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O filho dói-lhe

"O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Há dias assim. Dias em que nada acontece, em que tudo pode acontecer. Dias em que o tempo escorrega devagar, nada para recordar. Cada momento, pura perda de tempo. Mas, de repente, tudo muda - os minutos ficam ansiosos, curiosos. Ganham nova vida, outro alento. Cada instante, atleta queniano a correr com o pensamento colado à meta. São estes os dias que contam, sem véspera nem promessa de manhã seguinte.

Aquele dia foi assim. Vitorino recorda-o como se fosse hoje - a primeira vez que levou o filho à bola. Bem, não foi bem à bola, antes ao café do Abel. Tinha ficado a tomar conta do miúdo, a mulher escrava de um sem número de patroas e ele sem saber como lidar com fraldas e biberões. Um homem não foi feito para essas coisas. Bem que se esforçava, mas não conseguia dar conta do recado. Ainda por cima, o coração saltitava - era dia de jogo grande, Portugal contra a Coreia do Norte.

Foi há quase cinquenta anos, mas é como se fosse hoje. O café do Abel era ainda novidade, local de romaria, altar sagrado em dia de jogo. Tinha uma das poucas televisões do bairro, o pequeno ecrã era luxo reservado aos privilegiados do regime. Sorte de rico. Num país a preto-e-branco, triste e bafiento, era dos poucos divertimentos que Salazar permitia. Emissões controladas a lápis azul, que a liberdade nasce onde menos se espera.

Quando as sopas de cavalo cansado começaram a fazer efeito, Vitorino aproveitou a acalmia, pegou no filho ao colo e apressou o passo até ao café. Por nada deste mundo podia perder aquele jogo. A lotação estava esgotada, lá dentro não cabia nem mais um pensamento. Portugal só tinha olhos para Jaime Graça e Coluna, sobretudo para José Augusto, Eusébio, Torres e Simões. Com jogadores daquele calibre nem precisava de defesa, é tido e sabido que o ataque é a melhor defesa.

Mas naquele dia nada funcionava, parecia que a selecção tinha desaprendido de jogar, estava contagiada pelo sono do menino. Ninguém dava uma para a caixa. Já os “chinocas” corriam como se não houvesse amanhã, ainda não há quem tire da cabeça de Vitorino que aproveitavam a ida à lateral beber água para mudar os jogadores. São todos iguais, era impossível detectar a burla.

Aos vinte e poucos minutos Portugal no tapete, mas eles não abrandavam o ritmo. Velório no café. Vergonha nacional. Foi então que o filho do Vitorino acordou e, para desespero do pai, desatou aos berros. O pessoal torcia o nariz e olhava para o homem com ar zangado, um café não é o poiso ideal para uma criança. Mas a reprovação durou pouco, o choro deve ter acordado o Eusébio. De repente, o Pantera Negra começou a correr, a fazer gato-sapato dos “chinocas”. A cada grito da criança, um novo golo. Nunca um choro foi tão celebrado.

- O miúdo está a dar sorte – disse, às tantas, o Abel.

A plateia registou a feliz coincidência - os Magriços só acordaram quando o miúdo desatou aos berros. Daí em diante, o filho do Vitorino passou a andar de mão em mão, parecia um troféu, a própria taça Jules Rimet. Abel não cabia em si de contente, a proeza teve direito a rodada por conta da casa. A risos e abraços. Alegria rara, na época da outra senhora, nunca havia muitas razões para festejar.

- Bons tempos – a recordação a escorrer pelo ralo do chuveiro.

O país mudou e o tempo apressou-se, corre depressa, mais depressa de que um atleta queniano. O filho do Vitorino cresceu, fez-se homem, tem a sua casa, a sua vida. Mora a dois quarteirões dos pais mas é como se habitasse noutro planeta. Raramente aparece, tão-pouco telefona. A velhice é triste, lamenta Vitorino. Volta e meia, quase jura que os mais novos a confundem com uma doença contagiosa.

- Era tão bom, se ele aparecesse para ver os jogos de Portugal – esperança de pai é sempre a última a morrer.

Às vezes, quando o rei faz anos, aparece. Sempre ao domingo, sempre da parte da tarde, como se a semana só tivesse um dia, uma tarde. Traz um pastel de nata embrulhado no papel da pastelaria da esquina, nunca tenta disfarçar que o mimo é comprado à pressa. Sempre visita de médico, qualquer coisa mais importante à sua espera. Podia poupar as desculpas, lê-se no rosto que é uma maçada, um enorme sacrifício, que aquele desvio na rotina é um peso demasiado grande. O coração de Marcolina sofre sem remédio, fica pequenino, mais pequenino de que quando o filho em criança tinha ataques de gases, é uma dor ainda maior do que o seu par de hérnias mal curadas. A vida não é exercício de contabilidade, é certo, mas um pouco de amor não faz mal a ninguém.

- Era tão bom, se ele viesse ver os jogos de Portugal…

Agora que o Europeu está quase a começar, a imagem do filho não lhe larga o pensamento. Está colada à saudade. De cada vez que recorda as alegrias de 66, fica mais triste, mais desamparado. O filho dói-lhe.