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Aurora Cunha: "Tive cancro e é a primeira vez que falo nisto. É como um terremoto mas Deus foi justo. Não estava preparada para ir"

Nunca perdeu o ar de rapazinho, mas continua a ser uma mulher de armas, que não tem medo de dar a cara por aquilo que pensa. Aos 58 anos, Aurora Cunha conta como foi duro enfrentar um cancro na mama, aos 44 anos, revela que andou a fugir dos jornalistas nos corredores do hospital quando estava grávida da filha Mariana, assume que nunca foi bem tratada pela federação de atletismo e afirma que ficou desiludida com Pinto da Costa, mas nunca deixou de ser portista. Frontal, diz que o meio fundo e fundo está muito mal, sem referências e que a melhor atleta portuguesa de sempre é Fernanda Ribeiro

Alexandra Simões de Abreu

Lucilia Monteiro

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Nasceu em Ronfe numa família de 10 irmãos.
Sim, sou a 7ª. Somos sete raparigas e três rapazes. Recordo-me que a minha irmã mais velha, sempre que fritava sardinhas, era um terror, porque nós vínhamos por detrás do fogão e roubávamos as sardinhas todas e quando chegava à hora do jantar já não havia sardinhas para ninguém.

O que faziam os pais?
Os meus pais eram trabalhadores fabris, naquele tempo trabalhava tudo nas confeções. Nunca passámos fome. Fomos uma família humilde, mas os meus pais nunca nos faltaram com nada. E eu fui trabalhar com 14 anos precisamente para ajudar a família.

Largou a escola cedo.
Na 4ª classe.

Não gostava?
Não gostava muito. Ainda fiz o preparatório, 5º e 6º ano. Mas na altura vivíamos uma geração em que não tínhamos ninguém que nos ajudasse e nos incentivasse a preparar o futuro. E fomos trabalhar porque era importante o dinheiro para a ajuda da vida de casa.

Foi trabalhar para uma empresa têxtil onde estava a sua irmã.
Trabalhava na confeção de lençóis, todo o dia de pé. Era um empresa que tinha 1200 funcionários. A minha irmã era a encarregada da confeção. Vivíamos numa aldeia onde toda a gente se conhece, onde há aquela rotina de ir à missa e de levarmos as melhores roupas ao domingo para a missa. Agora nada disso se usa.

Como eram as vossas brincadeiras?
Ao domingo íamos ao Terço, porque os nossos pais nos obrigavam, depois do Terço íamos para um campo de futebol que havia lá em Ronfe, onde jogávamos à macaca e ao lencinho, futebol. Foi uma geração fantástica, de que tenho muitas saudades.

E a corrida, como é que surge?
Surge precisamente num domingo desses em que se fez uma corrida onde participámos todos. Lembro-me que já se usavam calças de ganga, e lá fui eu no meio daqueles todos. Parecia um rapazinho. Ganhei essa corrida e no final falámos entre nós de formarmos um clube. Como existia o Juventude de Ronfe, decidimos ir para lá treinar. Íamos às segundas e sextas.

Quem dava os treinos?
Era o Toninho Serralheiro, o serralheiro mecânico que trabalhava na fábrica. Não tinha curso nenhum de desporto. Depois, dá-se o 25 de abril. Eu trabalhava na fábrica e lembro-me de estar atrás dos rolos de tecido a ouvir as notícias na rádio e de ver os patrões aflitos. Sim, porque nessa altura foi difícil para os patrões.

Aurora Cunha no dia da Primeira Comunhão

Aurora Cunha no dia da Primeira Comunhão

D.R.

Participou em greves?
Eu era muito revolucionária (ainda hoje sou), muito contestatária. Como a irmã era encarregada, foi complicado. Discutíamos em casa. Depois de 1975 vivíamos tempos em que não era fácil uma jovem andar a correr, no meio da estrada; parecia mal, mostravam as pernas. Vivi estas lutas. Até com o padre da freguesia, que dizia à minha mãe quando ela se ia confessar: "Oh Laurinda tira a tua filha da estrada. Parece mal, é feio". Mas fui sempre uma miúda teimosa e dizia à minha mãe que queria correr e que ninguém ia impedir-me. Longe de imaginar que ia ter a carreira que tive.

Naquela primeira prova que ganhou tinha quantos anos?
Tinha 15. Continuávamos a treinar duas vezes por semana. Até que depois o Toninho resolveu levar-nos a Lisboa. Ir a Lisboa após uma revolução, era como ir a Roma ver o Papa. Era uma festa. Mas eu tive um problema grande, precisava da autorização dos meus pais.

E eles deram?
Eu tinha 16 anos. Ia com um homem casado, outro drama, porque parecia mal e o que é que os vizinhos iam dizer... Mas eu sempre disse à minha mãe: "Você não pode ouvir aquilo que os vizinhos dizem. Nós somos seis, vamos e ponto final". A minha mãe sofria muito. Numa aldeia ver uma filha ir por esse país fora com um senhor casado... Não tínhamos dinheiro para nada, nem para dormir.

Onde é que ficaram, em Lisboa?
Fomos dormir a casa de um casal que era o responsável do parque de ténis de Monsanto. E depois acontece a história que conto muitas vezes: há um empresário que é amigo da minha irmã Alberta e que sabe que vou a Lisboa, sabe que não temos dinheiro para nada, eu ganhava 7,5 escudos por mês, e deu-me 7,5 escudos para comprar uns bicos [de sapatos]. Eu nem sabia o que eram bicos. O equipamento na altura era uma t shirt preta de algodão com uns calções com fecho e umas meias de lã. E chegámos a Lisboa, fomos ao Centro de Estágio ter com o Alberto Silva, que ainda hoje é meu amigo, e perguntei-lhe se tinha sapatilhas de bicos. Eu calço o 36. Mas ele não tinha.

Correu com sapatilhas normais?
Não. Disse-lhe para arranjar-me o 37 que eu lá me arranjava. Comprei os sapatos de bicos, peguei em jornais e meti na biqueira do sapato, para o sapato não sair.

