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Michele Uva: “Os pais do Buffon pediram-me: ‘Toma conta dele’. Insisti para ele ir à escola e ajudei a comprar o primeiro carro. Fui um pai”

É vice-presidente da UEFA e da Federação Italiana de Futebol e veio a Lisboa fazer uma apresentação sobre liderança e gestão de empresas. Esta é a parte formal e engravatada de Michele Uva. A do conversador e contador de estórias, que passou pelo Parma e pela Lazio, apareceu em entrevista à Tribuna Expresso: Uva contou que trabalhou com a irmã de Buffon, no vólei, antes de conhecer o guarda-redes; ou como Sérgio Conceição era "introvertido e pouco amigável" quando o conheceu

Diogo Pombo

FPF

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O que está aqui a fazer em Lisboa?
Esta é fácil. Recebi um convite da Federação Portuguesa de Futebol, primeiro que tudo, dos meus amigos, o Fernando [Gomes] e o Tiago [Craveiro]. Penso que estão a caminhar na direção certa, é uma federação de sucesso, que tem uma relação próxima com a Federação Italiana de Futebol. Temos uma boa amizade. Ontem [quinta-feira, 11 de janeiro] começaram um novo projeto, muito interessante, virado para o futuro.

É lá que o Michele fará uma apresentação. Vai falar sobre o quê?
Serão duas apresentações. A primeira será sobre o negócio do futebol e como governar os diferentes cenários, incluindo as tendências internacionais e o que estamos a fazer em Itália. A segunda será mais sobre liderança e como construir um modelo de organização de sucesso. Esta não é tão focada no futebol, é mais relativa ao ponto de vista da gestão de uma organização desportiva. Ou empresa.

Que tipo de aptidões fazem um bom gestor de uma empresa que opere no desporto?
Ó, a primeira é o talento [ri-se um pouco]. Estou a brincar. Bom, a primeira é a paixão, algo que não existe apenas no desporto, mas em qualquer tipo de profissão. Podes fazer um grande trabalho se fores apaixonado pelo que fazes. Depois, precisas de muitas coisas, do ponto de vista educacional. Precisas de ter sorte, também, pois tens de arranjar a solução certa no momento certo. Mas a primeira coisa é ter paixão pelo trabalho que fazes. Tens de ser capaz de trabalhar em equipa, porque o modelo de gestão está a mudar muito. Há 10 anos, tinhas o chefe, o chefe era o chefe e pronto. Agora, tudo está concentrado numa liderança engajada. O sucesso de uma empresa ou associação de futebol não está dependente de uma pessoa, mas de uma equipa. É como uma orquestra, precisas de pessoas diferentes, com capacidades diferentes, mas tem que fazer a mesma música, ao mesmo tempo e soarem ao mesmo.

O Michele é vice-presidente da UEFA e falou de liderança e de como liderar. Mas começou a carreira num clube de vólei.
Sim, sim, eu era um jogador de vólei. Mas, quando tinha 21 anos, percebi que não era um jogador talentoso. Não conseguia chegar à Série A, ao nível máximo. Não era o meu trabalho, claro, fui estudando na universidade. Era apenas a minha paixão. Era muito novo; nessa idade as pessoas costumam estar a desfrutar da vida, mas comecei a trabalhar. Adorava vólei e tornei-me chefe do departamento de formação de um grande clube de vólei. Estávamos em 1985 e nessa altura não existia um curso universitária ou uma academia que ensinasse gestão desportiva.

Teve de ser um autodidata?
Comecei a fazer todas as coisas sozinho. Por essa razão, a minha educação aconteceu em todos os trabalhos e oportunidades que tive, passo a passo. Hoje em dia, um jovem tem muita sorte, porque há várias universidade e muitos países para onde ir.

E a internet.
Sim, claro. Em 1985, nem sequer havia muitos livros a partir dos quais podíamos aprender. Era totalmente diferente.

