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Guedes, o herói da Taça: “Ninguém gosta de fazer o seu trabalho e levar porrada. Esta é uma profissão desgastante em termos psicológicos”

Alexandre Guedes bisou no Jamor e foi eleito o herói da final da Taça de Portugal. Aos 24 anos, confessa que foi o jogo da sua vida, tanto mais que a Taça foi ganha pelo modesto Aves, o clube que lhe estendeu a mão após ter sido dispensado da equipa B do Sporting e de ter sido relegado para a bancada no Reus. Foi para a Academia dos leões aos 11 anos, seguindo as pisadas de Figo e Ronaldo, jogadores que admirava. Pesa-lhe a consciência quando não deixa tudo em campo, prefere brincar com os filhos a assistir a programas de futebol com os quais não aprende nada e defende medidas mais duras para dar segurança aos jogadores

Isabel Paulo e Rui Duarte Silva

Alexandre Guedes com a Taça de Portugal conquistada pelo Aves frente ao Sporting. O avançado português marcou os dois golos que deram a vitória à sua equipa (2-1)

Rui Duarte Silva

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Quando entra de férias?
Deviam ter começado segunda-feira, mas com os pedidos de entrevistas entretanto adiei-as, que isto também faz parte do trabalho.

Vai para onde?
Em princípio, para o Algarve, com a família. Tenho dois filhos pequenos, dois rapazes, um de três e outro vai fazer dois anos, e não convém estar a ir com eles para fora do país.

É natural de Gaia. Onde começou a jogar?
Aos sete anos, fui para o São Félix da Marinha e com nove tive a oportunidade de ir para o Sporting, mas só fui viver para Lisboa aos 11 anos. Durante dois anos ia jogar ao fim de semana e treinava em Gaia. Os meus treinadores faziam os relatórios dos treinos durante a semana. A seguir mudei-me para a Academia de Alcochete.

Foi difícil a separação da família tão cedo?
No primeiro ano, os meus pais e a minha irmã iam visitar-me todos os fins de semana. Depois foram reduzindo as visitas, que ainda era muito dinheiro na altura.

Nunca pensou em desistir e voltar para casa?
Quando somos pequenos e corremos atrás de um sonho, esquecemos tudo. Jamais pensei desistir.

Como surgiu o convite para ir para Alvalade?
Não me lembro. O meu pai conta que entraram em contacto com o São Félix depois de me terem visto jogar contra o Boavista. Tinha feito dois golos e fomos campeões regionais. Fui fazer uns testes nas captações do Sporting e o meu pai perguntou-me – não me disse para ir – se queria ir. Disse logo que sim.

A família é sportinguista?
Não. O meu pai e a minha irmã são benfiquistas, a minha mãe portista. Mas todos reconheciam que o Sporting tinha uma excelente escola, que já tinha formado o Figo, o Cristiano Ronaldo...

Eram os seus ídolos?
Eram. Ajudou a decidir-me. Gostei, foi uma experiência nova. E os meus pais também nunca se arrependeram de me terem deixado ir para lá...

Não fazia asneiras...
Algumas. Toda a gente faz asneiras. Mas aprendi muito lá. A pessoa que sou hoje deve-se muito a essa experiência.

Muita disciplina?
Tinha de ser. Ou havia castigos.

Como por exemplo?
Uma vez cheguei atrasado um minuto a uma reunião e o senhor que tomava conta de nós disse-me: “Um minuto atrasado, não foi? Vais escrever mil vezes 'nunca mais chego atrasado a uma reunião'. Tens uma semana para me entregar isso”. Na altura, nas aulas nem estava concentrado, mas a escrever 'nunca mais chego atrasado a uma reunião'. Quem não se portasse bem no refeitório, tinha de ir buscar os tabuleiros dos outros e guardar no sítio. Eram castigos assim. Para nós eram pesados, éramos muito pequenos.

Alexandre Guedes cumpriu a sua terceira época no Aves, depois de ter passado dois anos nos espanhóis do Reus

Alexandre Guedes cumpriu a sua terceira época no Aves, depois de ter passado dois anos nos espanhóis do Reus

Rui Duarte Silva

Eram muitos na academia?
Chegámos a ser 50. Dependia se havia muitos jogadores de longe.

Quem foram os seus treinadores? Qual o que mais o marcou?
Muitos. Todos deixaram alguma coisa. O mister Luís Dias e o mister Abel [Ferreira], que está no Braga. Ele chegou a treinar connosco nos juniores quando se lesionou. O Sá Pinto era o treinador, que depois subiu à equipa principal, e o mister Abel ficou como nosso treinador. Ficámos amigos, de vez em quando falo com ele, agora não tanto porque somos adversários.

