Euro 2016

Perfil

O desígnio nacional?

António Cancela

Olha, agora sem mãos

Foto Shaun Botterill/Getty

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Outono de 2003. Entrei de rompante na editoria de Desporto da SIC para substituir o meu companheiro de trabalho José Augusto Marques. O dossiê Euro 2004 caiu-me nas mãos, ainda estava eu a acomodar-me ao lugar. O europeu que mobilizou o país, não obstante as vozes críticas que se levantaram à época - e não foram assim tão poucas quanto isso -, exigia a convocação de todos na redação da SIC.

Pela primeira vez, os direitos de transmissão da fase de grupos seriam partilhados pelos três canais generalistas. Mais do que a emissão do jogo, era preciso montar uma operação que mostrasse aos espectadores não só o futebol mas também o país que vivia e respirava um dos maiores acontecimentos desportivos do Velho Continente.

Foi um trabalho de meses em que a SIC contou com a disponibilidade incondicional de todos os seus elementos. Uma operação que arrancou muito antes, ainda os estádios novos eram uma miragem na paisagem nacional e o Cristiano Ronaldo dava os primeiros passos rumo à glória que hoje desfruta em todo o mundo.

Há doze anos, o entusiasmo sentia-se por todo o lado. Scolari, selecionador nacional, empolgava, não pelo futebol que a equipa jogava, mas pelo apelo ao sentimento dos adeptos, exortando uma nação a mostrar nas janelas e nas ruas o apoio à seleção. O país fervilhava. Aos aeroportos nacionais acorriam viajantes de todo o lado. Restaurantes, bares, hotéis e esplanadas enchiam-se de cor e alegria.

Os receios de desacatos revelaram-se infundados, apesar das fortes medidas de segurança colocadas no terreno. Que contraste para os dias de hoje! Com o terrorismo a fustigar o mundo, muito dificilmente iremos assistir ao desfile triunfal e apoteótico dispensado à seleção de Portugal no trajeto entre Alcochete e o Estádio da Luz, palco da final do Euro 2004. A segurança impõe regras, o terror incute receios e tolhe sociedades que aproveitam estas realizações para libertar o stress da labuta diária.

Mas voltemos ao que interessa, 2004 visto de um outro ângulo: o do jornalista que coordenou uma cobertura noticiosa, mas que nem por uma vez teve oportunidade de se deslocar a qualquer dos palcos do europeu para ver os jogos ao vivo.

No frenesim do trabalho da redação, nunca houve pausas, quebras ou horas mortas. De manhã à noite, era preciso responder às mais diversas solicitações, encontrar as melhores abordagens e garantir os melhores convidados para comentarem o Europeu na antena da SIC Notícias. O ambiente era de festa. Pelas duas redações (sim, na altura havia duas redações, a da SIC e a da SIC Notícias), os televisores estavam permanentemente sintonizados em tudo que dissesse respeito ao futebol.

Os jogos de Portugal eram seguidos com emoção. O trabalho parava, os amigos reuniam-se à volta dos ecrãs colocados em locais estratégicos para que ninguém perdesse pitada dos jogos. O mundo parava e as discussões sobre o futebol tomavam conta de todas as conversas na redação. O meu filho, então com 12 anos, era visita frequente da SIC. Calado mas conhecedor, partilhava com o João Abreu, o Rui Santos, o José Carlos Costa, o Paulo Garcia e tantos outros as emoções do campeonato. Por vezes, parecia um estádio. Na redação, o Clip Edit bombava a uma velocidade nunca vista. Os resumos dos jogos eram exibidos num esfregar de olhos, tudo em cima do acontecimento, porque o acontecimento não dava tréguas. Jogos, entrevistas, reportagens, conferências de imprensa, análise, diretos, a mobilização era geral.

Portugal não venceu - maldito golo grego -, dos estádios novos alguns viraram carcaças obsoletas de uma história efémera, o dinheiro gasto foi desbaratado. Por entre muitas interrogações ficaram duas certezas: Portugal consegue organizar grandes eventos e a SIC pode jogar em qualquer campeonato.