Sendo tão novo, imagino que tenha cometido muitos erros.
Sempre, claro. A primeira coisa que me ajuda foram os erros, a segunda foi a fome. Todos os dias tens que ter fome de aprender algo novo. Ainda hoje, que tenho 53 anos e sou vice-presidente da UEFA, acho que tenho de aprender alguma coisa todos os dias, com alguém. Não estou aqui apenas para ensinar, mas para receber algo em troca. Tens que aprender todos os dias, caso contrário, não tens fome. E isso, para mim, está errado.

Foi por isso que trocou o vólei pelo futebol?
Sabes que, em Itália, o vólei é a segunda modalidade mais importante. O dono do clube de vólei também era dono do Parma. Ele reparou no trabalho que estava a fazer e convidou-me a passar para o futebol. Há uma grande diferença, em tudo: na economia, no ambiente, no mediatismo, na imprensa.

E a pressão?
Sem dúvida. Na altura, o Parma [chegou em 1996] era uma equipa grande, da Série A, era muito importante. Foi nesse período que conheci o Fernando Gomes, que estava no FC Porto.

Viveu a era dourada do Parma: ganharam a Taça UEFA, duas Taças e uma Supertaça de Itália.
E ficámos duas vezes no segundo lugar do campeonato, foi um tempo importante no clube. Portugal, contudo, não é uma boa memória para mim. O primeiro jogo que fizémos na Taça UEFA, ainda o treinador era o Carlo Ancelotti, em 1996/97, foi contra o Vitória de Guimarães. Foi o meu primeiro jogo internacional e perdemos. O primeiro problema que tive no futebol veio de Portugal [ri-se].

Teve muito contacto com os jogadores nesse período? Era um balneário cheio de lendas do jogo: Buffon, Cannavaro, Crespo, Thuram, Verón...
Sim, tanto no Parma como, cinco anos depois, na Lazio. O Buffon começou comigo, aos 18 anos. Tive que insistir com ele para ir à escola e ajudei-o a comprar o primeiro carro. O Buffon é hoje um amigo, mas na altura fui o pai dele. Há outra coisa interessante: a irmã dele jogava na minha equipa de vólei. O Buffon tinha 15 anos quando o conheci.

Portanto, bem antes de ir para o Parma.
Sim. E a irmã dele era uma boa jogadora, muito forte. Ganhámos a Liga dos Campeões e tudo. Por esta razão, quando cheguei ao Parma, os pais do Buffon vieram ter comigo e disseram: “Depois da nossa filha, toma conta dele”.

Claudio Villa

O Buffon não acusava a pressão por ser tão novo?
Não. Lembro-me que o primeiro jogo dele pela seleção foi em Moscovo, tinha 18 anos. O guarda-redes titular lesionou-se a meio do jogo.

Quem? O Peruzzi?
Não, o Pagliuca. Era o play-off de acesso ao Mundial e ele substituiu-o. Estava a nevar, ele entrou em campo de mangas curtas e fez um jogo fantástico. É um talento aqui [aponta um dedo indicador para a cabeça]. É um monstro mental.

Foi graças ao vólei que começou esta amizade.
Tive boas experiências no futebol, mas a minha escola foram os 10 anos que passei no vólei. Para aprender, ensinar e aumentar o meu conhecimento.

Mas não é completamente diferente lidar com jogadores de vólei e futebolistas?
Primeiro, comecei em equipas masculinas, depois passei para o vólei feminino. Nos homens, vivíamos um período muito forte, a Itália tinha vencido o Mundial há pouco tempo. Era o diretor desportivo do Treviso, mas os jogadores de vólei são menos estrelas que os jogadores de futebol. E foi muito interessante, e uma experiência completamente diferente, gerir uma equipa de mulheres,

Porquê?
Mentalmente, as mulheres são mais fortes que os homens. Focam-se num objetivo e nunca o falham, acontece o mesmo na federação italiana. A minha assistente tem 38 anos, tem mais talento do que eu, sabe mais do que eu e é melhor do que eu. Quarenta e três por cento dos funcionários da federação são mulheres. A experiência na equipa feminina de vólei fez-me aprender muito. Todos os passos da minha vida profissional deu-me algo para continuar a evoluir.

