Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

A vida bucólica de um treinador na ilha de São Miguel: “Estamos a treinar e há turmas a fazer educação física à volta do campo”

O Santa Clara foi eliminado da Taça de Portugal pelo Moreirense, nos penáltis, mas continua a luta por aquele que é o grande objetivo do clube: regressar à 1ª Liga, onde só esteve em 2001/02 e 2002/03. Mas ser treinador na ilha de São Miguel é bem mais complicado do que no continente, explica à Tribuna Expresso Carlos Pinto, que tem de treinar em escolas e planear viagens, mas ainda assim diz não abdicar de "uma ideia de jogo positiva" - e adora viver na ilha

Mariana Cabral

Carlos Pinto é treinador desde 2011/12, quando se estreou no Tirsense. Natural de Paços de Ferreira, passou por Freamunde, Tondela e Chaves, antes de chegar ao Santa Clara, em 2015/16. Em 2016/17 começou a época no clube da terra - o Paços -, onde também foi jogador, mas voltou para São Miguel a meio do ano

CD Santa Clara

Partilhar

Ainda estás triste pela eliminação da Taça de Portugal?
Obviamente que, enquanto treinador, também fico triste, mas fico mais pelos jogadores, pelo sentimento que vi em todos eles quando entraram no corredor. Foi uma frustração muito grande, um vazio muito grande, até pela atitude que tiveram durante os 120 minutos, mesmo depois de termos feito sete alterações na equipa. Deram resposta com um grande compromisso e, no momento, ver aqueles rostos de jogadores que podiam ter ficado na história de um clube que tem 90 anos... Marcou-me muito, sem dúvida nenhuma.

Em que é que um treinador pensa durante os penáltis? Porque mesmo que os tenha treinado, é sempre algo imprevisível.
Aquilo é um momento. Curiosamente, no dia anterior treinámos os penáltis e também não saíram muito bem, até falhámos vários. Obviamente que treinámos e estudámos os marcadores do adversário, tal como nos estudam a nós, mas o momento é que faz a diferença. É uma questão de lotaria.

Ficou provado que as equipas da 2ª Liga se batem sem grandes diferenças com as equipas da I Liga?
Sim, até porque a jogar com equipas da 1ª Liga temos muito mais espaço. O Santa Clara é uma equipa que tem imensa qualidade e com espaço cria dificuldades a qualquer equipa, como tenho dito. Com o Moreirense penso que isso ficou comprovado. Mas também era importante para nós dar minutos a alguns jogadores que não estavam a jogar e que mereceram claramente aquela oportunidade. Deram uma resposta excelente, apesar de não termos passado aos quartos de final.

O foco principal é a subida à I Liga?
Sim, foi aquilo que definimos logo desde início. Começámos muito bem, neste momento não estamos, em termos de resultados, a ter o que pretendíamos, mas em termos de qualidade de jogo a equipa tem sido muito elogiada publicamente por aquilo que tem apresentado em todos os campos a nível nacional. Tem claramente uma ideia e uma identidade e não abdica dela, tanto em casa como fora. Em termos de classificação, esperávamos mais, esperávamos ter muito mais pontos, mas ainda vamos a tempo, estamos a falar de uma diferença de quatro pontos para o 2º lugar [o Santa Clara é 6º, com 26 pontos, menos cinco do que o líder Académico de Viseu e menos quatro do que o Famalicão, 2º], que dá acesso à 1ª Liga. Ainda muito vai acontecer, ainda vamos ter agora o mercado em que as equipas se vão reforçar e obviamente o Santa Clara também está a olhar para o mercado, mesmo com alguma paciência, porque ainda temos dois jogos até acabar o ano e começamos o novo ano a jogar com o Académico de Viseu, que é o 1º classificado. Depois temos a 2ª volta, por isso ainda há muitos pontos em disputa, tudo pode acontecer.

Falaste na qualidade de jogo... qual é a ideia de jogo do Santa Clara?
Tivemos oportunidade de entrar aqui na época passada e começámos a trabalhar logo para esta época. É uma equipa que joga num 4-4-2, que adaptamos para 4-2-3-1 às vezes, mas temos algumas variantes dentro disso. É uma equipa com um futebol de qualidade, um futebol ofensivo, no qual acreditamos desde o início e não vamos abdicar disso.

