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O herói de Alkmaar ainda está desempregado, mas só porque quer jogar na Ásia. “Gosto de futebol, mas se puder juntar o útil ao agradável...”

Estamos a dias da reabertura do mercado, altura de rumores, compras, vendas e de jogadores sem clube arranjarem um novo. Por isso, lembrámo-nos de Miguel Garcia. Mas o que esperávamos ser uma entrevista acerca do dia a dia de um jogador desempregado, acabou por ser uma conversa sobre alguém que ainda está sem clube por vontade própria. E quer acabar a carreira a conhecer pessoas, culturas e lugares novos: "Tailândia, Maldivas ou Malásia, se não sair para um desses países, em princípio não vou jogar mais"

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Como estamos a dias da reabertura do mercado, a ideia era falar com um jogador sem clube, para saber como lidam com esta altura do ano…
Ok, mas é assim, Diogo, não sei se sou a pessoa mais indicada para falar sobre isso neste momento.

Então?
Agora estou sem clube por opção própria. Tenho tido algumas propostas, mas, neste momento, só estou à procura de ir para a Índia, ou de ir ali para a Tailândia e a Malásia. Só mesmo ali em dois ou três países. Tive propostas boas da Turquia, por exemplo, mas não quero ir para esses mercados, como o Chipre ou a Grécia.

Ok, pronto, mas a sua história é interessante.
É? Ok.

Sim, são países pouco comuns para um jogador português.
Está bom, então vamos embora.

No seguimento do que disse, porque só quer ir para esses lados do mundo?
Já joguei em vários países, principalmente da Europa, e o meu último país foi a Índia, onde o futebol é completamente diferente. E, neste momento, só estou aberto a propostas vindas da Ásia porque, agora, o que interessa não são tanto os termos financeiros, mas a experiência de vida. Fora do normal. Por isso é que, na altura, também decidi ir para a Índia [em 2014, para o North East United] e foi uma experiência espetacular. Gostava de repeti-la, mas noutro país.

O Miguel já esteve a um certo nível, jogou duas finais da Liga Europa. Não lhe fez confusão baixar esse nível em termos de treino, competitividade e exigência?
Sim, claro que é totalmente diferente. Não se pode comparar a Europa com a Ásia. Lá, os jogadores não são tão evoluídos como aqui. Na Índia, tive companheiros de equipa que começaram a jogar futebol aos 15 anos e estavam a jogar com jogadores com muita experiência. Alguns até tinham sido campeões do mundo, caso do Capdevilla, e sentia-se nos treinos que a qualidade não era a mesma. Mas já sabíamos que isso ia acontecer, por isso havia sempre uma compreensão e até ajuda. Foi uma experiência muito boa. No lado futebolístico se calhar não era tão motivante, sim, mas, depois, tudo era diferente: o clima, a comida, as pessoas, as cidades. Por esse lado, claro que valeu a pena.

Eram essas as coisas que o fascinavam.
Sim, sim. O futebol também, porque nem tudo era mau [ri-se]. A qualidade não era tão boa como a nossa, mas, em contrapartida, estádios de 70 ou 80 mil pessoas estavam cheios, o ambiente era totalmente diferente. Quando entrávamos em campo ou marcávamos um golo havia fogo de artifício. Os adeptos estavam sempre a gritar, quer para a equipa da casa, quer para a de fora. Nunca tinha vivido tal coisa e isso também nos fazia sentir jogadores. Na Índia, o futebol está cada vez melhor e eles têm feito um esforço enorme para conseguirem estar perto do nível que temos aqui na Europa.

Essa experiência fez com que o futebol baixasse um pouco na lista de prioridades?
Quando saí do Maiorca, tinha 31 anos [em 2014], falei com alguns empresários e sempre disse que o meu próximo clube seria na Ásia ou nos EUA, e assim foi. Tive outras propostas, podia ter voltado para a Turquia, mas não quis. Quando surgiu a hipótese de ir para a Índia disse que sim imediatamente. Agora estou à procura de voltar para lá ou para ali perto, Tailândia ou Malásia. Até já tive uma abordagem para ir para as Maldivas, de um treinador espanhol que conheci na Índia.

Se apenas dependesse de si, que país escolheria neste momento?
Não tenho assim uma preferências. Como lhe disse, Tailândia, Maldivas e Malásia. Qualquer um destes três, ia já amanhã.

Miguel Garcia lá no alto, nos tempos em que jogou no North East United, da Índia.

Miguel Garcia lá no alto, nos tempos em que jogou no North East United, da Índia.

BIJU BORO

Viajou para algum desses países, ou outros, enquanto esteve a jogar na Índia?
Fui à Tailândia e também ao Dubai.

Deu para imaginar como seria viver lá?
Sim, principalmente na Tailândia, onde passei mais tempo. No Dubai fiquei só durante cinco dias. Na Tailândia estive duas vezes, conheci Banquecoque e depois estive no sul. É um país onde me via a passar, pelo menos, uma temporada.