Quem sucumbia mais à pressão de ter de render: os jogadores do Parma e da Lazio, ou às jogadoras de vólei?
As mulheres. O sistema é totalmente diferente: os homens lutam entre eles, discutem muito, mas, no fim do dia, vão comer algo juntos ou beber uma cerveja. É a grande diferença. Se usares coisas que aprendeste com ambos, ficas com uma mistura fantástica.

Acha que um diretor desportivo, presidente ou CEO de um clube deve ser amigo dos jogadores?
Não. Por norma, em qualquer trabalho, e não estou a falar só em clubes de futebol, não podes ter amigos no escritório. Porque há dois períodos diferentes no dia: trabalho e tempo livre. Se, ao fim do dia, formo beber algo, ótimo. Mas, no dia seguinte, as regras são as mesmas para toda a gente. O mesmo para com os jogadores. Podes ir beber ou comer algo com eles e aí é para desfrutar, mas, no fim do dia, regras são regras. E eles sabem-no.

Lidou com muitos jogadores que não entendiam essa fronteira?
Se um jogador, ou o treinador, não o entende, então podes parar e tentas uma outra abordagem. Claro que houve pessoas que cometeram um erro e acharam que, só por ser teu amigo, podiam fazer certas coisas. Em Itália, isto é como um sistema, as pessoas usam os amigos para fazerem carreira. Mas tens de te comportar da mesma forma com toda a gente.

Insisto: de todos os grandes jogadores com quem trabalhou, não ia jantar com alguns ao final do dia, para descontrair?
Sim, sim, porque não? O Thuram às vezes vinha ter comigo para perguntar alguma coisa sobre a parte de gestão do clube. O porquê dos preços dos bilhetes anuais, por exemplo. O Thuram era fantástico, muito interessado em coisas diferentes, para lá do futebol.

É talvez o único que, hoje em dia, não está diretamente ligado ao futebol.
Sim, hoje tem uma fundação e está envolvido na luta contra o racismo. É por isso que digo que estes jogadores podem sempre ensinar e dar-te algo. Devemos ouvir toda a gente, faz parte do nosso crescimento.

Chegou a coincidir com o Sérgio Conceição no Parma. Como é que ele era?
Era um tipo simpático, tinha vindo da Lazio, até acho que foi campeão italiano [em 1999/00]. Tivemos juntos apenas uma época.

Tinha uma personalidade forte?
Era introvertido. Não era muito amigável, era muito reservado. Porque, no Parma, tínhamos uma mistura entre muitos jogadores argentinos, brasileiros e franceses. Poderia também ser devido à diferença entre as cidades: Roma é uma grande cidade e Parma é muito pequena e tranquila. Jogar na Lazio é uma experiência distinta, estás a lutar contra a AS Roma. Se perguntares ao Crespo qual foi a melhor experiência, ele responderá sempre Parma, devido ao ambiente e às pessoas. Aliás, o Crespo até vive em Parma e chegou a ser vice-presidente do clube.

Valerio Pennicino

Trabalhou na Lazio numa altura em que o clube jogava a Liga dos Campeões, tinha muito dinheiro para gastar e colocou as expetativas lá em cima. Foi difícil lidar com tudo isso?
A Lazio fica em Roma e em Roma há muita paixão por futebol. Lá existem nove estações de rádio e cinco falam todos os dias sobre a AS Roma, e quatro sobre a Lazio, durante todo o dia. Passam uma canção e depois são 20 minutos de pessoas a telefonarem e a discutirem futebol. É a única cidade onde tal acontece. Turim tem dois clubes, mas é pacata. Milão é uma cidade fantástica e atmosfera que se vive entre o AC Milan e o Inter é muito boa, mas as pessoas estão preocupadas com outras coisas. Desfrutam do futebol e pronto.

