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Jaime Pacheco: “O Svilar pode vir a ser o melhor do mundo, mas foi para a baliza de fraldas. Aos 20 anos, nem um filho meu punha à baliza”

Aos 59 anos, o treinador que ousou derrubar a ditadura dos três grandes sagrando-se campeão nacional pelo Boavista está desempregado há seis meses e prestes a embarcar em nova aventura para a China. Conta à Tribuna Expresso que não se arrepende de ter recusado ir para o Sporting e Benfica após o título em 2001, nem sente desgosto por nunca ter sido convidado a treinar onde conheceu a glória europeia como jogador. Sábado, deve ir ao Bessa assistir ao jogo da equipa de Jorge Jesus, de quem não é um apaixonado, embora reconheça que é bom treinador. Jaime Pacheco atribui o favoritismo aos leões, é avesso a estatísticas e deseja dizer no final da época que, afinal, o melhor treinador para o FC Porto é mesmo Sérgio Conceição

Isabel Paulo

Jaime Pacheco tem 59 anos

BEHROUZ MEHRI

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Vai ao Bessa assistir ao jogo com o Sporting (sábado, 20h30, SportTV1)?
Em princípio sim, mas não é habitual. Desde que saí do Boavista, a primeira vez que fui ao Bessa foi para ver o jogo desta época com o Benfica. Dei sorte ao Boavista e azar ao Varela.

Custa-lhe voltar a um lugar onde foi feliz ou está zangado com alguém?
Não. Não costumo ir muito aos estádios, só uma vez por outra ao Estádio do Mar ver o Leixões. Vivo em Leça e eles são simpáticos.Também ainda não fui ao Dragão esta época. No Bessa, confesso que me custa lá entrar por ser um clube que sentia, em parte, pertença minha. Durante quase oito anos, passei mais tempo no Bessa do que em casa. Era a minha vida. Agora sinto-me um estranho e custa-me que o Boavista, embora mantendo a identidade, já não tenha a força que tinha.

Deixou de ser o Boavistão...
Está a fazer um novo caminho. Costumo dizer que os melhores treinadores e jogadores do ano são os que trabalham lá, sei as dificuldades porque passou desde que foi despromovido. Noutros tempos já era difícil, apesar da mística que existia. Sofro por quem lá esteve muitos anos e teve de ir embora nos anos da crise, funcionários anónimos que faziam parte da família boavisteira.

Ainda é credor do clube?
Devo ser o maior credor individual. Até à data aceitei as regras todas, nem reivindiquei um tostão judicialmente. Preciso de dinheiro como toda a gente, o que ganhei foi com trabalho, não com rescisões. Espero receber, mas sei as dificuldades do clube. Dou tempo porque sei que há gente que precisa mais do que eu, por isso não me importo de ficar para os últimos.

Se apostasse, que equipa via a ganhar amanhã?
Temos de ser realistas, a exemplo do que aconteceu com o Sporting na Champions. Até podia ganhar frente ao Barcelona, que ainda na passada semana empatou com o Celta de Vigo. No cenário normal, ganhará o Sporting, ainda não perdeu esta época na Liga e é candidato ao título. O favoritismo do Boavista é mínimo, mas também o era contra o Benfica. E fez um grande jogo contra o FC Porto, que avolumou a vitória porque o Boavista arriscou tudo. O Jesus e os jogadores sabem que é um campo difícil...

E teve o desgaste do jogo com o Barça.
O Jesus fez uma boa gestão para dar prioridade ao campeonato. Não apostou todas as fichas de início visando já o jogo com o Boavista. Ele sabe que a equipa, mesmo que não se conheça os nomes dos jogadores, joga com empenho e mística. E nisso foi importante terem apostado no Petit na fase crítica.

O Jorge Simão foi uma boa escolha?
Apoio sempre quem chega. Entrou bem e foi humilde em não mexer logo na equipa. O falhanço na Taça de Portugal foi um acidente de percurso.

O que não deve fazer frente ao Sporting?
Não se agarrar muito à técnica, à qualidade e à magia, que aí tem mais dificuldades por não ter jogadores de tanto talento.

