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José Gomes Pereira: “Às vezes até tenho de me consciencializar de que fui atleta olímpico. Os meus filhos nunca viram as minhas medalhas”

Foi um dos melhores nadadores portugueses e representou o país nos Jogos Olímpicos de 1976; é professor universitário, na Faculdade de Motricidade Humana, desde os 23 anos; é médico especialista em medicina desportiva; é diretor de medicina do Comité Olímpico, há um ano; mas é por outro cargo, onde esteve 11 anos, que costuma ser reconhecido: "Quando vou a alguns sítios, oiço: 'Ah, você é o médico do Sporting'. Realmente é um rótulo que fica colado"

Mariana Cabral e Nuno Botelho

José Gomes Pereira nasceu em Lisboa, em 1955, e cresceu em Algés, onde começou a nadar. Em 1976, participou pela primeira vez nos Jogos Olímpicos

Nuno Botelho

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Na entrada do Comité Olímpico há uma frase de Pierre Coubertin que diz o seguinte: "Um país pode considerar-se realmente desportivo quando a maior parte dos seus habitantes sente o desporto como uma necessidade pessoal". Acha que temos um país desportivo?
Já vamos tendo. Se nós sairmos num fim de semana para os locais onde as pessoas normalmente praticamente exercício, à beira do rio, vemos muitas pessoas a andar e a correr. Se se considerar a corrida uma atividade desportiva, podemos dizer que nos últimos anos houve um desenvolvimento muito significativo nesse domínio. Agora, se falamos de um país desportivo no âmbito de termos os jovens em formação, em desenvolvimento, em maturação, a terem acesso a modalidades e à prática de desporto em geral, de uma forma plurifacetada, então ainda há muito caminho para percorrer. Mas o hábito da prática física e a mensagem de que o exercício nos permite viver melhor penso que já é algo comum para as pessoas, que já reconhecem que a atividade física é fundamental para o seu equilíbrio e para a sua qualidade de vida e saúde.

Hoje em dia não é corrida, é running.
[ri-se] É o running, mas também há outras variantes, como as caminhadas.

Sempre sentiu o desporto como uma "necessidade pessoal", desde novo?
Pratiquei desporto com alguma intensidade desde jovem, e com objetivos que passavam por presenças em Campeonatos da Europa, do Mundo, em Jogos Olímpicos (JO). Na altura, para o desenvolvimento do desporto em Portugal, só obter mínimos para ir a essas provas já era bom. Para mim, era um compromisso. Nem sempre era o desporto de prazer e lazer, de maneira nenhuma, muitas vezes era penoso. Nem sempre nos apetecia treinar. Mas posso dizer que no meu tempo já havia essa necessidade pelo desporto, esse gosto. Mas tudo dependia muito das famílias, não dependia da escola, por exemplo. A escola é o local de eleição para promover as práticas de desporto. O desporto escolar ainda tem um caminho a percorrer, sabemos que não é perfeito. E grande parte da atividade física nos jovens está centrada na disponibilidade das famílias para a promoverem, porque transportam os jovens e ajudam-nos. No fundo, criam-lhes condições para poderem praticar desporto.

Talvez hoje em dia também tenha muito a ver com o rendimento das famílias. Praticar um desporto envolve quase sempre o pagamento de uma mensalidade.
Sim, é verdade, depende das famílias. Há modalidades mais caras do que outras, mas é claro que isso é uma realidade, há um custo, além do empenhamento que uma família deve ter.

Faz sentido a educação física nas escolas não contar para a média?
A educação física deve ser considerada uma disciplina como outra qualquer. Sabemos que os hábitos de atividade física e o desenvolvimento motor não se dissociam do desenvolvimento cognitivo, de maneira nenhuma. Esse facto é um facto que está demonstrado em variadíssimos estudos de caráter científico. Incidirmos apenas, a nível da educação dos nossos jovens, em atividades cognitivas, colecionando um conjunto de conhecimentos teóricos de acordo com as disciplinas tradicionalmente consideradas como mais laboriosas, digamos assim, as que implicam mais estudo, não é o ideal, porque isso não quer dizer que não haja lugar também para a atividade motora, para a atividade desportiva. Sabe-se que o desenvolvimento global tem de envolver também a prática de atividade física e desportiva. É uma questão que, do meu ponto de vista, que sou formado em educação física e desporto e em medicina, nem tem discussão neste momento. É tão óbvio e está tão provado, que é uma pura perda de tempo sequer discutir isso, porque estamos a dar atenção a uma dissociação que não deve existir.