E ganhou a corrida.
Sim. A Rosa (Mota) já era a recordista nacional dos 1500m, começou a fazer atletismo mais cedo do que eu. Eu não sabia quem ela era e a 500m da meta já venho com os braços no ar. Ouço o meu treinador aos gritos, para ter calma porque era muito cedo para estar já a comemorar. Mas eu ia tão descontraída, que quando cortei a meta, virei-me para os jornalistas que já estavam à minha espera e disse-lhes: "Vocês não me conhecem de lado nenhum, mas quem ganhou, quem cortou a meta e bateu o recorde nacional não fui eu foram os meus sapatos. Porque eu calço 36 e foi a biqueira do sapato que cortou a meta primeiro do que eu" (risos).

Aurora com o pai

Aurora com o pai

D.R.

Foi aí que começou o atletismo para si.
Foi. Mas nunca me passou pela cabeça é que ia ser a atleta que fui. Durante 14 anos dominei o meio fundo e o fundo. Não é para qualquer uma. Hoje digo muitas vezes às minhas colegas, e elas ficam um bocado chateadas comigo: "Eh pá, vocês fazem marcas que eu já fazia há 30 anos".

Essa vitória alterou alguma coisa na fábrica onde trabalhava?
Completamente. Naquela altura não havia os jornais que há agora, mas sei que no domingo eu fazia capa dos jornais. "Jovem desconhecida de Ronfe...". No domingo aconteceu a mesma coisa. Fui para os 3000m. Bati o recorde nacional que também pertencia à Rosa. Destronei a partir desse momento a Rosa Mota.

Como é que ela reagiu? Foi ter consigo, deu-lhe os parabéns?
Não. Cumprimentámo-nos naturalmente. Não havia grandes amizades, estávamos a começar no atletismo, eu não sabia se aquilo era para durar ou não.

Aurora Cunha na sua primeira prova em Lisboa. Tinha 16 anos

Aurora Cunha na sua primeira prova em Lisboa. Tinha 16 anos

D.R.

Foi a primeira vez que pisou uma pista de atletismo?
Foi, eu não sabia o que era tartan. Fizemos 18 horas numa camioneta desde Ronfe. Durante anos e anos andávamos 18h metidas numa camioneta para ir a Lisboa. Os atletas de agora não sabem aquilo que nós passámos e sofremos. Mas ainda bem que tudo evoluiu.

Então na segunda-feira volta a brilhar nos jornais.
Sim. E quando cheguei à fábrica a minha irmã diz-me que tenho de ir à administração, que eles querem falar comigo. Fui cheia de medo. Mas queriam felicitar-me, dar os parabéns, e dizer que tudo aquilo que a empresa pudesse fazer por mim... eu poderia contar com o apoio deles. Fiquei toda contente, porque na verdade naquela altura o dinheiro era importante e eu não ganhava dinheiro algum no clube do Ronfe. Fizemos mais um ano em Ronfe. Continuei a bater recordes nacionais.

Quando começou a ter mais apoio e mais tempo para treinar?
Só comecei a ter mais apoio da minha empresa a partir do momento em que fui para o FC Porto. Foi em 1977/78. Em 1977 fiz um ano espetacular e apareceu o Moniz Pereira e o Sporting.

Conte lá.
O prof. Mário Moniz Pereira tentou levar-me. A minha aldeia parou para receber o prof. Moniz Pereira. Parou mesmo. É uma aldeia com pouco mais de 3000 habitantes e foi toda a gente assistir a um treino que fizemos no campo de futebol. Ainda me recordo bem de ver o professor a chegar num Mini. Lembro-me como se fosse hoje dele a tirar os tempos com o cronómetro, ele tinha uma maneira especial de pegar no cronómetro. Ficou quase tudo acertado para ir para o Sporting.

Porque é que não foi?
Os meus patrões souberam, depois apareceu o Benfica e o FC Porto, e como eles eram portistas disseram-me: "Vamos arranjar maneira de ires para o FCP".

Aurora no dia em que bateu o primeiro recorde nacional dos 1500m

Aurora no dia em que bateu o primeiro recorde nacional dos 1500m

D.R.

Preferia ter ido com o prof. Moniz Pereira?
Eu não sei se valeria a pena ou não. Até porque eu era muito jovem e ir para Lisboa... Agora, tinha vontade de ir treinar com um treinador com muito mais experiência e conhecimento. O prof. Moniz Pereira já tinha tido a medalha do [Carlos] Lopes. Estávamos todos indecisos. Era eu que tinha de decidir tudo sozinha, não tinha acompanhamento, nem ninguém ao meu lado que me dissesse para escolher o melhor para mim. Não tínhamos nada. Tudo o que decidi, foi sozinha. Os meus pais eram pessoas simples. Nunca se meteram em contratos, em nada, para eles estava sempre tudo bem. Quando aparece o FCP, o Alfredo Barbosa falou comigo e fui trabalhar com o Prof. Fonseca e Costa. Ele foi para o FCP 1977/78 e fui treinar com ele. Acho que foi uma mais valia para o atletismo do norte porque fez um trabalho fantástico.

Notou uma grande diferença?
Enorme. Fui treinar com uma pessoa que tem experiência, quer académica, quer no campo. Aí é que a minha empresa começa a dar-me dispensa de trabalho às terças e quintas. Trabalhava de manhã, vinha a casa almoçar a correr, apanhava a camioneta à uma, chegava ao Porto duas horas depois. Fui para o FCP ganhar 1800 escudos. Nesse tempo ainda poupava dinheiro. Às vezes ia a pé da Av. dos Aliados até às Antas para poupar uns tostões.

Lembra-se qual foi a primeira coisa que fez questão de comprar com o primeiro ordenado do FCP?
Um fato de treino e umas sapatilhas (risos). Porque não tínhamos dinheiro para comprar um fato de treino e o equipamento que o FCP nos dava na altura também não era nada de especial. Era uma camisola grossa. É verdade que na altura não havia muito para comprar, não havia grande quantidade de marcas em Portugal. Mas poder ter uma coisa diferente e sentirmos que temos umas sapatilhas e um fato de treino novo era...

Aurora à conversa com o professor Mário Moniz Pereira

Aurora à conversa com o professor Mário Moniz Pereira

D.R.

