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“A SAD até pode ter equipa A, B e C – o Clube de Futebol Os Belenenses vai criar uma equipa sénior e também vai jogar no Restelo”

Este sábado, na Assembleia Geral do Belenenses, tudo vai mudar na relação (ou melhor, na guerra...) entre clube e SAD do Restelo. Patrick Morais de Carvalho, presidente do clube, diz à Tribuna Expresso que, a partir de 30 de junho, irá deixar de existir o protocolo atual com a SAD. Ou seja, para não ficar sem jogar no Estádio do Restelo e sem poder usar o emblema, a SAD agora terá de pagar ao clube. E, na próxima época, o clube irá criar uma equipa sénior, que também jogará no Restelo

Mariana Cabral e Nuno Botelho

Patrick Morais de Carvalho é presidente do Belenenses desde 2014

Nuno Botelho

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Patrick Morais de Carvalho é presidente do Belenenses - clube - desde 2014, pelo que, quando chegou ao Restelo, já mandava na Sociedade Anónima Desportiva (SAD) a Codecity, empresa com que Rui Pedro Soares comprou 51% das ações da SAD, em 2012.

Desde então - e já antes, na presidência de António Soares - SAD e clube raramente se entenderam e, em novembro de 2017, o Tribunal Arbitral do Desporto considerou válida a denúncia do acordo parassocial entre ambos, o que extinguiu a possibilidade previamente acordada de o clube poder readquirir os tais 51%, retomando o controlo do futebol profissional.

Agora, o clube é apenas um acionista com 10% das ações da SAD, pelo que a relação entre ambos está diferente - e vai ficar ainda mais diferente: o clube vai denunciar o protocolo de direitos e deveres que tem atualmente com a SAD, a partir de 30 de junho, o que obrigará ambos a ter de chegar a um novo acordo para que a equipa profissional continue a usar o símbolo do Belenenses e continue a jogar no Restelo em 2018/19. Patrick Morais de Carvalho explica porquê, em entrevista à Tribuna Expresso, antes da Assembleia Geral, marcada para sábado, em que os sócios do clube deverão aprovar a ideia da direção.

Antes de irmos à Assembleia Geral (AG), deixa-me perguntar-te sobre o futebol: gostaste da entrada do Silas?
Em primeiro lugar, tenho de dizer que tenho muito respeito pelo Silas. Gostei muito dele, enquanto jogador, foi um dos jogadores pelos quais tinha admiração, aqui no Belenenses. Acho que ele entrou bem e entrou com um discurso que só pode ser tido por alguém que conhece a mística do clube. O Silas teve a felicidade de passar aqui no Belenenses quando a SAD era gerida pelo clube e portanto os dirigentes do clube e os sócios do clube incutiram-lhe a mística e ele agora penso que tem a capacidade de transmiti-la ao grupo de trabalho. Não se pode avaliar um treinador por um trabalho em dois jogos, como é evidente, porque é uma maratona, não é uma corrida de 100 metros, mas ele entrou bem e entrou com um discurso galvanizador que teve tradução dentro do campo, porque há treinadores que têm um excelente discurso mas depois dentro do campo a coisa não se traduz. Ele tem coerência entre o discurso e aquilo que se passa dentro do campo. Agora, é preciso ganhar também, porque já vimos de 14 jogos sem ganhar.

Tu que foste jogador, gostas da forma como a equipa está a jogar ou isso não te faz diferença?
Gosto muito de futebol positivo, mas prefiro ganhar. Ganhar é importante, porque a equipa não ganha há 14 jogos e isso é um peso. Mas penso que quando se joga melhor, com mais qualidade e com um futebol positivo, acredito que estamos mais perto de ganhar. O Silas tem feito um bom trabalho e tem tido um discurso correto, embora tenha ouvido uma afirmação... Ele disse que gosta de dar oportunidade aos jovens e que não pode ter juniores do clube. Mas o Clube Futebol Os Belenenses nunca recusou a ida de nenhum júnior a treinos da equipa de futebol profissional. Nunca. Nem vai recusar.

Então se o Silas quiser ter juniores do clube, pode ter?
É evidente. Ele que fale com quem lhe passou essa mensagem, porque essa mensagem não está correta. Ele que pergunte na SAD quando foi a última vez que pediram um júnior ao clube e se o clube autorizou ou não autorizou. Não há nenhum problema com os juniores. Quando ele precisar de juniores, pode telefonar-me e tem os juniores que precisar para treinar.