Quando começou a fazer desporto começou logo pela natação?
Curiosamente, comecei pela natação. Porquê? Porque nasci em Algés e quem nascia em Algés tinha de ir aprender a nadar no Sport Algés e Dafundo. E quando um jovem aprendia a nadar no Algés e Dafundo e tinha algum jeitinho, já não saía da natação. Portanto, fui nadador, como poderia ter sido praticante de outra modalidade qualquer. Todos os jovens que entravam no Algés e Dafundo naquela altura tinham de aprender a nadar e aqueles que conseguiam melhores marcas eram requisitados pelos treinadores. Não escolhi a modalidade, foi aquela que estava mais perto de casa e que tradicionalmente se praticava ali.

José Gomes Pereira na sede do Comité Olímpico de Portugal

José Gomes Pereira na sede do Comité Olímpico de Portugal

Nuno Botelho

Nessa altura era apenas um prazer.
Sempre me deu um enorme prazer. Não quer dizer que, mais tarde, quando abracei uma carreira mais séria de treino, não me desse prazer, claro que me dava um enorme prazer competir. Algumas vezes dava-me prazer treinar e outras não, outras vezes era penoso. Mas nós aplicávamo-nos e sabíamos que aquilo era um meio para atingir um objetivo. Porque os ensinamentos que o desporto nos dá não se podem esgotar, de maneira nenhuma, na obtenção de uma marca, porque a questão da marca é muito volátil. Se um indivíduo falha uma viragem ou se constipa na véspera da competição, já não consegue obter uma marca. E eu pergunto: então todo o trabalho anterior é perdido? Não, não é perdido. É uma mensagem profundamente errada nós transmitirmos a um jovem que pratica desporto que perdeu X meses de treino porque não conseguiu atingir determinado objetivo numa competição específica. Não perde, porque é impossível perder os benefícios que advêm de uma prática de treino disciplinada, isso continua lá. Não faz sentido esse tipo de análise focada nas marcas, porque isso é frustrante e penalizador, e acho que é uma forma muito errada de vermos o desporto de competição. O desporto de competição não se pode cingir ao pódio, não pode ser só o indivíduo que ganha, porque aqueles que não ganham seguem rigorosamente o mesmo regime, realizam o mesmo tipo de treino, só que não têm as competências e as qualidades físico-motoras, digamos assim, para conseguir atingir um pódio. Mas o trabalho que eles fazem é rigorosamente idêntico, então, se eles se dedicam da mesma forma, algum benefício têm de ter. É muito pobre e limitativo nós encararmos apenas o resultado. O processo também é muito importante, porque é o processo que nos molda, não é o resultado.

Esse foco excessivo no resultado é um problema mais atual? Ou seja, tem a ver com a sociedade que temos agora, que consome tudo rapidamente?
Hoje em dia os ciclos são muito curtos, porque temos, de facto, uma sociedade rápida, de desgaste, de consumo a curto prazo. Mas, repito, é uma forma errada de olhar para as coisas, porque nós vivemos, felizmente, cada vez mais, porque a longevidade é um facto atual, mas nós não somos atletas a vida toda. Nós somos atletas por 10, 12 anos da nossa vida, só que são anos vividos com grande intensidade e dedicação, por isso têm de servir como uma marca positiva na vida, prognosticando um futuro melhor. Seria muito mau que a pessoa parasse no tempo e no resto de toda a vida que se segue - e não são assim tão poucos anos quanto isso, são uns 50 ou 60 anos - ficasse amarrada, ficasse ancorada, ao tempo em que foi atleta. Essa nostalgia não é boa, porque a pessoa tem de ser preparar para uma vida que tem benefícios pelo facto do indivíduo ter sido atleta, mas não pode ser a marca a interessar, porque a marca perde-se, a marca é muito volátil. São os hábitos, é a disciplina, é o acreditar que um trabalho planeado e programado nos pode levar a atingir os nossos objetivos, quaisquer que eles sejam. Houve um treinador muito importante, o Bill Bowerman, que dizia: "Tu tens um corpo, tu és atleta". Independentemente das características e limitações que esse corpo possa ter. Isso é transversal a todas as atividades em que nós usamos o corpo, desde a reabilitação até ao treino de alto rendimento. Se nós temos um corpo e se nós temos capacidade para ter uma atividade motora, nós temos de ser atletas. . Portanto, nem tudo se resume ao pódio: a atividade física, o desporto, é muito mais do que isso.

