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Futebol que ninguém vê

Miguel Carvalho, Grande Repórter da Visão, escreve sobre um velho hábito de ver Europeus e Mundiais por um ângulo alternativo e espera que a Albânia não se fique pelo papel de sem-abrigo

Miguel Carvalho

STF

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Se o futebol fosse apenas futebol, o salazarismo nunca teria sido o que foi, como muito bem estudou o sociólogo e meu amigo João Nuno Coelho.

Se fossem só 11 de cada lado e uma bola a rolar, talvez a Argentina olhasse de outro modo para a ditadura militar. O Peru não ficaria para a história como o galinheiro do Mundial de 1978, o ausente Cruyff não seria o rosto da indignação e Menotti, provavelmente, nunca teria sido acusado de comunista, por teimar blindar o balneário aos treinadores fardados de várias patentes.

Se o desporto mais fascinante do mundo fosse apenas algo que se passa nas quatro linhas, o Inglaterra-Argentina nunca teria sido o prolongamento de uma guerra que começara nas Malvinas.

Se este universo fascinante se resumisse a resultados e conquistas ao sabor da pontaria afinada, a África do Sul não teria, no futebol, uma das sementes do fim do apartheid, mesmo perdendo. E um EUA-Irão, ontem como hoje, não seria apenas nuclear para um apuramento qualquer.

Se os prolongamentos e as penalidades fossem apenas parte do jogo, as Honduras e o El Salvador nunca teriam chegado à literatura.

Os exemplos dão a volta ao mundo.

Para compreender a origem das rivalidades futebolísticas de Glasgow é preciso conhecer a narrativa de glórias e misérias que se jogam noutros campos de batalha, sem sair de meia dúzia de quarteirões.

Quem nunca leu um romance policial de Montalbán ou bebeu uma cerveja num bar “franquista” de Sarriá-Saint Gervasi, berço catalão do Espanhol, de Barcelona, dificilmente entenderá que há nisto mais do que claques rivais. Por vezes, é a diferença entre liberdade e ditadura.

Se tivessem acompanhado Mourinho no primeiro ano do Chelsea e conversado com o cientista João Magueijo num casulo cervejeiro de Notting Hill entenderiam que a tão falada arrogância do Special One foi, afinal, o melhor ataque para a defesa do “Príncipe José” ante a xenofobia futeboleira do Reino da Majestade deles.

De Kapuscinski a Simon Kupper, autor do magnífico Football Against the Enemy, passando por Eduardo Galeano ou Nelson Rodrigues, abundam páginas de filigrana literária, que mostram o futebol tal como ele (não) é.

No Brasil, Sócrates não foi apenas filósofo de calcanhar. Em Espanha, ele foi capa de um livro chamado Futbolistas de Izquierdas, do genial Quique Peinado. E nisto, caro leitor, não há coincidências. Na monarquia aqui ao lado, perduram, com sucesso, duas revistas – Líbero e Panenka – cujas temáticas, em edições mensais de jornalismo de luxo, quase podiam parafrasear o nome de uma banda britânica: Everything But The...Foottball.

Em resumo, confesso: aprendi a ler “Europeus”, “Mundiais” e outros que tais pelo avesso do jogo. Mea culpa. Neste Europeu de França, por exemplo, quero crer a Albânia joga mais do que o seu papel de sem-abrigo da competição. Estarei, por isso, a torcer para que a velha Shqiperi morda as canelas da Europa VIP e nasçam daí todas as narrativas a propósito e a despropósito. O Alemanha-Polónia será também jogo a seguir, ou não arrastasse com ele memórias que em Varsóvia e Cracóvia nos explicam em cinco minutos.

“O futebol é a continuação da guerra por outros meios”, titulou, em tempos, o sisudo e incontornável The Times, de Londres. Quem sou eu para o desmentir?