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Manuel Machado: “Os dirigentes fazem-me recordar os vendedores de banha da cobra. O despedimento é o remédio para tudo mesmo que nada sare”

Aos 61 anos, o treinador-herói que levou o Moreirense à I Liga na dobragem do século foi despedido sem glória no final de outubro. Pretexto para uma conversa sobre o que pode fazer a equipa que veste aos quadradinhos verdes frente ao FC Porto, esta quinta-feira (20h30, SportTV1), no jogo dos quartos-de-final da Taça de Portugal. Apesar de um campo de futebol não ser um tabuleiro de xadrez, em que as pedras brancas e pretas valem o mesmo, Manuel Machado diz que, em casa, num só jogo e num momento bom, tudo pode acontecer, numa prova famosa por tombar gigantes

Isabel Paulo

Tiago Miranda

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Sérgio Conceição já avisou que não vai ser fácil derrotar este FC Porto. Há excesso de confiança ou é mesmo a equipa mais poderosa da Liga?
É a mais forte na medida em que tem melhor rendimento e é a líder da prova. É objetivo até ao momento. Mas relativamente ao transfer dessa prestação da Liga para a Taça de Portugal, o que se pode dizer é que é uma competição com outro perfil, o que significa que esse domínio não é decisivo para o resultado final. Mesmo que o potencial da equipa de Conceição e do Sérgio Vieira seja muito diferente. Será uma equipa de dimensão europeia contra uma pequena equipa de um clube muito pequeno. Agora, num só jogo, o fator casa e um eventual momento menos bom do FC Porto pode ditar algum equilíbrio. A beleza do futebol está na imprevisibilidade dos resultados. Além de que a Taça de Portugal já nos deu muitas surpresas.

O Moreirense foi a besta negra do FC Porto na época passada, ao eliminar a equipa de Nuno Espírito Santo da Taça da Liga e ao levar de novo a melhor na última jornada do campeonato. Estamos agora perante equipas muito diferentes?
Bastante. O Moreirense tem um plantel com 22 novos jogadores, o que só por si é esclarecedor. A equipa que joga hoje apresentará um ou dois jogadores que transitaram da equipa anterior, Sagna e provavelmente Neto. No FC Porto, recuperaram-se jogadores que estavam emprestados, como Ricardo, Marega, Hernâni ou Aboubakar. Mas fundamentalmente o que mudou foi a vontade de querer ganhar, que não se via nos últimos anos. Por isso, com jogadores de menor nomeada e recorrendo à prata da casa conseguiu voltar a ser o que era, como ainda se viu frente ao Vitória de Guimarães, depois de ter começado a perder.

Mérito é do Sérgio Conceição…
Sim, até porque quando há demérito o treinador é o primeiro a pagar. Quando há sucesso, como é o caso, deve ser indexado a quem lidera. Sem investimento, soube recuperar a mística perdida e reabilitar jogadores, além da sua inegável valia técnico-tática.

Conhece bem o plantel do Moreirense, construído por si. Vê alguém que possa explorar as fraquezas adversárias? E quais são os pontos fracos do FC Porto?
Não tem pontos particularmente frágeis. Qualquer das três linhas, e até mesmo a baliza, tem competência. Um bloco defensivo muito sólido, com laterais muito bons defensivamente e a acrescentar ofensivamente o jogo exterior, três centrais que têm rodado e dão grande consistência ao jogo – Marcano, Filipe e Reyes –, e no miolo um conjunto muito valioso e com muitas variantes. Na frente, grande potencial no plano técnico como físico, que quando não resolve logo nos primeiros minutos, acaba por fazê-lo pelo desgaste dos adversários. Aboubakar, Marega, Soares e a criatividade de Brahimi e Corona, mais cedo ou mais tarde, desmoronam os blocos defensivos dos adversários. O jogo com o Guimarães foi ilustrativo. Já o Moreirense pode agarrar-se ao fator casa, ao seu coletivo, à ambição dos seus jovens jogadores, que vêm melhorando o seu rendimento.

E as últimas vitórias dão moral.
Ganharam ao Guimarães, empataram para a Taça da Liga, foram vencer ao Aves. Dá confiança, como é óbvio.

É verdade que num jogo destes não é preciso motivar os jogadores das equipas mais pequenas?
Não é. Há um conjunto de chavões que se aplicam correntemente a estes jogos: o Moreirense só tem a ganhar, o FC Porto só tem a perder. Ou seja, a vitória natural é a do FC Porto. Por isso o Moreirense encara o jogo com à vontade, sem grande pressão. As ferramentas em campo são muito diferentes, que isto não é um tabuleiro de xadrez, em que de um lado estão as pedras brancas e do outro as pretas, e são todas iguais. Não é assim, o Moreirense tem pedras muito inferiores...