Enquanto atleta, qual foi o ponto alto para si?
Tradicionalmente, o ponto alto é participar nos JO, mas, curiosamente, para mim, os JO não foram a competição que mais me realizou, porque não foi lá que fiz a minha melhor marca e não foi lá que me senti a nadar melhor. Os JO são uma grande festa, um marco. Uma pessoa dizer que foi atleta olímpico é logo visto com outros olhos, num país como o nosso, em que há poucos atletas olímpicos. Mesmo que tenha sido há 30 ou 40 anos, é sempre uma marca para a vida ser atleta olímpico. É um momento que caracteriza uma carreira desportiva de bom nível, digamos assim. Até porque quem vai aos JO é porque provou que tem capacidade para realizar os mínimos exigidos para tal e esses mínimos não são fáceis, nem toda a gente consegue cumpri-los. Ora, se me perguntar se considero a minha ida aos JO o ponto mais marcante da minha carreira, sim, porque fui educado assim, porque as pessoas me foram ensinando com as suas reações: "Ah, foi aos Jogos Olímpicos". Mas provavelmente houve outras provas a dar-me mais prazer. Um indivíduo que treine e não consiga ir ao JO, é por causa disso que deixa de ser o atleta que é? Provavelmente não.

Que recordações tem dos primeiros JO a que foi, em 1976?
Lembro-me perfeitamente, porque foi algo marcante, já que não há nenhuma outra competição em que a cerimónia de abertura tenha aquelas características. No fundo, é uma grande festa do desporto, é o evento mais grandioso a nível mundial e em todos os níveis, não estou a falar apenas em desporto, mas também nas outras atividades. Não quero ser mal-entendido, porque isto não é de modo nenhum presunção ou vaidade, mas isso teve um momento na minha vida e às vezes até tenho de me consciencializar de que fui atleta olímpico. Porque isso já passou. Depois tive a minha vida profissional - e ainda tenho -, com outros desafios, e não fico amarrado a esse passado. Os meus filhos nunca viram as minhas medalhas. Sabem que fui olímpico, mas não quis passar essa carga para eles: "O pai foi olímpico, então vocês têm de praticar desporto". Eles só têm de praticar aquilo que gostam e não foram olímpicos nem nada que se pareça. Se acontecesse, ótimo, se não, ótimo também. E tive outros JO na minha vida, tive de treinar para outras coisas, que na altura também foram muito importantes. Não estou a desvalorizar os JO, longe disso, mas não pode ser a única coisa que fazemos na vida. Isso é um atleta que parou no tempo e isso não deve acontecer.

Os Jogos Olímpicos de 1976 decorreram em Montreal, no Canadá

Os Jogos Olímpicos de 1976 decorreram em Montreal, no Canadá

David Lefranc/Getty

Falava-lhe mais em termos do impacto do ambiente dos JO. Quando entrevistei o Rui Jorge (AQUI), por exemplo, ele dizia-me que ir aos JO foi das experiências mais marcantes que teve na vida.
É curioso, estive com ele há uns dias e falámos precisamente dos JO de Montreal. Eu fui médico dele bastantes anos e encontrei-o por acaso no hotel onde estava com a seleção e fizemos uma festa. Ele sabia que eu estava ligado a este projeto olímpico para Tóquio 2020 e transmitiu-me exatamente isso mesmo. Também estive em Atlanta como médico, nos JO onde ele foi olímpico, em 1996, e ele disse-me de facto que tinha tido uma grande importância para ele participar naquela festa. Os JO são um marco para qualquer pessoa que goste de desporto e seja atleta. Não posso dizer que não me lembro bem: participei pela primeira vez em 1976 e ainda me lembro de tudo. Claro que foi muito importante, mas o que procuro transmitir aos meus atletas é que é há mais vida além dos JO. E o facto de ter ido aos JO pode ser um teste para outros JO da nossa vida.

