Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Presidente do Santa Clara: “Quando era miúdo, ia com a minha mãe para o estádio e ajudava a limpar aquilo tudo. Isto é um sonho de criança”

Rui Cordeiro é presidente do Santa Clara desde 2015 e esta época conseguiu finalmente o que todos os açorianos queriam: a subida à 1ª Liga, 15 anos depois da última presença. Enrolado a uma bandeira regional, chorou por amor ao clube e garante que vai manter a promessa que cumpriu: "Na terça-feira, com maior ou menor dificuldade, vamos subir o Pico e pôr as bandeiras dos Açores e do Santa Clara lá no topo"

Mariana Cabral

Rui Cordeiro, presidente do Santa Clara, não aguentou as lágrimas na festa da subida, enrolado a uma bandeira dos Açores

EDUARDO COSTA/LUSA

Partilhar

Estava difícil apanhar-te, Rui. É muita festa desde que garantiram a subida, no domingo passado?
Sabes que isto nos Açores... Os cabos submarinos para passar as linhas dos telefones às vezes estão ocupados, demora mais [risos]. Quanto à festa, ainda temos mais uma jornada para jogar, com o profissionalismo que nos é reconhecido. Vamos jogar com o Académico de Viseu [sábado, 11h15] e é o culminar de uma grande caminhada rumo à 1ª Liga. Penso que isto foi o concretizar de um sonho para todos os açorianos.

Houve uma altura em que as coisas estiveram tremidas.
Todas as equipas, ao longo de um campeonato, têm altos e baixos. A 2ª Liga é um campeonato extremamente competitivo, com boas equipas, com bons plantéis, e tivemos ali uma altura um pouco difícil, mas também foi nessa altura difícil que nos unimos ainda mais e soubemos dar a volta. É disso que se trata: é saber dar a volta nos momentos difíceis. Foi o que fizemos e penso que fomos das equipas mais regulares ao longo do campeonato, estivemos sempre nos lugares de luta pela subida. Fomos competentes e regulares, pelo que, por essa regularidade e pela qualidade do nosso futebol, foi uma subida justa.

Acreditaste sempre? Porque normalmente o que é que acontece, quando as coisas começam a tremer, é haver o despedimento do treinador, como aconteceu em muitas das equipas da 2ª Liga.
Desde o primeiro dia em que entrámos no Santa Clara, em 2015, sempre acreditámos que a subida era possível. Este é um percurso de três anos, não é apenas de um ano. Quando entrámos no Santa Clara, o clube estava numa situação económica muito difícil e havia muito descrédito social. O nosso primeiro objetivo foi ganhar a confiança das pessoas, devolver a autoestima aos santa clarenses e, depois disso, depois de ganhar essa credibilidade e confiança, a estrutura quis montar um plantel competente. Foi o fizemos. Esta subida, de certa maneira, é o culminar deste percurso de três anos.

E esse percurso culminou em muitas lágrimas, contigo enrolado à bandeira dos Açores, no momento da subida.
Foi o concretizar de um sonho de criança. E penso que também era o sonho de todos os açorianos, porque estivemos 15 anos fora da 1ª Liga. Aquilo foi o libertar de uma emoção muito grande. Não eram apenas lágrimas minhas, eram lágrimas de todos aqueles que estavam no projeto e de todos os açorianos que sempre nos acompanharam. Somos mais do que um clube, somos uma região.

Tens uma ligação ao Santa Clara desde muito novo, não é?
Costumava ir com a minha mãe para o estádio, porque a minha mãe trabalhava no Estádio de São Miguel, era assistente administrativa lá, e eu ia com ela, quando era miúdo, e ajudava lá a limpar aquilo tudo: era a limpar as mesas, a arrumar as cadeiras... Coisas assim. Sempre acompanhei o Santa Clara desde os meus tempos de criança, desde os tempos em que se jogava nas Laranjeiras, só depois é que se passou para o Estádio de São Miguel. Ao longo destes anos todos sempre acompanhei o Santa Clara, por isso é que isto para mim, estar aqui, é um sonho de criança. Acima de tudo, penso que esta subida era o sonho de muitos açorianos que ansiavam por este momento. Penso que a emoção vem daí, porque foi um sonho concretizado para todos.

