Eu gostava dele e ele gostava de mim.

Manteve contacto?
Não, mas é engraçado que há duas semanas o meu irmão foi à Holanda para transferir um jogador e encontrou um dos seus adjuntos aqui no Porto. Falámos por vídeo-chamada e disse-me que o Co Adriaanse me mandava um abraço e que se recebesse uma chamada de um número estrangeiro era o Co.

A seguir veio Jesualdo Ferreira, do Boavista. Quem foi o treinador que mais o marcou?
Todos os treinadores deixam qualquer coisa. O Jesualdo era taticamente muito forte, aprendi muito com ele.

Gostou de jogar em Inglaterra, no West Bromwich?
A adaptação não foi tão boa. Frio e as pessoas são também mais frias. Quando lá cheguei, o treinador Tony Mowbray ligou-me quando estava no Porto, mesmo sendo proibido por estar com contrato, a prometer que com ele jogaria sempre, que ia ser a estrela da equipa. Fui lá com permissão do FC Porto e fui contratado. Pintaram tudo muito bonito mas pediram-se para jogar a extremo direito. “O quê, eu sou esquerdino e vou jogar a extremo direito?”, pensei. Um jogador não pode dizer não. O treinador dizia que como quem jogava na minha posição era o capitão, aquilo podia prejudicar o balneário. Quase não joguei - mas quando joguei tive críticas positivas. A equipa desceu e o treinador foi embora. Veio o Roberto Di Matteo, pediu-me para ficar quando eu já tinha propostas. Fiquei, joguei e subimos.

De Inglaterra vai para a Turquia para o Trabzonspor, depois para o Bolonha. De que país guarda piores recordações?
Da Turquia. Da sociedade à religião é tudo diferente, mas não digo que seja mau. Era só casa, treino. Não havia mais nada para fazer, não era como Istambul. Que é mesmo muito bonita. Trabzon é uma cidade ao mesmo tempo pequena e grande. Tinha um milhão de habitantes e pouco oferta. Agora tem um novo estádio muito bonito e desenvolveu-se. Quando o Stepanov veio do Trabzonspor para o FC Porto em 2007, contou-me que foi a um restaurante, pediu a lista e trouxeram-lhe quatro peixes embrulhados num jornal para ele escolher. Cinco anos depois quando cheguei já era outra coisa. A Turquia é incrível, tudo cresce muito depressa. Quando saí, foi para lá o Bosingwa. Uma pena não termos ido juntos, que sempre fomos amigos, aqui e em Inglaterra, quando ele estava no Chelsea. E com Quaresma também, que foi para o Besiktas.

De Itália é impossível não gostar...
O país, comida e tempo, é tudo muito bom. Dentro do balneário e o futebol é complicado. Não gostei nem do futebol nem da relação entre jogadores. O treinador era o Piolo. No Porto éramos quase família. No Bolonha não se trabalhava com o coração. Muitos jogadores eram manhosos. A minha experiência no Como também não foi boa. Não sei se é assim noutras equipas ou se tive apenas azar. O futebol português é bonito, brinca-se com a bola no um contra um; o inglês, mais direto, também é bonito. A melhor Liga foi a inglesa. A pior foi a italiana: futebol lento e tática acima de tudo. É só regras. Mesmo quando se faz bem e é golo, mas se não se obedece à regra, está mal. Não interessa porque podia ter resultado mal. É a mentalidade deles. Na Turquia há defesa e ataque, o meio campo não existe. É difícil de defender e também para atacar. É muito buraco no meio.

FRANCISCO LEONG

E quem foi o ponta de lança que mais trabalho lhe deu?
Cristiano Ronaldo, Quaresma. Uma vez no Sparta de Praga, num jogo em casa com o Manchester, para a Champios, fiquei meia hora à espera que o Ronaldo me desse a camisola. Hoje até vale mais, que já é antiga. É o melhor, o mais completo.