Como foi treinar no FCP?
Lembro-me que tinha de treinar à tarde porque a última camioneta para Guimarães era às nove menos um quarto, depois já não havia mais nenhuma. Eu tinha de treinar a tempo de apanhar a camioneta, que parava em todas as estações e apeadeiros. Aquilo era um martírio. Tinha que treinar às quatro horas. No primeiro treino que faço, o Pedroto muito admirado ao ver ali um "rapazinho" às voltas, que nunca mais parava. Mandou-me parar mas virei-me para ele e disse-lhe: "Não, não, eu não posso parar porque estou a treinar". No final, ele veio ter comigo e pergunta-me quem eu era e o que estava ali a fazer, porque não podia estar ali a treinar à hora dos jogadores de futebol. Tive que lhe explicar.

E ele?
Foi espectacular. Aliás, é engraçado que passados dois anos os jogadores começaram a correr. Sim, porque o jogador de futebol não corria, não gostava de correr. Quando o prof. Fonseca e Costa chegava às Antas já eu estava preparada para fazer as séries. E o José Maria Pedroto compreendeu muito bem o facto de eu ter de treinar à mesma hora dos jogadores. Recordo-me que depois, ao sábado, os jogadores que não eram selecionados para ir jogar, vinham correr connosco na pista de cinza das Antas. Lembro-me de correr com o Simões e o Fernando Gomes. Tive um relacionamento com aqueles jogadores da minha geração que foi fantástico, porque eu era a única atleta que tinha autorização até para pisar a relva. Mais ninguém podia pisar a relva das Antas porque aquilo era só para jogadores de futebol.

Em 1977 foi campeã nacional de corta-mato. Preferia a pista ou o corta-mato?
Eu gostava muito de pista. Também gostava do corta-mato mas eu tinha algumas lesões e tinha mais prazer e mais motivação para correr em pista.

Acha que podia ter ido aos Jogos Olímpicos (JO) de 1980?
Sim, podia ter sido a primeira atleta portuguesa a fazer parte de uma equipa para os JO, mas Portugal decidiu fazer boicote.

Aurora Cunha já com as cores do Futebol Clube do Porto (FCP)

Aurora Cunha já com as cores do Futebol Clube do Porto (FCP)

D.R.

Continuou a trabalhar na fábrica até quando?
Trabalhei na fábrica até chegar a um ponto da minha vida em que tive de fazer opções. Em 1985/85 decidi abraçar a carreira do atletismo. Não foi fácil, porque o atletismo não dava muito dinheiro. Mas em 1984 fui aos JO de Los Angeles e fui inalista olímpica. Naquele tempo, ser finalista olímpica já era quase como ganhar uma medalha, porque não era fácil, ainda por cima nos 3000m.

Numa final que ficou marcada pela queda da Mary Decker, da Zola Budd...
E eu cá atrás a pensar: "Bom se caírem mais três vou ganhar a medalha" (risos). Mas ainda fui sexta. Acho que foi um lugar espetacular numa prova de 3000m.

O que se sente quando se "aterra" pela primeira vez nuns JO?
É uma alegria indescritível. A primeira vez que qualquer atleta vai aos JO não tem noção do que é o convívio, a partilha de viver uma aldeia olímpica onde estão milhares de atletas de todo o mundo. Foi uma experiência riquíssima.

Os atletas trocam mesmo experiências e conhecimentos?
Sim, falávamos principalmente com os mexicanos e com os espanhóis, por causa da língua. A equipa espanhola apoiava-nos ao nível da fisioterapia, de massagista, porque nós, na verdade, éramos muito pobrezinhos. Andávamos sempre a reboque dos outros. O português é aquele género do desenrasca e nós desenrascamos. Arranjámos maneira de ir à massagem aos espanhóis. Foi uma experiência giríssima.

Aurora, à direita, no Crosse Internacional das Açoteias, quando venceu pela terceira vez, em 1983

Aurora, à direita, no Crosse Internacional das Açoteias, quando venceu pela terceira vez, em 1983

D.R.

Ficou um mês nos EUA, depois dos JO de Los Angeles. Porquê?
A Rita Borralho convidou-me para fazer algumas provas nos EUA, para ganhar mais algum dinheiro. E fiquei. Eu a Rita e o João Campos. Fizemos uma data de provas nos EUA, ganhei-as todas. E foi aí que ganhei também algum dinheiro extra, não foi muito, mas foram alguns dólares.

O que fez com esse dinheiro?
Juntei, porque tinha o sonho de comprar um carro.

E comprou o carro?
Comprei. Um Fiat 127 que me custou 300 contos. Fui entregar os 300 contos em dinheiro a um empresário de Ronfe. E conduzi esse carro um ano sem carta.

Nunca foi apanhada?!
Não. Tive sorte. Mas naquela altura não havia muito trânsito. Eu comprei o carro ainda não sabia conduzir. Depois fui ter umas lições de código e de condução, mas chumbei no exame de código e pensei: "Nunca mais vou tirar a carta". Tinha de treinar e tinha dificuldades de ir às lições à noite. Tive o carro um ano parado, até que um dia resolvi ir para o Porto, de carro, sem carta, e fui atrás de uma camioneta. Como me desenrascava muito bem...

Atrás de una camioneta?!
Sim, fui atrás da camioneta que ia para o Porto. Nunca ultrapassei a camioneta (risos). A camioneta parava e eu também. Agora, está a ver... daqui até ao Porto, a camioneta parava em todos os apeadeiros, aquilo nunca mais acabava. Nessa altura disse para mim: agora tenho mesmo de tirar a carta. Depois tirei.

Aurora, a segunda à direita, participou nos Jogos Olímpicos (JO) de Los Angeles, em 1984. Aqui junto a outros atletas da comitiva portuguesa

Aurora, a segunda à direita, participou nos Jogos Olímpicos (JO) de Los Angeles, em 1984. Aqui junto a outros atletas da comitiva portuguesa

D.R.

Nessa altura já era casada?
Não, mas já namorava com o meu marido.

Onde é que o conheceu?
Em Lisboa. Ele era atleta do Sporting. Eu ia muitas vezes a Lisboa depois do Fonseca e Costa ir embora do Porto.