Mais cinzentas…
Sem lhes querer retirar valor, são mais acinzentadas e as do Porto mais douradas. No Moreirense têm um caminho mais longo para percorrer, enquanto os do Porto já lá estão. E acredito que alguns profissionais do Moreirense chegarão mais acima.

FRANCISCO LEONG

Se uma equipa se motiva automaticamente com um grande, um treinador pode dar-se ao luxo de nada dizer antes do jogo?
Não acredito que em Moreira de Cónegos o treinador se limite a reunir os jogadores para almoçar e vão jogar a seguir. Há um conjunto de requisitos que mesmo contra uma equipa muito superior têm de ser respeitados.

Qual a sensação de tombar um grande?
É a sensação de bater o vencedor. Muito regozijo.

Não foi feliz nos últimos três clubes por que passou, tendo duas das suas equipa acabado por descer após a sua saída. Os treinadores em Portugal são cada vez mais temporários?
A última época foi de facto ilustrativa desta instabilidade. Julgo que foram 17 os treinadores despedidos, sendo que três clubes mudaram de técnico três vezes – o Moreirense foi um deles. Neste momento, o Estoril também já vai na terceira solução, tal como o Paços com a saída de Petit. Não sei como vai acabar a época, vamos para a segunda volta, mas o que sei é que os treinadores saem mas normalmente os problemas ficam lá. Não acabam com a a mudança de técnico. No Nacional da Madeira, fui despedido com a equipa fora da linha da despromoção, e depois de eu sair só agravou a sua situação, que os problemas não vieram comigo. Não eram problemas de falta de competência dos jogadores ou dos técnicos, mas de comportamentos que estavam bem diagnosticados. A administração fez a sua opção, eu respeitei. Relativamente ao Arouca tratou-se de um período muito curto e com um calendário muito difícil – três jogos fora com o Braga, Chaves e Marítimo, equipas que jogavam para a Europa e duas delas conseguiram. E com o FC Porto em casa. Não resisti às derrotas e o diagnóstico era fácil de fazer: uma equipa esgotada fisicamente. O que digo traduz-se em números: quando saí o Arouca tinha 27 pontos, a 10 pontos da linha de água, ocupada pelo Nacional e Tondela, e faltavam oito jornadas para jogar. O Arouca desceu, sinal que os problemas ficaram lá.

O que falhou no Moreirense?
Foi um quadro diferente e sobre o qual não me quero pronunciar porque a Liga está em curso, está no seu campeonato, tem uma equipa com potencial, a confirmar que foi construída racionalmente dentro dos meios à disposição e que acredito vá ter sucesso.

O despedimento de Augusto Inácio, que levou a equipa à vitória na Taça da Liga, feito único na história do clube, é paradigmático da impaciência dos dirigentes?
Faz-me lembrar uma atividade que hoje não se usa, mas era frequente quando eu era miúdo – a do vendedor de banha da cobra. Montavam uma banca numa esquina e vendiam a banha da cobra que era cura para todos os males. Acabavam como é óbvio por não curar mal nenhum. A questão da mudança de treinadores é algo semelhante, Sempre que as coisas correm menos bem aí vai o remédio, que é alterar o comando técnico. Tira-se esse e coloca-se aquele. Tal como a solução da banha da cobra também normalmente não sara nada. Em termos estatísticos, a fórmula resultará num caso em cada 10.

FRANCISCO LEONG/GETTY

Como se pode combater a precaridade laboral entre os treinadores?
Não é fácil, face à nossa cultura futebolística, em que toda a gente mete a mão na panela. Toda a gente cozinha e quando o cozinhado sai mal feito só um é que paga...

Os dirigentes interferem demais?
É uma área de negócio de grande dimensão e nesse quadro a vertente financeira está muito presente. Não me parece que seja por capricho que as administrações interfiram na construção dos plantéis no plano técnico. O equilíbrio de contas dos clubes assim obriga, o que leva muitas vezes ao sacrifício da estratégia e ideia de jogo do treinador em torno de um conjunto de jogadores em nome da vertente económica.

Os treinadores estão hoje mais condicionados?
Isso é claro. Costumo dizer que o treinador ainda vai mandando no treino. Ando no futebol há muitos anos e ao nível da construção dos plantéis a sua capacidade de decisão nas contratações tem vindo notoriamente a diminuir.

