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Célio Dias: “Tudo me assusta no judo. É uma relação esquizofrénica”

Célio Dias tem 25 anos e é um dos talentos do judo português, com presenças em Mundiais e nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Recentemente, a sua vida ficou virada do avesso por questões para as quais estamos todos a acordar: os problemas mentais. Nesta entrevista, Célio conta o que se passou dentro da sua cabeça, que o levou a tentar “dois suicídios”

Sara Correia (texto), José Caria (foto)

josé caria

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O que é que te aconteceu?
Depois dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro tive um surto psicótico em que, basicamente, perdi o contacto com a realidade e comecei a produzir pensamentos irreais. Foi uma fase complicada, porque estive internado na ala psiquiátrica do Hospital Garcia de Orta durante quatro dias. Depois, esse surto psicótico evoluiu para um estado depressivo e tive pensamentos suicidas. Tentei suicidar-me duas vezes. E na sequência desses pensamentos suicidas fui internado na Clínica de Carnaxide, para fazer a recuperação da depressão.

Como chegaste aqui?
Eu já tenho um diagnóstico feito: uma síndrome de esquizofrenia compulsiva, e consta que pode ser por causas genéticas. Só que não sei se isto é genético, pois sou adotado. Fui entregue para adoção quando tinha um mês de vida, e desde então estou com a minha família adotiva. Nunca tive contacto com os meus pais biológicos. Mas isto também pode ser provocado por causas ambientais, por stresse social, por ter atravessado uma quantidade de adversidades na minha vida. Essa pode ser a causa deste surto psicótico.

Quais são os sintomas e quando é que os começaste a ter?
Os sintomas são estes: pensamento muito acelerado, ter pouco sono, dormir poucas horas e conseguir estar extremamente energético... Estes são os sintomas... Se aparecerem, no futuro, já os conheço. Portanto, também consigo controlar melhor o quadro de diagnóstico. Voltando atrás... Na verdade, eu tive dois surtos psicóticos, um a seguir aos Jogos Olímpicos e outro após o Campeonato do Mundo. Estive perdido na rua, a falar sozinho, e tive pensamentos que romperam com a realidade.

Quem te ajudou?
No segundo surto, o mais grave, fui encontrado pela polícia junto a uma autoestrada, completamente perdido e a delirar. Depois fui levado para o Hospital do Porto, onde tive contacto com uma psiquiatra que me encaminhou para o Hospital Garcia de Orta. Assim, acho que as primeiras pessoas que me ajudaram foram, sem dúvida, as equipas médicas que tiveram contacto comigo. Numa segunda fase, as pessoas que mais me ajudaram foram... os meus familiares. Foram eles os meus grandes apoios.

Como foram os teus dias no Garcia de Orta?
Quando acordávamos, eu reparava que, naquele contexto, tinha de existir um grande controlo dos doentes para que tivessem o máximo de funcionalidade. Portanto, eu acordava bastante cedo, tomava banho, comia o pequeno-almoço e depois fazia um conjunto de atividades para despertar e manter-me consciente. Terapia ocupacional e psicomotora...

Escreveste muitas coisas nas redes sociais, como críticas a Telma Monteiro...
Estava doente, precisava de ajuda, e aquelas publicações explosivas foram uma maneira de pedir ajuda. E foi a ajuda que veio ao meu encontro.

Assumiste a tua homossexualidade, entretanto...
Como Nelson Mandela disse, o desporto tem a capacidade de romper com qualquer tipo de preconceitos. Quando me assumi era bastante novo, tinha 18 anos, e os mais novos são mais críticos, mais castradores... Foi difícil, tinha medo da reação das pessoas. Ouvi algumas críticas e passei por situações constrangedoras, mas sinto que isso me ajudou a crescer e a ir mais além enquanto ser humano. Mas, a partir de determinado ponto, foi tudo mais natural — senti que as pessoas viam o Célio que eu vejo neste momento. Para mim, não faz sentido as pessoas adorarem o campeão só pelas medalhas. Eu quero que as pessoas se apaixonem pela minha pessoa. E eu sou o campeão, com este lado homossexual. Acho que, enquanto atleta, estou numa posição privilegiada e agradeço a Deus o talento que Ele me deu para estar nesta posição: consigo inspirar várias pessoas.

E agora regressas ao judo. Sentes-te preparado?
Acima de tudo, é uma fase que vai ser bastante interessante, porque vai ser diferente. Até determinado ponto, sentia o judo com uma intensidade e com um carácter extremamente competitivos; agora quero regressar ao judo como se isso fosse um prolongamento da minha espiritualidade. Quero voltar consciente de que também posso ajudar os outros com a minha experiência e com o peso que tenho na sociedade como figura pública.

Assusta-te voltar ao tapete?
Tudo no judo me assusta. Tenho uma relação esquizofrénica com este desporto: por um lado, quero muito o judo mas, por outro, tenho receio dele. E o que mais me assusta é sentir que tenho um grande potencial mas não obtenho resultados que vão de encontro a esse potencial.

Onde estás a treinar agora?
Nas Construções Norte-Sul [clube de Almada]. Desde que saí do Benfica que sinto que estou a começar um novo ciclo, e daí regressar às minhas origens [as Construções Norte-Sul foram o seu primeiro clube], porque acredito que é nas nossas origens que reside a nossa força. Também voltei para casa dos meus pais, porque foi naquele bairro que fui criado e formado. Por outro lado, tenho uma grande confiança no mestre Vítor, que sempre me acolheu com uma grande noção de amor e de carinho.

E o Benfica?
Um dia voltarei ao Benfica, porque sinto que existe esse desejo das duas partes.

Quem é o Carter B. Ray?
Gosto imenso de escrever, e o meu escritor preferido é o Fernando Pessoa — a sua arte e dinâmica. Até tenho uma frase dele tatuada nos braços. Pessoa tem uma mensagem extremamente forte: diz-nos que nós, portugueses, somos o povo eleito e escolhido por Deus para fazer grandes obras. Bom... o Carter B. Ray aparece no meu surto psicótico, é o artista que existe em mim. E é um heterónimo que uso para escrever nas redes sociais. Acho que ser judoca é ser artista, ser jornalista é ser artista, ser modelo é ser artista...