Silas, ex-jogador do Belenenses e atual treinador

Silas, ex-jogador do Belenenses e atual treinador

FRANCISCO LEONG

Tem algo a ver com pagamentos? Têm de pagar algo ao clube?
Não, não tem nada a ver com isso. Os juniores estão disponíveis para treinar quando for necessário. Tomara nós que tivessem esse palco.

Como está a formação do Belenenses?
A formação está bem e estamos aqui a fazer um trabalho de excelência. Somos entidade certificada pela Federação Portuguesa de Futebol, fomos pioneiros, porque fomos dos 11 primeiros a conseguir essa atribuição, o que não é fácil, tivemos de obedecer a uma série de critérios. Temos uma base de recrutamento enorme, fomos vice-campeões de juniores na época passada e este ano acredito que vamos à fase final de apuramento do campeão em iniciados A e juvenis A. Nos juniores, este ano, estamos a pagar a fatura deste divórcio entre o clube e a SAD e o facto de não termos o controlo do futebol profissional. Tivemos muita dificuldade no recrutamento, ainda no outro dia pedi uma listagem ao nosso diretor do futebol de formação, para perceber porque é que perto de 40 atletas que abordámos no início da época para os juniores só conseguimos trazer um ou outro.

Porque não vêem ligação com a equipa sénior?
Uma das razões principais é essa: não temos seniores no clube e eles não percebem a linha de continuidade no Belenenses, portanto preferem ir para o Real, para o Sacavenense, para o União de Leiria, para o Vitória de Setúbal, para a Académica... Perdemos atletas para todos os clubes, porque lá há perspetiva de chegar aos seniores, muitas vezes até assinam logo contrato profissional, e aqui não temos essa possibilidade.

Como é que os adeptos do Belenenses vêem de um lado a formação do clube, do outro lado os seniores da SAD - e não há ligação entre os dois?
É um ambiente um bocado esquizofrénico. O Belenenses tem quase 100 anos de existência e em 1999 o clube foi obrigado a personalizar a sua equipa de futebol numa sociedade anónima desportiva (SAD). Na altura, o capital foi cumprido em espécie, digamos assim, porque a única coisa que foi transferida para essa SAD foram os direitos económicos dos jogadores, nada mais. Tudo o resto ficou no clube: o futebol de formação, as instalações, o estádio, as concessões, os arrendamentos, as modalidades amadores... A única coisa que foi transferida para essa sociedade foram os diretos económicos dos jogadores. E o clube sempre teve a maioria nessa SAD, portanto SAD e clube confundiam-se. Existia uma democracia no Belenenses, como existe em todos os clubes portugueses. Quando os sócios não estavam satisfeitos com os dirigentes e com os administradores da SAD, provocavam eleições e as coisas mudavam. Hoje, isso não é possível - desde 2012 que não é possível [ano em que a empresa Codecity, liderada por Rui Pedro Soares, comprou 51% das ações da SAD] . Nós temos democracia no clube, em qualquer altura os dirigentes do clube, apesar de legitimados pelos sócios, podem sair, se for essa a vontade dos sócios, e na administração da SAD isso não acontece. Hoje, aquilo que se percebe é que a esmagadora maioria dos sócios, diria muito perto da unanimidade, estão profundamente descontentes com a gestão desportiva, com a gestão financeira, com a gestão emocional, com a gestão social desta administração da SAD. O que posso dizer é que se houvesse hoje eleições para a administração da SAD e os atuais administradores da SAD concorressem, não acredito que tivessem sequer 1% dos votos. Isto diz tudo. Os sócios estão profundamente descontentes. O ambiente é esquizofrénico, porque os sócios não conseguem dissociar o facto daquilo ser a nossa equipa, com o nosso emblema, com o nosso símbolo. Como é que se resolve isto? É a questão para um milhão de dólares.

Rui Pedro Soares disse que a direção do clube é que não o deixa ser sócio, porque tem medo que ele se candidate à presidência do clube e ganhe as eleições.
Só posso encarar isso como autismo, porque o diretor executivo da SAD está aqui todos os dias e percebe o ambiente que tem aqui e percebe que é hostilizado pelos sócios, basta ir à redes sociais para perceber isso. O problema não é esse.