Isso foi quando?
Ele vai-se embora em 1984/85. Acabou o contrato com o FCP e foi para Lisboa. Decidimos continuar a treinar juntos. Eu treinei com o prof. Fonseca e Costa por correspondência.

Por correspondência?!
É impensável um treinador treinar uma atleta por correspondência, mas é verdade. Eu seguia à risca o plano de treinos que ele me dava. Sempre. E todos os meses ia uma semana para o centro de estágio da Cruz Quebrada.

Tinha treinador no FCP também?
Tinha, o Alfredo Barbosa que, no fundo, era o que me tirava os tempos, que eu depois punha num papel para levar ao prof. Fonseca e Costa.

O seu marido foi atleta então.
Foi atleta dos 400m. Sempre que íamos a Lisboa fazíamos muitas patuscadas com os atletas do Sporting. Hoje já não se faz nada disso. Íamos beber umas canecas e comer um franguinho à churrasqueira do Sporting. Vivíamos a vida também.

Nunca teve restrições a nível alimentar?
Não e ainda bem que não. Vamos lá a ver uma coisa: no nosso tempo não tínhamos ninguém que nos ajudasse, que nos dissesse não coma isto ou aquilo. O prof. Fonseca e Costa tinha algum cuidado naquelas provas principais, para não comermos fritos e essas coisas, mas não tínhamos nutricionistas.

Na final dos 3000m dos JO de Los Angeles, Aurora Cunha (em grande plano com a camisola Nº300), foi 6ª.

Na final dos 3000m dos JO de Los Angeles, Aurora Cunha (em grande plano com a camisola Nº300), foi 6ª.

D.R.

A sua ascensão começa verdadeiramente a partir de 1984.
Sim, porque até aí os meus resultados não tinham tido grande significado para a imprensa. A Rosa é que dominava tudo, ela é que era falada. Só depois dos JO de 1984 e de eu fazer aquelas provas todas nos EUA, é que as coisas começaram a surgir. Apostámos no Campeonato do Mundo de Estrada. A FPA leva uma equipa ao Campeonato do Mundo de Estrada em Madrid, o Fonseca e Costa não tinha muito interesse que eu fosse a esse campeonato e é aí que o Mesquita, o meu marido, aparece e diz: "Não, vais treinar e vais a esse campeonato do mundo". Treinámos o mês de outubro e novembro aqui na Póvoa do Varzim, porque o meu marido é daqui. E foi na verdade o virar da minha página como atleta.

Vence esse campeonato do mundo de 1984.
Eu ganhei e a Rosa foi segunda. Foi um Campeonato do Mundo muito bem disputado. Mas eu sabia que estava bem e que era uma atleta mais rápida. A Rosa tinha ganho a medalha de bronze nos JO, em Los Angeles, o (Carlos) Lopes tinha sido campeão olímpico, o (António) Leitão tinha sido bronze e depois, passados dois meses, eu fui campeã do mundo. Passei a ter mais respeito da comunicação social. Até aí havia uma grande injustiça, em relação às marcas que eu fazia, aos campeonatos que ganhava, aos recordes que batia. E isso foi importante para mim. Estávamos no hotel quando chegam os telegramas do Ramalho Eanes, presidente da República e do Dr. Mário Soares, primeiro ministro. O Fonseca e Costa disse logo: "Eh pá, isto foi um campeonato do mundo que teve muito impacto em Portugal". Deu em direto na televisão e na segunda-feira vimos o impacto também através dos jornais, porque estávamos nas primeiras páginas.

Nessa altura ainda surgiam nas primeiras páginas.
Vivi uma época fantástica em termos de imprensa, fui privilegiada em estar muitas vezes nas primeiras páginas dos jornais. Hoje tenho colegas que ganham medalhas e aparece um bocadinho dentro dos jornais. O que me deixa triste, porque se vier um caramelo qualquer estrangeiro do futebol que marca cinco golos num treino já tem direito à primeira página. É uma questão de cultura desportiva e nós nisso infelizmente não melhorámos nada. Ajudou o facto de ser a única atleta que faz os meetings mais importantes da Europa. Corri essa Europa fora com o (António) Leitão e o (Fernando) Mamede. Foi uma geração fantástica. São colegas que ainda hoje são referências e amigos. O Mamede foi sempre incompreendido neste país, porque no fundo quem perdeu foi ele. Ele deu muito ao atletismo português. Mas o facto de também ter um temperamento muito frontal... pagamos caro. Eu e ele. Falo por mim, eu estava sempre com processo disciplinares na federação. Eu e o meu treinador. Tínhamos processo e processos...

Porquê?
Porque estávamos sempre a contestar quando não concordávamos com isto e com aquilo. Andávamos sempre em guerra. O prof. Fernando Mota (presidente da FPA de 1993 a 2012) complicou-me sempre a vida. Não sei porquê, talvez por eu treinar com o prof. Fonseca e Costa.

Em 1985, Aurora Cunha foi campeã do mundo de estrada,

Em 1985, Aurora Cunha foi campeã do mundo de estrada,

D.R.

Vamos voltar a 1986 e ao campeonato do mundo de estrada, em Lisboa.
Um ano com problemas com a FPA. Os atletas não ficam todos no mesmo hotel e recordo-me que fui para Lisboa e não fui dormir ao hotel da seleção, porque achávamos que não devíamos ir lá dormir.

Porquê?
Lá tínhamos as nossas razões. O ambiente era pesado. Eu disse ao Fonseca e Costa que só ia para Lisboa um dia antes. Só fui no sábado. Treinei de manhã, apareceu-me uma dorzita num gémeo e fui ao Rio Ave, que tinha lá um massagista muito bom, o Dias das Areias. Tinha umas mãos fantásticas e ajudou-me imenso. Disse-me: “Na segunda-feira estás aqui com uma medalha". E eu: “OK, fica combinado". Fui para Lisboa, comi uma feijoada ao almoço na casa da minha sogra, fomos apanhar o foguete (Alfa Pendular) das duas e meia para Lisboa, chegamos a Lisboa tinha o Fonseca e Costa em Stª Apolónia à minha espera. Onde é que vamos jantar onde é que não vamos e fomos a um restaurante que era perto do Monumental, uma cervejaria sportinguista. Comi uma açorda e bebi um fininho (cerveja). Nada me fez mal, porque eu sabia que estava bem. Psicologicamente estava muito forte. Eu tinha de ganhar aquele campeonato do mundo, contra tudo e contra todos.