Na 2ª Liga a norma não é o futebol mais direto, mais físico?
Não... Criou-se a ideia de que a 2ª Liga tem sempre um futebol à base de força, de transições, em que as equipas são mais resultadistas. Obviamente que acontece, mas acho que já é um bocadinho diferente daquilo que era antigamente. Sinceramente, hoje já se vê equipas a praticar um futebol de qualidade, a privilegiar o espectáculo. Hoje, na minha opinião, a 2ª Liga está muito mais forte e com mais qualidade do que nas épocas anteriores. Neste momento estamos a falar de uma 2ª Liga que tem várias equipas posicionadas para subir de divisão - sete ou oito equipas, até ao final. Já não é aquela 2ª Liga só das equipas físicas. Obviamente que ainda há equipas que privilegiam esse tipo de jogo, mas poucas, neste momento.

Notas muita diferença nos jogos e nos treinos, relativamente ao teu tempo enquanto jogador?
Sim, claro, há sempre mudanças, estamos sempre a evoluir. Foi como disse em relação à 2ª Liga: claramente que hoje temos muito mais equipas a privilegiar um futebol de qualidade em Portugal, muito mais do que antigamente. Felizmente hoje há treinadores que aparecem na 1ª Liga, como é o caso do treinador do Rio Ave [Miguel Cardoso], com uma ideia de jogo muito positiva e obviamente também tendo resultados é valorizada, porque se não tiver resultados em Portugal a ideia é logo criticada. Esta é que é a realidade. Mas felizmente estes treinadores aparecem agora com uma ideia de jogo positiva para o futebol, que é aquela da qual eu também gosto e privilegio. Obviamente fico satisfeito por isso acontecer.

Há pouco falavas do mercado. É mais difícil arranjar jogadores que queiram jogar numa ilha?
Sim. A ilha tem duas complicações: primeiro, claramente conseguir trazer um jogador para cá; depois, a adaptação do jogador. Estamos a falar de uma ilha, estamos um bocadinho isolados, apesar de serem duas horas de viagem até ao Porto e Lisboa. Não é fácil convencer um jogador a vir para a ilha. Hoje mais, porque o Santa Clara está a jogar para subir de divisão e acaba por ser apetecível para os jogadores, mas o nosso trabalho enquanto treinadores é completamente diferente em relação ao continente. Aquilo que trabalhamos mais cá é o descanso, porque são muitas viagens, é de 15 em 15 dias a voar. E é a situação da parte mental, porque uma das nossas preocupações é perceber se o jogador está bem, porque também tem quase todos os familiares longe, porque há poucos jogadores com as esposas e com as filhas aqui na ilha.

Por outro lado, numa ilha é mais fácil saber o que anda um jogador a fazer.
Sim, acaba por ser um meio pequeno. Mas é uma ilha de muita tranquilidade. Costumo dizer que esta qualidade de vida é fantástica para um treinador e para os jogadores. Obviamente que nos sentimos um bocadinho na prisão, por estar longe, mas eu gosto muito e os jogadores passado um ou dois meses também se adaptam, porque temos a vantagem de conseguir criar aqui, em termos de grupo de trabalho, uma autêntica família.

Então gostas de viver na ilha.
Sim, gosto muito de estar de cá. O meu grande problema é a situação dos filhos, não é? Sendo pai e sendo divorciado, neste momento tenho uma filha a viver comigo e tenho outros dois a viver com a minha ex-mulher. Obviamente não é fácil, mas aquilo que procuro é dar estabilidade aos meus filhos e, hoje, o Santa Clara dá-me essa estabilidade.

Não te faz impressão chover quase todos os dias, então.
[risos] Qual chover todos os dias, temos aqui um clima fantástico.

Não mintas, porque eu sou de São Miguel.
[risos] Estou a falar a sério, acho o clima aqui fantástico.

É muito mais ameno.
Não tem chovido muito, por acaso. Aqui metes um casaquinho e estás tranquila. Obviamente quando há chuvadas, são muito mais fortes do que no continente, mas em termos de clima não me posso queixar. Agora, quando chove, chove forte, é terrível [risos].

Ser treinador na ilha é mais difícil do que ser treinador no continente?
É. O trabalho semanal é completamente diferente. De 15 em 15 dias há viagens e mesmo sendo viagens de duas horas há sempre atrasos. Lembro-me, por exemplo, deste último jogo que tivemos para a 2ª Liga, em Famalicão, em que saímos daqui às sete horas e só estávamos a almoçar no Porto às 15h. São os atrasos. Com o tempo, isto vai fazendo mossa nos jogadores, por isso é que digo que aqui o trabalho é diferente, tem de haver muito repouso para o jogador.