Vamos então ao princípio, para resumir toda a questão.
Em 2012, o que aconteceu, basicamente, foi que o Clube de Futebol Os Belenenses vendeu 51% da sua SAD a uma empresa chamada Codecity e na altura foram assinados três documentos, que, no fundo, plasmaram aquele que foi o acordo entre os sócios do Belenenses e essa empresa, a Codecity. Um foi um contrato de compra e venda de ações; outro, um acordo parassocial entre o clube e esse acionista, a Codecity, que regula as relações entre os acionistas. O que é que está escrito nesse acordo parassocial? Desde logo transfere uma série de exposições que estão na lei das SADs e que conferem direitos especiais ao clube fundador - direitos de veto, impedir que os equipamentos possam mudar, etc, etc. Nesse acordo parassocial estavam duas disposições que foram condições essenciais do negócio feito em 2012, e por isso os sócios permitiram que em 2012 se vendesse 51%, que eram duas janelas de oportunidade de recompra, mandatórias, com preços fixados e com datas fixadas. Portanto, tínhamos esses dois contratos e tínhamos um terceiro, que é um protocolo que regula as relações entre o clube e a SAD. Relativamente ao acordo parassocial, que era o anexo número dois do contrato de compra e venda das ações, logo na primeira oportunidade a Codecity resolveu unilateralmente esse acordo, isto ainda durante a gestão do engenheiro António Soares [presidente do Belenenses entre 2011 e 2014], tendo alegado na altura uma série de factos e violações, nomeadamente uma dívida do clube à SAD, que foi reclamada pela SAD no PER [Plano Especial de Revitalização] e que o administrador da insolvência reduziu a zero, entendendo que era um crédito subordinado, portanto a SAD entendeu que tinha aí prejuízo. E depois coisas absolutamente laterais, do género, um comunicado do engenheiro António Soares em que proibia, num célebre jogo contra o Benfica, que os adeptos do Benfica entrassem aqui na bancada dos sócios com adereços do Benfica; num Beira-Mar-Belenenses, para a Taça da Liga, a mesma coisa... Portanto, a Codecity veio dizer que isso punha em causa o fair play e a verdade desportiva e prejudicava o negócio. Foram os factos alegados para essa resolução unilateral do acordo parassocial. Realmente, com essa revogação do acordo, o que eles pretendiam era excluir o clube do controlo da SAD e afastar a hipótese de recompra. Isto dito em português e em poucas palavras: era isto que pretendiam com essa manobra.

Mas o Tribunal Arbitral do Desporto validou essa resolução unilateral do acordo por parte da Codecity. Ficaste surpreendido com essa decisão?
Fiquei, fiquei muito surpreendido. Acho que é uma decisão imoral, uma decisão inacreditável, mas temos de viver com isso, porque é o Tribunal Arbitral. Hoje até ouvimos falar em tribunais de outra dimensão, da Relação e do Supremo, em que parece que acontecem as coisas que acontecem, imagine-se um Tribunal Arbitral. Tudo é possível, mas temos de nos conformar com essa decisão. E conformarmo-nos com essa decisão é deixarmos de dizer que queremos recomprar os 51%, porque essa decisão do Tribunal Arbitral, aquilo que diz, de uma forma muito simples, é que o acordo parassocial ficou extinto, portanto o clausulado que estava aí morreu juntamente com o contrato. Portanto, não vale a pena o Clube de Futebol Os Belenenses dizer que quer continuar a recomprar os 51%, quando já houve um Tribunal a dizer que essa recompra não existe. O Rui Pedro Soares, quando fez a tentativa de se fazer sócio do Belenenses, o clube e a sua direção, que têm essa prerrogativa estatutariamente, não o admitiram como sócio em virtude de ser uma persona non grata por ter falhado à palavra com os sócios do Belenenses. Em 2012, a empresa Codecity assumiu o compromisso de que revenderiam naquelas datas por aqueles valores, mas na primeira oportunidade anularam esse contrato, faltando ao compromisso que tinham com os sócios. Portanto, quem falha com os sócios do Belenenses numa questão desta gravidade e desta amplitude, não pode ser aceite na nossa família como sócio. Não existe nenhum medo relativamente a uma candidatura, pelo razão que já disse. Ponho as coisas ao contrário: devia haver eleições era na administração da SAD. A administração da SAD é que devia tirar consequências, porque em março de 2016 fizemos aqui uma Assembleia Geral (AG), perguntando aos sócios se queriam a Codecity no Belenenses ou na rua, e 99,9% dos sócios, na maior AG da última década no Belenenses, votaram a favor da saída da Codecity do Belenenses. Portanto, aí, a administração da SAD deveria ter retirado consequências e deveria sair pelo seu pé. Era essa a expectativa que tinha.