Contra tudo e contra todos?
Não me davam como favorita. Às vezes, pego nos jornais dessa altura e penso: estes gajos nem me davam como favorita quando eu ganho dois mundiais seguidos! Foi um gozo muito grande ganhar em Lisboa. Quando faltavam três quilómetros fui embora, deixo todos para trás. Cortar a meta com aquela moldura humana em Lisboa foi fantástico. Até porque eu era mais conhecida em Lisboa do que no Porto. Quando corria nas ruas de Lisboa com a camisola do FCP fui sempre muito respeitada, muito acarinhada.

Foi um momento único.
Foi, foi. Marcou-me mesmo. A partir daí começamos a pensar fazer a maratona, mas o Fonseca e Costa achava que ainda era cedo.

Nessa altura já tinha vontade de fazer a maratona?
Tinha vontade por uma razão simples. Eu já devia ter dito para a maratona em 1982. Quando a Rosa vai para a maratona em 82, eu devia ter ido também, até porque eu era mais rápida. Não havia ainda grande quantidade e qualidade na maratona. Mas sempre respeitei as opções do prof.. Se pudesse voltar atrás mudaria algumas coisas. Mas agora não adianta.

Aurora com a medalha de ouro do campeonato do mundo de estrada de 1985

Aurora com a medalha de ouro do campeonato do mundo de estrada de 1985

D.R.

Casou em 1987.
No dia 8 de março e fui fazer logo a seguir uma meia maratona aos EUA, em que fui 2.ª e bati o recorde nacional. O prof. Moniz Pereira não me queria deixar ir fazer essa meia maratona porque a seguir havia a seleção para o campeonato do mundo de crosse. Mas era uma oportunidade de ganhar uns tostões. Fomos para casa de um casal amigo, em Fall River, onde havia um grupo de famílias de portistas ferrenhos. Dormimos em casa deles mas em cama separadas, porque eles disseram que como eu tinha prova no dia seguinte, cada um dormia em seu quarto (risos). Fui 2.ª e os portugueses fazem uma festa muito grande, que foi um segundo casamento, porque houve um almoço com um grande bolo e tudo. A partir daí todos os anos ia fazer um mês de provas aos EUA. Era uma maneira de representar o FCP e Portugal. Para os nosso emigrantes era importantíssimo, porque nessa altura as nossas vitórias para eles eram como hoje o título da seleção de futebol.

Também chegou a ir à Austrália...
De 1984 para 85 fui a primeira atleta selecionada para representar a seleção da Europa, em Camberra, onde fui aos 10.000m. Foram 75 horas para lá chegar. Foi horrível, eu já deitava avião por tudo o que era canto. Quando cheguei ao aeroporto, o chefe de missão que por acaso falava espanhol, foi chamar-me porque eu tinha uma grande receção dos nosso emigrantes. Ainda não tinha corrido sequer. Vivi ali 15 dias fantásticos porque tive a felicidade da Olga Bondarenko enganar-se, em vez de dar 25 voltas só deu 24: eu apercebi-me e pensei: vou ganhar isto. E ganhei. Ainda passei por ela e dei-lhe uma palmada nas costas para ela vir, foi uma vitória fantástica.

Ela ficou parada?
Ela coitada "morreu" ali. Deu tudo na última volta e depois ainda tentou aguentar mas já não conseguiu. E eu pensei: vou fazer história ao representar uma seleção da Europa e dar uma alegria a estes emigrantes. Porque o estádio estava cheio de emigrantes portugueses. Ainda arranjei forças para dar uma volta pela pista com a bandeira nacional. Durante uma semana tive de andar a tomar café e a jantar na casa dos nossos emigrantes. Não conhecíamos as pessoas, mas íamos. Era uma festa.

Em Camberra, Aurora foi a primeira portuguesa chamada a uma seleção da Europa. Venceu os 10.000m com o tempo de 32m07s

Em Camberra, Aurora foi a primeira portuguesa chamada a uma seleção da Europa. Venceu os 10.000m com o tempo de 32m07s

D.R.

Como é que se dá a passagem para a maratona?
A primeira maratona que faço é em Paris em 1988. Eu queria fazer mínimos para ir à maratona nos JO de Seul 1988 e o Fonseca e Costa começou a treinar-me para isso. O Mesquita (marido) gostava que eu tivesse ido aos 10.000m. Mas não fiz o que ele queria. Fomos para Paris. Foi uma maratona muito difícil, com muito calor, com 37 graus. Ganho essa maratona com 2h35,37, faço mínimo para os JO. Ganho no feminino e o Manuel Matias no masculino. Não é qualquer treinador que tem dois atletas a ganhar a mesma maratona e o Fonseca e Costa nem queria acreditar. Sei que tive uma queniana que chegou a andar à minha frente com mais de cinco minutos de avanço. Mas eu, como não tinha experiência nenhuma da maratona, disse para mim própria: deixa-te ir que vais com tempo e ainda vais buscá-la no final.

E assim aconteceu.
É verdade. Fiz mínimos, mas acho que a opção de ter ido à maratona nos JO não foi a mais correta. E depois há aqui outra história.

Conte.
É o facto dos responsáveis federativos não me respeitarem por tudo aquilo que tinha feito no atletismo. Fui a única atleta que não levei o treinador comigo para os JO de Seul. Fui sozinha. E cometo um erro gravíssimo. Eu tinha uma maneira de correr diferente, até porque era uma atleta de pista, corria mais em bicos. Era representante da Adidas e o patrocinador chegou ao hotel e disse-me: "Gostaríamos que corresse com estes sapatos". E eu não tive ninguém que chegasse à minha beira e dissesse: "Aurora não vais correr com esses sapatos, vais correr com os sapatos com que treinaste". Foi um dos meus maiores fracassos e frustrações.