Esteve no Sporting oito anos...
Comecei nos infantis e fui até à equipa B.

Saiu por vontade própria?
Houve umas confusões na altura. Havia muitos jogadores na minha posição, alguns melhores do que eu, e sabia que não ia ter muitas oportunidades de jogar. Optei por outro rumo e segui para Espanha, para o Reus. As coisas não correram tão bem bem como queria e vim parar ao Aves, o clube que me estendeu a mão.

O que correu mal no Reus?
Estive lá um ano e meio. Na primeira época jogava, depois houve uma reviravolta com o aparecimento de investidores e mudou tudo. Queriam subir à II Liga, vieram muitos jogadores novos e deixei de jogar. O pior castigo para um jogador é ficar parado e eu nem convocado era. Na altura era colega do Rúben Semedo, que também não era convocado.

Ele era rebelde? Metia-se em confusões?
Não, nada disso. Fala-se demais. Ele não é assim como pensam. Ele estava emprestado pelo Sporting, regressou e Jorge Jesus deu-lhe oportunidade de jogar. Eu estava lá em definitivo e tive de dar um passo atrás para dar dois à frente. Vim para o Aves fazer a minha vida.

Foi eleito o melhor jogador da Taça de Portugal. Foi o jogo da sua vida?
Até agora, foi sem dúvida o jogo da minha vida. Ganhar uma Taça de Portugal e marcar dois golos é algo que ficará na minha memória para o resto da vida. Não sei se voltarei a jogar uma final da Taça, é especial por ser numa equipa que não era favorita. É o momento mais alto da minha carreira.

Alexandre Guedes foi formado no Sporting mas em 2013/14, já na equipa B, foi vendido aos espanhóis do Reus

Alexandre Guedes foi formado no Sporting mas em 2013/14, já na equipa B, foi vendido aos espanhóis do Reus

NurPhoto

José Mota disse que foi um jogo fácil de preparar porque a motivação era grande. Como foram os dias que antecederam a final?
Fomos para Peniche na quarta-feira e no sábado fomos para Lisboa treinar no Jamor. Foram dias normais, de treinos a sério. E diversão, quando podíamos. Fizemos o que o mister pediu. Fui para o campo, como sempre, disposto a dar o meu máximo, que é isso que me faz ganhar a vida. Não gosto de ir para casa pensar que podia ter dado mais. Pesa-me na consciência não dar o máximo. Dou tudo o que posso.

De manhã foram dar um passeio pela marginal e o treinador disse que muita gente vos desejou sorte...
Em Lisboa, os benfiquistas estavam do lado do Aves e davam-nos força. E alguns que nos animaram seriam do Aves.

O que vos disse o treinador antes do jogo?
Para desfrutar, que era um momento raro no futebol e que para alguns de nós talvez não houvesse uma segunda vez. Se déssemos tudo o que tínhamos, a Taça seria nossa. Foi essa confiança a chave do sucesso.

E ao intervalo, a ganharem por 1-0, o que vos disse no balneário?
Para manter a calma, que estávamos a fazer um excelente jogo. Marcámos o segundo golo e depois fizemos o que sabemos fazer bem: defender. E trouxemos a Taça para Vila das Aves.

Sem retirar mérito ao Aves, a intranquilidade da equipa do Sporting ajudou à vitória?
Apesar da crise, foi um jogo bem disputado, eles foram ao jogo por decisão deles. Não se pode dizer que foi sorte nossa, foi mérito e trabalho. Se calhar para eles até fez bem não treinarem alguns dias. Foi a equipa da Liga que fez mais jogos e depois de uma época tão desgastante ficar dois ou três dias a descansar e a recuperar até pode ser melhor. As agressões abalaram os jogadores, claro, mas não é por aí que perderam.

Também acha, como José Mota, que o Aves foi abafado pelos acontecimentos do Sporting? Sentiu-se português de segunda?
Sentimo-nos esquecidos. Um clube como o Aves chegar ao Jamor tem ainda mais valor. Mas não foi isso que nos impediu de sonhar e trazer a Taça para cá. Se calhar até nos ajudou um pouco. Estivemos tranquilos. Durante o estágio quase nem vimos televisão. Jogámos cartas, consola, conversámos e pouco se falou do que se estava a passar. Chegámos ao jogo com a cabeça limpa.

