Euro 2016

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Nem com uma flor

"O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

Jorge Araújo

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Vitorino chegou ao café do Abel com passos maiores do que as pernas. Pediu uma ginjinha com elas. Assim sempre estava mais acompanhado, os jogos amigáveis costumam ser uma seca, vitamina para o sono. Os jogadores a fazerem figura de corpo presente, ninguém a pôr a cabeça onde os outros metem os pés. Ainda por cima, contra a Estónia. Alguém no seu perfeito juízo sabe onde fica a Estónia? Quem souber o nome de um jogador da equipa deles que levante o braço. Nenhuma alma se ergueu.

Depois de devidamente abastecido, Vitorino dirigiu-se para o seu poiso. Cabia-lhe condição de cliente assíduo, lugar cativo na tribuna de honra. Mas a sua cadeira estava ocupada. Já não há respeito, pensou para com os seus botões. Por respeito ao amigo Abel e porque o jogo estava mesmo a começar, estacionou o primeiro impulso e não armou confusão. Não fosse por isso, teria dito ao Duarte duas ou três verdades – se ele pensa que lá por ser de boas famílias tem o rei na barriga, está enganado. Logo ele, que devia ter vergonha na cara por ter derretido o património de gerações, e não era pouco, no vício das apostas desportivas.

Na verdade, Duarte nem deu pela sua chegada. Estava trancado no seu mundo. Tinha passado o dia a beber Martinis e a apostar no Placard, nesta altura do campeonato estava mais para lá do que para cá, perdera em dinheiro o que ganhara em álcool. Mas não desgrudava o olhar da TV Mais, estava tão concentrado que parecia que soletrava cada letra da revista. E foi então que, sem mais nem porquê, destapou a panela de pressão.

- Já viram isso? – disse, ao mesmo tempo que apontava para a capa da revista.

“ Bárbara Guimarães violentada por Carrilho já depois do divórcio”- assim rezava a chamada de primeira página.

Duarte tinha passado o dia inteiro a destilar a notícia. Um homem que bate na mulher não é homem não é nada, é um cobarde, pensou vezes sem conta. Talvez por isso, antes que alguém respondesse à sua pergunta, disparou nova rajada.

- Este gajo mete-me nojo.

Num ápice, as pessoas de costas voltadas para o televisor - o duelo entre Bárbara e Carrilho tinha mais picante do que um Portugal. Estónia.

- Nem quero imaginar se fosse com uma filha minha – Abel foi o primeiro a marcar posição - Dava cabo dele – sentenciou.

Vitorino também tinha opinião formada sobre o assunto. Nos últimos tempos os jornais não falam de outra coisa, a CMTV é a televisão oficial da lavagem de roupa suja. Mas levou tanto tempo a alinhavar um pensamento que Duarte se antecipou.

- Um gajo que fala assim da mãe dos seus filhos… – continuou a desfilar a sua revolta enquanto lia, em voz alta, mensagens enviadas por Carrilho para o telemóvel de Bárbara.

O ambiente no café do Abel cada vez mais quente, escaldante. Duarte era o dono da bola, o jogo em plano inclinado, por uma vez na vida o pessoal todo do mesmo lado. Até Abel, que aproveitando uma brecha, lá conseguiu dizer:

- O meu pai sempre me ensinou que não se bate numa mulher nem com uma flor.

Isaías, gorila uma empresa de segurança, acompanhava a conversa a uma confortável distância, e era o único que não afinava por este diapasão. Não se sabe se por profunda convicção, ou por causa de uma questão antiga de saias mal resolvida com o Duarte. Mas no seu íntimo fervia. Sentia-se que a qualquer momento podia entrar a pés juntos na conversa.

- Mas vocês ainda acreditam em tudo o que dizem os jornais – rematou em jeito de provocação.

- O que é que queres dizer com isso? – Duarte respondeu com uma pergunta.

- A mim parece-me que o Carrilho tem toda razão – deitou o veneno cá para fora.

- Como é que podes dizer uma coisa destas?! – Duarte não queria acreditar nos seus ouvidos.

- Porque sim.

- Mas porque é que dizes isso? – insistiu.

- Não sabem que entre marido e mulher não se mete a colher.

- É por isso que estas coisas acontecem.

- Foi o que me ensinaram.

- A mim não.

- Eu estou com o Carrilho.

- Não consigo compreender o que tens contra a Bárbara. Nem sequer a conheces.

- Não gosto desta gente da televisão!

A conversa não se ficou por aqui. Os dois trocaram argumentos, esgrimiram insultos, cada palavra uma lâmina. Só não chegaram a vias de facto, devido à pronta intervenção do Abel, mas aonde é que pensam que estão, gritou a plenos pulmões, ou acabam esta confusão ou vão os dois para o olho da rua, acrescentou.

- Mas afinal como é que ficou o jogo? – Vitorino tentou deitar um pouco de água na fervura.

- Ganhámos. Sete a zero – respondeu uma voz no fundo do café.

- E o Éder? – foi tudo o que Abel quis saber.

- Marcou um golaço –a mesma voz a passar em revista toda a actualidade desportiva.

- Eu sempre soube que ele ainda nos ia dar muitas alegrias – Abel fechou o dia com chave de ouro.

  • "O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.

  • "O coração também respira" é uma coleção de histórias de ficção de Jorge Araújo, que são crónicas do quotidiano com gente e futebol lá dentro.