Por que razão não sai?
Não sei.

Se o clube, por absurdo, oferecesse €10 milhões para a Codecity sair...
O problema é que temos de analisar também a questão financeira. A gestão desportiva da Codecity na administração da SAD tem sido errática, com resultados médios/baixos, com aquela exceção de termos ido à Liga Europa, mas também já escapámos de descer de divisão na última jornada. A política de contratações não se percebe, já entraram aqui 50 ou 60 jogadores de quem ninguém ouviu falar e que saem da mesma forma que entraram, em silêncio e sem se saber quem são, portanto não se percebe. Não foi adquirido um único jogador, desde 2012 até hoje. O que as pessoas têm de perceber é que nós não estamos aqui perante nenhum investidor, não há aqui nenhum Abramovich [investidor russo do Chelsea]. Estas pessoas da Codecity, até hoje, investiram na Belenenses SAD €500, que foi o valor pelo qual compraram as ações. Tudo o resto que dizem que injetaram aqui na sociedade está na contabilidade como suprimentos, prestações suplementares e empréstimos, com taxas de juro e com garantias das receitas da televisão e garantias dos direitos económicos de jogadores, portanto são financiadores, emprestam dinheiro à sociedade, não conhecendo nós os fluxos financeiros. Eles hoje dizem que a sociedade lhes deve €2,3 milhões - nós não conhecemos os fluxos financeiros. Mas, se assim é, não são investidores, emprestam dinheiro à sociedade, que é uma coisa completamente diferente. Portanto, a primeira coisa que os sócios têm de saber, e sabem, e também estão melindrados por causa disso, é que se falava num investidor, mas não há nenhum investidor no Restelo, pelo contrário, hoje existe aqui a Codecity e todos os membros da Codecity fazem a vida deles na Belenenses SAD e vivem da Belenenses SAD, são remunerados na Belenenses SAD, portanto provavelmente querem continuar a viver da Belenenses SAD. A questão financeira, quando se fala de investidor... Quando chegaram cá, tínhamos um passivo na casa dos €9 milhões e eles afirmaram publicamente que em sete anos limpariam o passivo. Era esse o projeto. Se verificarmos os últimos sete anos, houve receitas extraordinárias de cerca de €15 milhões, com a Liga Europa, com a venda do Ié, com a venda do Sturgeon, com a venda do Fredy, com as receitas de bilheteira... E depois tivemos mais €15 milhões das receitas da televisão, se fizermos as contas a €3 milhões/ano. Portanto temos aqui €30 milhões de receitas. No último exercício apresentado, que foi referente à época 2015/16, o passivo ia em €9,9 milhões, portanto era superior àquele da altura em que cá chegaram. E a sociedade, hoje, é gerida através de um PER, portanto o investidor chegou aqui e apresentou-se à falência, foi o primeiro ato de gestão que praticou quando cá chegou. É disso que estamos a falar: não há nenhum investidor. A gestão desportiva é má e a gestão financeira é pior - e, mais do que ser pior, é obscura.

Patrick Morais de Carvalho, presidente do Belenenses, no Restelo

Patrick Morais de Carvalho, presidente do Belenenses, no Restelo

Nuno Botelho

Recentemente, o diretor de comunicação do FC Porto, Francisco J. Marques, insinuou a existência de alegados empréstimos do Benfica à SAD do Belenenses. O clube tem conhecimento disso?
Não temos conhecimento dos negócios com o Benfica, exceção feita a um contrato que apareceu aí a circular, do Fredy, que terá sido vendido ao Libolo por €200 mil e €100 mil foram pagos diretamente à SAD do Benfica. Nós ouvimos o FJ Marques e ficámos com essa informação. Do Dálcio, a única coisa que o clube pretendia na altura era receber 15% do valor da transferência, em virtude do Dálcio ser um atleta formado no clube e isso estar estipulado nos contratos, mas o clube nunca recebeu. É verdade que os adeptos do Belenenses são muito sensíveis a esta relação com o Benfica e é uma coisa da qual nenhum sócio do Belenenses gosta, porque somos chamados de coisas absolutamente horríveis na praça pública, nos jornais, nas redes sociais, na rua... Já vem desde o Deyverson e do Rosa, dessas histórias todas. Se calhar há necessidade de aprofundar isso, mas não sou eu que vou aprofundar isso. O que nós defendemos é a verdade desportiva e a integridade das competições.