Privilegiar o jogo duro, que é a marca do Boavista desde os tempos de campeão nacional?
Há muitos anos, falava-se que o FC Porto tinha uma mística muito especial. Tinha o Paulinho Santos, Jorge Costa, Fernando Couto, jogadores com muito talento que por vezes ultrapassavam a agressividade normal. O Boavista nunca teve jogadores desse tipo e mesmo com menor talento não ultrapassava os limites. O que o Boavista tinha era jogadores que davam tudo, esta sempre foi a minha filosofia e a do João Loureiro. Foi o maior empenho do que os outros no trabalho que nos tornou campeões.

Quer dizer que a fama de caceteiros foi injusta?
Foi um idiota ou meia dúzia de anormais que cunharam assim o Boavista. A história começou num particular com o FC Porto por causa de um lance entre o Derlei e o Toñito, a ver quem era mais agressivo. Que era o Derlei, nem havia comparação. O Derlei lesionou-se e o departamento médico do FC Porto dramatizou que ele ia parar três meses e passado duas semanas estava a jogar. Passado uns dias, o campeonato arrancou com um Sporting-Boavista e o Peseiro, que era um medricas, disse que esperava que não houvesse agressividade, isso e aquilo para pressionar o árbitro. Tudo partiu daí.

A fama é difícil de desfazer...
É a mulher de César. Éramos lutadores, não agressivos.Tive lá jogadores operados a meniscos e suturados com 15 pontos e não ouvi queixas da agressividade dos outros. Foi um mito para diminuir os feitos do Boavista. Na nossa casa pressionávamos à saída da área, fora dizia aos jogadores que íamos pressionar, não o campo, mas a casa deles. Era não deixar jogar, pois era uma equipa fisicamente muito bem preparada. Éramos incómodos para os adversários. Quando o Cafú chegou, dizia que trabalhava o dobro do Belenenses. Quando Pedro Emanuel, Raúl Meireles ou Bosingwa foram para o FC Porto ponha-se em causa que jogassem. Foi o que se viu. Trabalhar mais do que os outros era a nossa mais-valia.

O Boavista foi campeão nacional em 2001

O Boavista foi campeão nacional em 2001

Laurence Griffiths/GETTY

Jorge Simão defende que cometer mais faltas não é sinónimo de agressividade, faz parte da tática...
Tenho cuidado ao olhar para as estatísticas. Aprendi isso com o senhor Pedroto, que foi quem implementou a estatística no futebol em Portugal com o professor José Neto. Quando estava no FC Porto, depois de um jogo com o Benfica, fomos à aula ver a estatística do jogo. Às tantas o mister Pedroto disse: “Acabou, não diga mais nada”. “Porquê?”, perguntou-lhe José Neto. “Por esse andar ainda vamos perder o jogo”, respondeu o mister. E tínhamos vencido. Ainda agora no FC Porto-Rio Ave, todo a estatística foi a favor do Rio Ave e o FC Porto ganhou 2-1 em Vila do Conde. A estatística vale o que vale. Normalmente as equipas que fazem mais faltas ganham. É a que luta mais. Por isso, às vezes vemos o Barcelona fazer mais faltas do que o adversário. Pode parecer estranho. Costumo dizer que a estatística serve para dar emprego.

E para afinar detalhes...
Não é por aí. Faz-me confusão alguns treinadores que andam carregados de livros. Isso é tão simples, a não ser que não saibam e tenham de andar com tanto papel debaixo do braço. É para inglês ver, ou vender o produto. Para mim é fácil, memorizo o treino todo, mesmo que o adjunto vá lá com os papéis. No treino, nem olho para o relógio e pergunto: “Deve estar a acabar”. Respondem: “Falta um minuto”. Até exercícios de sete ou oito minutos, memorizo.

Jorge Jesus quando troca o Benfica pelo Sporting... Ressuscitar o Sporting é mais complicado do que pensava?
O Jesus é dos bons treinadores portugueses.

É amigo dele?
De todos. Só há um de que não gosto muito, mas não digo quem. Não gosto de arrogância e prepotência. Também não sou um apaixonado pelo Jesus, mas gosto da forma como trabalha. Lamento é que alguns treinadores quando treinam equipas do meio da tabela para baixo tenham um comportamento e mudem quando chegam aos grandes. Esquecem as origens. Nem os revejo, nem me revejo a fazer aquele papel. Se calhar por isso, sou um treinador diferente. A Jorge Jesus vou-lhe perguntar um dia como é que faz para contratar tantos jogadores. Ele é o treinador que em Portugal contrata. Eu para contratar um jogador tinha uma dificuldade tremenda. Ele é aos 10, 15 por época. Gostaria de perceber esse dom de convencer os presidentes.

