Euro 2016

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Um Euro com 24 equipas. Porquê? Dinheiro

São 51 jogos a passar na televisão e muitos milhões a trocar de mãos. Este será um Europeu de recordes, mas será que vale a pena?

Luís Marçal/SIC

FRANCK FIFE/GETTY

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A decisão de alargar para 24 o número de seleções finalistas dos Europeus de Futebol é tomada em setembro de 2008. Embriagados pelo lucro recorde da edição desse ano na Áustria e Suíça (700 milhões de euros), Platini e os seus parceiros do Comité Executivo escancaram as portas do torneio a quase meia Europa. Sim, quase meia Europa. Senão, veja-se: a UEFA reúne 54 seleções, são 24 as que vão jogar em França a partir de 10 de junho. Ou seja, 45% das seleções que participaram na qualificação marcam presença no Euro 2016. Nos Mundiais, a proporção baixa para 15%. A FIFA tem 209 membros, mas só 32 países tiram bilhete nas fases de apuramento. E 13 dessas seleções são europeias… Ora, não seria suposto que apenas uma elite estivesse na competição que decide o melhor do continente mais forte do futebol planetário? Seria. Mas o dinheiro não deixa. Ou melhor, a ganância da UEFA por mais dinheiro não deixa.

É que alargar os Europeus de 16 para 24 seleções implica ter mais 20 jogos para vender. E não falo do aumento do número de ingressos nos estádios. Esse lucro extra é marginal. Falo, isso sim, do bolo dos direitos televisivos. Em vez de 31 partidas são 51 a aguçar o apetite dos operadores de televisão um pouco por todo mundo. Muitos desses 20 jogos a mais são entre e com seleções de segunda e terceira linha? Pois são. Mas não interessa. Porque também são parte da massa do tal bolo deste Euro 2016 em França que, na prática, cresceu 65% em relação ao de 2012 na Polónia e Ucrânia. Sim, porque a UEFA não vende os Europeus aos retalhos. Quem quer comprar, tem de comprar tudo, não pode apenas comprar os melhores jogos. E sejamos realistas. Esquecemos a América do Norte e nenhum outro produto vende mais e melhor que o futebol na televisão mundial. Nenhum.

Mas porquê falar em ganância da UEFA? Em teoria, com um lucro maior, vai haver mais dinheiro para desenvolver o futebol onde, por exemplo, os miúdos ainda jogam em pelados ou com bolas defeituosas. Será que sim? Será que, lucrando mais, a UEFA vai repartir melhor? Duvido. Desconfio, mesmo. Basta olhar para o já anunciado montante a distribuir pelas seleções finalistas para alicerçar a tal dúvida, justificar a tal desconfiança. Vão ser 300 milhões de euros. Esqueçamos que haverá prémios de desempenho a cavar diferenças entre os encaixes financeiros de cada país. Vamos apenas imaginar que esses 300 milhões seriam repartidos de forma igual pelas 24 federações. Cada uma receberia 12 milhões e meio. Se essa mesma “hipótese meramente académica” tivesse sido aplicada no Euro 2012, cada federação representada na Polónia e/ou Ucrânia teria recebido 13 milhões e meio. Mais 1 milhão que agora em 2016. Mas há ainda uma outra conta a sustentar que não é descabido falar em ganância da UEFA. Os milhões a distribuir pelos países finalistas passaram então de 215 em 2012 para 300 em 2016. Um crescimento de 40%. Ora, lembra-se de quanto cresceu o tal bolo dos direitos televisivos de 2012 para 2016? Não vale a pena subir os olhos umas linhas. Eu repito: 65%.

E no meio de tantos números, como fica o futebol? Na mesma. Ou pior. É que o alargamento para 24 seleções nem sequer foi capaz de garantir a única intenção competitiva que lhe esteve na génese: a presença de todas as potências do futebol europeu na fase final. A Holanda não vai a França. Pode ser que me engane. O futebol também tem dessas graças. Pode ser que por lá apareça uma surpresa de onde menos se espera. Pode ser. Teria a sua piada. Desde que não fosse a Islândia…