Serão os sócios a decidir o que será feito agora, na AG?
O que vai ser feito agora é o seguinte: há pouco dizia-te que havia um terceiro documento, que é um protocolo que regula as relações entre o clube e a SAD. E esse protocolo dispõe uma série de coisas. Desde logo permite à SAD jogar no Estádio do Restelo, porque a Belenenses SAD usa o relvado em exclusivo durante a época desportiva e depois o clube só pode usá-lo nos dois meses do defeso, sendo certo que, por essa utilização, protocolarmente, deveria pagar os consumos de água, de luz, de iluminação, de gás, etc. Esse protocolo permite também que a Belenenses SAD use a marca, o emblema, o símbolo e impede também que o clube tenha uma equipa sénior, etc, etc. Bom, esse protocolo tem de ser mudado, porque, tendo mudado as circunstâncias com essa decisão do Tribunal Arbitral, o protocolo já não pode ser o mesmo - qualquer pessoa de bom senso percebe isso. Uma coisa é o clube ter 10% de uma sociedade e a possibilidade de recomprar 51%, e aí, em termos de protocolo de cooperação, o clube dá determinadas condições a essa sociedade. Uma coisa diferente é dizerem-nos que o clube só tem 10%. As condições que damos não podem ser as mesmas.

Neste momento o clube tem a importância que tem o Joaquim Oliveira, então.
É um sócio como outro qualquer. Não, não é como o Oliveira, porque ele tem 32% das ações, tem mais. Portanto as relações entre o clube e a Codecity agora nem sequer estão reguladas, porque esse acordo parassocial foi ao ar. Portanto, qualquer pessoa percebe que as condições do protocolo entre clube e SAD têm de ser alteradas, porque são coisas diferentes. Vamos ver: uma coisa é eu arrendar-te um apartamento por €1000 por mês durante cinco anos e colocarmos lá uma cláusula que diz que tu me compras o apartamento por €200 mil, daqui a dois anos, se quiseres. O que é que tu vais fazer, Mariana? Vais meter casas de banho novas, vais meter cozinhas novas, vais encerar o chão, vais meter janelas... Porque daqui a dois anos o apartamento é teu, vais comprá-lo. Agora, se tiveres um contrato só de arrendamento, puro e duro, a pagar €1000 por mês, então assim que cair uma gota de água na sala vais-me telefonar para eu arranjar um canalizador e ir lá resolver, porque a casa não é tua, queres-te ir embora. Aqui temos uma situação muito parecida com essa. Portanto, aqui, o que nós vamos fazer, aquilo que vamos propor aos sócios - não precisávamos de fazê-lo - é procurar alterar a relação de forças entre o clube e a SAD e a Codecity. Ou seja, nós, até agora, até do ponto de vista jurídico, temos estado sempre a correr atrás do prejuízo. É como se o clube estivesse andado metido num colete de forças. Herdámos aqui os contratos celebrados em 2012, que não fomos nós que negociámos, não fomos nós que assinámos, mas ficámos reféns desses contratos. Tivemos de seguir até agora um caminho e uma estratégia que não era a nossa, desta direção. Agora, libertos desse colete de forças, finalmente podemos implementar a nossa estratégia, e a estratégia passa por equilibrar a relação ou colocar o clube numa posição de superioridade nas negociações. Portanto, aquilo que vamos propor aos sócios - que não era necessário ser proposto, mas vamos fazê-lo, porque achamos que é importante os sócios dizerem claramente o que querem, para que se perceba que não é o presidente ou a direção que estão sozinhos a fazer este caminho - é denunciar esse protocolo com a SAD, com data de 30 de junho de 2018. É isso que vamos fazer, abrindo imediatamente negociações para modificarmos aquilo que entendemos que não está bem. Ou seja, como se trata de um contrato sem prazo, que opera de forma duradoura e continuada, este tipo de contratos podem ser resolvidos, rescindidos ou denunciados. O clube não vai fazer nenhuma resolução, porque nós não estamos interessados em discutir se há ou não há justa causa, se o contrato é bom ou mau. Não. O contrato não nos interessa e portanto vamos denunciá-lo, porque é um direito potestativo do clube. Temos duas responsabilidades para não termos problemas: a primeira é estarmos abertos a uma negociação para modificar as cláusulas do protocolo. E nós vamos dizer à SAD, na segunda-feira, o que pretendemos alterar no protocolo, que já te vou dizer a seguir o que é. A segunda coisa a que estamos obrigados é dar um aviso prévio suficiente, porque não queremos causar nenhum dano imprevisto nem nenhum transtorno à SAD. Cumprem o seu orçamento até junho e também não queremos causar problemas à Liga, porque a Liga vai ficar com um problema. Queremos que a integridade da competição e a verdade desportiva prevaleça, não queremos dar uma vantagem competitiva aos clubes que na 2ª volta vêm jogar contra o Belenenses, porque não queremos que vão jogar noutro sítio qualquer. Portanto, até 30 de junho, garanto aos sócios do Belenenses que a equipa vai jogar aqui. Depois de 30 de junho, depende da SAD, já não depende de nós. Se chegarem à acordo com o clube, conforme espero, continuaremos. Se não chegarem, têm de assumir as responsabilidades. A SAD e a Liga.