Ou seja, não é por falta de jogadores que ainda não foi campeão em Alvalade.
Ele no primeiro ano perdeu por culpa própria, que esteve sete pontos à frente. E se tivesse ganho esse campeonato, se calhar ganharia os seguintes. Chegou e notou-se que o Sporting mudou pela positiva. Claudicou na segunda volta, o que já acontecia quando treinava o Felgueiras e noutras equipas.

Qual é a explicação?
Não sei. Nunca foi meu treinador. Sei que é bom. Gosto de treinadores que não se deixam comandar por ninguém. Ele é um deles. Não é o presidente ou o empresário que escolhe os jogadores. Não gosto de paus mandados. É por isso que gosto do Sérgio Conceição.

Este vai ser o ano da retoma do FC Porto campeão?
Espero no final da época dizer o inverso do que disse no início: perguntaram-se se o Sérgio era o melhor treinador para o FC Porto. E eu disse: depois de mim, o Sérgio Conceição. No fim da época quero dizer, depois do Sérgio, sou eu.

Quando o disse, já estava contratado ou estava a pôr o dedo no ar?
Já estava contratado. Não o disse por humor ou hipocrisia. Foi por acreditar nele. Numa conversa há tempos disse-lhe: “Não estou a dizer quem é melhor ou não, tenho defeitos e também tens. Mas és o treinador que acho mais parecido comigo”. É dos que bate o pé onde quer que esteja. Na Académica, no Braga, no Olhanense. Há muitos que fazem isso quando há muito dinheiro. Acho que tem um futuro promissor, tenho dúvidas é que seja em Portugal.

Porquê?
Há muito quem não goste deste comportamento independente.

Se vencer o campeonato ganha estatuto...
O que é isso de ganhar estatuto? Ser campeão no Benfica, FC Porto ou Sporting é de calcanhar. Difícil é no Boavista ou Braga. Ele tem qualidade, mas em Portugal os clubes gostam de treinadores mais permeáveis. Quanto à retoma do FC Porto, está a ser feita e o mérito maior é do Sérgio. Nestes últimos anos, todos os treinadores que contratou eram de qualidade inferior, não tinham estaleca. Este tem a alma que o FC Porto precisa .

Nuno Espírito Santo, que também era da casa, não tinha?
O Nuno disse uma vez que o facto de ter sido guarda-redes lhe permitia ver melhor o jogo. Não é verdade. É uma visão periférica. Ninguém vê melhor o jogo do que quem jogou no meio campo. Esteve três ou quatro jogos em posição de passar para a frente do campeonato e não ganhou. Não era o ideal para o FC Porto, mas também fiquei perplexo que tendo ficado em segundo lugar e o Sporting em terceiro, Jesus fosse mais requisitado do que ele. Há coisas que não percebo.

Apesar de ter acontecido consigo, que foi despedido estando em segundo lugar no Vitória de Guimarães.
Teve uma explicação. Pimenta Machado, um presidente competente, entendeu que devia tirar o melhor jogador da equipa, que era o Vítor Paneira, dizendo que tinha 33 anos, para colocar o Milovanovic, que veio no negócio do Nuno para o Corunha. Não jogava por não ter qualidade. E fui despedido. É isso que é importante um treinador fazer. E volto ao Sérgio que fez uma equipa com a prata da casa, com o Aboubakar e o Marega, que foram corridos e nem queriam ouvir falar de jogar no FC Porto. Jogam como nunca jogaram. E garanto que não vão jogar melhor em mais lugar nenhum, que não são talentos por aí além. Já li que o Sporting e Benfica vão contratar em janeiro e ele não tem grande margem por causa do fair-play financeiro.