Os adeptos açorianos não festejavam uma subida do Santa Clara há 15 anos

Os adeptos açorianos não festejavam uma subida do Santa Clara há 15 anos

EDUARDO COSTA/LUSA

Até parece a história do Cruyff, que ia com o pai para o estádio do Ajax quando era criança.
[risos] Estava sempre lá. Costumava ir a pé, desde São Roque, íamos subindo aquilo tudo a pé, todos os fins de semana, eu, o meu tio, o meu pai, a minha mãe. O meu pai também costumava estar lá porque era polícia no estádio, por isso a família estava ali toda junta. Cresci ali, a sentir o Santa Clara e a amar o clube e esta terrra. Por isso, isto para mim foi um sonho de criança. Aquelas lágrimas foram isso. Mas, acima de tudo, Mariana, foi ver e perceber que no futebol e na vida é possível chegar lá acima com trabalho, competência e humildade. Nas alturas mais difíceis da nossa vida, às vezes sentimos que a vida é uma noite longa e escura, em que nós estamos de certa maneira perdidos, mas nós temos de continuar e temos de sonhar. Acredito muito no valor dos sonhos. Acho que uma vida sem sonhos é uma vida vazia. Mas também não basta sonhar, há que sonhar e depois lutar, com humildade e com competência. É isso que costumo dizer às pessoas: não tenham medo de sonhar e lutar por aquilo em que acreditam. Aqueles que não acreditam tentam meter-nos para baixo e tentam fazer-nos acreditar que não é possível, tentam fazer-nos desistir, mas temos de acreditar nos nossos sonhos e perceber que é nas alturas difíceis que temos de ser resilientes e, acima de tudo, este projeto é isso: é a vitória do acreditar, da luta, da resiliência, da humildade, da competência e da união. É possível triunfar com trabalho sério e honesto.

Os teus pais também estavam no estádio no jogo da subida?
O meu pai estava a trabalhar nesse dia em Ponta Delgada. Quando o jogo acabou, fomos para lá fazer a festa e eu fui dar-lhe um abraço. Depois fui à casa da minha mãe também dar-lhe um beijo, porque ela não pôde ir ao estádio, teve de cuidar da minha sobrinha e do meu filho.

Já toda a gente da ilha sabia que o Santa Clara ia subir, porque era dia da festa do senhor Santo Cristo dos Milagres. Já não era primeira vez.
Exatamente [risos]. O povo açoriano é um povo de fé, é um povo que, por aquilo que passou, pelos sismos e por tudo o que são intempéries e catástrofes naturais, é muito agarrado a fé. Tanto assim é, que a fé é uma das manifestações do estatuto político-administrativo, está lá presente como uma das afirmações da autonomia açoriana. E, como não podia deixar de ser, o senhor Santo Cristo esteve connosco, caminhando ao nosso lado para a subida de divisão. Até porque quando marcámos o primeiro golo contra o Real foi na mesma altura em que a imagem do senhor Santo Cristo estava a sair da igreja [para a procissão].

A festa no Estádio de São Miguel depois da vitória sobre o Real Massamá (3-0), na penúltima jornada da 2ª Liga, que confirmou a subida de divisão do Santa Clara

A festa no Estádio de São Miguel depois da vitória sobre o Real Massamá (3-0), na penúltima jornada da 2ª Liga, que confirmou a subida de divisão do Santa Clara

EDUARDO COSTA/LUSA

Lembras-te bem das outras subidas do Santa Clara?
Lembro-me, claro. Da primeira então lembro-me perfeitamente, porque estava ali mesmo atrás da baliza. O meu pai estava a fazer o policiamento e eu estava lá agarrado à rede, inquieto para saltar para dentro do campo - e depois saltei. É óbvio que nos lembramos desses momentos todos que passámos. Foi um momento muito bonito de união entre o Santa Clara e os açorianos, e também foi uma demonstração clara de que os Açores gostam de futebol e gostam de estar na 1ª Liga. Os Açores dão uma maior dimensão humana e geográfica à 1ª Liga, uma 1ª Liga descentralizada, uma 1ª Liga verdadeiramente portuguesa, e é bom poder oferecer isso aos açorianos e à 1ª Liga, porque penso que a 1ª Liga só terá a ganhar com a presença dos Açores.

