Euro 2016

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Ameaças, greves, bloqueios, cheias. Bem-vindos ao país do Euro

A poucos dias do arranque da competição, a França está um marasmo, engolida num mar de constetações sociais e de questões de segurança

Marchons, marchons

Foto DAMIEN MEYER

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Ameaças terroristas, estado de emergência, greves nos transportes e bloqueios de refinarias e de estradas contra a reforma da Lei do trabalho e, nos últimos dias, espetaculares e dramáticas inundações em toda a região de Paris e na zona centro do país … A poucos dias da abertura do Euro2016, as autoridades tentam tranquilizar franceses, turistas e adeptos e garantem que o torneio de futebol “vai correr bem”.

Mas nunca uma competição desportiva internacional deste género decorreu num ambiente de tanta confusão e tensão.

As diversas equipas nacionais têm proteção especial devido às ameaças terroristas e, por causa das greves e dos bloqueios, foram obrigadas a delinearem planos alternativos para as suas deslocações em França. Pelo seu lado, os fãs que desejem assistir a todos os jogos das suas seleções terão certamente muitos problemas nas suas viagens no país porque algumas centrais sindicais continuam a apelar a greves nos transportes e a manifestações e marcaram uma nova jornada nacional de luta para o próximo dia 14, data do primeiro jogo de Portugal, em Saint-Étienne.

O braço de ferro dos sindicatos com o Governo vai prosseguir nos próximos dias e as negociações em curso para por termo ao conflito ainda não resultaram em qualquer aparência de acordo. Os grevistas continuam a pedir a retirada da proposta de reforma do Código do Trabalho e não se deixam sensibilizar pelos apelos das autoridades a um apaziguamento designadamente neste período especial em que as dificuldades de circulação se agravaram com as fortes chuvadas e as inundações em diversas cidades. Os níveis das águas nos rios começaram a baixar lentamente neste fim de semana, mas o regresso à normalidade será longo porque, findas as cheias, esta semana vai ser necessário limpar vastas zonas e reparar os estragos causados pelas águas, designadamente nas estradas.

Com o país em estado de emergência desde os atentados de novembro do ano passado, os temporais e as greves caíram no pior momento para a França, existindo indicações de que muitos turistas e adeptos estarão a anular as viagens que tinham programado. O conflito em torno da polémica Lei laboral agudizou-se e os sindicatos fizeram mesmo orelhas moucas aos pedidos do Governo para eles suspenderem o movimento de greve nos transportes ferroviários em gesto de solidariedade com as vítimas das inundações. A greve dos maquinistas dos comboios manteve-se até esta segunda-feira e tudo leva a crer que o braço de ferro vai continuar porque o Governo garante que não retirará a proposta de reforma.

Com efeito, as previsões apontam para a agudização do conflito nos transportes porque alguns sindicatos, como a CGT, próxima dos comunistas, e a FO, de reputação moderada, apelam à continuação de greves em todos os ramos dos transportes públicos, incluindo na rede do metropolitano e na aviação civil, bem como a que prossigam bloqueios de refinarias e de depósitos de carburantes.

Foto DAMIEN MEYER

Os sindicalistas acham que é o momento de radicalizar o movimento porque o Governo está sob pressão devido ao Euro e pretendem dessa forma ter mais peso na mesa das negociações. A nova legislação, que o Governo pretende aprovar por decreto por não ter atualmente maioria na Assembleia Nacional, prevê maior flexibilidade nos despedimentos e no pagamento das horas extraordinárias. Nestes dois pontos, o executivo do primeiro-ministro, Manuel Valls, já começou a ceder, mas os sindicatos - e até algumas dezenas de deputados socialistas - exigem também a retirada do artigo 2 que prevê a chamada “inversão da hierarquia das normas”, ou seja, que os acordos em empresas se sobreponham aos feitos por ramo de atividade ou mesmo à lei.

O prosseguimento do conflito tem consequências na segurança em torno do Euro2016, agudizando o clima de tensão porque o gigantesco esforço de mobilização das forças policiais terá também de ter em conta, além da vigilância antiterrorista e dos movimentos dos hooligans, o controlo de manifestações sindicais que geralmente degeneram em momentos de grande violência.

As greves continuarão nos próximos dias e esta tensão social terá o seu ponto mais alto durante as manifestações de 14 de junho, já em pleno Euro2016. Nessa data, sindicatos e Governo farão o ponto da situação e poderá então perceber-se quem vencerá o braço de ferro. Entretanto, a contagem decrescente para a abertura do campeonato de futebol vai decorrer, esta semana, neste estranho clima de aguda tensão e com as forças de segurança em estado de alerta máximo.