Jaime Pacheco treinou o Vitória de Guimarães entre 1995/96 e 1997/98 e em 2005/06

Jaime Pacheco treinou o Vitória de Guimarães entre 1995/96 e 1997/98 e em 2005/06

NICOLAS ASFOURI

É preciso ser corajoso para deixar Casillas no banco?
Também me interrogo por que razão não é titular. Mas há coisas do dia a dia no campo que cá fora se desconhece. Acho que o Casillas é melhor do que o José Sá, que vai ser bom mas não está ainda ao mesmo nível. É como a história do Svilar, que pode vir a ser o melhor do mundo, mas é um miúdo que foi para a baliza de fraldas. Aos 20 anos, nem um filho meu punha à baliza de um grande [Svilar tem 18 anos]. O Sá é mais maduro e ganhando está tudo bem, senão é o cabo dos trabalhos. O Rui Vitória teve de engolir o Varela outra vez.

O seu filho ainda joga?
Jogou até aos 19 anos no FCP – Futebol Clube Parafita. Eu digo FCP na brincadeira. Deixou, estuda. Nunca pressionei, a não ser para não faltar aos treinos por respeito ao treinador. De resto nem os jogos via, que não sou com certos pais que vão chatear os treinadores e apostam tudo na carreira dos filhos. Deixem os rapazes à vontade. Os miúdos até têm medo. O meu pai nunca foi assim

O seu pai não queria que fosse jogador, mas marceneiro como ele...
É verdade. Era o seu negócio e também receava que me lesionasse por ter tido um problema grave numa perna quando era jogador. Não havia caneleiras. E o meu irmão também jogou comigo no Aliados de Lordelo e se íamos treinar não se trabalhava. Mas a minha paixão sempre foi jogar, ainda hoje sinto vontade de jogar. Mas depois, sem o dizer, sentiu orgulho e ia aos jogos nos Aliados e ao Porto algumas vezes.

Começou por ser jogador-treinador...
Durante seis meses no Paços de Ferreira. E foi por querer voltar a ser só jogador que não fiquei lá. Queriam que fosse treinador-jogador ou só treinador. Fui para Braga jogar. Sem jogar ou trabalhar, a vida para mim não faz muito sentido. Todos os dias corro de manhã 10, 12 quilómetros. Mas não é a mesma coisa sem bola.

Joga com amigos?
Às vezes, pelos veteranos do FC Porto com o João Pinto e o Rui Barros. Costumo dizer que quando há campos relvados vão as vedetas. Em sintéticos em Rio Tinto, não querem ir. Eu jogo em qualquer lado.

Está arrependido de não ter aceite os convites para treinar o Benfica e Sporting após ter sido campeão nacional?
Fui convidado por Carlos Freitas para ir para Alvalade e José Veiga abordou-me para a Luz. Tinha contrato, não quis ir e não me arrependo. Não estava tão bem preparado como agora. O que me fez campeão no Boavista foi ter a idade que tinha e ser muito destemido. Às terças começava a treinar num sistema de contra-ataque e chegava ao fim-de-semana, fosse quem fosse o adversário, jogava sem medo da mesma maneira. Tinha 40 anos, não abrandava o passo. E também não achava justo ir para o Sporting ou Benfica se era bem tratado no Boavista. A direção dava tudo por mim e o que eu pedia para os jogadores, os adeptos tratavam-se bem e acreditava que o clube seria melhor do que os outros...

Que se podia chegar no patamar dos grandes?
O Boavista não foi campeão por acidente, ficou em segundo lugar duas vezes, foi às meias-finais da Taça UEFA. As pessoas esquecem isso. Tive convites do estrangeiro e dizia ao João Loureiro para dizer que não deixava. O que matou o Boavista foi o estádio, que inicialmente era para 18 mil pessoas mas depois veio o sonho do Euro 2014. Fez-se um grande estádio, mas ao contrário do que aconteceu em Braga, Guimarães, Aveiro, Leiria e Algarve e, mesmo no caso dos grandes, para o Bessa não houve ajudas autárquicas.

Deixou de haver dinheiro para o futebol?
Até aí as contas eram fáceis de fazer. Com o que a televisão pagava, mais um ou dois jogadores que se vendia todos os anos e outras receitas correntes era um clube que dava lucro. Cheguei ir às reuniões de acionistas e receber um voto de louvor porque a equipa dava lucro. Se não recebíamos entre o dia sete e oito até dizíamos que estávamos a ser multados. Depois entrou em colapso.