Então, depois de ter deixado de nadar... Ou melhor, quando é que soube que queria ser médico?
Logo. Logo em miúdo.

Então procurou sempre manter as duas vertentes na sua vida?
Sempre tive o objetivo de me ligar à medicina do desporto e, na altura em que estava a treinar para tentar ir aos JO, percebi que o curso de educação física e desporto iria dar-me o tempo de que necessitava, porque ainda era jovem.

Primeiro tirou o curso de educação física?
Sim, primeiro tirei o curso de educação física e desporto, que terminei aos 22 anos, e depois entrei em medicina.

Sabendo sempre que não iria seguir o caminho da educação física?
Não, eu sabia que queria seguir a medicina do desporto e era atleta, por isso o curso de educação física e desporto encaixava bem na vida de um atleta, porque ainda estava a treinar. Na altura, achava que se entrasse logo em medicina a minha carreira de desportista acabaria, atendendo à exigência do curso, porque não havia a compatibilização que existe hoje. Não era possível ser aluno de medicina e treinar cinco horas por dia.

Perdemos um possível treinador ou professor, ou isso nunca lhe passou pela cabeça?
Não, porque faço aquilo que gosto de fazer. Seria infeliz se não fosse médico. É um bocado extremista dizer isto, porque claro que se não fosse médico teria de ser outra coisa e teria de ganhar a vida e trabalhar noutra esfera, mas sinto que isto era mesmo o que queria fazer, era fazer medicina ligada ao desporto. O facto de ser formado em educação física ajuda-me muito na minha atividade médica e o facto de ser formado em medicina ajuda-me muito na vertente clínica do desporto.

Ia perguntar-lhe precisamente se o facto de ter sido atleta e ter estado em educação física o ajuda a ser melhor médico.
Para se ser um bom médico, não tem de se ter sido um bom doente. Podemos colocar a questão assim: se tiver dores de estômago, vai a um gastroenterologista ou vai a um indivíduo que sempre sofreu do estômago? Provavelmente vai a um gastroenterologista, mesmo que a essa pessoa nunca lhe tenha doído o estômago [risos]. Aqui é a mesma questão. O facto de ter sido atleta permite-me estar mais sensibilizado para alguns comportamentos e dificuldades pelas quais os atletas passam. Mas também já fui atleta há tantos anos que há todo um ensinamento depois disso na relação do dia-a-dia com atletas, que nos vai ensinando também como é que o atleta vê as coisas, até porque isto é dinâmico, é evolutivo, o atleta de hoje não é o atleta de há 40 anos e o treino de hoje não é o treino de há 40 anos. Portanto, o facto de ter sido atleta pode tornar alguém mais sensível para alguns aspetos, mas não é, de modo nenhum, a parte mais importante da nossa formação. A parte mais importante da nossa formação é o estudo e a necessidade de nos mantermos atualizados.

Já está no Comité Olímpico há um ano. Que balanço faz?
Não direi que este primeiro ano foi montar a mobília [risos] e tentar instalar-me, de todo, até porque já reunimos com os departamentos clínicos das federações, já fizemos ações de formação, já realizámos algumas tarefas em que procuramos antecipar-nos ao que vai ser a missão de Tóquio 2020. O balanço que faço é positivo, porque a herança já não era má, era uma herança boa. O Comité Olímpico permite-nos trabalhar de uma forma diferente da que temos num clube, e eu fui médico num clube de futebol durante 11 anos, ou seja, foram muitos anos, portanto conheço bem a realidade, e também fui médico da seleção nacional, entre 1990 e 1993, 1994, portanto também conheço essa realidade. Sei o que é estar num clube, numa federação, numa equipa olímpica e, neste percurso, a questão da preparação olímpica foi algo que aceitei com gosto. Se fosse para ir fazer coisas que já fiz, como ser médico de um clube novamente, francamente não me entusiasmava muito, mas o Comité Olímpico tem uma característica interessante: é supra clube e supra federação. É uma preparação com um desígnio nacional, olímpico, e em que temos de trabalhar com as federações e com os clubes, e isso é muito interessante.