Não é também culpa dos empresários?
Os empresários são, hoje, parceiros muito importantes, inevitáveis no futebol moderno. Não podemos correr com eles do negócio do futebol. A grande questão são os desequilíbrios financeiros entre clubes, mas isso tem a ver com outros problemas. Os meios financeiros à disposição dependem das receitas das transmissões televisivas, que é matéria para uma longa conversa à parte. Não faz sentido coexistirem numa mesma prova equipas com orçamentos médios de 3,5 milhões de euros a competir com outros que têm 10, 15, 20 vezes mais.

Está sem clube desde final de outubro. Após a experiência na Grécia, o regresso ao estrangeiro é uma possibilidade?
É. Estou sem clube por opção, porque logo na semana seguinte à saída do Moreirense tive um convite para a I Liga e outro para Angola. Recusei por entender que depois dos desfechos do Arouca e do Moreirense precisava de um tempo de reflexão, repouso...

Pensa abandonar a carreira?
Não, não. Às vezes é preciso parar um pouco.

O que faz que não fazia por falta de tempo enquanto estava a treinar?
Nada de muito diferente. Não sou daqueles treinadores que dizem que vivem 24 horas para o futebol. Não é dos meus princípios mentir, por isso faço o que já fazia mas com mais tempo e sem apertos de horários. Leio, cinema, caminhar, nadar, ver futebol de outros campeonatos, quando antes estava mais concentrado no nosso futebol. Que também sigo para não perder o rumo.

Numa entrevista recente afirmou que há pouca amizade entre colegas de profissão. É uma questão de rivalidade, luta pela sobrevivência?
Um pouco das duas coisas. Alguém já disse que os técnicos andam a tentar enganar-se uns aos outros durante toda a temporada. Quando assim é, é evidente que a proximidade e amizade não encontra terreno muito fértil. Ainda assim existem relacões de cordialidade e mesmo amizade entre alguns de nós.

Com quem se relaciona mais?
Dou-me com quase todos. O Vítor Oliveira é um grande amigo e o Luís [Castro], que está no Chaves, também. Com outros são relações cordiais. Se verificar, a nível nacional os desentendimentos quando se dão não é entre os treinadores do Tondela, Arouca, Chaves ou Moreirense. É entre os dos clubes grandes que estão a lutar pelo título nacional.

Tem seguido o caso dos e-mails? O futebol português dos bastidores tem emenda?
Terá no dia em que as pessoas assumam as suas responsabilidades. O futebol é tutelado pela FPF, Liga e pela tutela, que é praticamente invisível em relação ao que se vai passando. A Secretaria de Estado do Desporto é inócua ou perto disso. No dia em que decidirem agir, o futebol tem emenda. Enquanto forem os clubes os agentes de decisão é evidente que este tipo de situações e conflitos tenderão a continuar. O que em nada contribui para o crescimento de uma área de negócio importantíssima e afasta os adeptos dos estádios devido ao clima de permanente desconfiança.

Os casos fora das quatro linhas minam o rendimento das equipas visadas?
Julgo que diretamente não. Os jogadores são muito focados no seu trabalho, que é o treino e o jogo. Mas a classe, quando são postos em causa os seus dirigentes diretos, técnicos ou até jogadores, fica fragilizada. Mesmo que se tire o prego, fica o buraco.

O Benfica já está arredado do título?
Julgo que não. É evidente que o FC Porto ou o Sporting não trocariam de posição com o Benfica, enquanto o Benfica teria todo o prazer em fazê-lo. Mas cinco e três pontos de atraso, quando falta jogar uma volta e a vitória vale três pontos, é pouco. Basta um ciclo mais positivo de uma equipa e menos de outra para inverter a classificação. Agora é evidente que o Benfica tem revelado em relação às últimas épocas fragilidades no plano defensivo, onde perdeu jogadores, e na própria baliza, que tem dois guarda-redes (Varela e Svilar) com qualidade mas pouco experientes. Não estão ao nível do que o Benfica apresenta. Daí para a frente Rui Vitória tem tudo o que os outros têm. Vai ser uma luta a três, como é habitual.

O facto de estar fora da Europa é uma vantagem ou desmoraliza a equipa?
Do ponto de vista anímico, não ajuda. O percurso europeu foi anormal e não inspira confiança. Do ponto de vista de desgaste, pode dar alguma vantagem, mas nada significativo. É sempre motivador estar nas grandes provas internacionais.