Então é mais moroso adquirirem a ideia de jogo, há mais vídeos e menos treinos?
Desde o primeiro dia que trabalhamos sempre com bola e com organização. Para criarmos uma ideia de jogo e uma identidade temos de ter isso desde o primeiro dia. Como entrámos na época anterior, fica mais fácil também, porque tens jogadores que passam para a época seguinte e já passam até para os próprios colegas novos a ideia. O que costumo dizer é que a partir do momento em que o treinador acredita na sua ideia e os jogadores também, então fica tudo mais fácil.

É complicado ter muitas nacionalidades no plantel?
É diferente. Não estava preparado, mas obviamente também temos de nos adaptar a este tipo de situação. Felizmente para mim, todos os meninos que vêm para cá são meninos de uma educação muito boa, bons profissionais e com caráter, com a nossa preocupação também a ser que eles cresçam e evoluam nesses dois aspetos: a qualidade de jogo e o caráter. Obviamente os meninos cometem erros com mais facilidade, mas para nós, enquanto treinadores, é o nosso trabalho indicar-lhes o caminho certo.

Uma vez disseste que, enquanto jogador, tinhas sido um mau profissional.
[interrompe] Quando digo mau profissional, é no sentido de não trabalhar todos os dias no máximo. Obviamente quando as pessoas pensam em mau profissional pensam que é um homem que anda muito na noite, mas isso não sou eu - nunca gostei de sair à noite, ainda hoje não gosto. Era mau profissional no sentido em que ia ao treino mas não treinava, como costumo dizer aos jogadores. Não me dedicava ao máximo. Só ali aos 28, 29 anos, quando fui para o Feirense, é que comecei a ser muito mais profissional e a trabalhar todos os dias nos limites, por isso é que fui capitão durante dez anos. Fui a partir desse momento um exemplo. O que digo a um jogador é exatamente isso: nós trabalhamos uma hora, uma hora e meia por dia, não há razão para não trabalhar no máximo. Perdi muito dinheiro, porque era um jogador que tinha muita qualidade, mas não fui um bom profissional. Claro que hoje é diferente, porque no meu tempo havia pouca paciência para os miúdos, eram praticamente postos de lado. Hoje os treinadores conversam com os miúdos e indicam-lhes o caminho. E eu, por ter estado dos dois lados, tive noção daquilo que cresci e ganhei em termos monetários e em termos de respeito das pessoas, quando me dediquei.

O que te fez mudar?
Há sempre um clique qualquer. Para mim o clique foi no Feirense. Curiosamente, com um treinador que hoje está a disputar uma subida comigo, que é o Francisco Chaló, do Viseu. Ele era treinador do Feirense naquela altura e eu era um jogador com qualidade, mas era muito malandro dentro de campo, como eu costumo dizer. Praticamente só jogava quando tinha a bola no pé. Então houve um dia em que perdemos em casa e em que tivemos a bancada do Feirense toda de pé a aplaudir os jogadores. Achei aquilo muito estranho porque achei que jogámos muito pouco mesmo. Então comentei isso mesmo com o Chaló: "Como é que é possível esta bancada estar de pé a aplaudir os jogadores quando nós não jogámos porra nenhuma?" Foi mesmo assim a expressão que utilizei. E ele disse-me assim: "Isto é para tu veres como isto funciona: primeiro corres, depois pensas". É uma coisa fantástica, han? E eu queria era pensar o jogo. Pronto, aquilo entrou-me na cabeça, de certo modo. Se é assim que vocês querem, comecei a trabalhar, a trabalhar. E depois foi uma questão de hábito. Se nos habituarmos a alguma coisa, fazemos com facilidade. Depois passei a ser um jogador diferente, com a qualidade presente, porque aquilo que nós não conseguimos dar a um jogador de futebol é qualidade, ainda que haja aspetos que consigamos melhorar, como esse aspeto de me dedicar mais e trabalhar mais para a equipa.