Então, para quem foi atleta, para quem já esteve num clube e numa federação, este lugar que ocupa agora é uma espécie de cadeira de sonho?
É um lugar em que posso beneficiar da experiência que tenho, mas é um lugar com alguma responsabilidade no que diz respeito à preparação das missões do Comité Olímpico. Porque isto não é só os Jogos de 2020, nós vamos ter agora uma missão dos Jogos do Mediterrâneo que tem 300 e tal atletas, portanto são quatro vezes mais atletas do que nos JO. Vai ser em Tarragona, no fim de junho, e é uma organização em que o Comité Olímpico também está envolvido. Em 2019, temos os Jogos Europeus e em 2020 temos então os JO. Ou seja, há várias missões para preparar que não são tão visíveis como os JO. Além disso, existem atletas em regime de preparação olímpica, que têm de estar sistematicamente acompanhados, temos de saber o que se passa com eles, mesmo que não sejamos os médicos deles.

Só fala com os médicos?
Nós não temos função clínica, nós temos função coordenadora, ou seja, não temos influência direta, só acompanhamos o processo. E estamos sempre disponíveis, porque nem todos os atletas têm as mesmas condições. Há atletas de modalidades com mais capacidade para angariar meios e há atletas de outras modalidades sem essas mesmas facilidades. Penso que compete ao Comité Olímpico uma função muito importante, que é uma função de formação - e temos tido ações nesse sentido - e também uma função de equalizar, ou seja, tornar mais ou menos idênticas as condições que os atletas têm. Não temos uma intervenção específica na preparação dos atletas, porque não nos substituímos aos médicos das federações e aos médicos dos clubes, mas imagine que há uma federação que não tem médico ou que tem um médico só de uma forma temporária e não tem acesso fácil a serviços clínicos. Aí, o Comité Olímpico pode colmatar essa lacuna, digamos assim. As modalidades com mais meios e condições são modalidades em que nós temos de estar informados sobre aquilo que se passa, mas não temos uma intervenção tão direta - mas temos de estar atentos. Nós, no fundo, temos uma função generalista, transversal, em que são as modalidades menos conhecidas e com menos as meios aquelas que requerem mais atenção, muitas vezes.

Portanto, a intervenção não é apenas focada no processo de recuperação, tem também muito a ver com a prevenção em várias áreas, nomeadamente psicologia e nutrição.
A direção de medicina desportiva tem, fundamentalmente, quatro vertentes: a vertente médica, a área da fisioterapia, a área da nutrição e a da psicologia. E essas são quatro vertentes 'major', porque o atleta tem de ter uma boa assistência médica e apesar de nós não sermos os médicos dos atletas nós temos criada, neste momento, uma plataforma clínica para registo de dados e também um seguro específico dos atletas que estão em preparação olímpica, com uma rede nacional de cuidados de âmbito clínico a que os atletas podem recorrer e há ainda em negociação um plafond para cada federação poder utilizar no acompanhamento clínico dos seus atletas. Ou seja, o Comité Olímpico, apesar de não ter ter uma função clínica direta sobre os atletas, cria meios para que o apoio médico seja melhorado, não só no âmbito dos azares, passe o termo, da doença e da lesão, mas também no âmbito da preparação e da prevenção, como disse. No âmbito da preparação, temos o controlo médico do treino, a nutrição e a psicologia, que eu acho que são as três vertentes fundamentais para que o atleta - nós acompanhamos cerca de 100 atletas - se possa sentir acompanhado no âmbito da sua saúde.

Foi atleta, esteve num clube, numa federação, no Comité, é professor... De todas estas vertentes, há alguma de que goste mais?
Sim, há duas vertentes que me acompanham sempre e isso eu sou: sou professor universitário, é a minha carreira profissional, e sou médico. Isso é o que eu sou. O facto de ter sido médico na federação, num clube, olímpico, são situações que vão surgindo na minha vida e que eu, em determinado momento, considero que são projetos interessantes. Mas repare que são sempre limitados no tempo. O que se manteve sempre foi a minha carreira de professor universitário, que comecei como assistente, aos 23 anos, e agora sou catedrático, e o facto de ser médico. Isso é que é constante. O resto são desafios que vão aparecendo.

