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David Ginola: “Os médicos disseram-me que não devia estar aqui, devia estar morto”

Foi eleito o melhor jogador de França no PSG de Artur Jorge, no início dos anos 90, brilhou nos relvados ingleses com as camisolas de clubes como o Tottenham e o Newcastle, e somou 17 internacionalizações com a seleção francesa. O talentoso gaulês que Johan Cruyff considerou, em 1999, o melhor do mundo, sobreviveu no ano passado a um ataque cardíaco enquanto jogava uma partida solidária no sul de França e veio falar dessa experiência a Lisboa

Nelson Marques (texto) e José Caria (fotos)

O ex-internacional francês David Ginola retirou-se do futebol em 2001/02, no Everton, depois de também ter passado pelo Aston Villa, pelo Tottenham, pelo Newcastle e pelo PSG

José Caria

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Como é que é ter direito a uma segunda vida?
Não sinto isso. Os médicos e os cirurgiões disseram-me que foi um milagre, que não devia estar aqui, que devia estar morto, palavras muito pesadas de ouvir. Por isso, é possível que muitos pensem que tive uma segunda oportunidade, mas não vejo as coisas dessa forma. O meu coração foi suficientemente forte para aguentar e os meus amigos souberam o que fazer naquele dia e salvaram-me a vida. O que posso dizer é que sinto que devo fazer algo para retribuir. É por isso que estou aqui [Ginola foi à Web Summit falar da Nodds, uma plataforma que procura aumentar as hipóteses de sobrevivência de quem sofre um ataque cardíaco, identificando os desfibrilhadores mais próximos ou quem esteja mais perto e possa prestar os primeiros-socorros].

O que é que aconteceu naquele dia?
Tinha acabado de marcar um golo, estava a regressar ao meu meio-campo e caí, simplesmente. Não senti qualquer dor. Não sei dizer o que senti, porque perdi logo a consciência. Depois, acordei numa cama no hospital, sem me lembrar de nada. Levei algum tempo até ter flashes de algumas imagens do que se passou naquele dia, até uma hora antes do ataque cardíaco. Não me lembro de nada do que se passou no jogo. É como se tivesse um buraco na minha vida, não me lembro do que aconteceu. Os meus amigos contam-me que estava a jogar muito bem, estava a divertir-me...

O seu coração deixou de bater durante oito minutos.
Quase nove. A maior parte das vezes, senão tivermos por perto alguém que saiba fazer massagem cardíaca, o coração até pode ser salvo, mas o cérebro não vai receber sangue suficiente e vamos ter uma morte cerebral. Quando acordei, os cirurgiões estavam muito preocupados não com o meu coração, sabiam que ele ficaria bem, mas com o meu cérebro. Fizeram-me várias perguntas, como é que me sentia, onde é que estávamos... Como respondi acertadamente perceberam que o meu cérebro estava a funcionar bem.

Tinha um historial de problemas cardíacos na família.
É algo hereditário. A minha mãe morreu em 2005 com um problema no coração, o meu pai colocou três stents. Mas não queremos saber. Não queremos que nos digam que temos um problema, queremos evitar essas más notícias, mas num cantinho da nossa mente sabemos que a determinada altura teremos de fazer um check up e ver como está o nosso coração. Algumas pessoas diziam-me: 'David, tens de fazê-lo, tens quase 50 anos'.

O seu estilo de vida pode ter influenciado?
Nunca bebi muito, talvez tenha fumado um pouco. Mas é um problema hereditário. Algumas pessoas não fumam, não bebem, têm uma dieta adequada e ainda assim morrem de ataque cardíaco. É esse o problema com a morte súbita. É claro que o estilo de vida pode não ajudar, mas não é a razão principal. É porque está no nosso ADN. Nascemos assim.

David Ginola tem 50 anos

David Ginola tem 50 anos

José Caria

O que é que mudou na sua vida?
Não mudei muito. Cuido um pouco mais da minha dieta, tenho mais cuidado com o que como, não bebo muito, mas um copo de vinho de vez em quando não faz mal a ninguém... Obviamente, temos de cuidar de nós, mas o coração está bem, as artérias coronárias estão bem. O corpo está a envelhecer, aos 50 anos [faz 51 em janeiro] não estamos a ficar mais novos.

Lida bem com o envelhecimento?
Quando temos pessoas à nossa volta que nos dizem que temos melhor ar agora do que tínhamos antes percebemos que, para um homem, envelhecer não é uma fraqueza. Há pessoas que se preocupam muito com isso – quando veem uma ruga fazem algo, um pouco de Botox – mas eu não me importo. Um homem é sempre um homem. Se cuidarmos do corpo e não engordarmos muito, podemos envelhecer bem. De certa forma vamos ter melhor ar.

Como o vinho do Porto.
Como o vinho do Porto. Ou como um bom Bordeaux. O importante é não nos preocuparmos demasiado com isso.

Disse uma vez que retirar-se do futebol foi como uma pequena morte. Foi muito complicado?
Para alguns jogadores é relativamente simples pensar que jogaram uns 18 anos e que, de repente, deixam o jogo e vão fazer outra coisa. Mas não é tão fácil como parece. Quando temos 6, 7, 8 anos sonhamos ser um jogador de futebol e tornamos isso possível quando assinamos um contrato profissional dez anos mais tarde. Passamos toda a carreira no futebol e aos 35, 36 anos percebemos que está na altura de lhe pôr fim e ir para a reforma. Quando nos retiramos, depressa percebemos que nos falta algo. Quando digo que é uma pequena morte é porque percebemos que desde o dia 1 até ao dia em que nos retiramos só o futebol importava. Mesmo quando era miúdo, mesmo quando estava na escola, ao fim de semana, só o futebol importava. Queria ser cada vez melhor, ano após ano. O que é complicado é mudar este processo e ir para a 'vida real', porque quando estamos no futebol temos tanta ajuda à nossa volta que não estamos na vida real. A vida real vem depois. Quando percebemos isso é como uma depressão, começamos a sentir falta de certas coisas...

Do que é que sente mais falta quando revê a sua carreira?
Não tem a ver com a minha carreira, tem a ver com lembrarmo-nos do sonho que tínhamos quando éramos miúdos, a olhar para os grandes jogadores e querer ser como eles. Quando percebemos que já não podemos fazer isso, e tivemos tanto prazer a fazê-lo durante tantos anos, só pensar que poderemos não ter essas sensações, isso não ajuda. Vamos à procura de algo que se aproxime dessas sensações, mas a realidade é que não há nada que se compare. Claro, vamos gostar de fazer outras coisas, mas o nosso grande sonho era ser futebolista. E durante toda a vida vamos sentir-nos um jogador de futebol.

Ainda se sente futebolista?
Sei que já não sou, mas começo agora a pensar em ser treinador. É um processo difícil e longo, e preciso ver que oportunidades há em cima da mesa.

Não se manteve muito próximo do futebol. Porquê?
Queria afastar-me, talvez tentar outras coisas...

Para não lhe doer tanto?
Também, também. Mas também para me afastar das coisas más, das coisas que odeio mais no futebol.

Quais?
A superficialidade, por exemplo. Gosto mais de coisas reais, de uma comunicação real, relações reais, coisas assim. Cresci como futebolista num clube onde éramos uma família e ao fim de 15 ou 18 anos de carreira percebemos que perdemos isso tudo. É muito complicado perceber que já não vemos essas coisas que mais gostamos no futebol. Quando nos retiramos, percebemos que ele é a coisa que mais amamos.