Nunca foi convidado para treinar o FC Porto. É o seu maior desgosto?
Não. O meu grande desgosto foi deixar de jogar. Se pudesse voltar atrás, queria de novo ser jogador, nem que fosse dos distritais. Não era ser treinador ou ganhar mais dinheiro. Nunca fiquei melindrado ou dormi menos bem por não ser convidado para treinar o FC Porto.

Há seis anos só tem trabalhado no estrangeiro. Arábia Saudita (Al-Shabab), Egito (Zamalek) e China (Beijing Guoan e Tianjin Teda).
Foi uma opção. Fui para a Arábia Saudita e fiquei em segundo lugar. Ganhei uma Taça e o prémio de melhor treinador. Fui campeão no Egito e quando lá cheguei estava em 12º lugar. Fui para a China, fiquei em segundo com uma equipa modesta. Em Portugal, não me têm convidado nos últimos anos. Como jogador, para chegar à I Divisão, fui treinar à experiência no FC Porto. Estou habituado a conquistar as coisas a pulso, com trabalho. Estava na seleção olímpica, a B, e jogámos com a seleção A. Ganhámos 5-1 à equipa do Oliveira, Humberto Coelho, Alves, Chalana, Carlos Manuel. Só fui internacional A porque os jogadores do Benfica se recusaram a jogar pela seleção, no Restelo, com a Alemanha.

Qual foi o motivo?
Porque três ou quatro dias depois tinham um jogo europeu. Só o Bento é que quis jogar na seleção.

Jaime Pacheco (ao centro) a representar a seleção nacional, no Euro-84

Jaime Pacheco (ao centro) a representar a seleção nacional, no Euro-84

STAFF

Diz que o que o move não é mais dinheiro...
Gosto de ter dinheiro, mas não é o que me faz trocar um projeto por outro. Nunca foi.

Mas foi por dinheiro que trocou o Porto pelo Sporting quando era jogador.
Houve falta de diálogo. Ganhava 175 contos no FC Porto e o Walsh ganha 1200 contos pagos e era suplente. Quem jogava era o Gomes. E outros a ganhar 700 e 800. Podia ter ido para o Verona, Roma ou AC Milan, mas tinha tudo de passar pelo FC Porto e nunca perguntaram se estava interessado. Não foram corretos.

Quanto foi ganhar para o Sporting?
Muito mais.

Três anos depois regressou. Saudades do Porto?
Também. Até de Lordelo para o Porto custou-me e são 30 quilómetros. A verdade é que no Sporting também não dei tudo porque fui operado a uma pubalgia. E sentia que era difícil ganhar lá alguma coisa ao mais alto nível. Estava atrás do FC Porto em tudo, até na organização. Senti que para ganhar tinha de vir para o FC Porto, mesmo que a proposta feita por João Rocha fosse melhor. Houve aquele problema de Saltillo e João Rocha disse-me que se fosse embora ia ser castigado, se ficasse não...

Então porquê?
Na altura Silva Resende, presidente da FPF, trabalhava para João Rocha. Chegámos do Mundial, mas como tinha contrato até final de julho, ainda fiquei lá a treinar e fui a um torneio a Paris, enquanto o Sousa nunca mais apareceu. O Manuel José, com quem tenho uma boa relação até hoje, disse-me para fazer o que entendesse, e dei a cara até ao fim.

E teve um regresso em grande, a tempo de conquistar a Taça dos dos Campeões , Supertaça Europeia...
Foi uma época magnífica, mas nunca se sabe o que é melhor. Lesionei-me gravemente, tive de ser operado a um joelho depois de ter ido jogar à Luz e perder 3-1. Ainda hoje tenho aqui um calvário. Mas nunca me arrependo de nada.