Nuno Botelho

Como é que entrou no futebol?
Já foi em 1990. Entrei com o Carlos Queiroz, no único período em que trabalhei com ele. Nós fomos colegas de curso, em educação física e desporto.

No ISEF?
Sim, nós fomos do primeiro curso do ISEF. Sempre me interessei pelas questões da fisiologia do esforço e da área médica do treino e quando o Carlos me convidou para a seleção eu já era médico, portanto tinha esta dupla valência, e a minha área de diferenciação era a fisiologia do treino. Ele convidou-me em 1990, depois de ter conquistado o Campeonato do Mundo pela primeira vez, e foi aí que entrei na Federação. Depois o Carlos saiu da Federação e eu também não quis continuar, saí. Aí, deixei de estar ligado ao futebol. Fui médico olímpico em 1996 e, em 2000, fui contactado pelo Sporting porque estavam à procura de um responsável clínico.

Na altura em que estava com o Carlos Queiroz, tinha interferência no planeamento do treino? Ou seja, normalmente pensamos no médico como alguém que só entra na parte da recuperação, mas também pode influenciar a carga de treino, por exemplo.
Exato. O Carlos, na altura, estava avançado para a época. Ele considerava que o responsável pelo departamento clínico deveria ser um médico, mas com formação em treino. Daí a escolha ter recaído sobre mim, penso eu. Se formos ver, um atleta raramente está doente ou lesionado, quer dizer, um atleta passa grande parte do tempo no seu perfeito estado de saúde e a treinar. Então por que razão é que temos de ter um modelo montado para resolver os azares, as doenças e as lesões, e não há um modelo montado para acompanhar o atleta clinicamente quando ele está bem - que é grande parte do tempo? Embora não esteja a considerar que não seja importante ter planos para as situações de lesão e doença, é fundamental tê-los, porque eles têm de recuperar bem e depressa. Mas tem de haver um apoio global, não é só um apoio retroativo, tem de haver também uma ação proativa, que envolve o controlo médico do treino. E isso passa por aquilo que disse - e bem - sobre as cargas de treino e a adaptação a essas cargas, assim como a introdução de alterações a nível individual quando nós percebemos que a condição física específica do atleta requer uma preparação mais diferenciada. Porque apesar de o futebol ser uma modalidade coletiva, é praticada por indivíduos e, como o próprio nome indica, indivíduos têm individualidade biológica e têm respostas diferentes às diferentes cargas de treino. O somatório do rendimento de uma equipa não é o somatório dos rendimentos individuais de cada um - é muito mais do que isso. E os elementos que constituem uma equipa não têm todos as mesmas necessidades - e é aí que entra o controlo médico do treino. Nesse aspeto, em 1990, havia pouca coisa feita sobre isso e os meios tecnológicos que hoje existem eram muito parcos na altura. Nós realmente fomos - sem querer ser imodesto - relativamente inovadores em relação ao controle médico do treino.

Que tecnologia utilizava para esse controlo médico do treino? Ou era só o olhómetro?
Não era só o olhómetro, porque já havia alguma tecnologia. Em 1996, com a seleção nacional, fizemos estudos no terreno com consumos de oxigénio, com concentrações de ácido lático, com células fotoelétricas... E isto em 1996, o que foi altamente inovador para a época. Aquilo que a tecnologia hoje nos dá não é algo que nós não conseguíssemos fazer antes, mas neste momento a nova tecnologia permite-nos ter um acesso mais rápido a essa informação. Nós, naquela época, medíamos os quilómetros que os jogadores percorriam num jogo, por exemplo. Sabíamos quanto tempo é que ele estava parado, a passo, a trote, em sprint, só que levava muito mais tempo.

Como?
Através dos registos de vídeo. Só que hoje em dia termina-se um jogo e os resultados aparecem logo. Mas a tecnologia não veio trazer nada de novo, porque é feita por homens, vem é responder às nossas necessidades, conseguindo-se resultados mais fiéis e mais rápidos. É fundamental termos tecnologia ao nosso serviço e aí evoluiu-se imenso. Agora, a fundamentação teórica que está por trás desses meios tecnológicos é criada por pessoas e essa fundamentação é semelhante.