Em Roma, as pessoas vivem para o futebol, estão de segunda a sábado à espera que chegue o domingo. Em Parma também é tranquilo. Na Lazio houve uns problemas, a equipa não jogava muito bem, mas, do ponto de vista da gestão, a Lazio era uma empresa cotada em bolsa e foi interessante.

Porque saiu da Lazio?
Quando não te sentes bem a trabalhar para o dono do clube, e não concordas com a estratégia dele, tens que sair. Podes estar numa posição fantástica e ter um grande salário, mas, se não tens os mesmos objetivos e visão, tens de te afastar imediatamente. Preferi sair por não me sentir bem com o Sr. Cragnotti. Faz parte da tua experiência.

O que fez depois?
Fui trabalhar para uma empresa de marketing alemã, em Colónia. Foi muito interessante porque recomecei a carreira. Era CEO e vice-presidente da Lazio, um grande clube em Itália, e fui para outro país, para outra função, ganhar 10% do salário que tinha na Lazio. Comecei do zero, mas foi a minha universidade, pude aprender coisas sobre marketing.

Um passo atrás para dar dois à frente.
Dez passos para trás! Mas faz parte da vida. Não acho que algum gestor veja a sua vida sempre a subir e nunca pense em parar. Se a tua ideia de gestão de uma empresa se baseia na transparência, então tens de sair e descer um degrau. Ainda era jovem porque comecei a minha carreira muito cedo. Tinha 26 anos quando ganhei o primeiro campeonato italiano de vólei, com o Treviso. Com 27 tornei-me CEO da equipa de vólei feminina. Em 2002, quando saí da Lazio, tinha 38 anos.

Tinha saudades de trabalhar em futebol quando voltou a Itália para integrar a federação?
Antes, ainda trabalhei em basquetebol.

Como é que isso aconteceu?
Era uma equipa muito importante. Jogámos a Euroliga e chegámos aos oitavos-de-final. Foi outra experiência, e muito interessante, porque permitiu-me conhecer jogadores da NBA. São jogadores que têm outra mentalidade e forma de encarar as coisas. Estive nos EUA durante dois meses, em visita a vários clubes, para entender como eles trabalham na análise de dados de jogo ou na área do scouting. Acho que a NBA é o exemplo para o resto do mundo. Em Itália, o basquete é uma modalidade pequena, como o vólei, mas tem características diferentes.

É possível pegar em coisas que funcionam num clube na NBA e aplicá-las ao futebol?
Absolutamente. Eles são os melhores do mundo a tratar os números de um jogo. As modalidades são distintas, mas na federação italiana estamos a construir um sistema de análise de estatísticas e uma plataforma de scouting para o futebol de formação, para ser usado pelas seleções e pelos clubes. Começámos há dois anos e vamos usar um modelo semelhante. Será a primeira plataforma de IT do género e estará pronta daqui a nove meses, creio. Vai juntar dados técnicos, médicos, de análise de jogo e de scouting, centralizar toda a informação sobre os jogadores. Temos futebolistas, como o Maldini ou o Buffon, que começaram nos sub-15, e não temos dados sobre toda a sua carreira.

Não acha que no futebol as pessoas, e por pessoas digo treinadores, jogadores, dirigentes e adeptos, ainda desconfiam um pouco do uso de estatísticas?
Acho que sim. No basquetebol é mais difícil recolher e analisar tudo porque há apenas cinco jogadores. O futebol é mais objetivo, o campo é maior, há mais jogadores e existem mais variáveis. É necessário aplicar o modelo ao contexto. Mas pronto, depois cheguei à Federação Italiana de Futebol, mas não para ser CEO. Fui chefe da candidatura ao Europeu de 2016, mas a França ganhou e lá foram vocês desfrutar de França [ri-se]. Depois, fui diretor do Comité Olímpico de Itália, durante dois anos, e voltei para a federação [2014].

