Euro 2016

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Eles, elas e o futebol

Rui Cardoso, Editor de Internacional do Expresso e cinéfilo por paixão, escreve sobre “The Other Half”, um filme rodado durante o Euro-2004

Rui Cardoso

Foto PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Era uma vez um moço britânico chamado Mark que se apaixona por uma americana chamada Holy. Ele é um pobre de Cristo, obcecado pelo futebol, enquanto ela, além de linda, é podre de rica. Que tal convencê-la a passar a lua-de-mel em Portugal à conta da fortuna dos pais? Omitindo, é claro, a verdadeira razão da escolha do destino turístico: a fase final do Europeu de Futebol de 2004…

Eis o tema do filme “The Other Half”, escrito e realizado em 2006 pelos britânicos Richard Nockles e Marlowe Fawcett. Que me lembre, pouco ou nada passou no circuito comercial mas, pelo menos no Fantasporto foi exibido, ainda que nem de perto nem de longe fosse uma fita de vampiros, bruxas ou lobisomens.

Durante todo o filme Mark vai tendo que enfiar a Holy petas cada vez maiores e mais inverosímeis para justificar a razão das suas ausências e regressos tardios, invariavelmente bêbedo.

É uma fuga para a frente que acaba duplamente mal: primeiro porque a Selecção Nacional avia os britânicos num jogo histórico e depois porque Holy, que é tudo menos parva, percebe que anda a ser enganada desde que aterrou em Portugal e bate com a porta.

Mas, sosseguem os corações frágeis, porque não há cidade mais romântica que a Lisboa das colinas, escadinhas e pracetas com vista para o Tejo para reconciliar os apaixonados desavindos.

Pormenor delicioso, durante todo o filme uma dupla de animadores radiofónicos de futebol vai comentando as tácticas e o desempenho de Mark e Holy como se de um jogo do campeonato se tratasse. Por exemplo quando ela se recusa a acreditar em nova mentirola dele para se escapulir para o estádio, um dos radialistas comenta: “Pois é. Ele insiste sempre na mesma finta e o adversário já percebeu isso…”

Não é um super-filme nem a quinta-essência da cinematografia mas tem um olhar terno sobre a Lisboa antiga, retrata muito bem o ambiente de loucura que se viveu nas ruas com o apuramento para a final e, de uma forma bem conseguida, evoca os tempos gloriosos do Euro 2004 em que, a partir do momento em que Ricardo descalçou as luvas para defender um penalti e a seguir bateu ele próprio o pontapé decisivo da marca dos nove metros e meio, tudo parecia possível…

Talvez elas, em geral, não gostem do filme mas, depois de o verem, talvez fiquem a perceber melhor a razão pela qual vamos à bola todos os domingos nem que chovam canivetes...