Rui Pedro Soares disse, em novembro, que está disposto a chegar a acordo com o clube, mas que é necessário construir uma relação de confiança primeiro.
A Codecity foi ao Tribunal Arbitral dizer que a relação de confiança estava completamente destruída e o Tribunal validou essa opinião da Codecity. Mas nós não precisamos de ser amigos para fazer negócios. Uma coisa são os negócios, outra coisa são os amigos. Eu não quero ser amigo de nenhum elemento da Codecity, mas estou disponível para fazer negócios com eles. E negociamos tudo, exceto a honra do Belenenses, isso não negociamos. Faço negócios com muitas pessoas de quem não sou amigo e tenho amigos com quem não faço negócios. A vida é assim. Essa questão é redutora. O que entendo é que as condições que o clube vai oferecer à SAD, em sede do novo protocolo, são as melhores condições que existem no mercado. Portanto, se a SAD não quiser chegar a acordo com o clube, a responsabilidade é dela, vai ter de assumir isso. Nós queremos que joguem aqui, mas se a partir de 30 de junho não jogarem, é porque não querem. É tão simples quanto isso.

Para que haja acordo, a SAD agora tem de pagar antecipadamente pela utilização do Restelo?
Vamos propor uma série de coisas. A primeira coisa que o Clube Futebol Os Belenenses vai fazer é inscrever uma equipa de futebol sénior.

Vai mesmo?
Vai.

Porquê?
Por várias razões. Em primeiro lugar, porque precisamos de garantir uma saída profissional aos nossos juniores. Precisamos de assegurar a transição para o futebol sénior. No ano passado fomos vice campeões nacionais de juniores, o que é um feito extraordinário, a lutar contra os maiores clubes portugueses, que têm orçamentos megalómanos e academias que não têm comparação com aquilo que temos no Belenenses, e depois 60% dos nossos miúdos deixaram de jogar futebol.

Mas havendo um acordo entre clube e SAD, o clube vai criar uma equipa sénior na mesma?
Haja acordo com a SAD ou não, o Clube de Futebol Os Belenenses vai ter uma equipa sénior na próxima época.

Mas por que razão é que esses juniores não transitam para a equipa profissional da SAD?
Bom, tu sabes bem, que também estás ligada ao futebol, que é impossível transitarem a maioria dos juniores para a Belenenses SAD. Talvez um ou dois...

