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Diabos Vermelhos: A máquina de colar belgas

No país que é do tamanho do Alentejo e do Algarve juntos cabe uma complexidade que funciona desde o século XIX. Não é só a língua que separa a Flandres da Valónia - são também as raízes, os costumes

Unidos pela diferença

Foto EMMANUEL DUNAND/Getty

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Quando os Diabos Vermelhos entram em campo, a Bélgica deixa de ser flamengos de um lado, francófonos do outro e Bruxelas ao meio. O nome do país ecoa nos estádios e nas ruas com a convicção de quem acredita que a seleção nacional se transformou numa potencial candidata ao título europeu.

“Agora as pessoas estão convencidas da qualidade da equipa, agora é mais fácil apoiar a Bélgica” diz à SIC e ao Expresso Filip Joos. O comentador belga de futebol recorda que muito mudou após a qualificação para o mundial do Brasil, uma proeza que o país não conseguia desde 1984. Se a Bélgica participou no Euro 2000 foi por ser organizador, não por se ter qualificado.

A exibição no Brasil marcou a mudança e o Europeu de França dá agora continuidade à crença de que a Bélgica pode surpreender. “Ter uma equipa como a que temos ajuda as pessoas a tornarem-se mais entusiastas”, continua Joos. É o poder do futebol. Durante um mês, desvanecem-se as rivalidades entre o norte e o sul. Até os mais nacionalistas, os que defendem que a Flandres deveria ver-se livre da Valónia, torcem por uma seleção que é comum.

“Se o país se separasse perdíamos o Hazard, o Fellaini, e muitos bons jogadores”, explica o comentador. Se o argumento económico não for suficiente, a seleção nacional é o exemplo que mostra que a Bélgica é mais forte se estiver unida.

“E o que é que fazíamos com o Vincent Kompany?”, pergunta ainda. O jogador de 30 anos não é do norte, nem do sul, é da região de Bruxelas e completamente fluente em duas das línguas oficiais. Desta vez não vai representar o país por estar lesionado, mas não deixa de ser o reflexo dos jogadores que vestem a camisola de um país e não de uma região ou de um idioma.

Já lá vão os tempos – nada distantes – em que o selecionador nacional era criticado se tentasse manter o equilíbrio entre o número de jogadores francófonos e flamengos. Uma escolha impossível e permeável a todo o tipo de criticas, mas Filip Joos garante que o critério passou a ser “a qualidade”.

Já Frédéric Van Deurne, um entusiasta da equipa nacional, conta que quando o selecionador Marc Wilmots foi escolhido para treinar os Diabos Vermelhos, “muitos flamengos falaram do facto de ele ser francófono”. Depois, com os bons resultados, o assunto desapareceu. Para este jovem que tem o francês como língua materna, nas competições europeias e mundiais “a Bélgica está unida” e os jogos são para ver em conjunto.

No país - que é do tamanho do Alentejo e do Algarve juntos – cabe uma complexidade que funciona desde o século XIX. Não é só a língua que separa a Flandres da Valónia, são também as raízes, os costumes.

“Há várias camadas de identidade”, diz Rob Heirbaut. O jornalista da televisão flamenga VRT, lembra as diferenças que existem também na música e na literatura. Há canais de televisão para flamengos e para francófonos. Não há um Partido Socialista: há dois. E o mesmo se aplica a outros quadrantes políticos.

A equipa de futebol “é uma das coisas que os flamengos e francófonos têm em comum”, conta Heirbaut, enquanto descreve uma seleção multicultural. “Muitos deles têm nomes que não soam nada a belga”. Para o jornalista, a equipa onde jogam Romelu Lukaku e Yannick Carrasco mostra um país onde a diversidade é promovida e aceite, e onde “os filhos dos imigrantes podem tornar-se heróis”.

As bandeiras estão nas ruas. As cores – vermelho, amarelo e preto – estão por todo o lado e as empresas apostam forte no marketing. A seleção ganhou patrocinadores e fez subir a febre dos fãs. Mas o fenómeno, alertam todos, é temporário e termina com o último jogo dos Diabos Vermelhos em França.

“O futebol une e unifica mas apenas durante um mês”, avisa Filip Joos. “Se a equipa belga jogar bem, talvez dê à Bélgica um bom “feeling” depois deste ano difícil, com os ataques terroristas”, diz Heirbaut.

O país é complicado de compreender à primeira vista, mas à segunda percebe-se que flamengos e francófonos estão longe do conflito físico e da separação. São diferentes, é certo, cultivam uma espécie de eterna rivalidade, um amor-ódio que ora separa, ora aproxima.

Por enquanto, a seleção nacional é cola que os une.