Euro 2016

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A seleção campeã que nunca existiu

Terceiro episódio do “Na Gaveta”, terceira seleção. E esta é história da Jugoslávia, que um dia teve Suker, Prosinecki, Mijatovic e Savicevic todos juntos. Podiam ter ganho o Euro-92, mas nunca o chegaram a jogar

Adriano Nobre

PASCAL PAVANI

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O fenómeno é cíclico. E compreensível. Como “aquela” história de infância que a família faz questão de recordar em tooooodas as noites de Natal, quando chegamos às vésperas de um Campeonato Europeu de Futebol o 'conto de fadas da Dinamarca' em 1992 emerge no espaço mediático e nas conversas de café. “Epá, lembras-te...?”

O feito foi de facto memorável, digno de guião cinematográfico: uma equipa que não tinha sido apurada para uma grande competição internacional, repescada à última hora, acaba por bater todos os grandes favoritos e sagra-se campeã europeia pela primeira vez na sua história. Ainda por cima o sonho cumpre-se com personagens próprias do universo da ficção, como um guarda-redes com o super poder de fazer encolher as balizas quando abria os braços. Van Basten que o diga.

Aquilo que a Dinamarca de Schmeichel fez no verão de 1992 não foi só futebol. Foi outra coisa qualquer. Superação, vontade, determinação, querer e crer. Caíram a Inglaterra e a França primeiro. Caíram a Holanda e a Alemanha depois, respetivamente campeãs da Europa e do Mundo na altura. E os dinamarqueses levantaram a taça. Fez-se História. Mas para que esta história se fizesse, foi preciso cair antes outro pais. Fora dos relvados. A Jugoslávia.

É essa outra face da moeda que fica eternamente na sombra do conto de fadas dinamarquês. A equipa que se tinha apurado para esse Europeu na Suécia e que acabou eliminada por si própria, às mãos da guerra civil em que mergulhou, não era uma equipa qualquer.

O Euro-92 foi o primeiro em que os jogadores tiveram os nomes impressos nas costas das camisolas, mas infelizmente ninguém lá viu escrito Jarni, Stojkovic, Prosinecki, Boban, Pancev, Suker, Susic, Katanec, Savicevic ou Mijhailovic. Estes não eram apenas nomes de uma manta de retalhos territorial. Eram pilares de um símbolo de união na arte de bem tratar a bola, provavelmente a melhor equipa do início da década de 90.

A Dinamarca não lhes resistiu na fase de apuramento. Mas depois, aos poucos, a própria Jugoslávia não se foi resistindo. A última vez que esta “máquina” jogou na sua plenitude foi no antepenúltimo jogo da fase de apuramento, com uma vitória por 7-0 sobre as Ilhas Faroé. Pouco depois disso ocorre o referendo para a autonomia da Croácia, que inicia o progressivo desmembramento do país. E da seleção.

Os últimos dois jogos que carimbam o passaporte para a Suécia já não contam com homens como Ivkovic, Boban, Prosinecki ou Suker, todos de origem croata. Meses mais tarde, já com o apuramento garantido, o goleador Pancev, montenegrino, invoca motivos pessoais para não aceitar a convocatória para o Europeu. Hadizbegic e Bazdarevic, bósnios, também pedem para não ir.

Foi com base nestes factos que se começou a levantar, entre os responsáveis da UEFA, a dúvida sobre o sentido que faria estar no Euro-92 uma seleção que já pouco teria a ver com a que tinha garantido o apuramento. Ainda assim a convocatória fez-se, a equipa viajou para a Suécia e a Panini produziu mesmo a sua caderneta do Euro-92 com a seleção da Jugoslávia. Sim, são eles que estão lá, não os dinamarqueses.

Até que a cerca de duas semanas do arranque da competição, um embargo da ONU à Jugoslávia foi acatado pela FIFA e pela UEFA, o que excluiu de imediato os jugoslavos da prova. “Um escândalo”, clamou Savicevic. “A seleção está representada por todas as repúblicas à exceção da croata, o que prova que estamos unidos”, protestou Stojkovic. Em vão.

A Jugoslávia estava fora. A Dinamarca estava dentro. E preparada para isso, ao contrário da lenda sobre as férias que os jogadores já estariam a gozar: os dinamarqueses não só tinham jogos amigáveis preparados para as vésperas do Europeu, como o seu treinador, Richard Moller Nielsen, assumiu dias antes da decisão da ONU que a Dinamarca estava “100% pronta” para substituir a Jugoslávia. Como bem se viu.