Mas estava em forma.
Eu estava numa super-forma, até porque quando encosto às boxes, por volta dos 32 quilómetros, eu já não consigo andar nem para trás, nem para frente. Tenho os pés completamente cheios de bolhas de sangue, a sentir o pé a roçar com a meia e com o sapato...é horrível. Estive quatro horas sentada na berma da estrada à espera que viesse o carro vassoura. Não tive ninguém da federação que tivesse a preocupação de saber o que é que tinha acontecido à Aurora Cunha. Depois, pedi para vir embora e não me deixaram, tive que gramar com tudo até ao dia de todos regressarem a Portugal.

Essa foi a sua maior frustração enquanto atleta?
Foi esta e os JO de Barcelona em 1992. Depois dos JO de Seul, fui de férias e a seguir faço a maratona de Tóquio, e ganho. Entretanto, há a continuidade de grandes resultados. Ficou provado o que sempre defendi, que podia ser uma grande maratonista.

Aurora Cunha quando recebeu o Dragão de Ouro, no FCP

Aurora Cunha quando recebeu o Dragão de Ouro, no FCP

D.R.

Foi na maratona onde ganhou mais dinheiro?
Foi. Quando fui a Tóquio e ganhei, tenho uma história engraçada, porque os japoneses pagavam-nos em dinheiro vivo, em dólares. Ganhei mais de 4000 contos e trazíamos esse dinheiro connosco. No aeroporto, quando passámos pelos detectores aquilo começou a apitar. Começámos a ficar cheios de medo, porque pensámos: temos aqui o dinheiro e eles vão ver o dinheiro. Só sei que peguei na medalha e pus-me a dizer: “Eu ganhei a maratona de Tóquio”. Os japoneses são loucos pela maratona e já nem me revistaram, só queriam tirar fotografias. Eu via o meu marido com o saco do dinheiro e fazia-lhe sinais para agarrar bem o saco (risos). Só queria era passar o check in para o lado de lá, para me sentir segura (risos). Eram outros tempos.

Qual a maratona que mais gozo deu ganhar?
Foi Tóquio. Porque é só de mulheres e durante 42km o povo japonês marca presença. Em todos os percursos tínhamos as crianças dos colégios sentadas a agitar as bandeirinhas dos países. Depois, o facto de irmos à frente da maratona com seis policias em motas, também é giro. Entrar no estádio, repleto de gente, com a camisola do FCP, são momentos únicos. É fantastico.

Qual o momento em que mais se emocionou?
O campeonato do mundo de estrada, em Lisboa. Foi um momento único da minha vida. Porque como já disse, a imprensa durante toda a semana falava de tudo e de todos e de mim, nada. E depois dá aquele gozo dizer na conferência de imprensa “Hoje sois todos obrigados a falar de mim, porque fiz história no atletismo português, porque ganhar três campeonatos do mundo seguidos não é qualquer pessoa”. Depois houve a célebre história do indivíduo que vive com a Rosa vir dizer que aquilo não tinha valor nenhum, que não tinha nível... Mas ela foi segunda. Ele tinha muita influência nos jornais e tentava ofuscar as outras atletas, o que acho péssimo. Tenho uma história no desporto que ninguém me tira. Não tenho nenhuma medalha olímpica, sou finalista o que é fantástico, nem todos são preparados e feitos para ser campeões olímpicos, porque há dezenas e dezenas de atletas que têm um palmarés fantástico mas que nunca conseguiram ser olímpicos. Não é por causa disso que não vou ficar orgulhosa da carreira que tenho. Ganhei cinco das maratonas mais importantes do mundo.

Com Carlos Lopes

Com Carlos Lopes

D.R.

E os JO de Barcelona em 1992?
Mais uma vez apostei na maratona. Acho que os JO de Barcelona foram um fiasco para toda a equipa portuguesa. Não sei o que é que se passou, sei que apanhámos uma temperatura de trinta e tal graus. Quando sabemos que estamos bem e depois acontece algo de inesperado... só sei que a partir da meia maratona, alguma coisa me aconteceu porque desapareço da maratona. Tive uma quebra e só acordei no hospital.

O que aconteceu?
Com o calor, a humidade e o esforço desidratei por completo. Lembro-me perfeitamente que só passadas umas valentes horas é que aparece alguém da Federação para saber o que se passa com a Aurora Cunha.

Depois de Barcelona pensa ir novamente à maratona de Tóquio mas entretanto descobre que está grávida.
Depois de Barcelona começo a treinar para Tóquio, faço umas análises de controlo e é aí que sou surpreendida, estou grávida. Já não arrisquei ir à maratona.

Sempre quis ser mãe?
Se fosse hoje, eu tinha sido mãe muito mais cedo. Em vez de ter tido uma filha, tinha tido duas. Acho que ser filho único é mau, porque um dia partimos e ficam os filhos sozinhos. Mas depois tive uma gravidez de alto risco, tive uma gravidez muito complicada.

Porquê?
Já tinha 33 anos. Fiz as minhas corridinhas até ao 6º mês de gravidez e a partir daí tive complicações gravíssimas. Comecei a ter hipertensão, ácido úrico, problemas nos rins, tudo o que uma grávida não deve ter eu tive, tudo. Um dia o meu primo, o dr. José Albino, foi a minha casa e eu estava com a tensão a 18. É aí que tenho de ficar internada. O médico chegou a dizer-me que não sabia se eu podia voltar a correr, porque podia ficar com um rim afetado.

Ficou internada quanto tempo?
15 dias e depois nasceu a minha Mariana, com 8 meses. Lembro-me que nessa altura nasceram também os primeiros bebés proveta, no Hospital de São João. Estavam lá as televisões todas e eu a correr pelo corredor fora, porque não queria que me vissem ali, no hospital (risos).

Aurora (primeira à esquerda) com várias colegas, entre elas Fernanda Ribeiro (quarta) e Manuela Machado (à direita)

Aurora (primeira à esquerda) com várias colegas, entre elas Fernanda Ribeiro (quarta) e Manuela Machado (à direita)

D.R.

Porque não foi mãe antes?
Pensávamos que se parasse um ano, deixava de ganhar... Ninguém pensava no nosso futuro ou nos ajudava.

