Euro 2016

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Um admirável tempo velho

Próxima escala: Euro-2000. Recordar a mão de Abel Xavier, Nuno Gomes e aquela França de Zidane

Luís Marçal

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Já lá vão 16 anos. Mas ainda me lembro de cada um desses dias como se os tivesse vivido há uma semana.

A viagem portuguesa terminou na meia-final de Bruxelas. Aos pés de Zidane. Ou à mão de Abel Xavier. Como queira. A minha prosseguiu até aquela tarde sufocante de domingo na banheira de Roterdão.

Com Portugal fora-de-jogo, cabia aos italianos impedir um feito raro na história. A França podia juntar o título europeu ao mundial de forma consecutiva. Dominar o futebol planetário de uma assentada. Só tinha acontecido uma vez e pela ordem inversa. Com a RFA de Beckenbauer. Campeã da Europa na Bélgica em 1972. Campeã do Mundo a jogar em casa, 2 anos depois.

O De Kuip estava cheio. Repleto, mesmo. Se a UEFA tinha previsto alguma margem de segurança, naquele domingo 2 de julho não se notava. Eram mais os franceses que os italianos. De longe a longe, lá se viam algumas bandeiras portuguesas. Empunhadas por quem tinha acreditado que o Portugal de Luís Figo seria capaz de bater a França de Zidane. Não foi, mas uma final é sempre uma final e há que aproveitar o bilhete.

E também lá estávamos nós. A equipa SIC nesse Euro 2000 na Holanda e na Bélgica. Eu, o José Fragoso, o Nuno Luz. Os repórteres de imagem Nuno Fróis e João Duarte. Os editores de imagem Paulo Tavares e Mário Martins. O produtor Daniel Sabino. E os técnicos de satélite Francisco Leão e Jorge Castro. 3 dias antes, com a seleção portuguesa, já tinham regressado a casa o jornalista José Manuel Portugal, o repórter de imagem Jorge Miguel Guerreiro, o editor de imagem Francisco Carvalho e a produtora Isabel Paramés.

Entre o estágio português em Chaves e o Euro na Bélgica e Holanda, aquele dia, o dia da final era já o 42º consecutivo fora de casa. Mas eu sentia-me como se fosse o primeiro. Porque nunca podemos perder a consciência que fazer o que fazemos é muito mais do que apenas um trabalho, uma profissão. É também um enorme privilégio. Naquela tarde, eu era um dos 50 mil que estava a ver a escassos metros do relvado uma final de um Campeonato da Europa que centenas de milhões estavam obrigados a seguir apenas pela televisão. E isso é um enorme privilégio. Mesmo sendo trabalho, mesmo sendo a minha profissão. Tive essa consciência nesse dia e acredito que fui sempre capaz de a manter ao longo das 7 fases finais que já somo entre Europeus e Mundiais de Futebol.

E por ter essa consciência é que não fiquei rigorosamente nada aborrecido com o que nos aconteceu nessa tarde escaldante de Roterdão. Havia direto para o Jornal da Noite mal acabasse o jogo. Para estar tudo pronto a tempo, saímos do estádio aos 85 minutos. Eu, o Fróis, o Sabino, o Leão e o Castro. Achávamos nós que já só faltavam 5 para o apito final. Vencia a Itália por 1-0, tinha marcado Delvecchio aos 55.


Não vimos o empate de Wiltord aos 90 minutos. Nem o último golo de ouro da história dos Europeus, o de Trezeguet aos 13 do prolongamento. Não vimos no estádio o tal feito raro conseguido pela França. Ser Campeã do Mundo e da Europa de forma consecutiva. Vimos pela televisão holandesa, num café mesmo em frente ao De Kuip. Mas nenhum de nós ficou aborrecido. Porque durante 42 dias, todos tínhamos sido uns privilegiados.