Euro 2016

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“Se a seleção jogar à Atlético de Madrid e ganhar o Euro, porque não?”

Danilo fala do 4x4x2, do 4x3x3, de jogar a trinco (que gosta) e a central (que gosta menos) mas sempre zangado – e de um tipo que gostaria de encontrar no Europeu

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Quando Pedro Martins, então treinador do Marítimo, lhe disse que tinha de ganhar "nervo", Danilo Pereira concordou e decidiu que ia melhorar. Dois anos depois, passou a indiscutível do FC Porto e vai estrear-se numa fase final de uma grande competição com a seleção, aos 24 anos. Sempre focado em fazer melhor e, especialmente, em ganhar – o Euro, bem entendido. Seja lá de que maneira for.

É muito difícil para um jogador habituar-se ao modelo de jogo da seleção, depois de passar tanto tempo no clube? É uma adaptação que tem de ser muito rápida. Vimos de conceitos diferentes, de clubes diferentes, e cada um tem a sua forma de jogar, mas na seleção temos de nos adaptar. O selecionador faz-nos acreditar nas suas ideias para que isso aconteça.

No FC Porto jogas em 4-3-3, na seleção em 4-4-2. Faz-te diferença? Faz um bocado de diferença. Os métodos são diferentes, o treinador é diferente, mas a seleção também é um espaço onde se consegue trabalhar bem e isso supera-se.

É um espaço se calhar onde há mais emoção e menos racionalidade, menos tática, digamos assim? Tem sempre a sua componente tática, mas claro que a emoção é muito grande na seleção, porque estamos a representar uma nação e isso mexe com o nosso íntimo.

Imaginavas que um dia ias ser titular de um Europeu? Imaginava. Mas sabia que tinha de trabalhar muito para poder chegar aqui onde estou. Penso que todos os miúdos quando são ainda de formação pensam um dia chegar à seleção nacional e jogar competições como esta.

O miúdo vai pensar 'eu quero jogar na seleção' ou 'eu quero jogar no Barcelona'? Bem, para chegares à seleção tens de estar bem no clube e estar em bons clubes. Penso que primeiro tens de estar num clube que possa promover a tua chamada à seleção. Mas com certeza que o miúdo vendo a sua seleção jogar vai é pensar "eu quero chegar à seleção" e não pensa no clube.

Tiveste uma boa época em termos individuais, mas coletivamente a época no clube foi má. Como é que um jogador faz esse balanço? É complicado, porque queremos sempre que o nosso clube tenha o maior sucesso. Estando eu bem fico feliz, mas não por completo, porque o meu clube não conseguiu atingir os objetivos.

Quem vais querer ver no Europeu? (ri-se) Oh, o jogador que queria ver no Euro não vai estar. É o Pirlo. Sem ser ele não há assim mais nenhum.

O Pirlo é a tua referência? Não é que seja a minha referência, mas é um jogador que admiro muito.

Tu também tens um ar muito calmo, como o Pirlo. Não, agora não me considero assim muito calmo no jogo. Antes era. Mas não conseguia ser agressivo e calmo ao mesmo tempo, então decidi que o meu futebol tinha de ser mais emotivo, mais dentro do jogo. Estando calmo não consigo estar ligado. Nestes últimos anos tenho estado mais efusivo.

Quando é que aconteceu essa mudança? Decidi mudar porque tinha um treinador, o Pedro Martins, que dizia que eu precisava de nervo (risos). Então desde essa altura decidi que tinha de ser mais agressivo e mais... não sei, zangado no campo, para poder demonstrar mais agressividade. Acho que funcionou.

Falas na parte defensiva? Com bola talvez não. Não, com bola já é diferente, porque a perspetiva das coisas é diferente. Eu estando sem bola consigo orientar os meus colegas, consigo ver o que é que se passa, mas com bola tenho de estar focado na bola, nos meus jogadores e no adversário também, já não é tanto para estar mais agressivo.

Gostas de ser central? Não gosto muito (risos). Mas se me puserem a jogar a central cumpro aquilo que me pedirem, sem problemas.

Fernando Santos diz que quer ganhar o Euro. E tu? Sim, não há outro pensamento. Penso que todas as seleções que entram num campeonato europeu têm de ter essa mentalidade de ganhá-lo, se não não faz sentido estar num campeonato tão grande como este.

Interessa-te a parte estética do jogo ou interessa-te mais ganhar? Quanto à parte estética, se formos ver, o futebol hoje em dia tem mudado muito. Nem sempre aquilo que os nossos olhos vêem quer dizer que seja o futebol mais agradável de ver. O Atlético de Madrid não é tão agradável de se ver, mas é eficaz. Por isso se a nossa seleção tiver de jogar assim e ganhar o Euro, por que não?