Euro 2016

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Baía, a má-fé e a maldade de Scolari

No segundo episódio do “Na Gaveta” fala-se das convocatórias mais estranhas do passado

Adriano Nobre

“Então, mas eu ganho tudo e não vou ao Euro?”

João Carlos Santos

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A convocatória portuguesa para o Euro2016 terá sido provavelmente uma das menos discutidas da história das convocatórias nacionais para Europeus. Entre jogadores lesionados (Bernardo Silva ou Coentrão), sem ritmo (Tiago) ou longe dos seus tempos áureos (Meireles ou Veloso), não restava muito por onde criar polémica com as 23 escolhas finais de Fernando Santos.

Como em cada adepto há um selecionador de bancada, haverá sempre quem defenda que fazia mais sentido levar André Silva do que Éder, quem não perceba porque é que Carriço não conta para este totobola ou quem desconfie que o Clésio só perdeu o lugar para o Cédric por causa de empresários. Mas qualquer questão que hoje se coloque sobre as opções de Fernando Santos é mera brincadeira de crianças face a polémicas já vividas noutras convocatórias portuguesas.

A maior de todas ocorreu em 2004, quando Scolari decidiu fazer de Vítor Baía um exemplo de não se sabe bem o quê. Meses depois de assumir o cargo de selecionador português (na ressaca da triste participação lusa no Mundial2002), Scolari começou por não integrar o guarda-redes nas suas primeiras convocatórias para jogos amigáveis. O 'caso' foi crescendo à medida que as convocatórias se sucediam e que se aproximava o Euro organizado em Portugal. Até que foi oficialmente assumido por Scolari: os seus guarda-redes seriam Ricardo, Quim e Moreira. O que deixava de fora o titular indiscutível da baliza da seleção na década anterior, o capitão da 'geração de ouro' e o titular dessa época nas redes do FC Porto bicampeão nacional e Campeão Europeu com José Mourinho.

Entre críticas, lamentos e acusações, na altura nunca se percebeu verdadeiramente o porquê da opção. Só muito mais tarde, já longe da seleção, Scolari viria a assumir que fez de Baía um proscrito ao descobrir que o guarda-redes tinha uma personalidade conflituosa. "Ouvi histórias sobre o balneário, sobre liderança, e decidi que não iria convocá-lo", assumiu em 2012 em entrevista à RTP. O assunto ficou tão bem resolvido entre ambos que, volvidos oito anos, Baía ainda sentiu necessidade de dar troco a esta revelação. "Acima de tudo noto má-fé e maldade. É a única explicação que encontro para a minha ausência da seleção naquela altura", reagiu.

Mas a história das ausências polémicas nas convocatórias portuguesas para Europeus não começou com Baía. Em 1984, por exemplo, o 'luvas pretas' João Alves, que na altura era a estrela do Boavista, reagiu de forma azeda à sua ausência da convocatória final da Comissão Técnica formada por Fernando Cabrita, Toni, Morais e José Augusto e criticou publicamente as "coisas esquisitas" que se teriam passado na escolha dos "nomes e clubes" representados nesse Europeu.

Numa convocatória que deixou de fora jogadores como Shéu, António Oliveira ou Humberto Coelho (este último por lesão), outro inconformado nas vésperas do Euro84 foi o defesa benfiquista Pietra. "Olhando para a lista fico com a certeza de que tenho valor mais do que suficiente para ter sido chamado", disse ao jornal A Bola o então jogador de 30 anos, farta cabeleira e lustroso bigode – que nesse ano até tinha participado em 37 jogos pelo Benfica (27 no campeonato, 4 na Taça de Portugal, 4 na Taça dos Campeões e dois na Supertaça) e marcado três golos.

Outras azias que ficaram para a história foram as de Paulo Alves no Euro96, Barbosa e Paulo Madeira no Euro2000 ou Maniche no Euro2008. "Não fiquei chateado por ter ficado de fora do Europeu. Ele tinha toda a legitimidade de levar os jogadores que queria, mas fiquei chateado porque ele tinha-me garantido que eu ia. Quando sai a convocatória, não está lá o nosso nome e passa-se muita coisa pela cabeça. (…) Tive de engolir uma espinha", assumiria Maniche passados seis meses (e quatro anos depois de Baía ter engolido um osso).