Da sua experiência no estrangeiro, onde teve maior dificuldade de adaptação? Vai sozinho ou com a sua mulher?
É um dos motivos porque vou. Para fugir dela (risos). Custa muito, mas sinto que me respeitam. Não cuspo no prato que me dá de comer. A Arábia é difícil. Treino de manhã ou à noite, à tarde é muito calor. Há muitos centros comerciais, mas é uma vida isolada, só convivo com a equipa técnica. Cheguei a ser convidado para uma festa ou outra, em palácios tão bonitos como nunca vi. Mas eram 20 músicos e só homens a dançar. Aquilo não me dizia nada. No Egito, estão sempre a convidar-me para o Zamalek. Não vou. Tive um problema mais grave do que o Inácio com o presidente. É complicado, quer interferir na equipa. Não gosto que me desrespeitem. Decidi vir embora por altura do natal, comprei as viagens, fui para o aeroporto, mas os filhos vieram atrás de nós e estive até de manhã na casa do presidente, com ameaças. No dia da passagem de ano, apanhei um táxi e meti-me no avião. Deixei lá tudo, só trouxe o telemóvel e o computador. Até hoje não mandaram as malas.

E na China?
É bom. Simpáticos, trabalhadores. Mas nós trabalhamos ainda mais. Fazem muitas reuniões. Há um grande investimento em treinadores, jogadores. E pode vir a dar. A nossa maior carência é a base de recrutamento. Pequim e Tianjin têm 20/30 milhões de habitantes. Em qualquer lado está tudo cheio, mesmo que só vendam tremoços ou azeitonas. Gente que desfruta. Não é a China dos filmes do Bruce Lee, é do Jackie Chan. Tudo moderno. Estradas de seis e sete faixas de rodagem nos dois sentidos.

Jaime Pacheco na China, ao serviço do Beijin Guo'an

Jaime Pacheco na China, ao serviço do Beijin Guo'an

MARK RALSTON/GETTY

Conduzia?
Da primeira vez sim, comprei um Smart. Da última, tinha motorista. Lá as escolinhas de futebol têm 10 mil miúdos. Precisam de tempo para evoluir. Cada clube tem complexos com 10,15, 20 campos relvados. Têm muito potencial e dinheiro. O que precisam? De campeonatos de diversos escalões, como cá. Lá convidam umas equipas e fazem torneios. E depois escrevem que a equipa desse e daquele clube foi campeã da China. Tudo treta. Por isso têm jogadores emprestados a jogar cá em divisões secundárias para ganharem experiência.

O André Villas-Boas veio embora. Ficou surpreendido de ter ido para o Shangai SIPG? O normal é irem já veteranos, como Scolari, Eriksson, Lippi?
Não. Lá contrata-se pelo currículo, sem currículo não querem. Ficou em segundo, como o Eriksson, que foi despedido. Fizeram um investimento muito grande no Óscar, Hulk, o Ricardo Carvalho. E perderam a Taça da China para o outro Shangai Shenhua.

Está sem clube desde que saiu do Tianjin Teda em junho. Quais são as perspetivas?
Voltar à China. Estou em negociações e devo assinar até até final do mês.

Vê os programas de análise da jornada?
Aqui vejo muita gente na televisão a dizer mal do futebol, sem nunca ter jogado sequer, e a ganhar dinheiro com o futebol. Só o "Play-Off", do Rodolfo, Alves e Manuel Fernandes, que foram meus colegas. Que sabem de futebol.

Gostava de ser comentador?
Já fui de vez em quando e já me convidaram para ser residente. Fiquei tentado, depois pensei que era melhor não ir. Tinha de andar atento a tudo para não fazer papel de urso e ainda sou treinador. Arriscava criar hostilidades e chatices. Não é o momento certo.

Como vê esta agitação no futebol, a troca de e-mails, a pressão na arbitragem?
Sempre foi assim. Lembro-me de Dias da Cunha ter feito uma aliança com Pinto da Costa para tramar o Boavista. Era hostilidade por todos os lados, dos clubes da nossa dimensão por estarmos mais cima, dos grandes por sermos um intruso. A diferença é que há muitos mais meios de informação e divulgação. Há futebol a toda a hora com pessoas e os próprios clubes canais de televisão. Os comentadores da BTV, Porto Canal, etc, parecem que vivem em ditadura, têm de falar pela cartilha. São a voz do partido do regime. Não têm independência. Esta celeuma toda é dos três grandes e dos árbitros...

Estão fartos do clima de suspeição.
Fazem muitas asneiras. Mesmo com o VAR.

Que não tem ajudado muito...
Eles são os próprios a não irem consultar o VAR. Se têm dúvidas consultem. Assim evita-se golos mal anulados por fora de jogo como no FC Porto-Benfica. Queixam-se mas também são responsáveis pela agitação.