Veio para o Boavista em 2015. Quem o convidou?
Estava aqui a viver, sem clube, e costumava jogar com amigos e várias jogadores, como o Deco, o Petit. Foi o adjunto dele, o Daniel, que me perguntou se não queria ir para o Boavista. Respondi logo que sim. O Boavista vinha da III Divisão e tinha poucos jogadores com experiência da I Liga. Gostei muito de lá jogar. Tanto que sou portista e boavisteiro. No fim da época, o Fary falou comigo. Pensei 'que maravilha', mas disse que tinha de falar com o meu irmão para fazer o contrato. No último treino, já o meu irmão estava cá, perguntei quando assinava. Falei com o Petit, Alfredo e Álvaro Braga, mas não quiseram renovar. Fiquei triste, os adeptos eram espetaculares. Ainda agora se me encontram na rua querem tirar selfies comigo. Depois ainda voltei a Itália para jogar no Como, mas como era meio ano, não podia levar os meninos por causa da escola. Percebi que, sem família, não era vida para mim. E foi o fim da carreira.

Não pensou ser treinador, ficar no futebol?
Pensei sim: nunca treinador., mas não digo nunca em relação a qualquer coisa ligada ao futebol. Eu gosto muito de jogar futebol, não tanto de ver um jogo de futebol, e, para mim, ser treinador é o pior emprego do futebol. É ingrato. Se se ganha, quem ganha é a equipa. Se se perde, é o treinador que perde porque fez isso e não aquilo. É pior do que política.

Como surgiu a oportunidade de ser sócio do restaurante Tia Mila?
Conheci o Hélder, que é o proprietário, quando comprei casa aqui no Mindelo. Ficámos amigos, a Sandrinha, que é a mulher dele falava muito bem inglês e fazia muita companhia à minha mulher, e começámos a passar férias juntos. Nunca perdemos o contacto. Quando deixei de jogar, perguntaram-me se não queríamos ser sócios, o que para mim é fixe que não tenho nada que fazer e queria começar qualquer coisa.

O que faz?
Tudo, tudo, menos cozinhar. Servi à mesa, faço compras, o que for preciso. Ao almoço, cozinha a Tia Mila, que é a sogra do Hélder, a mãe da Sandra; à noite, cozinha a tia Fátima, que é cozinheira há mais de 40 anos. É tudo muito bom, caseiro. No mundo de hoje é difícil encontrar amigos verdadeiros. Nós tivemos sorte. Aqui somos todos família. É uma boa vida.

Quais são os seus pratos preferidos?
Bacalhau com natas, rojões. Em Portugal come-se muito bem, é comida mais saudável do que na Eslováquia, que tem muitos molhos. E os vinhos são muitos bons. Só comecei a experimentar depois dos 30 anos.

Onde investiu os seus rendimentos?
O jogador tem muito treino. Treino duas horas por dia e depois tem o resto do tempo para descansar. Tem direito a divertir-se, mas com limites. Pena que nem todos os jogadores pensem no futuro. Ainda não li o livro do Tarantini, "A minha causa", mas ele tem razão quando diz que os jogadores têm de investir e ter um projeto para quando acabam a carreira. No meu caso, comprei apartamentos e terras na Eslováquia e tenho uma sociedade com um amigo alemão de marketing de produtos. Sempre me preocupei com o futuro, porque a minha família não era rica, apesar de nunca ter passado mal. Mas se o meu pai não tivesse ganho uma espécie de totobola, só um dos filhos podia ter ido estudar para a capital - se eu não tivesse sido jogador de futebol, claro

Pensa ficar para sempre em Portugal?
Não posso dizer. Os nossos pais no fim da vida vão precisar de ajuda. Mas o regresso será difícil. Os filhos já estão na escola, além de que gostamos muito de viver aqui. Agora vêm visitar-nos três quatro vezes por ano. Agora vêm os meus sogros, ficam até dia 12, e a seguir chegam os meus pais a 18 de dezembro para o Natal. O ano passado foram os sogros que ficaram para o Natal.