O que é que o seu marido fazia profissionalmente?
O meu marido passou a acompanhar-me, ficámos os dois a trabalhar em conjunto. Estive 20 anos no FCP e nunca se preocuparam com os descontos para a segurança social. Nunca ninguém nos informou que era importante para que tivéssemos direito a uma reforma. A própria FPA que nos pagava os subsídios de alta competição nunca teve essa preocupação, de fazer descontos para os atletas, e agora é um drama para muitos atletas.

Não tem direito a nenhuma reforma?
Felizmente, como fui sempre uma pessoa responsável, pensei no meu futuro e estou a fazer os meus descontos para a segurança social. Mas eu é que estou a fazer os meus descontos para a segurança social. Tendo em conta aquilo que fizemos pelo nosso país, é ridículo, não devíamos ser nós a ter esta preocupação. Digo muitas vezes aos meus colegas: “Não pensem que o dia é só hoje, têm que pensar no dia seguinte. Porque quando deixarmos de ganhar títulos e medalhas, passa tudo ao anonimato, ninguém nos passa cartão, acabou”. Esta é que é a realidade das coisas.

Em 1988, com Conceição Ferreira (à esquerda) e Manuela Machado (à direita), na maratona de Tóquio que Aurora venceu

Em 1988, com Conceição Ferreira (à esquerda) e Manuela Machado (à direita), na maratona de Tóquio que Aurora venceu

D.R.

Depois da sua filha nascer já não volta aos JO.
Não consegui porque não tive o acompanhamento que deveria ter tido. As lesões são muitas, sou operada ao tendão de Aquiles duas vezes, inclusive uma dessas cirurgias sou eu que tive de pagar - o seguro disse que não pagava. Depois, ainda corri mais três ou quatro anos, fiz umas provas a nível nacional e ainda ganhei algumas delas. Depois, desliguei-me do FCP.

O que é que acontece?
Eu desliguei-me do FCP porque eles portaram-se mal comigo. Não foram corretos e essa é a maior frustração. Quando gostamos de uma pessoa, aprendemos muito com essa pessoa... A ingratidão é a pior coisa.

Está a falar de quem?
Do Pinto da Costa. Até 1987 fui responsável por dar as vitórias todas ao FCP e na parte final da minha carreira, em que vêm as lesões, o que é normal depois de uma carreira tão longa , em que temos de pensar em deixar a carreira, o FCP não se portou muito bem comigo, não foram corretos.

O que aconteceu em concreto?
Faltou consideração e respeito pela minha pessoa, e eu resolvi fazer o último ano na Terbel, que era uma equipa patrocinada pelas sapatarias Teresinha, em que o diretor era o senhor Jorge Teixeira. Faço um ano, pagou-me 500 contos. Não era muito mas foi uma ajuda. Depois o Jorge Teixeira começa a organizar a São Silvestre do Porto, e convida-me para trabalhar com ele. Vejo ali uma oportunidade de continuar ligada à minha modalidade, às corridas, nunca pensando que iria chegar onde chegou. Hoje a RUN Porto é uma das empresas que organiza mais eventos na cidade do Porto.

Mas esteve para ir para o Benfica, antes de aparecer a Terbel.
Sim, mas eu nunca me vi a correr com a camisola dos outros clubes, sou sincera. O azul e branco para mim era tudo. Por isso decidi não ir para o Benfica e fiz um ano na Terbel e depois pus ponto final na minha carreira. E já estou ligada à RUN Porto há 24 anos. É uma vida.

Aurora (à squerda) foi também aos JO de Seul, em 1988

Aurora (à squerda) foi também aos JO de Seul, em 1988

D.R.

A sua filha, que tem 24 anos, entretanto foi viver para fora.
Está a trabalhar no Canadá, numa superfície comercial grande. Tirou um curso de Som e Imagem na Universidade Católica, mas quis abraçar outro projeto e está bem. Viu uma oportunidade maior do que aqui. Ela sai um bocadinho a mim, atirou-se para o mundo. Acho que também me atirei para o mundo, ao acreditar nas minhas potencialidades. Tenho pena de ela não estar aqui connosco, até porque tenho possibilidades de a ter comigo, mas foi a vida que ela abraçou. Quando eu e o meu marido fomos levá-la ao aeroporto dissemos logo: “Ela nunca mais volta”.

Isso foi há quantos anos?
Há dois/três anos. No ano seguinte fui ao Canadá saber o que é que se estava a passar, com quem é que ela estava, vi que a Mariana estava bem e hoje, com as novas tecnologias que no meu tempo não havia, falamos muito. Sempre foi uma miúda muito responsável, nunca me deu problemas.

Os seus irmãos estão todos cá?
Sim, estão todos pertinhos uns dos outros. Eu sou a única que vivo na Póvoa do Varzim.

Quantos sobrinhos tem?
Sei lá, tenho uma data deles. Uns 14 ou 15 sobrinhos. Lembro-me dos Natais da minha mãe, em que juntávamo-nos todos, e a comida era feita naquelas panelas pretas. As batatas e o bacalhau tinham muito mais sabor. Recordo o Natal porque a minha mãe não tinha dinheiro para nos dar bonecos, para nos dar presentes. De manhã, quando íamos à missa, levávamos uma pecinha de roupa nova e passávamos numa vizinha cujos filhos tinham sempre brinquedos. Era a nossa tristeza, não termos brinquedos. Foi um mundo diferente, foi uma época e uma geração diferente mas que era muito mais vivida do que é agora. O Natal era vivido de outra maneira, era muito mais vivido em família.

Aurora na Maratona de Roterdão, em 1992, onde também participou Dionisio Castro (à direita)

Aurora na Maratona de Roterdão, em 1992, onde também participou Dionisio Castro (à direita)

D.R.

Como é o seu dia a dia hoje?
Estou ligada a três projetos. O projeto do IPDJ em que vou às escolas falar aos jovens da ética e do fair play, que são coisas que hoje infelizmente não conseguimos ver. Andamos a trabalhar e a falar e vemos os dirigentes que infelizmente de ética não têm nada e fair play muito menos. É por isso que o desporto está como está. Estou ligada à Liberty Seguros, em vários projetos que me dão um gozo muito grande.