Passou 11 anos no Sporting, pelo que trabalhou com vários treinadores.
Vários mesmo [risos].

Terá tido treinadores que o viam apenas como o médico, em caso de lesões, e outros que o envolviam mais no processo de treino?
Essa pergunta é uma pergunta muito lógica, faz todo o sentido. O médico responsável clínico por uma equipa de futebol num clube e, neste caso, num clube grande, tem de ter muito bom senso, pelo seguinte: não pode interferir, de uma forma direta, com o processo de treino, porque isso é tarefa do treinador e dos seus adjuntos, mas tem de estar disponível para poder dar as informações necessárias para que esse treino possa ser mais rentável. E aí temos de perceber qual é o modelo de trabalho do treinador, porque o treinador é o gestor de todo este processo e o treinador utiliza os meios que tem ao seu alcance para melhorar a sua performance profissional. Se ele entende que deve utilizar os conhecimentos do médico, o médico tem de ser capaz e tem de estar disponível para conseguir dar essa resposta. Vou dar-lhe um exemplo prático: eu, como médico, de vez em quando preciso de um resultado de um ressonância magnética. Eu sei pedir uma ressonância magnética e sei que benefícios é que o resultado dela me traz para a terapêutica. Agora, eu não sei ligar a máquina e fazer uma ressonância magnética, não conheço a metodologia de realização desse exame - para isso existem os técnicos e os especialistas em imagem, os imagiologistas. O que eu tenho de saber é como pedir e para que é que aquilo que me serve, portanto, o técnico que faz e relata esse exame tem de ser competente, de forma a relatá-lo de um modo a que aquilo seja útil para o meu desempenho. Vamos passar isto para o treino: o treinador tem de saber pedir e tem de saber utilizar convenientemente o resultado desse pedido. Se o resultado desse pedido não for convenientemente utilizado, duas coisas podem acontecer: ou foi o médico que não desempenhou bem a sua tarefa e não relatou bem, ou é o treinador que não consegue utilizar o que lhe deram. Dentro deste percurso, trabalhei com treinadores em que foi possível fazer isso e treinadores que deram prioridade a outros aspetos. Nós temos de perceber qual é o modo de trabalho daquele treinador e entender de que forma conseguimos ser mais úteis. No fundo, é isso. Porque o médico acaba por ser um adjunto. Para funcionar bem, tem de ser assim e tem de estar presente nos treinos. Tem de fazer parte do processo. Se não, é apenas um elemento estranho.

Tem algum treinador que tenha procurado obter mais conhecimentos médicos?
Olhe, eu tive sorte, porque me dei bem com praticamente todos e conseguimos sempre trabalhar em equipa. E não estou a tentar fugir à sua pergunta. Desde os treinadores mais científicos, digamos assim, aos menos científicos, acho que foi sempre possível fazer um trabalho em equipa. Mas isso parte muito do conhecimento que ambos temos do treino e do lugar de cada um, o que é que cada um pode dar. Porque o treinador tem de ser um líder, tem de ser o gestor do processo, porque é ele que toma as decisões finais, mas quanto mais informação lhe chega, menos ele erra, ou, pelo menos, melhor atua.

Pondo isto num exemplo prático: um jogador é operado ao joelho e quando volta ao campo é o médico que tem de dizer ao treinador que ele só pode integrar o treino em determinados momentos ou o treinador já tem esse conhecimento?
O treinador, mesmo que não saiba, estará preparado para isso. Há aqui dois conceitos que não se podem confundir: a aptidão clínica e a aptidão desportiva, que não são coincidentes. A aptidão clínica é quando o atleta tem alta e já não está sob cuidado clínico, mas ainda não tem os mecanismos adaptativos para poder treinar sem limitações. Então existe ali uma zona intermédia entre a aptidão clínica e a aptidão desportiva em que há o treino condicionado - o atleta pode fazer algumas coisas mas não pode fazer todas. Inclui alguns exercícios de treino mas há outros que tem de fazer individualmente e vai sendo integrado de forma progressiva. A aptidão desportiva completa é treinar sem limitações. A aptidão clínica é permitir entrar num processo de integração progressiva e existem expedientes para isso, existem formas de avaliar a adaptabilidade do atleta às novas condições de treino. Há treinadores que eventualmente poderão dizer que só querem receber o atleta quando ele puder treinar sem limitações. Tudo bem, é uma postura defensável. Então, aí, tem de haver um trabalho com outros treinadores e colaboradores que vão fazendo essa integração, sob vigilância clínica. Por isso é que às vezes se diz "treino sob vigilância clínica": já tem o "apto" clínico mas não tem o "apto" desportivo.