Entrevistei o treinador do Santa Clara, o Carlos Pinto, há uns meses [AQUI] e ele disse-me que as condições de treino não eram as melhores, porque o Santa Clara treina em campos de escolas, com aulas de educação física a decorrer ao lado. Está prevista a construção de um campo de treinos para a equipa?
É fundamental, num cenário de 1ª Liga, profissionalizar as infraestruturas e as condições de treino. Temos de agradecer ao Governo Regional o apoio que nos deu, em termos de campos de treino, mas é óbvio que num cenário de 1ª Liga é difícil fazer um planeamento ideal quando temos crianças, do 5º ao 12º ano, a praticar exercício físico à volta do campo. Compreendemos a situação, mas é essencial que o Governo compreenda também que num cenário de 1ª Liga terá de haver um outro conjunto de infraestruturas, nomeadamente na parte envolvente do Estádio de São Miguel, pelo menos com mais um campo relvado, para que possamos trabalhar com tranquilidade e profissionalismo. E, acima de tudo, que acho que é o mais importante, é poder também libertar todo aquele espaço escolar para as crianças que estão na escola. Assim elas estão bem e nós também poderemos trabalhar com calma e tranquilidade perto do Estádio de São Miguel.

O Carlos vai continuar como treinador do Santa Clara?
Temos um jogo com o Académico de Viseu, vamos acabar o campeonato e depois vamos comer um peixinho grelhado, beber um bom vinho e havemos de falar do futuro. Agora é terminar o campeonato e depois, com calma, falamos sobre o futuro.

Mas gostavas que ele continuasse?
Vamos comer um peixinho grelhado, beber um bom vinho e acabar o campeonato [risos]. Depois logo vemos.

Carlos Pinto, que chegou ao Santa Clara em 2016/17, proveniente do Paços de Ferreira, sempre apontou a subida de divisão como o objetivo principal do clube

Carlos Pinto, que chegou ao Santa Clara em 2016/17, proveniente do Paços de Ferreira, sempre apontou a subida de divisão como o objetivo principal do clube

EDUARDO COSTA/LUSA

Falou-se muito do Carlos durante a época, porque ele só tem nível 2 de treinador e é necessário o nível 3 para estar na ficha de jogo da 2ª Liga...
[interrompe] O Carlos é um grande homem, um excelente profissional, que consegue ter aquilo que é uma personalidade forte, de líder. É uma pessoa extremamente competente e terá um futuro brilhante pela frente, por aquilo que é, por aquilo que demonstra, pela sua capacidade de trabalho. De alguma maneira, a certa altura, tentaram procurar apontar ao Carlos Pinto uma cruz para o que se andava a passar no futebol. Como se sabe, a questão do curso do Carlos não é uma situação única, há ene exemplos no futebol português de treinadores assim. Tínhamos o caso do Pepa, do Petit... E pronto, lembraram-se do Carlos Pinto e de repente já era o Carlos Pinto a ter de pagar por todo o mal que existe por aí. Nós nunca abandonamos um dos nossos e sempre estivemos ao lado do Carlos, porque vimos que havia lá valor, competência, trabalho e humildade. E a verdade é que a prova está aí: subimos à primeira divisão com o Carlos Pinto e só temos de lhe agradecer tudo o que ele acrescentou e acrescenta ao futebol, principalmente ao Santa Clara e aos Açores.

É difícil arranjar treinadores e jogadores para uma ilha?
O Santa Clara é um clube cumpridor, que recebe bem e, felizmente, nestes últimos três anos, o oceano que nos separa de Portugal continental não tem sido um obstáculo, porque as pessoas gostam de estar envolvidas neste projeto, na nossa marca, e sabem bem o que é o Santa Clara e os Açores. Para nós não há um obstáculo, há, de certa maneira, um estímulo a que as pessoas queiram fazer parte do percurso do Santa Clara e dos Açores.

O plantel também tem uma mão cheia de jogadores açorianos. É uma aposta para continuar?
Faz todo o sentido, porque existe muito talento regional aqui. Agora, há que saber encontrá-lo, desenvolvê-lo e potenciá-lo. Isso só se conseguirá com um conjunto de infraestruturas, porque não basta haver matéria-prima - isso há muita, há muitos atletas açorianos de qualidade -, é preciso que a região entenda que tem de dotar os Açores de um conjunto de infraestruturas. Já lançámos o desafio de avançar com um centro de apoio ao atleta açoriano, que funcionaria como uma academia, o que nos permitiria, num futuro que queremos que seja próximo, potenciar o talento existente. E, quem sabe, encontrar por aí o novo Pauleta, que ele está para aí escondido.