Gosta de viajar?
Gosto de conduzir. Adoro conduzir e quando o meu marido tem que levar o carro, para mim é uma chatice, porque acho que ele nunca sai do mesmo sítio (risos).

Tem algum hóbi?
Gosto muito de estar em casa. E ao contrário de muita gente, gosto de arrumar a minha casa. E gosto de reviver o meu passado.

Costuma ver os videos e os recortes dos jornais?
Costumo. E muitas vezes pergunto-me como é que foi possível eu dizer isto ou aquilo. Uma amiga minha, a Maria José Carvalho, ainda há pouco tempo me dizia que aquilo que o Fernando Gomes da Federação Portuguesa de Futebol foi dizer à AR, já eu dizia há 30 anos. Sobre o fair play, a ética, a política desportiva, as regras no desporto, etc. Sobre a violência, por exemplo, só há uma solução, fazer o que fizeram em Inglaterra, acabar com as claques. Acaba-se com as claques e nós temos menos violência no desporto.

Não tem nenhum hóbi em concreto?
Tenho uma vivenda e gosto muito de fazer o meu quintal. Não faço mais vezes derivado a um problema de saúde que tive e que já passou, faz parte do passado.

A 9 de Junho de 2005 foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo então Presidente Jorge Sampaio

A 9 de Junho de 2005 foi feita Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo então Presidente Jorge Sampaio

D.R.

Que problema foi esse?
Eu vivi um problema de cancro da mama, em 2003. Acho que é a primeira vez que estou a falar nisto. É um tremor de terra que cai sobre nós. Deixamos projetos para fazer…

Que projetos tinha nessa altura?
Vários, gostava de ter a minha escolinha de atletismo. Não fiz. Mas tive sorte, acho que ainda não estava preparada para partir para o lado de lá, acho que Deus foi justo, ao dar-me esta oportunidade de vida. Achou que eu merecia cá continuar a fazer a vida que faço. Mas foi um momento horrível na minha vida.

Descobriu por acaso?
Sim. É daquelas situações em que ficamos de boca aberta, em que o médico nos dá a notícia e se pudermos atirar-nos da janela, atiramos.

Chegou a fazer quimioterapia?
Não, felizmente não. Fiz durante cinco anos o tratamento com um comprimido, que nem quero saber o nome dele. Aliás, só consigo falar disso hoje porque já passaram muitos anos e porque podemos ser um exemplo de força, de coragem, de capacidade de sacrifício para outras mulheres. Não é fácil viver uma situação destas e eu tenho a sorte de ter uma família fantástica, de ter um marido e uma filha que foram importantes para mim.

O cenário que lhe foi traçado era muito negro?
Muito negro. Lembro-me que aconteceu em abril, na altura da Páscoa e... É a primeira vez que vou contar isto. Eu recebo sempre a cruz na minha casa, e nessa Páscoa, passou na minha rua uma cruz com estudantes que sabendo que morava ali a Aurora Cunha, foram pedir se podiam ir a minha casa. Eu na segunda feira seguinte ia saber os resultados e o que que é que me ia acontecer. Eu estava toda rota por dentro, mas deixei os estudantes entrar pela minha casa dentro e foi uma festa. Acho que nunca acreditei que estava a viver aquele problema, foi fundamental esta minha capacidade de sofrimento, de espírito de sacrifício. Fez com que eu no fundo ganhasse a medalha mais importante na minha vida.

Nunca falou desse problema antes porquê?
Hoje falo nisto com naturalidade, mas não é que eu queira contar isto muitas vezes, só que o facto de sermos figuras públicas... Podemos ser uma mais valia para outras mulheres. Não é por acaso que depois se começou a organizar a corrida da mulher. A corrida da mulher nasce precisamente porque no hospital eu disse ao Jorge Teixeira que gostaria de fazer parte e dar a cara por uma corrida só para mulheres, para a Liga Portuguesa Contra o Cancro. E quando fazemos a primeira Corrida da Mulher pensávamos que íamos ter umas 500 inscrições, e quando chegámos às 5.000 tivemos que parar.

Aurora Cunha no dia desta entrevista, na Povoa do Varzim, a comprar peixe

Aurora Cunha no dia desta entrevista, na Povoa do Varzim, a comprar peixe

Lucilia Monteiro

Tendo sido a atleta que foi e olhando para o panorama do atletismo em Portugal, o que tem a dizer?
Que vejo o atletismo principalmente no meio fundo e fundo muito mal. Estamos com poucas referências. Nas disciplinas técnicas melhorámos muito nestes últimos anos, julgo que teve a ver com a construção de pistas por todo o país. E se umas são aproveitadas, outras estão completamente abandonadas, O meio fundo e fundo vejo com grande preocupação, primeiro porque os jovens hoje não tem a mesma capacidade de sacrifício; e no meio fundo e fundo tem que se sofrer, tem que se abdicar de muitas coisas da nossa vida pessoal.

Acha que essa é a principal razão?
Não só. Aumentou a quantidade de participantes nas nossas corridas no país inteiro, mas infelizmente sem benefício a nível de referências no meio fundo e fundo. Estamos a viver um bocadinho da Sara Moreira, da Jessica Augusto, da Dulce Félix, de meia dúzia de atletas no máximo, o que comparando com o meu tempo, na verdade é inferior. Mas não vejo a própria FPA muito preocupada com isto. E este presidente que já esteve lá no tempo do prof. Fernando Mota já tinha que ter uma visão muito mais à frente do que aquela que tem. Agora, quando os presidentes estão preocupados com outras coisas... eu costumo dizer que se não houver farinha não se consegue fazer pão. Vejo também o desporto escolar muito mal apoiado. E os talentos estão no desporto escolar.

E quem foi a melhor atleta portuguesa?
A Fernanda Ribeiro é a melhor atleta de todos os tempos do atletismo português. É e será sempre. É a atleta que mais medalhas tem, é a atleta que mais títulos conquistou. Conheço-a desde miudinha e tenho pena que as pessoas não saibam dar o real valor a quem o tem. Ela vai ser de longe a melhor atleta de todos os tempos que Portugal teve.