Mas a SAD disse que iria criar na próxima época uma equipa B.
Sim, mas a mesma pessoa que disse isso, também disse que ia inaugurar a maior academia de futebol em Portugal, em 2017; em 2014, disse que ia chegar o melhor e maior autocarro de equipas da Liga; disse que ia fazer a melhor equipa dos últimos 40 anos... Portanto, isso vale o que vale. O que sei é que o Clube de Futebol Os Belenenses precisa de ter uma equipa sénior. A SAD até podia ter equipa A, equipa B, equipa C e equipa D - o Clube de Futebol os Belenenses vai ter uma equipa de futebol sénior, vai constituir novos direitos desportivos e é lá que preferencialmente os nossos juniores vão transitar para o futebol sénior. Portanto, não só garantimos isso aos nossos juniores, como, por outro lado, temos uma equipa que tenha a mística e a identidade do clube, e nós podemos usufruir dos direitos de formação dos jogadores até aos 24 anos, em vez de ser até aos 18 anos, o que é uma fonte de receita muito assinalável para o clube desde que estoamos cá. Recebemos todos os anos direitos de formação de variadíssimos atletas, que vão para Itália, que vão para Inglaterra... O Belenenses é um viveiro e os atletas têm saído daqui para todo o lado. Infelizmente também saem para o Benfica, para o Sporting e para o Porto, mas aquilo que temos recebido em direitos de formação chega para pagarmos o nosso orçamento do futebol juvenil todos os anos, que é um orçamento grande.

Mas não vês um problema em existirem duas equipas do Belenenses?
Não. Então e se estivesse Belenenses na 1ª Liga e houvesse o Belenenses B? É a mesma coisa. Esta equipa, amanhã, pode ser o Belenenses B. No dia em que nós tivermos uma participação adequada numa equipa de futebol sénior, esta equipa pode transformar-se na nossa equipa B. Ou não. Não há nenhum drama. Aquilo que vai ser alterado no protocolo é que o Clube de Futebol os Belenenses vai ter uma equipa sénior e essa equipa sénior também joga no Estádio do Restelo, também joga no relvado principal. A SAD também pode jogar no estádio principal, mas vamos abandonar o regime da conta corrente, que é um regime que só tem dado problemas e que é materialmente impossível fazer-se contas e os créditos lançados não são aceites, para passarmos a ter um regime de pré-pagamento. Portanto, a SAD, para jogar no Estádio do Restelo, vai ter de pagar pela sua utilização. A água, a luz, a iluminação e a manutenção da relva passa a estar a cargo do clube. Para não haver dúvidas, o clube faz tudo e cobra um valor pela utilização do Estádio do Restelo. É assim que vai ser proposto no novo protocolo. E vamos garantir o melhor preço de mercado à SAD. É impossível a Belenenses SAD encontrar mais barato noutro sítio qualquer.

Queres chegar a acordo com a SAD?
Sim, claro. Estamos de boa fé, queremos chegar a acordo. Aliás, nós estamos sempre de boa fé. Estavas a dizer há pouco que o Rui Pedro Soares disse publicamente que estava disponível para negociar e chegar a acordo. Foi em novembro, após a decisão do Tribunal Arbitral. No dia 19 de novembro, o clube, depois de ouvir essas declarações, escreveu uma carta à Codecity e outra à SAD a dizer assim: ficámos muito agradados com as declarações públicas do diretor executivo da SAD e nessa senda enviem-nos, por favor, a minuta que pretendem alterar do acordo parassocial, para começarmos então uma negociação. A carta que enviámos à Codecity não foi levantada nos Correios, mas têm conhecimento, porque previamente enviámos também por email. Portanto, isso é falta de compromisso total no sentido de tentar negociar. É perdoar publicamente aquilo que depois em privado não se faz. Já estávamos a contar com isso. A SAD respondeu, relativamente ao protocolo, e disse-nos "agora temos dois jogos muito complicados, mas iremos fazer uma profunda reflexão e daremos conta da mesma até 15 de dezembro". E não falharam: a 15 de dezembro, às 23h50, enviaram um email com duas linhas a dar-nos conta da profunda reflexão que estiveram a fazer e que dizia "depois para o ano, em março, falamos". Portanto, é isto que temos. São os expedientes que temos tido. Acredito que, a partir de agora, alterando-se aqui a relação de forças e o clube estando numa posição pelo menos de equilíbrio... Porque até agora, vendo bem, a SAD e a Codecity não precisavam de negociar com o clube. Então, tinham aqui tudo de mão beijada: marca, emblema, estádio, etc, etc, sem pagar um tostão ao clube e o clube a financiar a operação da SAD, portanto por que razão é que haveria interesse em reunir? Agora, sem protocolo, tendo sido dada participação à Liga e à Federação Portuguesa de Futebol de que não há protocolo a partir de 30 de junho, se calhar as pessoas aí vão querer falar com o Clube de Futebol Os Belenenses.