Em Portugal um jogador ouve um aplauso mais forte se fizer um carrinho e mandar a bola para fora do que se fizer um passe bonito a desmarcar alguém?
Depende, depende. Estamos a falar de culturas e de clubes. O Feirense naquela altura privilegiava muito mais o carrinho, mas há clubes que preferem a qualidade de jogo, depende das mentalidades. Obviamente quando vamos para um clube é importante perceber onde estamos. Se formos para o Barcelona não vamos alterar o sistema para um 4-4-2, porque há uma cultura de 4-3-3, mas se formos treinar o Real Madrid já conseguimos fazer isso com alguma naturalidade, porque o Real Madrid não tem uma cultura instalada.

Quando é que percebeste que querias ser treinador?
Sinceramente demorei a tirar o curso de treinador - ainda hoje tenho o II nível, estou à procura do III nível -, porque na altura nem sequer pensei em ser treinador. Pensei seguir o futebol, se calhar como adjunto. Curiosamente, foi o Leonardo [Jardim], que era meu treinador no Chaves [2008/09], que me disse que eu tinha características para ser um bom treinador e aí despertei um bocadinho. Mas mesmo aí também não pensei muito. Só quando fui para o Tirsense, no que acabou por ser a minha última época como jogador, é que fui convidado pelo presidente para ser treinador. E eu não quis, na altura. Queria ser jogador, porque gostava muito de jogar. Depois de muita pressão e de ouvir muitas pessoas, aceitei, mas como jogador/treinador. Era treinador mas queria ser jogador na mesma. Naquela altura, o Leonardo, que era uma pessoa com quem eu falava muitas vezes, disse-me que aquilo não fazia muito sentido, porque o meu foco tinha de estar num lado, não podia estar nos dois. E a muito custo, com muita pena minha, tive de acabar a carreira de jogador e, pronto, arranquei para treinador. E hoje acho foi a melhor opção que tomei.

É mais difícil ser treinador do que jogador?
É terrível. Ser treinador é terrível. Não pára. Costumo dizer que o cérebro não pára um minuto. Se hoje ganhámos e a equipa jogou muito bem, obviamente que estamos felizes, mas já estamos a pensar no próximo jogo. Se perdemos e a equipa não esteve bem, continuamos a trabalhar e a pensar no próximo jogo. Ser jogador é completamente diferente. Mesmo em termos da pressão que há sobre o treinador. Se um jogador erra, é normal; se um treinador erra, é crucificado. Mas esta é a profissão que nós escolhemos. Ainda no outro dia estava a ler uma entrevista do Luís Castro e ele dizia que o mais importante é nós acreditarmos sempre em nós e na nossa ideia, nunca abdicarmos da nossa ideia. É por aí que também caminho. Há momentos que nos deixam frustrados, como agora na Taça de Portugal, e há outros jogos que nos deixam tristes, mas também faz parte do nosso crescimento - é aquilo que passo aos jogadores. Na hora da derrota se calhar vemos as coisas de maneira diferente e uma das minhas preocupações nesta fase em que as coisas não estão a correr bem em termos de resultados é fazer perceber aos jogadores que a qualidade está lá e as coisas têm de acontecer naturalmente, sem grande ansiedade, porque o mais importante é não bloquear e não perder o controlo emocional - isso é fundamental no futebol.

As pessoas falam-te muito do clube na rua? Agora há mais gente no estádio do que em épocas anteriores.
Sim, temos três, quatro mil pessoas a ver os jogos, mas, curiosamente, digo sempre isto desde o primeiro dia que cá cheguei: há uma tranquilidade tremenda para os treinadores e para os jogadores. As pessoas fazem a vidinha delas e temos uma tranquilidade incrível. Agora neste período em que estamos a lutar para subir já há mais um ou outro comentário na rua, no supermercado, mas nada de especial.

As condições de treino é que não são as melhores.
Eh pá, já fui crucificado por causa das condições de treino aqui.

Porque disseste que não fazia sentido uma equipa profissional estar a treinar com aulas de educação física no mesmo campo.
Obviamente que não quero tirar as escolas dali. O que falei foi sobre futebol profissional... Ainda hoje tivemos um treino em que passámos o treino com música, porque era o último dia de escola e havia música nas alturas ao lado do nosso treino. Se eu comento estas situações, as pessoas levam a mal, mas aquilo que quero dizer é que o Santa Clara claramente tem de ter outro caminho, tem de se organizar noutro sentido. O Governo aqui ajuda muito e aqueles campos relvados são para as escolas e não faz sentido nenhum estar a tirar os miúdos dali, mas obviamente não é agradável nem para os miúdos da escola, que provavelmente ouvem alguns palavrões que os jogadores dizem, nem para os jogadores, porque a concentração não é a mesma. Obviamente que devia haver aqui condições para o Santa Clara ter campos próprios, mas neste momento não existem e temos de nos adaptar à realidade. É com ela que temos de viver, não vale a pena estarmos aqui a lamentar-nos. Quando o disse nem foi no sentido de me lamentar, foi a falar do futebol profissional do Santa Clara, seja com o Carlos Pinto ou com outro treinador qualquer, porque as coisas deviam ser diferentes. As pessoas interpretaram as minhas palavras como "o Carlos Pinto quer tirar os miúdos da escola", mas não é isso.