Alguma vez pensou que poderia acontecer em Portugal um episódio de violência como o de Alcochete?
O tempo passa e as coisas mudam. No tempo que estive no Sporting as coisas eram muito rígidas. Tenho a certeza absoluta que nunca tal iria ocorrer. Agora não sei o que se passa, pois não tenho tido contactos com quem lá está. Mas nunca imaginei ver tamanha violência em relação aos jogadores, que fizeram uma boa época comparativamente há alguns anos. Venceram a Taça da Liga, foram à final da Taça de Portugal e quase ficaram em segundo lugar na Liga.

O clima de intolerância assusta-o?
É um bocado assustador. Nenhum jogador gosta de estar a fazer o seu trabalho e levar porrada. Estamos sujeitos a críticas e até insultos, mas ultrapassou-se todos os limites.

Alguma vez se sentiu ameaçado?
Não. Ainda sou novo, nunca assisti a nada assim. O futebol português precisa de medidas mais duras para dar mais segurança aos seus profissionais.

A que se deve o crescendo de violência?
A pessoas que não se interessam muito por futebol, que assistem de vez em quando e criticam tudo e todos sem saberem o que os jogadores passam no dia a dia. É uma profissão desgastante em termos psicológicos. No nosso caso, lutar uma época inteira pela permanência é duro. O desgaste é a redobrar. O facto de o Sporting ter perdido com o Marítimo não agradou aos adeptos, embora nada justifique as agressões.

Assiste aos programas de comentário sobre futebol?
Não. Jogo futebol por gosto, amo esta profissão, mas na televisão só gosto mesmo de ver finais de competições ou um ou outro jogo de clubes como o Real Madrid, Barcelona. Os comentadores dizem sempre as mesmas coisas, sempre os mesmos a falarem e não se aprende nada. Prefiro aproveitar o tempo para estar com a família e brincar com os meus filhos. Gosto de jogar com eles, passear. Sou muito caseiro, gosto de estar na minha, de jantar na minha sogra e com os meus pais e irmã.

Esta Taça foi a primeira conquistada por Alexandre Guedes, 24 anos, enquanto jogador sénior

Esta Taça foi a primeira conquistada por Alexandre Guedes, 24 anos, enquanto jogador sénior

Rui Duarte Silva

Tem algum passatempo?
Jogar consola, mas com filhos pequeninos não tenho muito tempo. Às vezes jogo, dou-lhes um comando sem fios e eles pensam que estão a jogar, todos contentes.

Já reviu o jogo da Taça?
Para ser sincero, vi um resumo rápido de três minutos. Só chegámos domingo às 4 horas da manhã, e a casa, em Gaia, às 6h15. Adormeci às 7h. Acordei às 11 h, fiquei com os meus filhos que já não estava com eles há quase uma semana. Depois foi só atender o telefone às pessoas que me davam os parabéns e a seguir fomos para a Câmara de Santo Tirso, e houve jantar de equipa. Cheguei depois das 2h da manhã, tentei ver o jogo mas estava cheio de sono.

Já vos explicarem por que razão não vão à Liga Europa?
Não sei o que se está a passar. O presidente disse ontem [segunda-feira] que os papéis estavam em ordem. Agora é com a Federação.

Não ir a Liga Europa é um duro golpe.
É lógico que todos gostaríamos de ir. Se não formos, vamos trabalhar para tentar na próxima época. Será um sonho adiado.

A Taça deu direito a prémio? Já sabem quanto?
Na altura, o presidente disse que se ganhássemos íamos ter prémio. Mas depois com a euforia toda, com a festa, não nos comunicaram nada. Claro que contamos receber.

O Quim vai ficar?
Ele tinha dito que queria acabar a carreira, mas agora que ganhou a Taça não sei. Ainda não falei com ele.

Como é a relação dos mais novos com o veterano da equipa, com 42 anos? Dá conselhos?
É um jogador de que toda a gente gosta. Apesar de toda a sua experiência e currículo é muito humilde. Dou-me muito bem com ele, costumo ficar com ele no quarto. Às vezes dá conselhos, mas não gosta muito de falar. É muito reservado. Fica no seu canto e sabe conquistar os mais novos.

O Paulo Machado é o grande animador da equipa? Houve karaoke na viagem de regresso?
É o grande DJ. Houve karaoke, grande festa, que não é todos os dias que se ganha uma Taça de Portugal.

Tem dois anos de contrato. Se surgir uma oportunidade gostava de sair, jogar no estrangeiro?
Tenho contrato para cumprir, gosto de cá estar. Não estou a pensar ir para lado nenhum. E se for vão ter de pagar bem que não esqueço quem me deu a mão.