O capitão Pedro Pacheco é um dos jogadores do Santa Clara que nasceu e cresceu em São Miguel

O capitão Pedro Pacheco é um dos jogadores do Santa Clara que nasceu e cresceu em São Miguel

EDUARDO COSTA/LUSA

Para a próxima época é preciso aumentar muito o orçamento? Falamos de que valores?
Nós em termos de custos... Basicamente vamos ter o mesmo: pagamos as mesmas viagens, pagamos o mesmo alojamento, a mesma estadia, os mesmo custos de alimentação. A única rubrica que sofrerá um aumento, porque é necessário que assim aconteça, é a rubrica dos custos salariais. Obviamente temos de ir buscar ainda mais qualidade e isso tem um custo. É isso que procuraremos fazer, dando seguimento ao trabalho de consolidação financeira, continuando o nosso projeto de aproximação a todos os açorianos e a quem gosta do Santa Clara e dos Açores. Queremos também avançar para um projeto que permita ao Santa Clara chegar aos mais de dois milhões que estão na diáspora, pelo que vamos avançar para uma viagem aos EUA e ao Canadá, nos próximos meses, para claramente aproximar o Santa Clara e os Açores da diáspora, porque eles adoram futebol. E acima de tudo temos de ter os pés bem assentes na terra para aquilo que é a consolidação financeira e aquilo que queremos que aconteça por muitos anos: ter o Santa Clara na 1ª Liga por muitos anos.

Então agora é preciso encontrar o novo Clayton?
Ó Mariana, sinceramente não digo encontrar o novo Clayton, porque existem muitos atletas açorianos de qualidade. Temos um bom departamento de scouting e relembro que vendemos o Hamdou Elhouni, um atleta líbio, ao Benfica, e temos feito boas vendas. É óbvio que numa montra de 1ª Liga existe mais visibilidade. A montra é mais vista, o atleta pode mostrar-se melhor e tenho a certeza que até nisso vamos conseguir melhores resultados financeiros, potenciando os nossos atletas.

Por falar em aproximação aos adeptos, este ano não houve transmissões televisivas por parte da SportTV a partir do Estádio de São Miguel. Porquê?
Tal deveu-se ao facto de não existir um carro de exteriores na região autónoma dos Açores. Não foi por falta de vontade da SportTV, porque a SportTV sempre foi - e esperamos que continue a ser - um parceiro fundamental e estratégico do Santa Clara. Gostava que isso ficasse registado, porque nós só temos de agradecer ao Joaquim Oliveira todo o apoio que deu ao Santa Clara e aos açorianos ao longo destes anos. É óbvio que num cenário de 1ª Liga esse assunto já irá ficar resolvido e isso irá beneficiar a região, com a vinda de um carro de exteriores. É também importante que os operadores televisivos tenham em atenção que nós temos dois milhões de espectadores que nos vão passar a acompanhar na diáspora. Penso que haverá poucos clubes em Portugal, tirando os três grandes e o Braga, que tenham um potencial tão grande de espectadores como o Santa Clara, que tem estes adeptos nos EUA e no Canadá. Isso é um potencial enorme que queremos explorar e temos consciência que quem opera os direitos televisivos terá isso em consideração quando formos negociar o próximo contrato.

Para acabar, Rui: prometaram que iam subir o Pico se subissem à 1ª Liga. A viagem já está marcada?
Já está tudo agendado para terça-feira. Já comecei a fazer o aquecimento, a tentar correr um bocadinho, que já não faço exercício há muito tempo, e já tenho as sapatilhas prontas. Com maior ou menor dificuldade, vamos subir o Pico e pôr as bandeiras dos Açores e do Santa Clara lá no topo. Vai a equipa toda e ainda vamos levar uma comitiva de jornalistas, que também têm de pagar pela promessa [risos], e os simpatizantes que queiram ir connosco nessa viagem. E, se quiseres vir, Mariana, também estás convidada [risos].