O dia-a-dia num clube é especialmente difícil, por ter de estar sempre presente?
Sim, um médico tem de estar sempre presente, assim como está o fisioterapeuta, o enfermeiro, o treinador e os adjuntos - é uma equipa. E os jogadores, claro.

Claro, mas por comparação a ser médico noutro sítio qualquer, no Comité Olímpico, por exemplo.
Por isso mesmo é que lhe digo que, nesta fase, não voltaria a ser médico de um clube. Porque já fui e tenho outros projetos na minha vida, tenho a faculdade, tenho a minha clínica... E o Comité Olímpico permite-me compatibilizar esses objetivos nesta fase da minha vida.

Era um trabalho muito exigente?
É exigente em termos temporais, sim. E de mediatismo e dedicação. Mas é exigente para todos: treinadores, fisioterapeutas, atletas... Faz parte.

Os adeptos reconheciam-no muito?
Sim, de vez quando. Não tenho razões de queixa, sempre fui bem tratado. Sou sportinguista, mas verdadeiramente, de coração, o meu clube é o Sport Algés e Dafundo. Mas não queria estar a identificar-me com clubes, porque sou um profissional do desporto e o médico não deve ser adepto. Assim como um treinador e um jogador, que podem desempenhar a sua profissão ao mais alto nível, mesmo não estando no seu clube de coração. São profissionais do desporto, portanto há casos em que não podem estar apenas nos clubes que emocionalmente lhe dizem algo.

Tenho um amigo que é médico, benfiquista fervoroso, e enquanto estudava ele dizia sempre que queria ser médico do Benfica. Não ia funcionar?
Penso que não. Um médico, assim como qualquer outro técnico, não pode ter uma postura de adepto. Embora eu respeite muito os adeptos, como é óbvio. Mas um profissional tem de ter outra postura.

Consegue destacar dessa altura no Sporting um jogador particularmente "ideal" em termos médicos?
Bom, não quero pessoalizar, mas lembro-me de vários, sim.

Por exemplo?
Prefiro não dizer. Mas há atletas menos suscetíveis à lesão e há atletas mais, entre aspas, inteligentes na forma de gerir o seu esforço. Há atletas que ouvem melhor o seu corpo do que outros. É óbvio que tive atletas desses. Mas, sabe, não gostaria de estar a falar muito do Sporting, porque, assim como tive uma fase em que fui atleta, também já passei pela fase do Sporting. Digo-lhe isto sabe porquê? Porque naquela altura estive muito exposto e agora às vezes quando vou a alguns sítios, oiço: "Ah, você é o médico do Sporting". Realmente é um rótulo que fica colado, mas já fiz outras coisas na vida.

Relativamente aos jogadores...
O que lhe digo é que nunca conheci um grande jogador que não fosse inteligente. Até na inteligência emocional. Um grande atleta consegue gerir não só as emoções mas consegue também gerir os sinais que o seu corpo lhe dá, na competição e no treino. E provavelmente é isso que diferencia os grandes atletas. Não apenas no futebol, mas em ténis, atletismo, natação, em geral. Não é só a parte do treino e as condições físico-motoras que importam, porque todos eles poderão ter índices ótimos a esse nível. São, às vezes, aspetos intangíveis, que nós percebemos que existem, mas não conseguimos caracterizar bem. É esse o grande atleta.

Como o Ronaldo?
Sim, até é redundante eu dizer isso. Não há dúvida. Não é preciso perceber de futebol ou ser médico de desporto para saber que o Ronaldo é um grandessíssimo atleta (risos). Está mais do que evidente.