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Pela primeira vez em 60 anos, a Itália não vai jogar um Mundial. O que se passou?
É muito simples. Ganhámos o Campeonato do Mundo em 2006, na Alemanha. No desporto, e no futebol em particular, os ciclos duram muito tempo [pega numa caneta e começa a desenhar esquemas numa folha]. Se estamos a investir no futebol feminino, em 2017, tenho de esperar, no mínimo, entre oito e 10 anos, para ter os efeitos desse investimento. Podes ganhar ou perder um jogo, mas o melhor que podes esperar só vai aparecer em 2027. Os ciclos no futebol, no mínimo, são a médio e longo prazo. Em 2006, quando ganhámos o Mundial, tínhamos muito dinheiro na federação, muitos patrocinadores e muitos fundos do Comité Olímpico, mas nada investimos na criação de programas, academias e infraestruturas para o futebol de formação e futebol feminino.

E passados 10 anos, aconteceu isto.
Aliás, as nossas seleções entre os 19 e os 23 anos tiveram boas prestações. Mas, na faixa etária entre os 24 e os 30 anos [desenha uma espécie de gráfico], não temos jogadores. Não como os bons futebolistas que temos entre os 31 e os 38 anos.

Que são os jogadores que conquistaram o Mundial.
Exato. Em 2006, o Buffon tinha 29 anos. O Barzagli tinha 26 anos, o De Rossi tinha 23. Não temos jogadores para preencher o vazio porque, há 12 anos, as pessoas pensaram que éramos os melhores do Mundo e não precisávamos de mudar. Tens que mudar e investir quando ganhas e és o melhor, nunca quando perdes.

Se havia tanto dinheiro na altura, foi usado em quê?
Em nada. Distribuíram o dinheiro pela Série A e pelos clubes, mas sem limitações. Por exemplo, não deram 20 milhões de euros dizendo que só os poderias utilizar se fosse para construir uma academia, ou se jogasses com um certo número de italianos na equipa. Havia muito dinheiro, mas não se fez qualquer investimento. Em 2017 é que começámos a investir como deveria ter sido feito em 2006. Daí não ter jogadores até aos 30 anos. No próximo Mundial, provavelmente, já teremos uma boa seleção.

E agora, como está a ser feito o investimento?
Nos escalões de formação e no futebol feminino, mas temos de esperar uma década. Há três anos, quando cheguei à federação, começámos imediatamente a investir na formação. Por essa razão ficámos em quarto lugar no Europeu de sub-21, em terceiro no Mundial de sub-20 e em segundo no Europeu de sub-19.

Os jogadores que deviam estar a assumir a seleção principal ainda não cresceram, digamos assim.
Sim. Muitos jornalistas disseram que não está nos estatutos da FIFA a obrigatoriedade de a Itália jogar o Mundial. Fiquei triste por não nos qualificarmos, mas essa é a coisa boa do futebol: podes ganhar ou podes perder. Acabámos o jogo com a Suécia com 17 remates à baliza, eles fizeram dois e ganharam com um auto-golo. Mas o mundo não fala disto, porque é mais fácil. Na final do último Europeu, quando o Ronaldo se lesiona, 99% das pessoas pensou que Portugal ia perder.

Admito que sim.
Não há outra modalidade que te dê este tipo de adrenalina. Achas que houve mais de 1% de pessoas que, mesmo assim, acreditou que Portugal ia ganhar? Desculpa, mudei de assunto, mas era só para provar um ponto [ri-se outra vez].