Então, supondo que a SAD não chega a acordo com o clube, a equipa da SAD já não será o Belenenses, será outra equipa qualquer.
Isso depois terá de ser a Liga a decidir. Depois tem de se analisar os pressupostos de inscrição na Liga, na próxima época, mas isso já é para o lado que o Clube de Futebol Os Belenenses dorme melhor. Isso depois não é um problema do Clube de Futebol Os Belenenses, é um problema da SAD e da Liga e das instituições desportivas em Portugal. Recomendo, se calhar, que leiam bem a Lei das SADs, que percebam de quem é a equipa de futebol, porque está lá escrito na Lei das SADs.

Supostamente, do clube?
A equipa é do clube. Está lá escrito. Qualquer pessoa com a quarta classe que leia a Lei das SADs percebe de quem é a equipa. Portanto, se a 30 de junho não houver um novo protocolo, o problema é da SAD e da Liga, não é nosso. Agora, nós estamos de boa fé e queremos que haja um protocolo, evidentemente. Tudo faremos para que haja um protocolo.

Mas é possível que, não havendo acordo, essa equipa da SAD desapareça?
Isso nem me passa pela cabeça. Se essa equipa desaparecesse, no dia seguinte o clube estaria aqui de braços abertos para receber a equipa. Mas, como digo, isso nem me passa pela cabeça. Acho que a Liga e a SAD vão encontrar uma solução melhor do que essa.

A Liga tem falado com o clube?
Com certeza. Tenho falado com o Pedro Proença e a Liga está preocupada, tal como nós também estamos preocupados, se calhar até mais do que a Liga.

Pode servir de mediador entre clube e SAD?
Pois, não sei. O que sei é que nós estamos de boa fé e aceitamos todas as mediações, desde que não sejam expedientes dilatórios, porque, como estamos fartos de expedientes dilatórios, agora já sabem que o prazo é 30 de junho. Portanto, agora, até 30 de junho, podem dar corda aos sapatos. É tão simples quanto isso. A SAD pode dar corda aos sapatos, a Liga pode dar corda aos sapatos. Nós estamos aqui de boa fé para falar com toda a gente que queira falar connosco. Segunda-feira, depois da decisão da AG, vamos escrever uma carta de denúncia e enviá-la, explicando o que queremos alterar.

E a partir daí terá de ser a SAD a agir?
A bola fica do lado de lá. A SAD faz o que quiser. Até pode deitar a carta ao lixo, se quiser.

Não te preocupa poderes ficar na história como o presidente que acabou com uma equipa do Belenenses?
Não, porque isso não vai acontecer. Temos a certeza absoluta que isso não vai acontecer, isso é impossível. Esse cenário é impossível. O Belenenses vai continuar sempre e o Belenenses vai continuar sempre a ter futebol profissional.

Mas não a equipa atual.
Esta equipa, sim. Esse cenário de desaparecimento não se coloca. Acho que estamos todos a lidar com pessoas inteligentes, temos todos os mesmos objetivos, há muita coisa a perder.

Então continua, mas sem a Codecity. É assim?
O Clube de Futebol os Belenenses não pode é ficar com medo, a um canto e de braços cruzados, porque não foi assim que se fizeram quase 100 anos de história. Se fosse para ficarmos aí encostadinhos a um canto, com os braços cruzados, a assistir a alguém a gerir a uma equipa de futebol que é do clube, e o clube a ficar impávido e sereno, sendo desonrado todas as semanas e os sócios a serem desrespeitados, se calhar isso era o mais fácil, mas não foi para isso que me elegeram como presidente. Sou o fiel depositário de todos os antepassados do clube, de todos os antigos dirigentes, de todos os grandes treinadores e jogadores, já fomos campeões nacionais, já fomos a base da seleção nacional, conquistámos Taças de Portugal, e eu e a minha direção somos os fiéis depositários disso tudo. Não dormiria descansado se nada fizesse. Portanto, nunca me vou arrepender das ações que vamos praticar. Podia era arrepender-me se ficasse de braços cruzados.