Euro 2016

Perfil

O drink team de Gascoigne

"Na Gaveta" leva-nos até ao Euro 1996 e ao herói trágico de Inglaterra, que tinha tanto de talentoso como de louco

Adriano Nobre

Foto Stu Forster/Getty

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Os adeptos mais jovens não terão bem a noção disso, mas antes da formatação asséptica que hoje serve de mantra ao futebol, houve uma altura em que as polémicas com jogadores extra-relvado não se eram dominadas pelo bocejo da fraude fiscal, da fuga ao fisco ou da potencial namorada exposta nas revistas cor de rosa.

Antes, boa parte dos heróis do jogo era mais do que o “ser profissional” quando as coisas corriam bem ou do que o “levantar a cabeça” quando as coisas corriam mal. Alguns tinham tanta arte a tratar a bola como a alimentar controvérsias. E uma elite ainda mais reduzida vivia amiúde na fronteira do risco. Como Maradona. Ou do copo. Como Gascoigne.

O irascível médio inglês terá sido o último grande representante desta casta problemáticos a pisar os relvados de um Campeonato Europeu. Aconteceu em 1996, precisamente no Euro organizado pela Inglaterra. Uma prova onde, em linguagem futebolística, Gascoigne fez questão de chegar “munta forte” na capacidade de não deixar os seus créditos por mãos alheias.

O dinamarquês Brian Laudrup, que partilhou com ele o balneário no Glasgow Rangers, disse um dia que Gascoigne era “um jogador fantástico, quando não está bêbado”. E por alturas do Euro96, já depois de uma mal sucedida passagem pela Lazio de Roma, eram cada vez mais frequentes as vezes em que o futebol ia ficando turvo nas prioridades de 'Gazza'. Ao ponto de a sua convocatória para esta prova ter sido sucessivamente posta em causa. Pela opinião pública e pelo próprio jogador.

Primeiro porque a poucos dias do final de uma digressão da seleção inglesa pela Ásia para preparar o Euro96, Gascoigne decidiu aproveitar uma folga concedida pelo selecionador Terry Venables para celebrar o seu 29.º aniversário numa discoteca com três companheiros, Les Ferdinand, Jamie Redknapp e Dennis Wise. Até aqui tudo bem: estavam de folga e a noitada era autorizada. O problema é que depois os jogadores foram vistos nessa discoteca a treinar com afinco a tática da 'cadeira de dentista': um jogo que consistiria em reclinarem-se numa cadeira enquanto o barman lhes despejava garrafas de tequilla diretamente para a boca. Nascia o mito do 'drink team'.

Não bastasse essa polémica, Gascoigne decidiu matar o tédio da viagem de regresso com alguns copos a mais durante o voo. Resultado? “Mais de mil contos de prejuízo” (5 mil euros) no avião, “televisores esmagados, mesas de refeição arrancadas, estofos rasgados”, contava o jornal A Bola, antes de citar uma hospedeira em declarações a jornais ingleses. “Parecia um garoto enorme e enlouquecido a atirar coisas para o ar e a rebentar com as cadeiras e com os televisores”.

A Federação inglesa aprestou-se a pagar os prejuízos e tentou omitir a origem do problema no voo. Mas o facto de Gascoigne ter sido visto a sair “completamente bêbado” do avião e de ter tentado agredir um fotógrafo do “Times” estragou os planos aos dirigentes. Houve deputados a exigir alterações na convocatória e até George Best – sim, esse mesmo... - decidiu vir a público falar sobre um assunto no qual era expert.

“Nunca desci tão baixo. Pelo menos não me lembro. Não compreendo. Ainda por cima numa altura destas, em que é tão preciso para o Europeu. Sem ele, onde está a magia da seleção inglesa? Só vou desculpar esse estarola se ele arrancar a pele dentro do campo no próximo mês”, criticou Best.

As desculpas terão sido formalmente aceites quando Gascoigne teve aquele momento de génio frente à Escócia:toque com o pé esquerdo a fazer a bola sobrevoar o defesa, remate em cheio com o pé direito para dentro da baliza. Golo. 2-0. A comemoração? Sentado ao lado da baliza, a imitar o jogo da 'cadeira de dentista'.