Deixou-se agarrar pela espécie de caos organizado que eles têm lá?
Pior é a Índia, em termos de trânsito. Em Mumbai e Deli é uma loucura. Ao pé da Índia, se compararmos Banguecoque com Mumbai, não há comparação possível com a Tailândia. Lá o trânsito ainda é organizado, as pessoas ainda se respeitam, na Índia não há faixas. Em três eles fazem cinco [risos]. Mas nesse aspeto já estou à vontade.

Mas, depois, uma pessoa vê poucos acidentes a acontecerem.
Exatamente, não há acidentes, é impressionante! Não dá para explicar, é tudo ao molho, motos para aqui e para ali, tudo a apitar, mas não há acidentes.

O futebol hoje é mais um veículo para conseguir ter essas experiências?
Estou à procura de outra aventura, mas a prioridade é o futebol. É a minha paixão, gosto muito de futebol, adoro treinar, adoro competir e adoro ganhar. Mas, se puder juntar o útil ao agradável, melhor ainda. Tenho mais motivação ao jogar num país desses porque, além do futebol, tenho a novidade. A cultura, a comida, as pessoas, é tudo novo, isso é que me fascina para lá do futebol. Estando aqui na Europa, num país que já conheço ou mesmo em Portugal, a jogar futebol, claro que seria bom, mas neste momento não é isso que estou à procura.

E a família gosta destas aventuras?
Não, a família não vai. Tenho um filho que já começou a escola, está na segunda classe, e não pode ir. Eles ficariam sempre em Portugal.

Quando um clube português lhe liga e o Miguel responde que só está interessado em ir para a Ásia, qual é a reação?
Respondo que não tenho interesse e as pessoas compreendem. Se eu estivesse do outro lado também compreenderia. Se um jogador não está interessado em jogar num certo país, ou num certo clube, é porque não tem motivação. Normalmente, as pessoas percebem, porque não querem um jogador que não esteja motivado para isso.

Vê-se a jogar até que idade?
Gostava de fazer mais uma época só.

E depois?
Estou no último ano do curso de Gestão Imobiliária, mesmo a terminar. Os meus planos passam por essa área. Já estou a fazer alguns trabalhos mais pontuais com clientes que tenho, mais na esfera dos meus contactos, alguns amigos, e também na parte de investimentos imobiliários.

O lateral direito passou uma época e meia no Sporting de Braga, clube com o qual jogou uma final da Liga Europa, em 2011, contra o FC Porto.

O lateral direito passou uma época e meia no Sporting de Braga, clube com o qual jogou uma final da Liga Europa, em 2011, contra o FC Porto.

GLYN KIRK

Portanto, quando se retirar, é mesmo o adeus ao futebol?
Em princípio, sim. Apesar de gostar muito do futebol e da parte do treino, neste momento não estou muito virado para ser treinador ou diretor.

E comentador televisivo, por exemplo?
Por acaso não pensei muito nisso, é uma coisa diferente. Poderia ser uma hipótese. Mas, nós os jogadores, desde os 13/14 anos, em que começamos a jogar um bocadinho mais a sério, com contratos de formação, passamos a viver só para o futebol. Vim para Lisboa com 14 anos e nunca tive fins de semana. Perdi imensas festas de anos e muita coisa, quando era mais novo. A vida de um profissional de futebol é só descansar, treinar, descansar outra vez, e gostava de recuperar um bocadinho desse tempo perdido. Sobretudo passar fins de semana em família e com os meus filhos. Se for treinador não sei onde vou estar, não tenho folgas. Como há outra área da qual gosto muito, o imobiliário, em que já tenho formação e estou a explorar, onde posso fazer os meus horários, fico com mais tempo para outras coisas. Até para jogar futebol com os amigos, por exemplo [ri-se].

Se fosse treinador até ia ter menos descanso.
Pois, era treinar de manhã, observar e planear à tarde, jogos e estágios ao fim de semana… Realmente, ainda é pior do que ser jogador.

Em janeiro vamos ter novidades?
Em princípio, sim. Se não sair para um desses países, em princípio não vou jogar mais. Já estou há algum tempo sem jogar, tive uma lesão no pé, foi por isso que saí da Índia, e fui operado em Portugal. Já estou bem e tenho treinado todos os dias ali no Olímpico do Montijo. Agora estou à espera que apareça alguma coisa concreta para tomar uma decisão. Caso contrário, em princípio já não jogo mais. Vou-me dedicar ao curso.

Falta-lhe muito?
Vou começar com os exames em janeiro e, depois, tenho outros em julho. Se ficar cá, vou terminá-lo quase de certeza. Se me for embora, terei que adiá-lo novamente. Comecei este curso em 2009, quando estava no Braga, só que depois fui para a Turquia durante dois anos, fui para Espanha, fui para a Índia. Tenho estado sempre a adiar.