Vamos imaginar que a Itália se tinha qualificado para o Mundial de 2018. Seria o adiamento de um problema?
Sem dúvida. Já estamos a investir, porque a nossa presidência da federação chegou em setembro de 2014. Nesse ano fomos eliminados do Campeonato do Mundo na fase de grupos e houve eleições. Agora, portanto, estamos a meio da ponte. Nos próximos 10 anos, também o futebol feminino será muito maior do que é agora. Estamos no bom caminho, mas, em Itália, perder no futebol é uma tragédia. Com razão, porque isto foi mesmo uma tragédia, mas faz parte do jogo.

Quem vai conquistar um troféu primeiro pela seleção italiana: os homens ou as mulheres?
Os homens. Estamos contentes com o facto de já termos ganhado quatro Mundiais e ido a outras duas finais, mas existem 211 associações de futebol e todas jogam para ganhar. Teremos eleições para um novo presidente no fim de janeiro, pois o anterior [Carlo Tavecchio] demitiu-se após a eliminação com a Suécia. Mas o plano estratégico não vai parar, é totalmente independente dos resultados desportivos. Em Itália temos um bom sistema de governação, porque o lado político está completamente separado da gestão desportiva. Ainda bem, já que, às vezes, um presidente quer ser treinador e o treinador quer ser presidente. O que pode ser um problema, sobretudo em Itália.

Como assim?
Toda a gente pensa que entende de futebol. A minha mãe, que tem 83 anos, é uma treinadora da seleção. Antes do jogo com a Suécia, ligou-me a dizer que deveria jogar este e aquele. E respondi-lhe: “Mãe, vês cinco jogos de futebol por ano, todos da seleção, e achas que és treinadora! Tens 83 anos, para com isso [volta a rir-se]. Temos 62 mil técnicos registados na federação, mas temos 60 milhões de selecionadores nacionais.

Quando perderam no play-off, o que disse aos jogadores na primeira vez que os viu?
Nada. Estava um silêncio total no balneário. O que podes dizer nesse momento? Primeiro, se fores treinador, acho que não deve dizer nada logo a seguir a qualquer jogo. Nunca. Estás cheio de adrenalina e de ideias, tens de esperar 12 horas para pensar no que aconteceu.

Nem quando acabas de ganhar uma Liga dos Campeões?
Hum, o que há para dizer? As pessoas ou estão felizes, ou a chorar. Podes dizer elogios, sim, mas nunca falar de coisas táticas. Mantém-te calado no melhor ou no pior dos cenários. Acho que todos têm o seu papel numa organização. Ninguém fala comigo acerca do meu trabalho. Sabes fazer o que faço melhor do que? Não. Portanto, o mesmo acontece com o treinador, o médico ou o fisioterapeuta. Eles são os melhores a fazer o que fazem e podes falar com eles sobre isso, mas nunca discutir o que devem, ou não, fazer.

Pretende, um dia, ser presidente da Federação Italiana de Futebol?
Nunca. Há dois tipos de cargo: políticos e de gestão. Eu sou um gestor e, por isso, nunca poderia ter presidente.

E da UEFA?
Aí é diferente, porque já está mais ligado ao futebol. Mesmo assim, não faz parte das minhas ideias. Estou muito feliz na UEFA, tenho conhecido muita gente que me ensina coisas, o ambiente é muito bom e, pessoalmente, adoro as pessoas com quem trabalho. Gosto do presidente [Aleksander Čeferin] e gosto do Fernando Gomes [também é um dos vice-presidentes da entidade]. O presidente é fantástico, o melhor que podíamos ter, porque é de um país pequeno [Eslovénia] e isso tem aproximado a UEFA dos países mais pequenos.

É a magia do futebol: uma nação com 60 milhões de habitantes pode perder contra um país com 3 milhões de pessoas. Depois de todos os escândalos, o Čeferin foi a pessoa certa, no momento certo, para a UEFA. É um tipo tranquilo, muito direito e bastante inteligente. A UEFA é a melhor organização do mundo, toma conta de competições de clubes e de seleções, todos os anos. A FIFA apenas organiza uma competição a cada quatro anos.