Euro 2016

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Quaresma é quando este homem quiser

Portugal ganhou à Estónia por 7-0 e houve um herói que reclamou o lugar que era dele - Ricardo Quaresma fez dois golos e deu espectáculo. A ressureição está consumada

Pedro Candeias

Sim, este é um grito de revolta

Foto PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Era uma vez um miúdo com um talento incrível e personalidade a condizer, que não aturava desaforos e calos pisados, e estava determinado a ser futebolista nos seus próprios termos. Seria grande, sim, mas a jogar à maneira dele, porque ele era assim selvagem, orgulhosamente cigano, e a modos que indomável.

Foi por isso que lhe chamaram Mustang quando começou a correr por Alvalade, a enganar os adversários e a sorte que lhe calhara. Depois, ao lado dele, apareceu outro miúdo também ele com um talento incrível e personalidade a condizer, também ele de pelo na venta, também ele determinado a ser futebolista, não apenas um futebolista, mas o futebolista.

Um e outro saíram para grandes clubes, o Barcelona e o Manchester United, praticamente ao mesmo tempo, com os mesmos sonhos, a mesma ambição. O mais velho - um ano e picos mais velho - falhou onde o mais novo acertou e a história de ambos nunca mais coincidiu: Ronaldo transformou-se num dos maiores jogadores de sempre deste jogo coletivo, em Manchester e, depois, em Madrid; Quaresma perdeu-se em Barcelona, achou-se no FC Porto, perdeu-se outra vez no Inter e no Chelsea, reabilitou-se no Besiktas e chegou a ser dado como acabado para a bola no momento em que se decidiu pelo Al Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, uma espécie de Med Club para os atletas pré-reformados.

Quaresma seria um como muitos, uma novela de talento desperdiçado, por ser imaturo, rebelde sem causa - ou, na hipótese mais poética, por ninguém o compreender. E foi então que reapareceu o FC Porto, o clube que ele diz ter aprendido a amar, onde reencontrou amigos e um treinador que, provavelmente, nunca o quis lá. E quando assim é o destino está traçado, apesar dos truques, das trivelas, das assistências, dos quilos perdidos e das juras de amor. Só que o Quaresma que saiu do FCP à segunda não era o mesmo que saíra à primeira. Este estava mais velho e seguro, tornara-se um homem de família, e na Turquia, onde os irreverentes são as estrelas e o mau feitio e o mau génio fazem parte da cultura, Ricardo voltou atrás no tempo. E voltou a tempo de recuperar o que perdera e que era seu por direito: um lugarzinho entre os tipos abençoados com um dom.

Hoje, depois de ter marcado dois golos, assistido Ronaldo para outro, num estádio que lhe era hostil e o aplaudiu, Quaresma chegou-se à frente para ser o segundo avançado desta espécie de 4x4x2 de Fernando Santos. Neste sistema, aparentemente contido, com quatro médios (André Gomes, Danilo, Moutinho e João Mário) e dois vagabundos, tanto ele como o antigo companheiro de Alvalade chegam mais descansados àquela zona onde as coisas acontecem - e eles fazem acontecer. É verdade que o adversário era fraco, praticamente desconhecido, estónios e toinos são palavras que se confundem, mas estes dois e os quatro atrás deles ajudaram a descomplicar um encontro a feijões antes de Portugal rumar a França. É que é em amigáveis como estes que se constrói aquela moral de que tanto de fala na bola.

A moral anda de mão dada com os triunfos e os triunfos de mão dada com a confiança. Por isso, quando entraram Renato e William, sobretudo estes, mas também Éder, Ricardo Carvalho e Nani, a Seleção Nacional continuou a atropelar a Estónia como se todos jogassem juntos há muito, muito tempo, há tanto tempo que já nos esquecemos de como foi o Mundial-2014 - onde não esteve Quaresma.

Muito melhor do que histórias de anjos caídos são as histórias de redenção.