CD Santa Clara

Mas como é aquilo, são dois campos ao lado um do outro, numa escola?
Não. É um campo relvado nas Laranjeiras, que é uma escola, e outro campo relvado no Lajedo, que também tem outras escolas. Ou seja, nós treinamos em campos de escolas. Estamos a treinar e temos duas ou três turmas a fazer educação física à volta do campo. Obviamente isto não agradável. No primeiro dia que cá cheguei, meti as mãos à cabeça. Fiquei assustado, até porque nós podemos magoar um miúdo, com um remate à baliza ou qualquer bola que saia para fora. Pronto, é a realidade daqui, que já está instalada há alguns anos. Provavelmente num futuro próximo poderá haver obras para haver campos próprios do clube.

É uma realidade única em Portugal?
Não deve haver mais assim, não. É verdade que o Governo Regional dos Açores ajuda muita o Santa Clara e os clubes aqui dos Açores, o Ideal, o Operário... Nesse aspeto acho que os clubes se devem sentir muito valorizados. Mas claro que não é fácil gerir esta situação dos campos.

Qualquer pessoa pode ir ver um treino do Santa Clara, então.
Não consigo ter um treino à porta fechada. Não consigo fazer um treino de organização para o jogo neste tipo de campos porque qualquer pessoa pode entrar ali dentro, qualquer pessoa pode estar ali perto na estrada a ver... Esta é que é a realidade [risos]. A nossa privacidade praticamente não existe.

Então como é que preparas a estratégia de um jogo?
Não abdico de trabalhar como gosto. Se for passada a mensagem para fora, não posso controlá-lo, é a realidade. Mas se me for focar nessa situação de ter pessoas a ver o treino, então nunca faço o meu trabalho. Trabalho tranquilo, como se não estivesse ninguém a ver, porque não há outro caminho.

Esse lado estratégico é importante?
Sim. O nosso foco é sempre a nossa equipa e a nossa ideia, mas claro que há sempre pontos que temos de ver no adversário, porque o adversário tem pontos fortes e fracos, tal como o Santa Clara. Focamo-nos nos pontos fracos do adversário e desde o primeiro dia da semana que já estamos a trabalhar isso, com a nossa ideia mas com algumas variantes que conseguimos colocar dentro da nossa ideia.

Lembras-te do Santa Clara na 1ª Liga?
Não [risos].

A sério?
Lembro-me de um jogador muito falado na altura, que era o Clayton [esteve no Santa Clara em 1999/00, sendo depois transferido para o FC Porto]. Lembro-me do treinador do Porto que veio para cá, o falecido Carlos Alberto Silva, certo?

Certo.
Lembro-me também do Leandro [esteve no Santa Clara em 2002/03], que era um ponta de lança que acho que passou pelo Sporting [em 1997/98], não foi?

Sim. Afinal lembras-te de qualquer coisa.
Lembro-me vagamente. Não me lembro do Santa Clara, mas lembro-me destes jogadores e treinadores que foram destacados.

E do Manuel Fernandes, lembras-te? É quase um herói em São Miguel, por ter subido a equipa.
Ah sim, claro que sim. As pessoas falam muito do Manuel Fernandes aqui. Aliás, quando eu reclamo um bocadinho as pessoas dizem logo: "Isso, faça isso que o Manuel Fernandes também reclamava muito" [risos]. Imagina aos anos que foi.

Se o Santa Clara subir de divisão esta época, ficas como o Manuel Fernandes.
Eiiiii, subir de divisão aqui é uma coisa que nem quero imaginar. Passados quase 20 anos... O nosso foco é claramente esse. Sabemos que vai ser uma missão muito difícil, porque nada é fácil nesta vida, mas é o que queremos.